Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > OBSERVAÇÃO DO LEITOR

Época, capa capciosa

Por Manoel Carlos Pego Saisse em 23/03/2010 na edição 582

A gramática é mesmo uma estrutura muito dinâmica. Os manuais de gramática descrevem assim a função das aspas: ‘As aspas – sinal gráfico [‘ ‘] – servem para isolar palavras, trecho de frases, frases e expressões; ou indicar a reprodução literal de uma oração, de um período e, até mesmo, de um texto.’ Pelo jeito, o pessoal da revista Época resolveu dinamizar esta definição.


A capa da edição de número 614 de Época, de 22 de fevereiro de 2010, mostra uma foto da ministra Dilma junto da seguinte frase: ‘Você acha que sou um poste’. A frase, que anuncia uma entrevista exclusiva com a ministra, aparece impressa entre aspas, o que indica para um leitor que está acostumado com a definição tradicional deste símbolo gráfico, que ela foi pronunciada literalmente desta forma pela entrevistada. O que imaginaria alguém que se depara apenas com a capa da revista? Certamente o repórter fez uma pergunta provocativa para a entrevistada que caiu na armadilha, respondendo de forma ríspida, praticamente agredindo-o. No lugar desta frase, bem caberia algo como ‘Você acha que sou burra?’, ‘Quem é você para me questionar?’. Já quem tem acesso à integra do texto, na pagina 45, encontra o seguinte diálogo:




ÉPOCA – A oposição tem comparado sua candidatura à de um poste. O que a senhora acha dessa comparação?


Dilma – Você acha que, como ministra-chefe da Casa Civil, eu sou um poste?


O meu grifo no texto acima mostra a parte que foi removida da fala da entrevistada para compor a frase da capa. Conclusão, o trecho que aparece entre aspas não é a frase completa que foi pronunciada pela entrevistada e não apresenta nenhum sinal, do tipo (…), que indique que uma parte do original foi removida. Está mais do que claro a revista desejava difundir uma imagem agressiva e destemperada da entrevistada. O que me espanta é a forma pouco sutil que a ela utilizou para tentar atingir o seu intento. Fica a impressão que um órgão de imprensa pode fazer o que quiser com o meu discurso. Não apenas descontextualizá-lo, mas também cortar pedaços e remontá-lo. Nas aulas de História, aprendemos que esta técnica costuma acontecer em outras terras, onde reinam ditadores autoritários e anacrônicos. Eu, por aqui, olharei para as capas da revista Época com mais desconfiança de agora em diante.


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Empresas que mais lucraram nos EUA e na América Latina em 2009: 1) Exxon Mobil: US$ 19,3 bilhões; 2) Petrobras: US$ 16,6 bilhões; 3) Microsoft Corporation: US$ 16,3 bilhões (ver aqui)


Onde estão os jornalistas e ‘especialistas’ que defendem a privatização total da Petrobras? Como eles vão acusar a empresa de ser ineficiente e não lucrativa? Os tais deveriam ser arrastados até as margens do Tietê e obrigados a atravessar o rio a nado. Sem máscara de mergulho. (Fábio de Oliveira Ribeiro, advogado, Osasco, SP)


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No domingo, 14/3, eu assistia ao Domingo Espetacular, na Record. Durante todo o programa, foram feitas chamadas para a seguinte reportagem: ‘O assassinato do cartunista Glauco, e o que isso pode ter a ver com os rituais do Santo Daime’, ou ainda ‘qual pode ser a relação com um ritual que envolve o consumo de uma bebida alucinógena’. Que Deus tenha a alma do Glauco, por sinal. Chegando a hora da dita reportagem, falaram do crime, entrevistaram a enteada do cartunista e vários integrantes da seita, mas não mencionaram de forma alguma a suposta relação entre o culto xamânico e o crime.


Ora, acusar uma religião minoritária e muito polêmica para logo depois retirar as acusações é o mesmo que condená-la aos olhos de quem assistiu à reportagem. Então eu me pergunto: foi puro sensacionalismo irresponsável por parte do programa? Ou foi um ataque contra os hábitos e filosofia da seita, partindo de alguém da emissora que, seja qual for sua fé, não se importa com o risco de difamar uma minoria religiosa?


