Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > LEITURAS DE VEJA

Ética e jornalismo, mais um caso de plágio

Por Raphael Tsavkko Garcia em 22/03/2011 na edição 634

Em 28 de janeiro de 2011, este Observatório da Imprensa reproduziu artigo da Veja Online escrito por Jadyr Pavão Júnior e Rafael Sbarai com o título ‘O Twitter só não faz revolução. Mas ajuda‘… Ou melhor, plagiado por estes dois autores. Coisa rara na história da famosa revista, o artigo parecia honesto e balanceado, havia espaço para os dois lados da questão. Mas a ‘honestidade’ para por aí.

A questão problemática se encontra nas fontes usadas pela revista para tratar do assunto, em especial aquelas usadas para definir os ‘ciber-céticos’, em oposição aos ‘ciber-utópicos’. Do lado dos ‘ciber-céticos’, a Veja cita o onipresente A Revolução não será tuitada, de Gladwell, e cita ainda o pesquisador iraniano Hamid Tehrani. Mas esperem, Hamid Tehrani como um ciber-cético? Para quem não conhece o Hamid, ele é um autor do Global Voices Online e seria no mínimo engraçado que um ativista que usa as redes sociais como plataforma para divulgação da realidade iraniana fosse simplesmente um cético no que tange o uso destas em processos revolucionários e revoltas. Imagine, então, ser colocado ao lado de alguém como Gladwell!

Ao ver que Tehrani teria sido supostamente entrevistado pela Veja, enviei-lhe um e-mail questionando o fato e também questionando se ele havia realmente dito aquilo em qualquer outro lugar. Conhecendo o histórico de manipulações da Veja, é sempre bom verificar todas as informações. Eis o que ele espondeu, em tradução livre:

** Se havia sido entrevistado pela Veja ou por algum jornalista brasileiro – ‘Não, eu não dei nenhuma entrevista a um jornalista brasileiro.’

** Sobre a frase selecionada pela Veja – ‘A questão do Twitter: Eu escrevi um artigo para o Global Voices logo depois de estourar o movimento de protesto no Irã, `Mito e realidade sobre o Twitter no Irã´’ [o artigo é este, no link, em inglês]

** Sobre a interpretação de suas palavras – ‘O que eu disse e o que sempre digo é que você não sabe realmente quantas pessoas usando o Twitter estão baseadas no Irã. Muitos dos que põem `Irã´ em suas contas vivem fora do país e/ou conseguem sua informação de fontes de segunda mão, mais por ligarem para outras pessoas do que por estarem nas ruas. Eu acho que a Al Jazira certa vez mencionou que menos de 100 contas do Twitter estavam ativas em Teerã durante as manifestações de 2009. Na verdade, o Twitter, ao contrário do YouTube e Facebook, não teve um papel significante no Irã. Nunca.’

Tentando entender melhor esta última parte, mandei outro e-mail, questionando o papel do Facebook e do YouTube (e não só do Twitter), ao que Hamid me respondeu – Sim, o Facebook e o YouTube tiveram grande papel. O líder da oposição, Moussavi, tinha pelo menos 150 mil fãs no Facebook e os vídeos do YouTube estiveram muito presentes.’

Apenas nesta simples e rápida troca de e-mails, podemos ver que Tehrani, nem de longe, é um ‘ciber-cético’. E tampouco deu qualquer declaração à revista Veja. Ele tão somente criticou o ibope dado unicamente ao Twitter, mas defende a importância das mídias sociais como um todo, em especial do Facebook e do YouTube. Apenas disso, já notamos que a reportagem da Veja não é apenas tendenciosa, mas foi mal feita e as informações não foram devidamente apuradas. O e-mail de Hamid está disponível para quem quiser em sua página do Global Voices e não custava nada apurar antes de publicar.

No artigo que Hamid cita em seu e-mail, há de fato uma crítica ao poder do Twitter. Fala-se que ele leva a conclusões erradas muitas vezes, mas mesmo assim Hamid o considera uma forma interessante de espalhar notícias para o mundo, de dar visibilidade aos protestos. Ele ainda afirmou que:

‘Twitter and Facebook along with reformist websites such as Ghlamnews help communicate the decisions of reformist leaders and pass on the message.’ (Ou seja, que o Twitter, o Facebook e os sites reformistas ajudaram a comunicar as decisões dos líderes reformistas e ajudaram a passar a mensagem.)

Plágio, omissão de fontes…

Mas para quem pensa que acabaram os problemas, ledo engano.

O artigo de Hamid é de 4 de julho de 2009 e muito do que foi dito por ele foi retomado em uma entrevista feita pelo The Guardian em 9 de junho de 2010. A matéria da Veja tem uma incrível semelhança com a do Guardian, mas curiosamente não a cita. A veja não se dá ao trabalho de citar a fonte original, o Guardian, nem o Global Voices – coisa que o Guardian fez. E esta não é a primeira vez que a Veja cita um autor do Global Voices mas não cita o fato (ou a fonte). Em 2009, informa Daniel Duende, ex-editor do Global Voices em português e atual colaborador do projeto – a Veja copiou letra sobre letra artigo sobre a Palestina – ‘Blogueiros em Gaza relatam o terror‘ – sem citar a fonte e, mesmo depois de imensa pressão da blogosfera, não se retrataram ou retiraram o artigo do ar. Segundo a Veja, o jornalista André Pontes foi o autor da reportagem… E não o Global Voices!

Daniel Duende, com propriedade, exclamou na época:

‘Todos sabemos, a qualidade do trabalho jornalístico (!?) da Veja piora a cada dia. Não é surpresa que eles plagiem sem citar fontes, roubem material, mintam, se façam de desentendidos. Mas não é por isso que devemos parar de reclamar ou de nos indignar frente aos absurdos cometidos por esta revista semanal sem compromisso algum com o jornalismo, e muito menos com a ética.’

Continua assustadoramente atual. Ética e jornalismo, para a Veja, são coisas que não combinam.

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Jornalista, blogueiro e mestrando em Comunicação, São Paulo, SP

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