Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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O católico, o são-paulino e o petista

Por Diego Moura em 29/01/2013 na edição 731

“Vou descer pra fumar um cigarro. Você vem comigo e a gente já vai conversando. Mudaram o horário do chat. Tava achando que era quatro e meia, mas é só às cinco.” Com seu jeito suave, Ricardo Kotscho começa a ir para o elevador. Entre as baias onde estão repórteres do portal R7, vai cumprimentando e sendo cumprimentado. “Fala, mestre! O senhor tá bom?” Já quase no elevador, pergunta se não quero um café. Estamos ao lado da mesinha com as tradicionais garrafas prateadas de café e chá. Polidamente, recuso. Digo que já havia tomado ao chegar. Omiti a parte da quase queimadura por conta do microcopo finíssimo.

Bip. Terceiro andar. Entramos. A porta fecha. Segundo andar. Entra Fátima Souza, que também está indo fumar um cigarrinho. Fátima é repórter policial há mais de 25 anos e, como descobri mais tarde, foi a primeira a denunciar, via imprensa, a existência do Primeiro Comando da Capital. Isso nos idos de 1996. Foi repórter do Kotscho. “Viu, Fátima. Não esquece de votar em mim. Tô finalista do prêmio Comunique-se. Sou eu e mais dois caras da Globo. Tô concorrendo com o Alexandre Garcia e com a Miriam Leitão.”

Fátima olha surpresa. “Ah, então já ganhou.” Com a mesma tranquilidade, Kotscho rebate: “Nada. Você não sabe como eles fazem lá na Globo. Fazem mutirão pra votar.”

“Fiz parte da primeira turma da ECA”

Cruzamos um estacionamento e chegamos à portaria. “Você tá com crachá?”. Diante da minha negativa, Kotscho chama o segurança. “Viu, ele tá comigo, a gente tá saindo ali pra fumar, mas já volta.” Andar arrastado, com as pernas um pouco arqueadas, o repórter, que fuma há mais de 50 anos, me conduz à calçada onde mais gente aproveita o cigarro. Depois de uma longa tosse, admite: “Já parei e voltei várias vezes. Uma merda”.

Munido de gravador e bloquinho – em meio aos vapores de 4.700 substâncias tóxicas – vou começar a entrevista. Quando surge o gravador, Fátima, ao lado de Kotscho, dispara: “joga isso no lixo, rapaz. Repórter tem que usar a cabeça, a inteligência e não isso aí”. Nosso perfilado compartilha da mesma opinião: “tem que ter memória, anotar. Você só marca os pontos importantes pra lembrar depois”, ensina. O pobre aparelho da Panasonic parece ter ficado ofendido. Recusa-se a ligar. O visor ri de mim, apontando uma marota bateria vazia que pisca intermitente. Giro a chave do carro velho algumas vezes. Nada de ele pegar. Vou ter de usar a caneta mesmo. Cadê minha caneta? Lá em cima. No terceiro andar, na redação do portal R7. “Ah, mas o que é isso! Que semestre que você tá? Sexto? Quase jornalista e sem caneta? Inaceitável!”, brinca. Fátima me empresta uma caneta. “Cuidado com ela, porque é do timão.”

De maneira quase improvisada, iniciamos. Já que o tema universidade estava no ar, logo de cara sabemos que Kotscho não concluiu o curso de Jornalismo. “Fiz parte da primeira turma da ECA (Escola de Comunicação e Artes, da USP), mas faltava muito e fui jubilado”. E com quase 50 anos que carreira, não considera o diploma necessário para a atividade jornalística. Mas isso não quer dizer que o setor não deva ter regras, pelo contrário: “Tem de ter o Conselho Nacional de Jornalismo, como o exame da OAB. Só pode atuar como jornalista, independente da formação, quem passar neste teste”.

