Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FEITOS & DESFEITAS >

Em busca das tramas improváveis

Por Nelson Hoineff em 02/05/2006 na edição 336

Atingido por denúncias concretas de corrupção, alianças com bandidos condenados e malversação de dinheiro público, o postulante à presidência da República responde de imediato com… uma greve de fome. O episódio, que vai entrar para o vastíssimo anedotário político do país, seria provavelmente recusado por um produtor de cinema em busca de uma boa obra de ficção.


O produtor teria um argumento melhor que o do pré-candidato: a trama é improvável demais. O que ele desconhece é que, elegendo uma trama improvável, estaria colaborando com a sociedade brasileira para tirá-la do jugo da obviedade a que a importação da produção audiovisual – em especial para a televisão – o lançou. O produtor estaria empurrando a massa de espectadores para fora do circulo formado pela exportação de modelos de conteúdo. Um círculo mórbido, que é amparado pelo fortalecimento de pouco mais que uma dezena de redes internacionais de televisão, que hoje dominam os lineups do mundo inteiro com uma lavagem cerebral digna de um circo dos horrores.


Mas para que isso aconteça é necessário que o produtor brasileiro tenha a coragem de apostar em tramas tão improváveis como a greve de fome de um potencial candidato à presidência – e não apenas em tramas. É preciso que ele saiba que vai ter condições de produzir e veicular um produto capaz de fazer a classe média alta (porque no Brasil só a classe média alta tem acesso à TV por assinatura) entender que o que os operadores estão empurrando pela sua goela abaixo é um produto que tem a capacidade de lhes fazer ficar mais estúpidos de 15 em 15 minutos – e também aos seus filhos e provavelmente a muitas gerações depois deles.


Filmes experimentais


A promoção da diversificação da produção audiovisual não é, portanto, uma ação corporativa, de interesse apenas dos produtores de cinema e televisão. É uma questão de segurança nacional, de interesse urgente de toda a população brasileira, ou pelo menos daquela que vê televisão e se educa através dela (o que é o caso de quase 78% dos brasileiros).


Vez por outra a bola é levantada para isso. Na sexta-feira (28/4), o governo editou o decreto nº 5.761, que inicia o procedimento de modernização da Lei Rouanet. É um decreto tímido. Há controvérsias sobre o seu teor e também sobre a forma de editá-lo. Sua maior contribuição é impedir que as fundações culturais continuem tendo seu custeio coberto com dinheiro público. Mas ele avança na difusão do produto cultural para as populações de baixa renda, embora não atenda – pelo menos por enquanto – à necessidade de expansão da base de empresas aptas para se beneficiar da lei (que, segundo alguns cálculos, podem chegar a 30 mil e hoje são apenas uma fração disso).


A pulverização dos investidores na produção cultural é, no entanto, o único mecanismo possível nesse momento para neutralizar o maior problema das leis de incentivo à cultura, que é o de dar às grandes empresas o poder de decidir sobre o que será ou não produzido no país.


Mais por coincidência que por uma ação planejada, aliás, as últimas semanas têm sido pródigas em acontecimentos que, no seu conjunto, colaboram para dar nova roupagem à produção cultural e em particular audiovisual no Brasil.


Um deles, no que diz respeito à produção para cinema, é a distinção oficial que ao que tudo indica passará a ser feita nos editais das empresas públicas – entre os filmes voltados para o grande mercado e os que se dirigem a nichos específicos de público.


Muito se tem discutido sobre uns e outros. A maioria dessas discussões esbarra na busca por um modelo hegemônico de produção de cinema no Brasil. Buscar tal coisa é mergulhar num poço sem fundo. Tal modelo não existe. Ou a produção é plural e atende a mercados plurais, ou tanto mercado quanto produção são engodos.


A mais sólida produção independente do mundo está justamente onde se localiza a sua maior produção comercial. Isso não acontece por acaso, mas é fruto de um trabalho de segmentação do mercado tão consolidado que a ninguém ocorre pensar de outra maneira. Um mercado no qual filmes experimentais, por exemplo, não competem nem nos mecanismos de produção e muito menos na exploração comercial com as superproduções hollywoodianas, mas ganham auto-sustentabilidade pela exploração focada no seu público-alvo – o que, de resto, é algo comum a qualquer indústria do mundo, não apenas do audiovisual.


Forma insubstituível


O fato é que o mercado de cinema para o filme brasileiro no país está numa sinuca de bico. Suas causas são complexas e de sua compreensão pode depender o futuro imediato da produção audiovisual no Brasil. O fenômeno de Se eu fosse você, que bateu os 4 milhões de espectadores, ganha extraordinária atipicidade quando se observa o desempenho dos filmes brasileiros lançados logo depois. Sejam obras potencialmente voltadas para platéias medianas, como Gatão de Meia Idade, sejam títulos de concepção mais sofisticada, mas com elementos que remeteriam a expectativas bem maiores de repercussão junto ao público, bem poucos filmes têm conseguido resultados comerciais satisfatórios.


