Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & VIOLÊNCIA

Entre o silêncio e a cegueira

Por José Alexandre Silva em 20/07/2010 na edição 599

Jornal Hoje, 1/7/10: A âncora anuncia uma entrevista com o jogador Bruno, do Flamengo, sobre o desaparecimento de sua ex-‘namorada’ Eliza Samudio. Em outras matérias, já ficou claro que o jogador é casado. Então, qual a terminologia adequada para a moça desaparecida? Durante o contato do jogador com a modelo, que demandava reconhecimento do filho pelo goleiro, este mesmo já era casado com sua atual esposa. Nossa terminologia costumeira não nomina parceiros sexuais extraconjugais como namorados. Qual o problema em mencionar a ‘namorada’ desaparecida como amante do jogador?

7/7/10: Todos os telejornais da Rede Globo noticiam minuciosamente as novidades do caso envolvendo o goleiro do Flamengo. A confissão do ‘menor’ que participou do plano que a outrora namorada, agora amante – agora, a modelo é tratada como amante – confirmou o suspeito. Eliza Samudio foi morta e com requintes de crueldade, pois foi esquartejada e teve as partes do corpo dadas de comer a cães. O goleiro Bruno se apresenta à polícia, mas decide falar sua versão para o crime apenas em juízo. Enquanto escrevo, ouço a nota de que uma marca de produtos esportivos decide cancelar seu patrocínio ao jogador. Parece o início da derrocada.

Jornal da Record, 8/7/10: Um entrevistado, autoridade policial, menciona o caso do goleiro Bruno e outros em que figurões foram presos. A afirmativa foi para defender a tese de que o clima de impunidade do país está desaparecendo. O suposto fim da impunidade é para assegurar que o estupro de uma adolescente de 13 anos por garotos também menores de idade em Santa Catarina não vai passar em brancas nuvens. O crime chegou a público graças a mensagens dos garotos em sites de relacionamento, confirmando o estupro com grande sensação de impunidade. Talvez a sensação se deva pelo fato de um dos garotos ser filho de um delegado de polícia e o outro ser da família dos donos da Rede Brasil Sul, afiliada da Rede Globo, cujos telejornais até agora não noticiaram o crime.

O endeusamento de figuras problemáticas

Ficam as óbvias perguntas: a Rede Record capricha na cobertura por um dos supostos criminosos ser da família dos concorrentes? A Rede Globo ignora o suposto crime por um dos suspeitos ser da família de uma de suas redes afiliadas?

A relação que os dois episódios trazem entre si talvez esteja sobre na questão da sensação de impunidade. Sensação impregnada no garoto, de quem a imprensa não pode revelar a identidade por força de lei, membro de uma família dona de uma grande rede de comunicação e o jogador de futebol com infância pobre que passa a ganhar muito dinheiro e fama repentina. Uma espécie de onipotência perpassa os dois indivíduos: o que já nasceu numa posição privilegiada e aquele que ascendeu na pirâmide social de forma muito rápida, como acontece com alguns poucos, por meio do futebol. Os telejornais trazem entrevistas com profissionais treinados para saber o que se passa na mente de tais indivíduos, no caso do jogador Bruno, mas essa tentativa de elucidação basta?

O clima de impunidade em nosso país está longe de se extinguir. Tanto é assim que o crime cometido pelo jovem membro da família proprietária da Rede Brasil Sul foi noticiado em âmbito nacional apenas no telejornal da emissora concorrente, a Rede Record. Resta a questão, ao telejornalismo da Rede Globo: se fazer vista grossa a crimes cuja cobertura da investigação é de interesse nacional – devido aos envolvidos fazerem parte da família dos proprietários de uma de suas redes afiliadas – faz parte dos princípios ou pressupostos éticos do bom jornalismo.

No caso do goleiro Bruno, este já foi caracterizado pelos arautos da imprensa como atleta de grande potencial desportivo, mas sempre envolvido em problemas ocasionados por distúrbios de personalidade devidos à infância pobre ou abandono familiar. De repente, uma pessoa com esses problemas é transformada em um ídolo ou uma espécie de deus. Será que a imprensa já parou para refletir sobre o seu papel no endeusamento de tais figuras?

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Professor de História, Ponta Grossa, PR

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