Domingo, 13 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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FEITOS & DESFEITAS >

Estadão censura radialista

Por Ricardo Faria em 29/09/2009 na edição 557

O radialista João Carlos Alckmin foi censurado justamente por quem se diz paladino da liberdade, o grupo Estado de São Paulo.

Alckmin e seu parceiro Flavio Ashcar tomaram conhecimento da censura quando chegaram à rádio Metropolitana AM, 1.290, em São José dos Campos, na manhã de 21 de setembro, Dia do Radialista. Eles não puderam fazer mais um Show Time, o programa de maior audiência da emissora, em face de um e-mail enviado pela Rede Eldorado, do grupo Estado de São Paulo, no dia 18 de setembro.

Na tarde do mesmo dia, falamos com a autora do e-mail, Regiane Batista dos Santos, gerente da rede Eldorado. Ela afirmou ter recebido ligações telefônicas e e-mails questionando o programa Show Time inserido na programação da Rede, através da emissora de São José dos Campos. E que, entre outras, João Alckmin teria dito no ar que a ‘saúde de São José dos Campos é uma m…’.

Regiane lembrou a existência de regras, procedimentos de linguagem e conteúdo no contrato de afiliação da Eldorado com a Metropolitana AM. Ela foi taxativa no e-mail: ‘Através desses questionamentos, fizemos uma rádio escuta e, realmente, não há compatibilidade de programação entre a Eldorado e o programa mencionado.’

E vai adiante: ‘Na cláusula 9.2 do contrato assinado pela Rádio Metropolitana, tal procedimento é passível de rescisão contratual. Solicitamos, portanto, que alguma medida seja tomada no prazo máximo de 15 dias. Na hipótese de não ocorrer a correção, enviaremos a carta de rescisão. Atenciosamente, Regiane Santos – gerente de rede’

Pimenta nos olhos dos outros é refresco

‘Justiça censura Estado e proíbe informações sobre Sarney

Gravações em áudio proibidas revelaram ligações do presidente do Senado com os atos secretos da Casa.

Felipe Recondo, de O Estado de S. Paulo

Brasília – O desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), proibiu o jornal O Estado de S. Paulo e o portal Estadão de publicar reportagens que contenham informações da Operação Faktor, mais conhecida como Boi Barrica. O recurso judicial, que pôs o jornal sob censura, foi apresentado pelo empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP) – que está no centro de uma crise política no Congresso…’ (ver aqui).

Pau que dá em Chico, dá em Francisco. O ditado vale para os Mesquitas do Estadão e para Regiane Batista dos Santos, que desprezou o radialista mais combativo e respeitado de São José dos Campos e do Vale do Paraíba. Dono da maior audiência na emissora, Alckmin ficou conhecido justamente pelo combate ferrenho à corrupção na máquina pública, especialmente na polícia, na política e no Judiciário.

‘Não se inseria na metodologia’

Na tarde de quarta-feira (23/9), falamos com João Carlos Barbosa Alckmin. Eis sua entrevista:

Há quanto tempo você está na rádio Metropolitana, ou rádio Eldorado?

João Carlos Barbosa Alckmin – Perto de dois anos. Sinceramente, não sei se é Metropolitana ou Eldorado. Para meu estarrecimento, parece não ser uma coisa nem outra.

Você estava no horário das 10 horas ao meio dia?

J.C.B.A. – Estava nesse horário, não estou mais. Fazíamos um programa independente, o único com audiência na rádio.

Como funciona a rádio?

J.C.B.A. – Eu não conheço os meandros da rádio Metropolitana ou da Eldorado, em São José dos Campos. Nunca me preocupei com isso.

O que realmente aconteceu no último dia 21?

J.C.B.A. – Quando cheguei com o Flávio Ashcar para fazer o programa nos disseram que havíamos sido censurados pela rede Eldorado, do grupo Estado, a quem a emissora havia se afiliado, e que o nosso programa não se inseria na metodologia da Eldorado.

‘Estou dando graças a Deus por ter saído’

Que espécie de contrato você tinha?

J.C.B.A. – Um contrato verbal com o Lano Brito.

Quem é Lano Brito?

J.C.B.A. – Ele se diz responsável pela emissora e é quem explora a freqüência. Quero deixar claro que os microfones e os pedestais são meus, a mesa é minha, a internet é paga por mim, o telefone 12 – 3308.1290 é meu. Da rádio, eu usava somente o espaço físico.

