Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & ELEIÇÕES

Efeito rapadura

Por Fernando Schweitzer em 05/10/2010 na edição 610

Tiririca, pelo PR, obteve 1.353.820, 6,35% dos votos válidos, tornando-se o primeiro colocado na disputa a deputado federal por São Paulo. Gabriel Chalita, do PSB, teve 560.022 votos, 2,63%. Estes números colocam-no como recordista de votos desta eleição de 2010. O candidato superou em 793.798 votos o segundo mais votado no estado. Assim passando a ser o segundo candidato mas votado da história democrática do país, atrás do deputado Enéas Carneiro, já falecido, que atingiu cerca de 1,5milhão também concorrendo pela representação dos paulistas no parlamento federal.

A controversa candidatura do palhaço, cantor e humorista cearense, erradicado há anos na capital paulista, é dada por muitos como um voto de protesto. A afirmação para mim é bestial. Visto que, entre aspas, o candidato em seu horário no programa eleitoral tinha como slogan um discurso bastante crítico, mesmo que com humor. Fato que causou constrangimento até mesmo dentro da coligação de que participava.

Esta eleição, na verdade, teve, sim, uma grande quantidade de votos de protesto e não foram os votos em candidatos taxados como bizarros, mas sim, retratados na abstenção, que foi enorme no pleito de 2010. De acordo com o TSE, 200.392 brasileiros estavam aptos a votar nas 579 seções eleitorais no exterior, mas apenas 88,9 mil compareceram, uma abstenção de 55,5%. Entre os eleitores que votaram no Brasil, a abstenção foi de 18%. Creio que o perfil de eleitor que sequer perde tempo de vida para votar, mostrando sua insatisfação com realidade atual do país, é clara, nos índices de abstenção no exterior. Pois muitos, senão todos, brasileiros no exterior, de uma certa forma desistiram do Brasil, nem que provisoriamente. De acordo com o TSE, abstenção ganha eleição presidencial em 1º turno com 55,5%. Entre os que votaram no Brasil, a abstenção foi de 18%.

Incoerente e com falta de politização?

À medida que foi tomando corpo a candidatura do senhor Francisco Everardo Oliveira Silva, teve por parte de seus colegas de chapa ‘comprada’, presumindo-se que teria por volta de 600mil votos. Todos queriam os votos de legenda sendo inflados pelo efeito rapadura. A quantia seria suficiente para carregar três candidatos na cauda do cometa Tiririca.

A mídia jogou contra o comediante e o resultado foi uma bombástica rede de apoiadores, que se revoltaram e acusaram a imprensa de ser preconceituosa com o candidato. A campanha, que era estadual, virou mote de discussão nacional. O seu perfil no twitter quase dobrou o número de seguidores no período de campanha, comunidades no Orkut foram criadas em campanha contra e a favor sua candidatura. Resultando em um multiplicador do fenômeno Tiririca.

O que chama a atenção nisto tudo é que os motes do candidato não são nada mais que jargões de cunho popular, que somente existem devido ao desânimo do brasileiro com a política. Obviamente, Tiririca não criou o anseio popular por sua candidatura, ou anti-candidatura, apenas veio a atender uma demanda social.

De tudo fizeram para tentar derrubá-lo. Inventaram um boato de morte, que o candidato é analfabeto para torna-lo inelegível etc. Vejo como hipócrita permitir-se que analfabetos votem, mas não permitir que sejam votados. Segundo dados do IBGE, o Brasil possui um número maior que 50% de analfabetos funcionais e uma pesquisa recente afirmou que de cada 10 universitários da rede pública no país, ao menos um é analfabeto funcional, sendo incapazes de escrever um texto argumentativo e coeso. Quanto a se criar a noticia falsa da morte do candidato passa dos limites do respeito para com os cidadãos do país. Muitos, senão todos os veículos trataram como incoerente e como falta de politização a expressiva votação de Tiririca, mas o candidato ficha-suja Paulo Maluf, mesmo tendo a candidatura suspensa, obter mais de 600 mil votos, não.

O palhaço entrou no circo da política

Milhares de pessoas questionaram a capacidade do palhaço cearense para exercer o futuro cargo. Mas arriscando a falar uma grande besteira, afirmo não conhecer 90% dos candidatos mais bem colocados para o legislativo. Então posso também questionar a capacidade destes que, ao menos para mim e provavelmente para a maioria do povo, são ilustres desconhecidos, seja quanto a seus projetos, bem como seus passados. Mesmo sendo paulista e me interessando em política desde os seis anos de idade, nunca ouvi falar do segundo colocado na eleição proporcional paulista, Gabriel Chalita.

O povo, apesar de conservador, às vezes mostra lampejos de lucidez. Ora, quem nunca exclamou frases, como: ‘Pior do que está, não fica!’, ‘O que é que faz um deputado federal?’ É ruim ridicularizar o ridículo? Depois de mensalões envolvendo as maiores agremiações políticas do país, será mesmo que não seria justo permitir que finalmente um representante do povo ou de origem popular, como se queira definir, chegue ao poder?

Ficarão para a posteridade os sarcasmos do excelentíssimo deputado eleito com a maior votação da história do país. Ele que se tornou conhecido na televisão nos anos 90, vestido de palhaço. Tiririca apareceu em diferentes inserções no horário eleitoral de seu partido, o PR. Identificando-se como ‘o candidato abestado’, com bordões hilariantes. Como diria o mestre Chico Anísyo, ‘o que causa riso é a verdade’. Assim, listo as verdades ditas pelo senhor Francisco Everardo Oliveira Silva, nome de batismo do palhaço cearense, de 45 anos, e que o alçaram ao Congresso nacional:

** ‘Oi gente, estou aqui para pedir seu voto porque eu quero ser deputado federal, para ajudar os mais `necessitado´, inclusive a minha família. Portanto meu número é 2222. Se vocês não votarem, eu vou morreeer!’

** ‘Oi, eu sou o Tiririca da televisão. Sou candidato a deputado federal. O que é que faz um deputado federal? Na realidade, eu não sei, mas depois eu te conto.’

** ‘Quando vocês apertarem na urna eleitoral, vai aparecer esse cara aqui e esse cara aqui sou eu. Ô candidato lindo!’

Noutra aparição no horário eleitoral, Tiririca inicialmente esconde o rosto e pergunta: ‘Adivinha quem está falando? Duvido vocês adivinhar!’ Em seguida, tiraria as mãos do rosto declamando: ‘Sou eeeu, o Tiririiiica, candidato a deputado federaaaal, 2222, não esqueeeeeça, peguei vocês, enganei vocês. Vocês `pensou´ que fosse outra pessooooa, sou eu, o abestaaaaado, vote 2222!’

O palhaço saiu do picadeiro, entrou no circo da política fazendo piadas falou mais sério do que os tais homens sérios da oligarquia, que por mais de 500 anos fazem de suas ações na vida pública uma verdadeira palhaçada no Brasil.

******

Ator, diretor teatral, cantor, escritor e jornalista, Florianópolis, SC

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem