Terça-feira, 17 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Euclides volta ao Estadão. Em grande estilo

Por Alberto Dines em 14/04/2009 na edição 533

Há tempos que nossa imprensa não consegue organizar uma efeméride com tanta inteligência e propriedade. O centenário da morte de Euclides da Cunha deveria ser lembrado no próximo dia 15 de agosto (sábado), mas o Estado de S.Paulo preferiu encarar a tarefa com uma saudável disposição jornalística.


No lugar das maçarocas habituais que serão empilhadas junto aos interessantíssimos ‘cadernos especiais’ que nunca são lidos, a direção do jornalão preferiu produzir uma temporada euclideana iniciada em março e que poderá estender-se até o fim do ano.


Euclides da Cunha é um banquete para todos os gostos: os fãs de dramas sentimentais e tragédias gregas já foram regalados com o seriado da Globo (Desejo) apresentando em 1990 (reprisado em 1995-1996). A sangrenta e shakespeariana tragédia em Piedade (ou A Tragédia da Piedade ou ainda Uma Tragédia Brasileira), passional e patética, sem vilões, quanto mais lembrada mais compaixão desperta.


O soberbo Os Sertões, os livros subseqüentes, os relatos sobre o Alto Purus e a obra póstuma trazem um tom telúrico que contrasta vivamente com a noção amena de ‘Brasil brasileiro, mulato inzoneiro’.


Reportagem e reedição


As rememorações do Estadão começaram com a série de reportagens realizadas por Daniel Piza e Tiago Queiroz (fotos), no início de março, no território percorrido por Euclides no Alto Purus. E prosseguiram auspiciosamente na edição de domingo (12/4, caderno Cultura, pág. D-14) com o início da republicação de todos os textos e reportagens produzidos a convite do amigo-camarada Júlio Mesquita na antiga A Província de S. Paulo (hoje O Estado de S. Paulo).


Com ortografia atualizada e comentados por Walnice Nogueira Galvão – nossa euclidista mor –, os textos de Euclides deixam a primeira página do jornal para ganhar uma dimensão poligráfica, cósmica, que talvez não tivessem em 1888 (quando começaram a ser publicados).


O primeiro texto (‘A Pátria e a Dinastia’), de 22 de dezembro de 1888, soa como um ensurdecedor ataque ao monarquismo pouco antes da sua derrubada. Ensurdecedor porque o fraseado e o palavreado são tão elaborados que lembram o clangor de uma poderosa banda marcial cuja força é perceptível, mas não seus acordes.


Graças ao Estadão estamos percorrendo um fascinante museu da imprensa e da cultura, examinando um texto perfeitamente entendido pelos 1.200 leitores que compraram a primeira edição de Os Sertões (1902), convertido 121 anos depois num quase enigma idiomático. A primeira frase tem doze linhas (nas medidas de hoje), três vírgulas, cinco adjetivos, dois advérbios de modo. E apesar do emaranhado gongórico, arrasadora.


Euclides e Hipólito


Esta viagem pelo jornalismo do fim do século 19 é um complemento à releitura do texto de abertura da edição de junho de 1808 do Correio Braziliense. Os dois autores, Hipólito da Costa e Euclides da Cunha, nasceram com uma diferença de 92 anos (1774 e 1866, respectivamente) e exibem curiosas semelhanças.


Polígrafos, multidisciplinares, um era maçom e o outro, positivista. Hipólito era um atento observador das transformações do seu tempo, anticlerical, antiescravista, fascinado pela ciência e novas tecnologias, democrata (admirador da revolução norte-americana, porém sem coragem de assumir-se antimonarquista). Euclides era um cientista, darwinista, filósofo, convicto democrata, ferrenhamente republicano, pan-americanista.


A convergência que nos interessa é a relação com o jornalismo. Hipólito é o pai do jornalismo brasileiro e seu primeiro teórico. Euclides é o primeiro grande repórter, testemunha ocular e, ao mesmo tempo, pensador.


Jornalistas? No tempo de Hipólito, as palavras journalisme (em francês) e jornalismo não haviam sido cunhadas. No tempo de Euclides, o jornal era composto por uma soma enorme de informações telegraphicas, entremeadas por opiniões, geralmente veementes. Alguns estudiosos – como a própria Walnice Nogueira Galvão – afirmam que Euclides da Cunha escrevia em jornal, mas não era propriamente um jornalista.


Em breve conheceremos os seus despachos sobre a quarta expedição contra Antônio Conselheiro em Canudos (1897) e estaremos em condições de julgar se são reportagens ou literatura. Ou – melhor ainda – se são um produto transgênico, combinação de jornalismo e literatura. Euclides seria assim o expoente de um new journalism gorado, que não chegou a maturar porque o autor, para sobreviver, precisou dedicar-se a outras atividades.


O Estadão está oferecendo a jornalistas e leitores uma esplêndida oportunidade para degustar um vintage da melhor qualidade. Num tempo em que as vindimas são tantas e inexpressivas que ninguém as distingue.

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