Como é feito o programa Show Time?

J.C.B.A. – É uma revista eletrônica onde discutimos os problemas da cidade, da região, do país e tocamos música de qualidade e isso parece não ter sido aprovado pela rede Eldorado.

O programa também vai ao ar pela Rádio Piratininga?

J.C.B.A. – Vai, aos sábados das 10 ao meio dia, pela 750 AM, onde continuamos normalmente, acessados pelo site www.superradiopiratininga.com.br – Flávio Ashcar, eu, Carlos Brickmann, Percival de Souza, James Akel, Rui Nogueira e outros.

O que sabe desse contrato entre a Eldorado e a Metropolitana?

J.C.B.A. – O contrato foi feito pela Metropolitana, que não é do Lano Brito, e sim, do Silvio Sanzoni, ou seja, do espólio do Jair Mariano Sanzoni.

Você conhece o Silvio Sanzoni?

J.C.B.A. – Conheço. Quer saber… Estou dando graças a Deus por ter saído. Me falaram que a rádio não tem CNPJ, que os funcionários não são registrados em nome da rádio Metropolitana ou Eldorado. O estúdio não poderia estar onde está, e sim, no edifício Saint James, na avenida João Guilhermino. A torre está numa área de preservação ambiental. Flávio e eu temos uma reputação a zelar, não podemos compactuar com tudo isso. Além, agora, da censura do grupo Estado.

Rádio chapa-branca

Terrível, não?

J.C.B.A. – O que me causa estranheza é a dona Regiane, a responsável pelos afiliados, não ter tomado nenhuma cautela quando da assinatura do contrato. Pelo que sei, entre a Rádio Eldorado e a Rádio Metropolitana, usando o CNPJ da Tropikal Produções. Tudo absolutamente irregular. Atente bem, esse é o grupo O Estado de São Paulo, que se diz preocupado com a imagem de independência.

Você chegou a falar com o Silvio Sanzoni?

J.C.B.A. – Ele me disse que está tomando as medidas cabíveis para retomar a rádio, que já foi até fechada pela Anatel. Trocando em miúdos, trata-se de uma rádio irregular e a Anatel sabe disso.

Como é ser um jornalista tão combativo?

J.C.B.A. – Me custa caro, já fui até baleado e quase fiquei tetraplégico.

Como vê os veículos de comunicação em São José dos Campos?

J.C.B.A. – Todos eles estão atrelados ao poder público, todos recebem verbas da prefeitura. Essa é a realidade. Sem contar o monopólio da comunicação radiofônica. Várias rádios da cidade pertencem ao mesmo dono. A Nativa, a Band Vale, a Band AM e a Stereo Vale são dirigidas pelo Grupo Bandeirantes e isso é proibido pelo Ministério das Comunicações.

Dizem que cada uma delas tem um político por trás. É verdade?

J.C.B.A. – Não tenho conhecimento disso, mas sei é que todas se identificam como do Grupo Bandeirantes, é o que vale.

Então, se depender da mídia, estamos ferrados?

J.C.B.A. – Através dela não vem nada de importante. A única emissora independente é a Rádio Piratininga. O radialista Antonio Leite, da Planeta FM, se diz independente, isso depois que cortaram as tetas em que ele mamava. A rádio dele era chapa branca até que brigou com o prefeito Eduardo Cury, que não apareceu mais na emissora e até processou o Leite.

‘Não conheço nem tenho interesse em conhecer’

Podemos falar um pouco de você e a cidade de Mogi das Cruzes?

J.C.B.A. – Sou paulistano, as minhas ligações com Mogi vêm do meu avô, que lá era fazendeiro. Meu pai foi juiz de Direito por muitos anos na cidade.

Como era sua vida em Mogi?

J.C.B.A. – Não cheguei a ter programa radiofônico na cidade. Às vezes, digo que fui sócio do jornal Diário de Mogi, onde fui esculhambado durante muito tempo em matérias assinadas pelo Nivaldo Marangoni e Laércio Ribeiro. A alegação era de que eu afrontava a sociedade local por usar roupas finas e carros importados. Pura inveja, preconceito. Minha família mora em Mogi, lá eu respondi a trinta e cinco processos pelos mais variados motivos e o Nivaldo e o Laércio sempre deram ênfase a isso: ‘João Carlos Rodrigues de Alckmin Barbosa foi indiciado’, diziam eles, mas não publicavam o arquivamento do inquérito.