Postei esta reclamação nos blogs do Azenha (o viomundo.com.br) e do Paulo Henrique Amorin, apresentador do programa. O Azenha apagou meu post, o que eu esperava dele. O PHA, que se faz de paladino da liberdade de expressão, fez o mesmo. Talvez vocês achem a reputação do Santo Daime irrelevante. Eu acho que a matéria foi abuso de poder por parte da emissora. (Vinícius Aires, funcionário público, Curitiba, PR)


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No momento atual, em que órgãos do estado do Rio de Janeiro fazem tremenda e intolerável pressão para não perderem as tetas dos royalties do petróleo explorado e a ser explorado em águas territoriais de até 200km de nossas costas – portanto, em áreas pertencentes à União, aos estados – bom tema seria o seguinte para esse Observatório:


Quais devem ser os limites de grupos de pressão da imprensa monopolista para puxar a sardinha para sua brasa?


Obs: até hoje sou completamente favorável à liberdade de expressão (Dalmo Moreira, aposentado, Belo Horizonte, MG)


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Está cada dia mais insuportável assistir à televisão do ponto ‘de vista’ do ouvido. Ao zapear com o controle remoto pela NET sou obrigado a tomar um susto com o áudio de alguns canais, que aumenta e diminui sem aviso prévio. Será que as operadoras não poderiam prestar o serviço de manter o áudio dos canais por igual? Quem passa pelo canal da Sony sabe muito bem o drama de assistir à TV à noite sem importunar os outros moradores da casa ou os vizinhos. A TV Globo é pior ainda; a diferença do áudio da programação e dos comerciais é enorme. Minha mãe vive reclamando do som das novelas, que agora colocam música com se estivessem numa sala de exibição – só que sem legendas, o que inviabiliza o entendimento dos diálogos e chega a ser insuportável. Para isto, se aumenta o volume e pronto, ao entrar os comerciais o telespectador tem a impressão de que sua casa foi invadida por uma milícia armada gritando e aterrorizando todo mundo. Será que eles acreditam que vão convencer o telespectador a comprar os produtos anunciados no berro? E os telespectadores que já colocam a TV no mudo para não se aborrecer com o som exagerado, será que prestam atenção nos comerciais? (Warner Burchauser, marketing, Campinas, SP)


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Hoje [19/3], no programa esportivo da rede Bandeirantes, o jornalista Luiz Ceara fez, em rede nacional, uma incitação grave à violência dizendo que o jogador Neymar, do Santos, merecia um ‘tapa na cara’ por ter feito um drible no jogo com o Corinthians. Por favor, vocês que acompanham os meios de comunicação não podem ficar insensíveis a um absurdo desses. (Marco Antonio Machado Sarri, consultor de sistemas, São Paulo, SP)


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Quero deixar aqui o meu protesto contra o jornalista (?) Luiz Ceara, da TV Bandeirantes, que disse que o jogador Neymar merecia levar um tapa na cara por causa do chapéu que o garoto deu no Chicão. Isso pode parecer irrelevante, mas é uma incitação à violência. Agora entendo por que não estava mais sendo necessário diploma para jornalista. (Luiz Ribeiro, radialista, São Paulo, SP)


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Vocês não vão debater a ação da imprensa popular carioca no caso Adriano? Acho que nunca nossa classe foi tão rancorosa e tomada pela costumeira síndrome de onipotência. Uma classe acostumada a vestir carapuças nos outros simplesmente não suportou vestir a carapuça de ‘gente ruim’. (João Pedroso, jornalista, Rio de Janeiro, RJ)


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Na segunda-feira (22/3) ao ler a Folha de S.Paulo, deparei com uma charge do cartunista Angeli na página A2 (Opinião). A charge surge em meio a novos casos de pedofilia da igreja católica, em especial na Irlanda. O papa Bento 16 chegou a enviar uma carta aberta aos fiéis da Irlanda (leia aqui). O assunto é relevante, sério e merece debates e respostas dos envolvidos. Mas a falta de respeito em relação a diferenças culturais, religiosas e críticas vazias, empobrece e estraga com tudo.


A charge, sob o título ‘Pedofilia, Amém’, mostra uma alusão à figura do papa Bento 16 se escondendo sob um saco de papel com dois furos na altura dos olhos e ao fundo ‘sacerdotes’ com o mesmo saco de papel encobrindo a face. Em uma outra forte alusão ao grupo racista Ku Klux Klan (wiki).


O humor negro presente em alguns ‘textos jornalisticos’ muitas vezes funciona como uma válvula de escape para ódios e visões reprimidas. A consequência todos conhecem: guerras e conflitos. Imagine Maomé desenhado com um saco de papel na cabeça! Achei infeliz tal arte. (João M. A. da Silva, tecnólogo em informática, Lorena, SP)

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Engenheiro, Rio de Janeiro, RJ

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