Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > VIOLÊNCIA NO CANADÁ

Exemplo de equilíbrio na cobertura jornalística

Por Daniel Lins em 11/11/2014 na edição 824

O ataque à bala ocorrido no Parlamento do Canadá, em Ottawa, em 22 de outubro, alarmou um país que normalmente não enfrenta rupturas tão gritantes da ordem e da civilidade nas ruas de suas principais cidades. As taxas canadenses de mortes por armas de fogo são, de longe, as mais baixas das Américas, e a violência aleatória contra a população em geral é rara, por qualquer critério.

Com isso, a mídia do país não é posta à prova com frequência por notícias extraordinárias de tragédias por homicídio em solo canadense. O ataque, que terminou com um soldado e o atirador mortos, foi, assim, um desafio para o país e a mídia canadense.

A cobertura da CBC, a rede pública de TV canadense, durante e depois do atentado foi elogiada em amplos círculos pela comunidade jornalística internacional por sua resposta calma e equilibrada à sucessão dos acontecimentos.

O âncora da CBC News, Peter Mansbridge, em especial, foi aplaudido por sua serenidade e comedimento na apresentação dos fatos confirmados, e por ter evitado boatos e especulações. Durante sua permanência de várias horas no ar, Mansbridge também fez questão de focar na única vítima do atentado, em vez de dar exposição e notoriedade ao autor do crime.

Esses elogios ocorreram, em grande medida, num contexto de comparações altamente críticas em relação à reação da mídia americana ao mesmo ataque. Uma análise publicada na revista política americana independente Mother Jones, pouco depois do atentado, afirmava que a cobertura canadense “cobre de vergonha os noticiários dos canais a cabo americanos”.

Harriet Alexander, do jornal The Telegraph, chamou a atenção para o contraste entre as manchetes divulgadas nos Estados Unidos, como o dramático título da CNN, em letras maiúsculas – “Terrified Capital” (A Capital Aterrorizada) – e as escolhas objetivas da CBC: uma das manchetes dizia simplesmente “Soldado morre após atentado na Colina do Parlamento; atirador também é morto a tiros”.

Assunto delicado

Foi observado também que a rede evitou associar imediatamente o ataque ao terrorismo, ao contrário de outras publicações de peso, como o The Times britânico e o The Wall Street Journal americano.

No entanto, o tom mudou um pouco, com a estabilização e a dissipação do choque e do luto. Em 22 de outubro, algumas horas antes de o ataque ser noticiado, a revista canadense Rabble.ca publicou um artigo de Glenn Greenwald no qual ele chamava a atenção para as políticas de segurança nacional adotadas recentemente pelo governo conservador canadense, do premiê Stephen Harper.

No dia 25/10, Greenwald, que ficou célebre por ter revelado a extensão do programa de espionagem nos EUA e países aliados, fez uma palestra em Ottawa na qual caracterizou a reação de Harper ao ataque como retórica alarmista para promover sua agenda antiterror. Ele também criticou a mídia canadense por excesso de docilidade, possibilitando, assim, que o governo Harper sancionasse a legislação alarmista.

A CBC é uma empresa estatal, e deu, de fato, espaço e crédito ao interesse de Harper pelas medidas antiterroristas. Uma análise de 23 de outubro publicada no site da CBC afirma que o Canadá, como um dos mais próximos aliados dos Estados Unidos, “tem tido sorte, até agora” – o que sugere a necessidade de uma maior proteção nacional contra uma vaga ameaça de terrorismo e de extremismo islâmico. Muitos consideraram essa uma posição perigosa de ser sustentada por um canal da mídia tão onipresente na vida canadense, principalmente se se considerar o cerceamento de liberdades individuais ocorrido nos EUA após as Leis Patrióticas pós-11 de Setembro.

Mas esse não é o único ponto de vista defendido pela CBC. Em 30 de outubro, outra análise apresentava a posição de Tom Mulcair, líder do Novo Partido Democrático, de oposição, de que o ataque ao Parlamento, realizado por Michael Zehaf-Bibeau, não foi um ato terrorista, e sim um crime perpetrado por um indivíduo desequilibrado. Embora o artigo não se alinhe especificamente com a ótica de Mulcair sobre a questão, cita uma série de dirigentes de todo o espectro político, entre os quais o líder do Partido Liberal, Justin Trudeau, também de oposição. Não foi a oposição à retórica de Harper que Greenwald, mais provavelmente, esperava ver na mídia canadense, mas parece, sem dúvida, indicar o tratamento equilibrado dado pela CBC a um assunto delicado e até o momento não solucionado. O tratamento criterioso dado pela emissora pública se refletiu também em outro artigo publicado dia 1/11, que levantava a questão da islamofobia, na esteira dos atos de violência perpetrados em nome do extremismo islâmico.

Relato abrangente

No último período de uma semana e meia, o ataque de Ottawa se tornou munição para políticos de todos os matizes de um país dividido, a menos de um ano de sua próxima eleição. O Partido Conservador, de Harper, está atrás nas pesquisas de intenção de voto, o que é um motivo forte para que seu governo capitalize um acontecimento nacional unificador e traumático.

A CBC, como a principal nova fonte de notícias dos canadenses, foi colhida pela turbulência política ao tentar fornecer a seus espectadores um relato imparcial e abrangente do que aconteceu. Embora não deixe de ter seus detratores, tudo parece indicar que a emissora está fazendo um trabalho admirável.

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Daniel Lins (em Vancouver) é estudante de Jornalismo

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