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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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FEITOS & DESFEITAS > PRECONCEITO NAS REDES SOCIAIS

A banalização do mal

Por Marina Lang em 24/12/2012 na edição 726

Em novembro de 2012 foi possível assistir nas redes sociais a um cenário de preconceito já visto em 2010 – e que, mesmo resultando em um processo judicial à época, nada influenciou para que o fenômeno não se repetisse dois anos depois. Explica-se: foi 2010 o ano em que a estudante Mayara Petruso escreveu, em seu perfil no serviço de microblogs Twitter, que “Nordestisto [sic] não é gente. Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado”. O pano de fundo da afirmação foi o resultado das eleições à presidência da República em 2010, quando o candidato de Petruso, José Serra, perdeu para Dilma Rousseff devido à expressiva votação dos nordestinos.

O tom pejorativo e preconceituoso da afirmação teve repercussão nacional. A juíza federal Mônica Aparecida Bonavina Camargo, da 9ª Vara Federal Criminal em São Paulo, acatou a denúncia do Ministério Público Federal, baseada na lei nº 7.716/89 (que tipifica crime de discriminação ou preconceito de procedência nacional), descartou o viés político da situação.

“As frases da acusada vão além do que seria politicamente incorreto, recordando-se que o ‘politicamente correto’ geralmente é mencionado no que toca ao humor, hipótese de que não se cuida nesta ação penal”, afirmou na sentença proferida em maio de 2012, que condenou a estudante a um ano, cinco meses e 15 dias de reclusão, convertidos em prestação de serviços comunitários e pagamento de multa.

A construção do discurso preconceituoso

Meses depois de esse caso repercutir – mais precisamente em novembro, quando Fernando Haddad foi eleito à Prefeitura de São Paulo, superando o mesmo José Serra – novas demonstrações da mesma natureza preconceituosa foram vistas nas redes sociais. Logo após o resultado do pleito, o usuário identificado como TheLucchesi (http://twitter.com/thelucchesi) declarou que “aqui [São Paulo] tem mais nordestinos que no NE. Votam no Haddad. Não é porque no NE é f… que vcs vão f… [sic] com SP!”

Outra usuária, identificada como Luiza V. (http://twitter.com/luizawesome), escreveu: “o f. da p. do nordestino vem para sp, vota no haddad (sic) e depois vai no gugu pedir para voltar pra terra pq ta passando fome em sao paulo”. Depois de uma saraivada de críticas dos usuários, ambos apagaram as mensagens (a usuária Luiza V. chegou a deletar sua foto e trancar o perfil). Mas elas ficaram disponíveis em arquivos de notícias em buscas por termos específicos sobre isso na internet. Não passaram em branco; porém, é impressionante que o comportamento se repita, mesmo com uma punição da maneira como foi aplicada à Petruso ainda neste ano.

Preconceito tem definições muito difusas – ainda mais em um país onde ele é veementemente negado, porém muito praticado – vide as mensagens acima, cujo teor não é político, mas de caráter antropocêntrico e xenofóbico. Em palestra recente na USP, o linguista Teun A. Van Dijk, um dos primeiros pensadores a relacionar as ciências sociais com a análise de discurso, exemplificou como um discurso excludente o uso da expressão “onda de imigrantes” em matérias jornalísticas europeias, sendo que ali a palavra onda ganha um sentido preconceituoso porque dispositivos retóricos – neste caso, o uso da metáfora – fazem parte da construção do discurso preconceituoso.

Entendimento e compreensão social

Em seu livro Discurso e Poder, Van Dijk traz outros dispositivos que edificam o discurso preconceituoso – um deles é classificado como atos de fala, que se consistem em “acusações para depreciar os Outros e legitimar Nossa discriminação”.

É uma obra muito interessante sob o ponto de vista de colocar o discurso como uma maneira da propagação do preconceito e do racismo, sobretudo quando nos lembra:

“…uma vez que essas representações mentais têm sido influenciadas tal como intencionado pelo discurso racista, elas também podem ser usadas para se engajar em outras práticas racistas. É desse modo que o ciclo do racismo e a sua reprodução é fechado”.

Se o preconceito é um conceito tão escorregadio e pouco discutido (e até difundido sub-repticiamente) em canais de mídia, quem, então, deve abordar esse dilema é a Universidade. A partir de casos reais que estão presentes – já elencados anteriormente neste texto – não apenas na imprensa tradicional, mas nessas novas formas midiáticas, como Twitter e Facebook, redes sociais nas quais uma simples linha pode atingir centenas ou milhares de pessoas, a partir de réplicas ou reproduções desse discurso.

Acredita-se, de maneira equivocada, que a Universidade tem o papel de vanguarda. Ela é, contudo, a retaguarda da sociedade, perscrutando fenômenos já acontecidos e registrados – e que merecem a atenção e estudos a fim de que se entendam e até de que se combatam esses comportamentos cristalizados. O papel da universidade é, sim, de entendimento e compreensão social para que se deem caminho às novas legitimidades, sejam elas sociais, étnicas e de rompimento com o discurso que banaliza a discriminação de pessoas ou grupos.

***

[Marina Lang é jornalista e mestranda em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades]

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