Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DE VEJA

Escroques, trapaças e jornalismo meliante – 2 (final)

Por Érico Coelho de Melo em 10/07/2007 na edição 441

A fotografia acima, que um dos livros de Elio Gaspari credita à Agência JB, retrata o capitão Lamarca no início de 1968, dando posadas aulas de tiro às funcionárias do Bradesco no estande do 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna (SP). Antes, portanto, que sua família buscasse asilo em Cuba, em setembro daquele aloucado ano – sempre segundo o autorizado Gaspari.

(Como sempre) por acaso, ocorreu-me notar que Veja, numa edição recente de cujo número no quiero acordarme, ilustra com foto muito similar um textículo não assinado que, na cara-dura, intitula-se ‘Bolsa-Terrorismo’ para começar a meter o pau na promoção da viúva do ex-capitão Lamarca até a patente (leia-se pensão) de viúva de ex-major (não entremos, por ora, no mérito dessa candente questão previdenciária).

Falta-me a reprodução da fotografia da revista por não ter conseguido crackear (mentalmente) uma senha de acesso ao sítio da April, Inc., mas garanto-vos (os são-tomés podem correr à ante-sala do consultório do dentista para comprovar) que, naquele número nada exemplar, Veja elege a seguinte gentil moçoila para aparecer sob as sempre atentas vistas de Lamarca, fazendo mira com uma ameaçadora arma longa:

Maré vermelha

O raro leitor concordará, confiante, de que se está falando de fotos produzidas no mesmo press sessions day, no mesmo início de 1968, num mesmo quartel do Exército no interior de São Paulo?

Sucede que a legenda da ilustração da Veja, posso fiar a barba, refere-se a algo como ‘Lamarca depois do Exército’ ou ‘Lamarca depois de se tornar um terrorista frio e sanguinário’ – depois, concluo, que Lamarca passasse à clandestinidade, episódio inaugural da ‘deserção’ do nosso senhor capitão.

Blind chance? Cochilo da revisão? Ou estamos apenas patinando no campo barthesiano da significância? Pouco provável: no mesmo exemplar da revista, apenas algumas páginas depois da anônima matéria, o proverbial Reinaldo Azevedo, assustadiço com a maré vermelha que vingativamente lhe entupira os bofes da caixa-postal, perpetra um artigo em que se igualam os (então) ocupantes da reitoria da USP ora aos traficantes do Complexo do Alemão, ora à al-Qaeda.

Terroristas/bolsistas

Batata: após a recepção de tais palavras de ordem, se tiver prestado mínima atenção à semiologia esotérica da trapaça (operada até em nível subliminar, não duvidemos de nada), o leitor médio de Veja – que, como se sabe, só lê Veja e era (é, e sempre será) favorável à incursão do Batalhão de Choque – estará preparado para o brilhante insight: ‘Estudantes bonitinhas têm sido instruídas por subversivos covardes e impiedosos a fazer fogo contra a sociedade judaico-cristã-ocidental desde aquela terrível época da Revolução (sic) – e agora com o dinheiro dos meus impostos, meu Deus!’

Esforçando-se durante o intervalo entre a novela e o Jornal Nacional, o mesmo leitor médio logrará concluir que os burgueses revoltados e mimados da USP não passam todos, como sempre, de testas-de-ferro de terroristas/bolsistas a soldo de potências estrangeiras (Moscou, Havana, Caracas, Pyongyang, Pindamonhangaba etc.) interessadas em instalar no torrão inzoneiro uma ditadura comunista.

Descarada mentira

Segundo esse bricolage ideológico chulé (mais um), a mefítica subversão da Universidade é obra de mafaldinhas e barbudinhos vagabundos que, armados até os dentes com laptops roubados e gasolina e fuzis contrabandeados da Chavezuela, merecem sofrer uma (re)ação ‘fulminante’ por parte do meu, do seu, do nosso Estado; mas não através de irrisória instrução militar para funcionárias da reitoria ou do Bradesco – aliás, e de quebra, convenientemente poupado na história toda –, mas, talvez, why not?, como naquela saudosa operação militar da primavera de 1971, no sertão baiano, comandada pelo afável major Nilton ‘Nini’ Cerqueira.

Como na ópera, ainda dá tempo de cantar a conclusão moral da farsa toda: num mundo em que o mesmo Bradesco patrocina a Dança dos Famosos (ora reciclada, literalmente, como Circo), as laboriosas fotomontagens stalinistas – precursoras do Photoshop e, portanto, do pioneiro ensaio da Hortência na Playboy – há muito já não são mais necessárias; basta a mais fácil e descarada mentira inepta.

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Engenheiro, São Paulo, SP

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