Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > CASAMENTO AFEGÃO

Escritor comenta Foto do Ano do Unicef

25/12/2007 na edição 465

O escritor holandês Leon de Winter publicou artigo na revista alemã Der Spiegel [20/12/07] sobre a Foto do Ano do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). A imagem, de autoria da fotógrafa americana Stephanie Sinclair, mostra a menina afegã Ghulam, de 11 anos, sentada junto a seu marido, de 40 – e foi premiada em Berlim, na semana passada, por denunciar uma prática terrível, afirmou a organização.

Winter lamenta a perversidade da imagem e o assustador relativismo do Ocidente diante dela. ‘Há pessoas que irão olhar para esta foto e conseguirão continuar com suas rotinas – sem sentir náusea ou raiva. Nós observamos aqui a mais selvagem barbárie imaginável. Mas um despreocupado relativismo cultural permite que muitos apenas não olhem. Eles viram as costas para a cena de uma menina de 11 anos prestes a ser estuprada pelo homem sentado ao lado dela’, resume o escritor.

Tradição

A menina da foto foi vendida pelos pais – que afirmam que precisavam do dinheiro. Seu futuro marido promete levar sua noiva de 11 anos à escola, mas as mulheres que vivem no vilarejo afegão de Damarda não acreditam que ele o fará. Elas prevêem que a menina engravidará em breve. ‘Nossos homens não precisam de mulheres com educação’, dizem. Nesta cultura, a menina recebe um dote – as mulheres, como produtoras de filhos, são bens valiosos. O papel delas é criar filhos e guerreiros, que por sua vez defenderão a família e sua honra. Os homens têm como função defender as mulheres de ladrões e seqüestradores, e elas devem apenas aceitar o poder deles dentro da família.

Winter ressalta que, provavelmente, as mulheres da família da menina na foto também foram vendidas – e que ela sabia que era este seu destino. Ainda assim, ela deve ter algum nível de consciência de que algo está errado neste cenário. ‘Ela pode achar natural que uma menina seja vendida, mas também sabe que não é bom ou legítimo passar o resto da vida como escrava deste homem. É o tipo de conhecimento que independe da experiência. É um conhecimento que está gravado na humanidade, e nos sonhos e esperanças de uma menina pequena’, observa ele.

Para o escritor, o homem da imagem ignora seu crime – ele apenas repete as ações de seus antepassados. Ele engravidará a menina ‘sem amor ou remorso’. Desta união nascerá uma criança que fortalecerá a família.

Senso de humanidade

‘O que testemunhamos nesta fotografia é uma visão sem enfeites do passado coletivo da humanidade, do horror de nossa natureza brutal. Amor, ternura, beleza, individualidade e respeito são aspectos que impusemos sobre nossa natureza. Desde tempos imemoriais, esta natureza permitiu que apenas os mais fortes sobrevivessem. Em nossa consciência ocidental, nós suprimimos esta natureza com convicção e sucesso. Esta imagem mostra um pequeno momento cotidiano que não surpreenderia ninguém no Talibã – mas aos nossos olhos parece estranha’, diz Winter.

Segundo ele, nossos olhos aprenderam a ver o mundo por um – lentamente adquirido – senso de humanidade. Apesar de termos aprendido que não temos o direito de julgar outras culturas, sabemos que o casamento da menina de 11 anos é algo errado. O escritor diz acreditar – em uma afirmação que reconhece como polêmica – que existem culturas atrasadas. ‘Muitos de nós, ocidentais, estamos convencidos de que nossa presença no Afeganistão não tem justificativa, que nossos soldados deveriam se retirar e deixar o Afeganistão aos afegãos. Estas pessoas se perguntam: quem somos nós para acreditar que não é humano vender uma menina de 11 anos de idade? Quem somos nós para impor nossos valores de forma tão veemente aos afegãos, a este homem e a esta menina?’.

Winter resume: não tem noção de quem somos. ‘Mas eu sei que este não é apenas um universo de iPods, parques de diversões e vendas de fim de ano em lojas de departamentos. Eu sei que somos também um universo de direitos humanos. Eu sei que este universo está profundamente abalado pelo sofrimento desta solitária e pequena menina’, conclui.

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