Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > DIREITOS TRABALHISTAS

Ensaio sobre a pergunta

Por Maria Luiza Franco Busse em 20/11/2007 na edição 460

Em tempo de complexidades que acirram as posições entre direita e esquerda, a imprensa conservadora tem priorizado as perguntas que melhor servem aos seus interesses. Essa prática é muito clara em relação ao noticiário sobre determinados assuntos; por exemplo, a Venezuela, ou qualquer outro que trate de acontecimentos contundentes que se refiram a direitos e conquistas dos trabalhadores. Por isso, como contraponto, perguntas que ainda não vi postas em forma de matéria em qualquer página dos suportes midiáticos de grande circulação, quais sejam:

1. Quem garante que a legislação e o regime trabalhista aplicados pela iniciativa privada é o melhor para o bem-estar do trabalhador e, conseqüentemente, para a saúde da economia de um país?

2. Por que, em lugar de já sair condenando, não se toma o que há de bom no sistema que rege o funcionalismo público para discutir a migração dos direitos trabalhistas dos servidores para os empregados do setor privado?

‘Estabilidade e privilégio’

Chamou atenção a matéria sobre a greve na França contra as reformas de Nicolas Sarkozy publicada nesses jornais de mediação comprometida com o mundo dos negócios privados (‘Greve continua na França com adesão menor’, O Globo, 16/11/2007, pág. 24). A cabeleireira Marina Bassez, 39 anos, personagem utilizada para exemplificar a insatisfação popular contra a paralisação dos transportes, se disse chocada quando o patrão, que foi buscá-la em casa para trabalhar, afirmou que não a levaria de volta e sugeriu a alternativa para ela se dar bem: ‘Desabotoe sua blusa na calçada para ver se consegue uma carona!’ ‘Não agüento mais esta greve’, disse. Curiosamente, Marina despejou sua revolta contra a greve, e não contra o patrão.

Ainda de acordo com o texto, ‘para ela, os funcionários dos setores de transportes e energéticos que lutam para defender um sistema especial de aposentadorias criado só para eles ‘não passam de uns privilegiados’’. ‘E eu?’ (retruca Marina). ‘Trabalho no setor privado muito mais de 35 horas por semana, não tenho fim de semana, feriado, e ainda posso ser demitida! Já o condutor do trem, coitadinho, para apertar o botão e fazer o trem funcionar tem toda a estabilidade e privilégio. Ridículo.’

Intenções polifônicas

Marina, que não tem fim de semana nem feriado e é orientada pelo patrão a se virar nos trinta para conseguir voltar para casa, quer estender a instabilidade e a violência da mão implacável do mercado para todos os trabalhadores. E aí me vêm outras perguntas de interesse público: por que Marina não pensa que ela também pode ter fim de semana e feriado e se aposentar aos 37,5 anos de contribuição, em lugar dos 40 anos que o governo eleito de Nicolas Sarkozy quer que passe a ser a regra para os funcionários de transporte e energia?

O que levou as pessoas a acreditarem que precisam pactuar contra si mesmas para pertencer a este imenso planeta de pouco mais de 6 bilhões de habitantes, como gostava de ressaltar o encantador ser humano e intelectual Milton Santos? Ou as pessoas estão efetivamente considerando que viver é só significado pelo trabalho num universo no qual igualdade, fraternidade e liberdade não têm a menor importância?

A julgar pela matéria que tem Marina como protagonista, a França já foi um país interessante, como observou a mente brilhante do acadêmico José Luís Fiori. Mas, comentários à parte, ainda acho que o problema está na ausência de perguntas que, como toda a pergunta, impliquem intenções polifônicas e tenham espaço nas edições porta-vozes dos interesses privados. Nem que seja só para disfarçar.

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Jornalista, mestre e doutora em Semiologia pela UFRJ

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