O Nivaldo Marangoni é o mesmo que passou pela TV Vanguarda?

J.C.B.A. – Exatamente!

Está sabendo que ele virou assessor do vereador joseense João Tampão (PR)?

J.C.B.A. – Desconheço e me espanta.

Você não tomou providência em relação ao Nivaldo?

J.C.B.A. – Não porque o meu intuito, na época, era quebrar a cara dele, mas não consegui encontrá-lo. Hoje, mais maduro, talvez esteja mais equilibrado. Os anos passaram, o Laércio Ribeiro continua em Mogi das Cruzes, mas veja como são as coisas: manchete de jornal é a mulher dele, a delegada de polícia, Vera Dantracolli, acusada de mandar ‘ensapar pessoas’ para fazer flagrantes.

E o dono do jornal Diário de Mogi, quem é?

J.C.B.A. – Toti Tirreno Dazambagio, que nunca vi na vida e não tenho interesse em conhecer.

‘Darei todas as explicações’

Voltando ao seu programa Show Time, no agora ‘território eldorado’…

J.C.B.A. – Sofri censura do grupo Estado de São Paulo, comprovada pela cópia do e-mail da d. Regiane.

Você chegou a falar com ela?

J.C.B.A. – Sim, ela alegou que não foi bem isso, que eu tinha entendido mal, que desconhecia os problemas da rádio Metropolitana. Eu disse: ‘No mínimo, a sra. não tomou a necessária cautela na ânsia de afiliar. Não procurou saber com quem estava firmando uma parceria, uma rádio com problemas sérios, fatos que descobri somente agora. Imaginei que o Lano Brito, depois de ter os transmissores lacrados, tivesse se regularizado junto a Anatel. Segundo o Ministério das Comunicações, a emissora continua com restrições.’

Além de bater duro contra a corrupção, dizem que um dos motivos para o seu afastamento da rádio foi a sua esposa, a advogada Tânia Nogueira, patrocinar ações populares contra o prefeito de São José dos Campos. Confere?

J.C.B.A. – Vai além disso. A Tânia advoga para o Antonio Leite, processado pelo prefeito. Certa feita, eu estava no ar e o prefeito começou a falar com o Lano Brito, não se dispondo sequer a me cumprimentar. Eu disse no ar que ele era mal educado, grosseiro, que não me confundisse, que advogada era a minha mulher, e não eu, que deveria ter respeito. Ele nada respondeu.

Então sua esposa é advogada de adversários do prefeito?

J.C.B.A. – Não conheço o conteúdo das ações, não me envolvo com o trabalho de minha esposa. Sei que é advogada das vereadoras petistas Ângela Guadagnin e Amélia Naomi e também do vereador Cristiano Pinto Ferreira, da bancada do prefeito. A Tânia é uma profissional sem filiação partidária.

O que os radialistas da cidade falam sobre a censura que sofreu?

J.C.B.A. – Eles não falam absolutamente nada. O Leite se solidarizou. Apoio total, só do Seme de Neme Jorge, dono da Rádio Piatininga que me disse: ‘Comigo não tem pressão, você continua na nossa rádio e ponto final.’

O que podemos esperar de você no Show Time deste sábado, dia 26?

J.C.B.A. – Darei todas as explicações. Colocarei no ar, com detalhes, como fui censurado pelo grupo O Estado de São Paulo.

Projetos demagógicos

Com a saída de João Alckmin, começaram algumas reformas nas instalações do ‘território eldorado’. Estão trocando o piso, o forro etc. Quem primeiro apareceu, foi o Luiz Paulo Costa, que ganha salários milionários na prefeitura de São José e é ligado ao grupo Estado. Depois, foi o Alfredo Freitas, ex-secretário de Transportes e atual presidente da Urbam. Pelo andar da carroça, não é difícil imaginar por que João Alckmin foi afastado.

É muito triste ver os ‘companheiros de luta’ se submeterem a esse lamentável papel em nome da permanência no poder, recebendo dinheiro público, rasgando os princípios da ética, associando-se aos corruptos que antes diziam repudiar. Ganham, mas não levam, a não ser as pragas da maioria dos miseráveis dependentes de seus projetos demagógicos.

Até o fechamento da edição, tentamos falar com as pessoas citadas e não tivemos sucesso. Umas fazendo cursos, outras viajando.

******

Jornalista, São José dos Campos, SP

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