Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FEITOS & DESFEITAS >

Espaço público

Por Paulo Bento Bandarra em 30/09/2008 na edição 505

O povo tem memória curta. Curtíssima. E a imprensa, por mais que se esforce, não consegue fazer o papel desejável de mantê-la avivada. Assim, mesmo tendo uma presença imensa, diferente de outras épocas, continuamos a cair nos mesmos erros do passado nem tanto remoto. É até lugar comum, nunca aprendido, citar George Santayana, que já lembrava: ‘Aqueles que não conseguem se lembrar dos erros do passado estão condenados a repeti-los.’

Dois textos no OI questionam o retrocesso do estado laico produzido pelos crentes. MÍDIA DE DEUS – ‘Estado laico e a radiodifusão religiosa‘, por Venício A. de Lima, na semana passada, e anteriormente, MÍDIA & RELIGIÃO – ‘Entre a cruz e… a cruz‘, por Daniel Sottomaior, em 26/8/2008. Nos comentários se percebe a falta de percepção dos comentaristas, que acham natural que as coisas estejam nesta volta ao passado primitivo. Principalmente porque este é o ‘seu Deus’. Há uma perda do entendimento da relatividade das crenças sobrenaturais, metafísicas, sejam teístas ou deístas pessoais, como algo simplesmente pessoal e improvável.

Se um grupo fosse para a mídia ou para dentro dos tribunais divulgando a verdade de Amon-Rá, ou a necessidade de aderir à cientologia para obter uma vida melhor nesta vida, com mais saúde e mais fraternidade, não resta dúvida que não seria aceito. Creio que não seria tolerado até mesmo um deus atual como presença diária na mídia trazida por sacerdotes na Índia, como o senhor Ganesh, um Deus ainda vivo na crença de parte do povo. Assim como a imposição da sharia ou do proselitismo islâmico cotidiano dentro de nossos ambientes públicos ou midiáticos.

Erros grosseiros

São verdades verdadeiras que não são aceitas pelos cristãos, que acreditam fielmente num descendente do Rei Davi para recolocar a volta da glória do seu reino no domínio do mundo como o verdadeiro, que na verdade foi o flagelo na vida do povo de Abraão até hoje. Claro que agora sem os judeus, povo para a qual o Deus verdadeiro havia prometido para o resgate dos pecados deles, não dos gentios, que nunca tiveram pactos na história com Ele.

Se, para um cristão, Quetzalcoatl, Shri Ganesh, Baphomet, Mitra ou Maomé (é impossível mencionar todos, pois só no Tibete existem milhões) são falsos e improváveis de serem acreditados, deuses que odiariam ouvir falar e viverem sob sua lógica, para os outros, não cristãos, seu falso messias e a certeza de um Deus (criado pelos judeus) de propriedade agora só dos mesmos, é igualmente, e verdadeiramente, inacreditável fora da esfera da sua credulidade ilimitada apenas.

A história, tanto ocidental como oriental, mostra sobejamente estes erros que só levam à intolerância e a comportamentos falsos e ilusórios. Assim como cristãos, no nosso caso por quererem impor a sua fé, enxergam perfeitamente o perigo de Maomé, os erros do Lama, o atraso de Xangô, os que não acreditam na mitologia judaica, no romance que é a bíblia, na fantasia do Deus humano, enxergam perfeitamente os erros grosseiros escritos e praticados pelos seus seguidores que nunca foram melhores do que as outras pessoas. (Como, por sinal, os judeus de igual maneira, povo escolhido pelo alegado verdadeiro Deus, nunca foram melhores, a não ser na sua própria opinião. Como os cristãos se enxergam da mesma maneira, não os sendo para os que não sofreram uma lavagem desde a infância.)

Guerras religiosas

Neste sentido, o que deve ser cultivado coletivamente é o Estado laico. O espaço comum na verdade de nenhum crente em especial para impor aos outros a sua fé, seja pela sua certeza enganadora da verdade, seja pela força momentânea da força bruta irracional da maioria. A maioria nunca foi fonte de verdade, muito menos religiosa, nos ensina a história. Assim como a geografia nos mostra que é tolo acreditar que determinado local seja o local deste deus, e não daquele outro, para o seu povo viver. Assim, o espaço coletivo deve ser o mais neutro possível de coisas que não representam o bem comum, o interesse coletivo, o direito de todos de viverem sem ser molestados por crerem ou descrerem do que quer que seja, neste aspecto.

Religiões e religiosos só são tolerantes e pacíficos quando e onde são minorias. Outro ensino que a história destes milênios nos ensinou: ARÁBIA SAUDITA – ‘Clérigo polemiza ao ameaçar donos de TV‘, em 17/9/2008 (). Realmente, existem guerras por outros motivos, mas certamente nenhuma delas é mais estúpida do que as infinitas motivadas pelas religiões no mundo inteiro.

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Médico, Porto Alegre, RS

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