Sábado, 19 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Esse musical é nosso

Por Norma Couri em 18/06/2015 na edição 855

Olavo Bilac caricaturaOs produtores decidiram. Já que tantos brasileiros lotavam as plateias da Broadway em Nova York, por que não trazer os musicais para o Brasil? Foi há uma década e meia, o público delirou, uma Broadway nacional? Só se esqueceram de uma coisa: os musicais eram importados, e os preços dos ingressos mais altos do que os originais. Uma febre de superproduções varreu o país, A Bela e a Fera, Les Misérables, O Fantasma da Ópera, Miss Saigon, Sweet Charity, Cats, Chicago, My Fair Lady. Tudo em português! Não é que estávamos chegando perto do Primeiro Mundo? A imprensa paulista mergulhou nas coberturas, já que a sucursal da Broadway era São Paulo.

O Rio de Janeiro reagia com musicais da terra. Sassaricando, Noel – O Feitiço da Vila, Somos Irmãs (sobre Linda e Dircinha Batista), Miranda por Miranda (sobre Carmem), Na Era do Rádio. Afinal, o Rio foi palco das mais animadas chanchadas, tanto no cinema com o tesouro perdido do Estúdio Atlântida, como no teatro de revista que perdeu o rumo com a americanização das telas e a internacionalização dos musicais. As megaproduções, patrocinadas pela Lei Rouanet, ganhavam a guerra dos brasileiros nas bilheterias, nos patrocínios, no espaço desmesurado da imprensa embasbacada com o avassalador desembarque das franquias da Broadway por aqui.

O pesquisador do nosso cancioneiro e sambista de peso, Nei Lopes, reclamava. E o jornalista e biógrafo Ruy Castro alertava os leitores na sua coluna da Folha de S. Paulo (22/3/2014) para torcerem “por musicais mais brasileiros”. A onda dos musicais no teatro brasileiro está sendo uma bonança para todo mundo – diretores, cantores, dançarinos, cenógrafos, figurinistas –, exceto para os compositores e letristas. Isto porque os espetáculos se resumem a biografias de cantores desfilando seus sucessos, ou a importações da Broadway com suas canções compostas há 40 ou mais anos e apenas traduzidas aqui… Nos EUA, o teatro gerou o cancioneiro. No Brasil, o cancioneiro é vampirizado pelo teatro.

O próprio Ruy tratou de suprir a lacuna. Lançou o musical Bilac Vê Estrelas com escritor, diretor, atores e equipe técnica nacionais e uma trilha sonora original. Em cartaz agora em São Paulo no Espaço Promon, antiga Sala São Luís, o musical aterrissou no final de maio e fica até o fim de julho para encurtar o descompasso e o silêncio da imprensa carioca sobre a temporada de quatro meses no Teatro Ginástico. Como não havia atores globais, a Globo não se interessou.

Olavo Bilac bromil

Poeta solteirão

Ruy não fez por menos. Com orçamento de 800 mil reais, que não chega aos pés dos 8 milhões de reais da produção de A Bela e a Fera, ele fez questão de contratar Nei Lopes para fazer a excelente trilha sonora de 15 canções (nenhum samba) e torce para alguma gravadora se animar a veicular o CD ou DVD. “ Se não”, diz, “quem ouviu, ouviu, quem não ouviu, perdeu.”

Mas perdeu mesmo. Seguindo a linha deliciosa do primeiro romance de Ruy (Companhia das Letras, 2000), com o mesmo título Bilac Vê Estrelas, a escritora e mulher de Ruy, Heloisa Seixas, e sua filha Julia Romeu, adaptaram o texto. Fizeram um resgate do melhor das chanchadas, dos policiais teatrais, das rocambolescas comédias históricas que trazem a memória de um Rio de Janeiro que falava francês (“c’est si bon, croquete com baguette no Petit Trianon”), frequentava a Confeitaria Colombo, era fascinada pelos versos do poeta parnasiano Olavo Bilac, o príncipe dos poetas, que publicava seus poemas no jornal Cidade do Rio de José do Patrocínio (Sergio Menezes), mais conhecido como Zé do Pato.

O musical traz uma engraçadíssima narradora, a vidente madame Labiche (Alice Borges), e um Bilac (André Dias) de pincenê que, mesmo não sendo, acreditamos que fosse vesgo como seu personagem. Mostra a invenção do dirigível de Patrocínio cobiçado até pelos Irmãos Wright (“o brasileiro não nasceu para rastejar”, dizia, e todos cantam “queiram os Irmãos Wright ou não/ é brasileiro o inventor do avião./ Olha que eu engrosso/ Não mete a mão que o avião é nosso”).

O toque sensual, sexual dos versos de Bilac fica por conta da espiã supostamente portuguesa Eduarda Bandeira (Amanda Costa), treinada na milenar técnica indiana do pompoarismo, baseada na arte de fortalecer a vagina para deixar seu macho louco (“amor de pica é amor que fica”). Aliada ao padre Maximiliano (Caike Luna) no roubo do traçado do dirigível, a dupla provoca incêndio, duelo, um quase assassinato.

A espiã seduz até o padre, só não pega Bilac, poeta solteirão por convicção. “És maricas, Bilac?”, ela reage ao fracasso das investidas, insultando o poeta de baitola, viadinho… e, afinal, reconhece: “Ça merdê!”

Farofa de ovos

Uma coleção de pérolas destila das árias que vão da ópera bufa ao xote, modinhas, fados, polcas, maxixe, lundu, quadrilhas francesas.

“Comment ça vá, mon ami?/ Tudo marveiê!/ Tré biã, merci, monamú/ Na legalité.”

Dá gosto ver a Belle Époque carioca do fim do século 19 e princípio do 20 reluzir assim do baú para a modernidade, sem precisar apelar para atores da TV. Tomara que o patrocínio estique para não permitir que a peça termine sua temporada em São Paulo e vá de volta para o Rio, desta vez no teatro Carlos Gomes. E que o público tome gosto por um gênero que já foi a coqueluche, a cocadinha, a fina flor do teatro nacional.

Vale até conferir se a Confeitaria Colombo ainda mantém o “picadinho à Bilac”, com champignon, passas, milho verde, banana frita e farofa de ovos, lançada em 2000 quando Ruy escreveu o livro.

Confeitaria Colombo, fundada em 1894 e ainda funcionando na Rua Gonçalves Dias, no centro do Rio

Confeitaria Colombo, fundada em 1894 e ainda funcionando na Rua Gonçalves Dias, no centro do Rio

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Norma Couri é jornalista

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