“Eu demitia a empresa”

Otimista por natureza, Kotscho crê em dias melhores para o jornalismo brasileiro. “Estou nesta profissão há 50 anos e isso [regulamentação da profissão] é uma coisa que se discute o tempo todo.” O campo do jornalismo não pode ser “terra de ninguém”, ou um local onde prevaleça a “voz do patrão”. A informação é bem comum da sociedade, e merece ser tratada como tal. Mas, para entender um pouco de Ricardo Kotscho, é preciso, primeiro, compreender seu relacionamento com o Partido dos Trabalhadores e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, no qual ocupou cargo de secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República por dois anos (no primeiro mandato de Lula).

Em seu blog, no período dos altos índices de aprovação de Lula, Kotscho publicou texto em que perguntava quem seriam esses 5% de brasileiros que achavam o governo petista “ruim ou péssimo” (“Que Brasil é este dos 5% do contra?”). Foi duramente atacado, num movimento capitaneado por Reinaldo Azevedo, blogueiro da revista Veja: “Parece que Kotscho está propondo que os lulistas críticos, independentes e isentos como ele façam o que setores da Polícia Federal, ao arrepio da lei, já tentaram fazer sem sucesso: fichar os 5%.”

Kotscho nunca respondeu. Se ignorou o autor que o desancou em seu blog, menos importância deu às centenas de leitores os quais, influenciados pela análise torta do blogueiro de Veja, inundaram o Balaio do Kotscho com milhares de comentários mal-educados. “Não quero citar nomes, mas é a liberdade de expressão de cada um”. Mais uma tragada, agora no segundo cigarro. “Pra mim, o jornalista tem que ser honesto, acima de tudo. Não pode brigar com os fatos. Mas eu tenho lado. Todos têm lado. Essa coisa de objetividade, imparcialidade, não existe.” “Eu me orgulho de nunca ter sido demitido das empresas pelas quais passei. E olha que passei por quase todos os grandes veículos do país – só não na Veja, porque nunca me convidaram pra trabalhar lá e eu também nunca quis. Quando começava a não gostar do jeito que as coisas estavam indo, eu saía. Eu demitia a empresa.”

“Você sabia que ele é monge, né?”

Nesse momento, somos interrompidos pelo relógio. Eram quase 17h, precisamos subir para o chat de Kotscho. O jornalista realiza conversas com internautas do portal R7 duas vezes por mês, sobre os mais variados assuntos. “Depende muito do momento. Ultimamente tem bastante o tema de eleições e o mensalão, mas é bem variado. Futebol também”.

Além do chat e do blog, também na Rede Record, Ricardo Kotscho é comentarista político no Jornal da Record News, apresentado por Heródoto Barbeiro. Ainda lhe sobra tempo para escrever na revista Brasileiros. Na Record mesmo, só aparece duas vezes por semana. Há alguns anos, seu quartel-general jornalístico é sua casa. Por não estar ali todos os dias, pega emprestada a mesa do repórter de carros. As muitas miniaturas de veículos não enganam. Kotscho se prepara para dar a largada. Sem parecer deslocado na redação, Kotscho é o mais velho do lugar. “Hoje é a moçada na redação; tem que ter gente jovem, porque o portal [R7] é novo. Tá completando três anos, eu acho. Não é, Francine?”

Francine Contanti é a jornalista que o auxilia no chat daquele dia. Não aparenta mais do que vinte e poucos anos, quase 30. Senta-se de costas para Kotscho e sua função é filtrar e dar vazão às questões enviadas pelos internautas ao blogueiro. Vai seguindo o ritmo dele: com um leve toque no braço dela, vai dizendo “pode soltar mais”, “manda bala”. E ela manda. Antes de a primeira pergunta chegar a ele, explico mais sobre a proposta do perfil. Kotscho, imediatamente, fala de sua reportagem de acompanhamento do dia de Heródoto Barbeiro. “Você sabia que ele é monge, né? Monge de verdade… Recentemente, ele teve no Butão. Já pensou? Não poder fumar, beber e nem comer carne? Isso não é pra mim”, diz, entre risos, dando tapinhas nas costas de Francine, pedindo concordância.

