Sexta-feira, 24 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Lentidão assassina

Por Dirceu Martins Pio em 26/02/2013 na edição 735

O Brasil é lento em corrigir suas mazelas. E a imprensa tem sido conivente com essa espécie de “lentidão assassina”. Vejam o caso dos acidentes de trânsito: começaram a matar, desde os anos 1980, de 35 a 40 mil pessoas por ano, mas só em 2.008 o Brasil resolveu introduzir penalidades mais severas aos motoristas embriagados. Nossa primeira lei seca foi quase inócua: a pretexto de que um cidadão não pode produzir provas contra si mesmo, ninguém era obrigado a submeter-se ao bafômetro. A legislação mais rigorosa, que é capaz de punir os motoristas alcoolizados, foi editada só no final de 2012. De 2008 a 2012 morreram perto de 150 mil pessoas em acidentes de trânsito.

O número de mortos – maior do que têm matado as últimas guerras – nunca foi suficiente para sensibilizar a mídia brasileira a dar ao assunto – acidentes de trânsito – uma cobertura mais efetiva e mais especializada. Com certeza, a imprensa teria contribuído para acelerar as providências, mas ela é, como tenho afirmado em artigos anteriores, apenas reativa – dedica-se à cobertura de um tema apenas quando as tragédias acontecem. Como a bebida não é a única causa dos acidentes, que são também relacionados ao excesso de jornada de trabalho de caminhoneiros, aos abusos dos condutores de motos, à muita negligência na manutenção dos veículos, à ausência de fiscalização etc., a previsão é que o índice de acidentes continuará alto no Brasil, sobretudo em comparação com os países desenvolvidos, onde morrem no trânsito ao ano no máximo cinco pessoas para cada grupo de 100 mil habitantes. No Brasil, antes dessa reforma da lei seca, o índice estava próximo de 20 pessoas ao ano para cada grupo de 100 mil habitantes.

Essa lentidão vem novamente à tona com as notícias de que torcedores corintianos teriam sido responsáveis pela morte de um garoto de 14 anos durante a partida Corinthians x São José, realizada dia 20/2, pela Libertadores, em Oruro, na Bolívia. O garoto foi atingido pelo explosivo de um sinalizador que teria sido disparado por um torcedor corintiano.

Sem sensibilidade

Convido o prezado leitor a repetir pelo Google a pesquisa que realizei enquanto escrevia este artigo: pedi para o site trazer-me assuntos relacionados a “acidentes com fogos de artifício” ou a “explosão de lojas de fogos de artifício”. A amostragem do Google é estarrecedora: há muito tempo, os acidentes com fogos de artifício transformaram-se numa espécie de rotina macabra por todos os cantos do Brasil – de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde os fogos de artifício provocaram um incêndio que matou 238 jovens, até Curitiba, no Paraná ou Santo André, no ABC Paulista, onde explosões de lojas de comércio de fogos de artifício mataram também várias pessoas. Isto tudo sem considerar os acidentes de varejo em festas juninas e outras comemorações responsáveis pela mutilação de milhares de pessoas.

O Google mostra também que, conivente com a negligência do comércio, a irresponsabilidade das prefeituras que licenciam a venda de fogos de artifício em áreas extremamente urbanizadas e densas, as mídias têm se limitado a publicar instruções para o “adequado” uso de bombas e rojões, muitas vezes de alto poder explosivo e na verdade cumprindo um papel que seria do fabricante e do comerciante.

As lojas vendem fogos de artifício como se vendem pipocas. As instruções de uso seguro dos explosivos – se é que existem – que acompanham as embalagens são tão discretas que parecem ser produzidas para não chamar a atenção de ninguém. Mesmo nas tragédias, a mídia se comporta sem nenhuma sensibilidade para aspectos do interesse da sociedade.

Providências e prevenção

Surgem agora notícias de que o Corinthians, em razão do acidente de Oruro, terá de disputar as demais partidas da Libertadores sem a presença de sua torcida. Não digo que a punição seja injusta, mas apenas precipitada porque os acontecimentos de Oruro ainda não haviam sido suficientemente esclarecidos. A mídia não mostra que tipo de segurança o próprio São José tinha na porta de seu estádio a ponto de permitir que o artefato – ou os artefatos, pois o noticiário nos dá conta de que vários outros “sinalizadores” foram encontrados com torcedores corintianos – fosse levado para dentro de uma praça de futebol. E o comerciante que vendeu o artefato foi capaz de alertar quem comprou dos riscos que o uso inadequado poderia proporcionar? E o fabricante colocou na embalagem informações de alerta aos consumidores para os mesmos riscos? Temos aí mais uma história de negligência, cumplicidade, desleixo que a mídia cobre apenas pela metade, como faz no Brasil.

As leis brasileiras proíbem o uso de fogos de artifício dentro dos estádios. As torcidas organizadas nunca deixaram de usá-los e a mídia passa por esses vários formatos de abuso e de negligência como se não os enxergasse.

Vivemos no Brasil e por isso mesmo teremos de esperar por um longo tempo para que esse assunto – do comércio e uso dos fogos de artifício – seja tratado com responsabilidade maior. Por mais óbvios e graves que sejam os temas, a mídia não consegue mais acelerar providências e incentivar a prevenção.

***

[Dirceu Martins Pio é jornalista e atual consultor em comunicação corporativa]

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