Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & RELIGIÃO

Os novos métodos de evangelização

Por Emilson Ferreira em 24/12/2012 na edição 726

A intensa penetração das instituições religiosas nos meios de comunicação tem surpreendido pela criatividade e ousadia. Nesse contexto, os evangélicos conseguiram se destacar graças a um vasto aparato tecnológico e um discurso atual e cativante. Seus líderes investiram maciçamente na compra de horários televisivos e na aquisição de rádios e jornais. Por meio desses instrumentos, são apresentados à população possibilidades de cura, de sucesso financeiro e testemunhos daqueles que obtiveram sucesso em suas necessidades.

Embasada no fenômeno pentecostal e na obrigação de reinventar-se, a igreja católica vem conseguindo de forma consistente introduzir-se na mídia e dela propagar sua doutrina. Se a princípio shows com padres ou bandas católicas, e até mesmo a participação de sacerdotes em programas de televisão, encontravam resistência entre os padres mais conservadores, tais investidas são apresentadas atualmente como formas mais eficazes de penetração religiosa nos diversos setores da sociedade.

Essa adaptação e flexibilidade às novas tendências sociais têm conquistado bons resultados, como são os casos da Rede Vida e com maior intensidade a Canção Nova, que já conta com editora, produtora de vídeo, televisão e rádio. A ascensão de sacerdotes como o padre Marcelo Rossi, padre Robson de Oliveira e o padre Fábio de Melo são a outra parte desse fenômeno que renovou a estrutura eclesial e tem reconfigurado o espaço religioso.

A popularização da fé

Durante muito tempo, a igreja católica foi contrária a qualquer investida no mercado midiático. Segundo Antonio Miguel Filho, em entrevista à revista IstoÉ (edição 2028, set. 2008), a rejeição ocorria porque alguns setores da igreja ainda consideravam os meios de comunicação como os grandes responsáveis pelas mazelas e injustiças sociais. Esse pensamento radical rendeu profundas perdas, mas a abertura de algumas posições e a compreensão mais adequada da realidade, tendo em vista a visibilidade dos meios de comunicação e sua resposta imediata, tornou essencial a evangelização através desses instrumentos.

Em 1995 é fundada a Rede Vida, emissora católica com transmissão na TV aberta que atinge cerca de 110 milhões de brasileiros e tem um terço de sua programação dedicada à evangelização. A sua abrangência em cerca de 1,5 mil municípios conseguiu fomentar a devoção popular graças às celebrações e aos momentos de oração que são transmitidos.

A rádio é outra importante ferramenta na difusão da doutrina católica. Em todo o Brasil, há o sistema RCR (Rede Católica de Rádio), que chega inclusive à zona rural. Na internet, há dezenas de sites dedicados à família, como são os casos da catolicanet, Brasil católico e Pai de amor, todos recordistas de acessos. Esses espaços online fazem sucesso devido à sua linguagem contemporânea e suas inúmeras opções de estilos, fazendo com que o internauta se sinta atraído por aquilo com que mais se identifica.

Se para muitos conservadores a função do sacerdócio é apenas acompanhar o dia-a-dia comunitário em sua paróquia, para outros ela perpassa as barreiras da sacristia e adquire novos propósitos. O padre Marcelo Rossi, que ascendeu em 1998, foi o grande expoente de uma renovação religiosa que popularizou a crença católica nos mais diversos setores, como no cinema, na televisão e, com maior intensidade, na música. Abriu espaço para a entrada de novos talentos cristãos. O padre Robson de Oliveira é outro exemplo de sucesso, já que com seus programas na emissora Rede Vida consolidou a devoção ao Pai Eterno e coordena um site que conta até com capela virtual e mural de testemunhos. O padre Fábio de Melo é outra grande revelação. Sua linguagem e versatilidade conseguem uma penetração ainda maior entre os jovens. Os novos modelos de celebração exprimem a necessidade de inovação para conquistar mais pessoas.

Valores que regem a vida

A popularização das missas do padre Marcelo é a parte mais visível deste fenômeno que extrapolou a Renovação Carismática e que pode ser chamado de renovação popularizadora católica contra o afastamento de fiéis e o avanço religioso concorrente, principalmente o neopentecostal. É importante uma contraofensiva da Santa Madre em busca de seus filhos desgarrados ou indiferentes. Este movimento difuso e inorgânico se desdobra, apresentando aspectos diversos. Traços do cataclismo tradicional não reincorporado, passando por uma adaptação. Enfatiza-se o poder de um católico em se falar com mais liberdade em milagres, o que era impensável no período Pós-Vaticano II até os anos 1980. Promove um sincretismo entre forma mundana e conteúdo religioso. (SOUZA, 2001, p.46-60).

Diante de uma acessibilidade cada vez maior da população com os novos instrumentos de comunicação, é indispensável uma investida nessa área com o intuito de tentar aproximar o evangelho ao cotidiano das pessoas. Com a forte investida em todos os setores da mídia, a Igreja Católica mostrou fôlego diante do intenso crescimento de outras denominações religiosas, principalmente as vertentes pentecostais e neopentecostais, já que só uma reação proporcional a dos evangélicos eram suficientes para que os católicos conseguissem fortalecer a sua posição diante a sociedade.

Visivelmente, as novas comunidades católicas, oriundas da Renovação Carismática, têm introduzido um novo jeito de “ser” igreja, graças a uma metodologia de “recatequização”, que passa pela vivencia comunitária até chegar à música ou à televisão. A propagação do catolicismo em eventos como cristotecas e festivais de música como o Hallel, que acontece em grandes cidades pelo Brasil, têm conseguido atrair um publico maciço e em grande parte jovem, que antes não tinham nenhum vínculo comunitário paroquial. Apesar das inovações, que poderiam até desfigurar o velho catolicismo, a RCC mostrou que podia trazer de volta uma população de católicos que passeava entre as várias opções do mercado religioso. Mostrou que podia de novo encher as igrejas, e encher as igrejas com muito fervor e devoção (PRANDI, 1998, p.53).

Quando a religião propõe por intermédio dos meios de comunicação, a conversão de pessoas ou a mudança de vida embasada na doutrina cristã, ganha toda a sociedade, já que tais práticas comungam com os valores morais que regem a vida cotidiana.

Fontes

PRANDI, Reginaldo. Um sopro do Espírito: a renovação conservadora do catolicismo carismático. 2ª ed. São Paulo: Fapesp, 1998.

RABELO, Carina. O avanço dos católicos na mídia. Istoé, São Paulo, edição 2028. set. 2008. Disponível em: www.istoe.com.br/conteudo/7911_O+AVANCO+DOS+C. Acesso em: 05 maio. 2010.

SOUZA, André. A renovação popularizadora católica. Revista Estudos da religião, nº 04,p. 46-60,2001.

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[Emilson Ferreira é professor, Campina Grande, PB]

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