Aboliu as maiúsculas

Francine aproveita e pega um livro que alguém passou mais cedo e deixou para Kotscho autografar: Do Golpe ao Planalto. “Tem esse e o outro… A Prática da Reportagem, que sempre pedem pra eu autografar.” “Capinha azul, né?”, pergunto. “Exato. Caramba, o livro é de 85, mas ainda é lido”. Leitura obrigatória entre nós, estudantes (e deveria ser, também, de alguns profissionais).

E, por falar em Planalto, logo brota a campanha política e os submundos dos jogos políticos. “Você vê, tiraram a Ana de Hollanda para colocar a Marta [Suplicy]. Jogada política. Ela apoia o Haddad na campanha e ganha um ministério”. Suspira. Mesmo antes de chegarem as perguntas, Kotscho já prevê: “Deve ser sobre o mensalão ou a saída da Ana de Hollanda.” E lá vem a primeira pergunta do chat: “Olá Kotscho. Na sua opinião a Marta será uma boa representante como ministra da Cultura? Achou a substituição justa?”

“Ó lá, não falei?”

E começa a responder. O jornalista é bastante meticuloso ao escrever. Digita com rapidez. Responde. Lê de novo, linha por linha. Corrige eventuais erros de digitação. Checa mais uma vez, e só assim responde. Aboliu as maiúsculas para conseguir responder mais rápido. Diz que a velocidade da resposta depende do dia e não sabe quantas responde nos chats: “Nunca contei”.

“O Marcelo Rezende tá inspirado hoje!”

“Às vezes, tenho vontade de escrever: ‘por favor, só mandem perguntas inteligentes’.” Conta que certa vez, em uma coletiva do Lula em 1985, falou exatamente isso para os repórteres. “Daí, a primeira repórter a perguntar começou ‘segundo o DataFolha…’ E isso lá é pergunta inteligente?”, ri e pede mais perguntas.

Junto do chat, o telemóvel de Ricardo Kotscho, daqueles antigos de flip, descascado pelo tempo, não para de tocar. É ligação atrás de ligação, até que ele resolve desligar o bicho. “Meu maior medo é tocar, ao vivo, na televisão.” Ele diz que nunca aconteceu. “Só enquanto gravávamos o piloto do Jornal da Record News.”

Celular de lado, volta ao chat. A maior parte das perguntas que chegam continua sendo sobre a queda da ministra da cultura e a ascensão de Marta Suplicy. Sobre as eleições em São Paulo, Kotscho antecipa: “Hoje, eles devem soltar mais uma pesquisa: o Russomano deve ficar estável, o Serra cair ligeiramente e o Haddad subir. É difícil prever. Nessa época, de reta final, os números tendem a não sofrer grandes variações. Minha mulher trabalhou muitos anos no Datafolha. Ajudamos a fundá-lo.” Refere-se a Mara Kotscho que, hoje, tem sua própria empresa de pesquisa, a Ética. São casados há 40 anos e têm duas filhas: Carolina, roteirista de cinema, e Mariana, jornalista.

Pergunta vem, resposta vai. Passamos das 17h30. Ao longo das baias, televisões ligadas em diversos canais e programas, inclusive na Record. Essa é a hora do sangue. Na fileira atrás de Kotscho, um burburinho e risos. “O Marcelo Rezende tá inspirado hoje!”, grita um repórter. Ele segue imitando a fala de Rezende: “A polícia tá lá… O BOPE tá lá! Falaram ‘vamo convidar o Marcelo pra vir com a gente, porque hoje vai ter sangue! Hoje vai ter tiro pra todo o lado’”. Os colegas não se aguentam de rir.

Católico e petista

Kotscho segue respondendo e rindo. “Isso não te incomoda?”, pergunto. “O quê? O barulho?” “Não, não. O jornalismo que o Rezende faz…”.

“Ah, eu não me importo. Não existem assuntos nobres e outros menos nobres. Se tá na tevê, é porque tem público pra isso. Tem coisa pra todos os públicos. Eu não queria e nem saberia fazer esse tipo de programa, mas respeito. Já fiz muita cobertura de polícia no início da carreira. Antes era assim que você começava, em esportes ou em polícia.”

Mais alguns minutos se passam e a gritaria na tevê continua. Polícia, gritos e Marcelo Rezende espirrando na tela. “O Marcelo não cansa, não?”, pergunta Kotscho aos risos. A redação aos poucos vai se acalmando e parece menos barulhenta do que quando começamos a conversar. O ritmo vai diminuindo lá e cá. Cinco minutos passados das seis horas. Kotscho envia a resposta da última pergunta. “Chega por hoje, né?”. Agradece Francine e levanta da cadeira. Agora, começa sua segunda etapa da jornada: ler notícias e se preparar para o comentário da noite no Jornal da Record News, às 21h30.

Mas, antes, uma nova pausa para um cigarrinho. Ou dois. Fazemos o mesmo trajeto da primeira fumada, em direção à rua. Recordo do monge Heródoto e sua religiosidade. Kotscho é bastante religioso. “Estudei em colégio de padre a vida toda, atuei na Comissão de Justiça e Paz e faço parte de um grupo de orações há mais de 30 anos.” Apesar disso, está desencantado com a igreja Católica, especialmente com o papa Bento 16.

“Já fui mais são-paulino, mais católico e mais petista do que sou hoje em dia.”

O monge da notícia

Mesmo decepcionado com o cenário político, Kotscho não sente a menor saudade dos tempos em que eleição era só uma vontade. “Qualquer eleição é melhor do que nenhuma”, arremata. Para quem viveu no tempo da ditadura, em que não havia espaço para democracia, a eleição, por pior que seja, é uma conquista. Critica a máxima política (ou melhor, de politicagem) de que “em eleição só é feio perder”.

“Deixei o governo Lula em 2004 por razões pessoais. Era pra eu ficar só um ano, mas acabei ficando dois.” Além do fato de que não aguentava mais ficar longe da família, Kotscho sentia falta de ser repórter. Segundo ele, estar no governo é ter de apanhar dos dois lados: tanto no interno, quanto da imprensa. Mas, apesar de desgastante, pode aprender muito. “Dá pra fazer muita coisa, mas outras não. Só estando lá dentro você vê as limitações.” E do mundo político caiu na Record. Lá, diz ele, não há influência da Igreja Universal nos trabalhos jornalísticos da emissora. “Nunca tive tanta liberdade para trabalhar. Nunca houve interferências, até porque, no meu caso e no do Heródoto, a autonomia editorial está assegurada em contrato.”

E os rumos do jornalismo? Kotscho acredita que falta fôlego à imprensa. “Dizem que fazer reportagem de fôlego é caro. Não concordo. O que falta não é dinheiro, é empenho do profissional. Ultimamente, a gente vê mais reportagens de fôlego na televisão do que em revistas. Acho que falta tesão.” Conta já ter ficado quase um mês perseguindo histórias e não dar em nada. “O jornalista tem que brigar para fazer a reportagem. É a única profissão do mundo em que se tem que brigar para trabalhar”. E a falta de uma boa pauta não é desculpa. “Ah, mas eu só pego pauta ruim. Oras, então proponha a pauta!” Nesses casos, ele instigava o repórter a propor pautas e bancá-las.

Kotscho acredita que a culpa disso é, em parte, das escolas de jornalismo. “Há um desalento por parte dos professores. Eles falam muito mais sobre as dificuldades da profissão do que das possibilidades”. E nem estamos mais na ditadura militar.

“Além disso, hoje, não há mais convívio. Antes, os jornalistas saíam da redação e iam para o bar. Isso não ocorre mais. Não se vive mais 24 horas para o jornalismo”.

Suspira e olha para algum lugar que só ele pode enxergar. Com seu jeito tranquilo e arrastado, Ricardo Kotscho dá uma última tragada no cigarro. “Agora, preciso ir. Você vai ficar pro jornal? Ainda preciso ler o noticiário e me preparar.” Digo que não posso. Kotscho dá o número de seu celular: “qualquer dúvida ou outra questão, me ligue”.

Devolvo a caneta da Fátima e me despeço para voltar a encontrar o Kotscho mais tarde: o católico e são paulino, na bancada da Record News, ao lado do corintiano monge da notícia.

***

[Diego Moura é estudante de Jornalismo, São Paulo, SP]

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