Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA SEM CREDIBILIDADE

Estamos perdendo tempo

Por Felipe Chiarello de Souza Pinto em 15/03/2005 na edição 320

Chega de ocuparmos nosso precioso tempo com lixo. O spam é um exemplo. O cálculo médio é de 10% do seu dia de trabalho para limpar seu computador dessas mensagens indesejáveis. Desde a venda de remédios sem prescrição médica até diploma de faculdade nos Estados Unidos. Isso nos leva a pensar naqueles maus profissionais que existem em todo lugar.

Há muito tempo lutamos pela ampla liberdade de expressão e de imprensa; contudo, não podemos perder tempo com bobagens e ruídos de comunicação. Já gastamos um décimo de nosso dia de trabalho para apagar spam. Agora nos recusamos a perder mais alguns preciosos minutos lendo Larry Rohter, em mais um artigo sem a devida diligência que obrigatoriamente deveria caracterizar o verdadeiro trabalho jornalístico.

Quando apuramos dados estatísticos, como os do IBGE, temos por obrigação interpretar tais resultados de forma humanística, para não incorrer no erro de inadequar o exato ao indivíduo. É claro que a superficialidade de quem foi criado com leite tipo A em outro país e nunca vivenciou o interior do agreste brasileiro pode ter a leitura que quiser. Entretanto, a verdade é que comer farinha o dia inteiro, por não ter mais o que comer, resulta numa overdose de carboidrato e obesidade, o que não quer dizer fartura.

Melhor deletar spam

A fome é, sim, um problema brasileiro e mundial. Podemos mascarar como desejarmos, mas é evidente que ela deriva da desigualdade social. Fotografar a orla do Rio de Janeiro e entrevistar superficialmente alguns médicos é fugir da responsabilidade social que o jornalismo deveria abarcar. E a desculpa do New York Times, dizendo que o fotógrafo era free lancer, só corrobora a decadência de um jornal que vivencia uma série de deslizes dignos de anotação, e aos trancos e barrancos tenta recuperar a credibilidade que perdeu.

Primeiro o escândalo da demissão do editor-executivo Howell Raines e do subeditor-administrativo Gerald Boyd, no dia 5 de junho, após constatadas fraudes e erros editoriais [do repórter Jayson Blair]. Recentemente, o apoio expresso ao candidato John Kerry, dias antes de sua devastadora derrota para George W. Bush. O jornal apostou na vitória do democrata e mais uma vez se deu mal. Depois, a matéria superficial sobre obesidade escrita por Rohter, divulgando fotos de brasileiras que, na verdade, eram turistas da República Tcheca.

Lutamos muito pela liberdade para consumir algo tão ruim, melhor aproveitar esse tempo para deletar spam.

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Advogado (sócio do Escritório Gregori e Capano), autor do livro Os símbolos nacionais e a liberdade de expressão, mestre e doutorando pela PUC-SP

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/03/2007 Marco Aurelio Neves Lima de Almeida

    Felipe:

    O artigo está muito claro e oportuno. Temos a pior mídia do mundo, como disso o Mino Carta. Basta comparar com os outros jornais do planeta.
    Ninguém aguenta mais ler os mesmos pontos de vista em todos os jornais, em todos os telejornais. Por incrível que pareça, já consegui ver a mesma notícia, em sequência, nos telejornais de diferentes empresas. ‘Assim não pode, assim não dá.’
    Por isso,temos de divulgar análises sobre a brutal concentração de mída no Brasil. Temos de divulgar vídeos como ‘Além do Cidadão Kane’, disponível em:

    http://video.google.com/videoplay?docid=-570340003958234038&q=Al%C3%A9m+do+Cidad%C3%A3o+Kane

    Quem sabe,dessa forma, não possa surgir um novo mainstream…
    Meu nome é Marco Aurélio (masquino@gmail.com) e já fui da diretoria da ANPG, com você, em 1999/2000. Fui, também, da APG-Campina Grande.
    Um grande abraço.

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