É fácil creditar o fenômeno à falta de apoio de mídia ou à fragilidade artística dos produtos. Fácil, mas não verdadeiro. Um filme como o extraordinário A Máquina contou com a força da co-produção da Globofilmes e não saiu do lugar. Outra obra notável, Árido Movie, tinha ídolos televisivos como Selton Mello mas também não decolou. Isso para falar apenas dos melhores filmes lançados nas últimas semanas. Exemplos não faltam e cada um escala a sua própria surpresa. Nem a presença de Matheus Nachtergeale e Gorete Milagres, atrações em momentos diferentes na Globo e no SBT, nem o roteiro inspirado em Mazzaropi, fizeram o público ir ao cinema ver Tapete Vermelho.


Tudo isso serve para lembrar que o cinema brasileiro não tem perspectivas próximas de auto-sustentabilidade, e isto não se deve nem à ausência de qualidade nem à eventual teimosia em não dialogar com seu público (o que hoje acontece em escala muito pequena). O certo é que a relação entre o cinema brasileiro e o seu público está estremecida – e se a culpa não é do público, como garante a velha piada, tampouco é do cinema.


O Estado poderia simplesmente deixar que essa indústria se esfacelasse. Mas, se fizesse isso, estaria esfacelando não apenas milhares de postos de trabalho, mas a capacidade do brasileiro de produzir suas próprias imagens e uma forma insubstituível de produção cultural, com reflexos diretos sobre a formação de muitas gerações e sobre a compreensão do país e a auto-estima de toda a sociedade brasileira.


Resultados melhores


O aprimoramento da Lei Rouanet, portanto, ou da Lei do Audiovisual, também em curso, são instrumentos essenciais para que a produção audiovisual siga existindo no país e para que o cinema brasileiro (que por ironia poucas vezes esteve numa fase tão rica do ponto de vista artístico) recupere o diálogo interrompido com seu público.


Esses instrumentos não deveriam ficar só a cargo da União. Estados e municípios têm participado de maneiras diferentes e com efeitos muito distintos para a construção da indústria audiovisual em cada parte do país. A maneira pela qual isso é feito, contudo, é às vezes grotesca. No município do Rio de Janeiro, por exemplo, as empresas que desejassem aplicar recursos do seu ISS deste ano na produção cultural, teriam que se cadastrar pela internet a partir do dia 25 de abril. As inscrições começaram às 9h. Quatro minutos depois já estavam esgotadas. O teto de renúncia fiscal, segundo a prefeitura do município, foi atingido em pouco mais de 3 minutos – e a má notícia é que o Rio não é exceção na forma de gerir o amparo à produção cultural.


Muitas ações consistentes, porém, têm acontecido quase ao mesmo tempo no que diz respeito à produção para TV. O ‘DocTV’, um programa capitaneado pelo Ministério da Cultura, chega à sua terceira edição e ganha contornos ibero-americanos. Nesse período, conseguiu gerar mais de cem documentários produzidos em todo o país – inclusive em regiões improváveis no que tange à produção de TV – e veiculados pela rede pública de televisão. Estas são as grandes beneficiárias. Por 20 mil reais ganham 27 horas de programação – brasileira, inédita e quase sempre de qualidade. Os resultados seriam ainda melhores se a televisão pública no país fosse mais comprometida com seu público do que com seus mantenedores, em especial os governos.


Novos tempos


Na quinta-feira (27/4), um outro programa de co-produção foi anunciado pelo MinC, dessa vez com uma rede privada, o SBT. O ‘Documenta Brasil’ vai dar 550 mil reais para a produção de cada documentário de uma hora (contra 100 mil reais do ‘DocTV’), e o produtor ainda fica dono dos direitos sobre a obra. É um projeto que pela primeira vez coloca uma rede privada de frente para a realidade dos custos de uma produção cinematográfica. Até agora, a compra de produtos independentes, quando ocorre, trafega na faixa de 10% deste valor.


Muitas outras ações voltam-se para o estímulo à diversificação da produção audiovisual no país. A Lei Jandira Feghali, que tramita há pelo menos 15 anos no Congresso Nacional, provocou na semana passada uma mobilização de produtores audiovisuais. É uma lei incompleta, que não toca em aspectos fundamentais como a comercialização do produto, a relação das emissoras com afiliadas e por aí afora; mas que traz, emblematicamente, a idéia de que é preciso regulamentar de uma vez o artigo 221 da Constituição escrita em 1988.


É claro que na esteira dos debates que se travam em torno do processo de migração para a TV digital está também a demanda por mais conteúdo e, sobretudo, um conteúdo pensado de maneira plural. A espinha dorsal do debate não está na tecnologia, mas na construção de conteúdo original, tese sobre a qual este Observatório tem há anos se debruçado.


Na diversidade da construção desse conteúdo, na capacidade que o país tenha de garantir que ele possa ser produzido e comercializado com sucesso, está a base da adequação da indústria audiovisual brasileira aos novos tempos. Sem essa diversidade, não há como se criar algo diferente do que já existe, não há como apostar no improvável. Quem não apostar no improvável só pode apostar na mesmice. A televisão e o cinema brasileiros merecem mais do que isso.

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