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Domingo, 19 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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FEITOS & DESFEITAS > DARWINISMO NA MÍDIA

Exercícios especulativos sobre a
evolução e extinção das espécies

Por Alberto Dines em 01/07/2008 na edição 492

A obra será conhecida com o título Sobre a origem das espécies; seu conteúdo revolucionário, designado como ‘Teoria da Evolução pela Seleção Natural’, foi apresentado há exatos 150 anos (1/7/1858) por Charles Darwin e Alfred Russel Wallace à Sociedade Linneana de Londres.


Os naturalistas não mudaram o mundo, mudaram a percepção da humanidade diante das mutações da Natureza. A teoria não se confina à biologia, zoologia ou antropologia – pode ser estendida a todos os campos do conhecimento. Inclusive a cosmologia.


O homem e o homem em sociedade (para usar a expressão consagrada por Hipólito da Costa na primeira linha do primeiro texto do primeiro periódico a circular no Brasil) também são condicionados pelos mecanismos que o darwinismo identificou na Natureza. De onde se conclui que as relações sociais e, por extensão, a comunicação, também podem ser observadas através da ótica evolucionista.


Em qualquer esfera, a mesma premissa: onde há conflito e mudança só duas opções são possíveis: extinção ou acomodação. As espécies sobreviventes não são as mais fortes e, sim, as mais aptas a adaptar-se. Aptidão no caso não é fórmula voluntarista para uso tópico. É resultado de estruturas com capacidade para se reproduzir em ambientes hostis, mesmo que a custa de arranjos genéticos.


Jornalismo integral


Veja-se o caso da sobrevivência da ‘espécie-Livro’, que passou por diversos formatos e tecnologias ao longo de alguns milênios porque soube preservar o seu DNA – divulgação portátil de conhecimentos – e acomodar-se continuamente às novas situações.


Agora que os vendedores das novas tecnologias da informação associados aos filósofos do marketing decretaram o fim da ‘espécie-Jornal’, conviria utilizar a hipótese darwinista-wallacista como exercício especulativo ou, pelo menos, como homenagem a este monumento da racionalidade.


Antes, algumas provocações: o vaticínio apocalíptico refere-se à extinção da ‘espécie-Jornal’, fim da ‘espécie-Jornalismo’ ou desaparição da ‘espécie-Empresa Jornalística’?


A distinção é essencial porque o jornalismo (= emissão periódica de relatos factuais) antecede a criação do jornal (um dos muitos veículos utilizados com este fim). Já a ‘espécie-Empresa Jornalística’ entra neste questionamento porque, embora ainda não tenha sido inventada uma organização mais apta a produzir o jornalismo integral, está na berlinda porque foi incapaz de preservar os atributos da ‘espécie-Jornal’ depois de uma profícua existência de 400 anos.


Componentes essenciais


Como classificar a informação digital? É uma ‘espécie’ sucessora da ‘espécie-Jornal’ ou paralela, como o homem e os primatas? É fruto da inadequação da ‘espécie-Jornal’ com os novos tempos ou acomodação da ‘espécie-TV’ ao meio-ambiente dominado pela informática? O fato de usarem o mesmo veículo (tela ou monitor) não os coloca na mesma ‘espécie’?


Neste tipo de indagação genética convém sempre prestar atenção à etimologia. Jornalismo vem do francês journal, relacionado a pulsação diária – quotidien é sinônimo de jornal diário. Periodismo, em espanhol, é um termo mais preciso porque o intervalo entre as emissões não é necessariamente diário, pode ser semanal, quinzenal ou mensal. Acontece que a informação digital oferecida nos portais noticiosos não é periódica, é permanente, flui continuamente. É o usuário quem estabelece o ritmo da utilização, ao contrário dos periódicos propriamente ditos nos quais o ritmo comanda o usuário. Os futurólogos prevêem que em breve as casas terão painéis nas paredes para exibir continuamente notícias e entretenimento. Isto seria uma ‘espécie’ híbrida, cruzamento da família digital com a família TV.


Por outro lado, leitores digitais mais exigentes hoje são capazes de periodizar o consumo de informações de acordo com seus hábitos ou necessidades. Basta programar o seu equipamento de modo a receber, em determinado horário, determinados colunistas ou assuntos. Confortável adaptação da ‘espécie-Jornal’ à Era da Informação.


A atualização permanente, massificada, sem o pulsar periódico, tende a atenuar impactos e criar uma ‘espécie-Jornalismo’ marcada pela esterilização, desprovida de palpitação. Imaginar que a intensa participação oferecida pela internet será capaz de suplantar esta algidez é desconhecer alguns componentes essenciais da condição humana, entre os quais a necessidade de submeter-se a convocações é o mais importante.


Exercícios críticos


Vale a pena investir nessas especulações e refletir sobre os fatores que influem na sobrevivência das espécies, sobretudo no tocante às dimensões dos indivíduos. Os dinossauros eram os maiores e mais poderosos vertebrados terrestres e, no entanto, a espécie (e não apenas os indivíduos) desapareceu num curtíssimo lapso. Não estavam aptos às mudanças e às novas condições vigentes no planeta. Não deixaram traços, transformados em subespécies miniaturizadas.


Ao manusear um jornalão de fim de semana, a primeira providencia do leitor é desbastá-lo das inutilidades: cadernos de anúncios classificados (quando não está comprando ou vendendo), falsas capas, encartes publicitários ou cadernos ditos segmentados que não o interessam. Em outras palavras: o próprio leitor converte um paquiderme de papel numa ‘espécie’ mais compacta e mais apta a sobreviver (convém registrar que o design e formato das espécies contribuem consideravelmente para a sua sobrevida).


As dimensões gigantescas da ‘espécie-Jornalão’ não são prova de vitalidade. Robustez nada tem a ver com fitness. O dólar barato, o crédito fácil e a explosão do consumo funcionaram recentemente como incubadoras de dinossauros.


Na Natureza tudo é traumático, há predadores em todos os horários e estações do ano, a seleção natural ocorre incessantemente. Mas as drásticas mudanças na conjuntura econômica mundial e o inevitável rigor deflacionário vão exigir da ‘espécie-Jornalão’ regimes emergenciais de adaptação.


O que nos leva à questão ambiental: em que meio pode produzir-se uma acomodação da ‘espécie-Jornalão’? Na ‘espécie-Empresa Jornalística Gigante’? A escala, peso e velocidade inercial de ambos permitirão movimentos ágeis? O inflado aparato tecnoburocrático instalado nesta espécie será capaz de intuir soluções criativas e evolutivas?


Darwin e Wallace tiveram os seus insights no decorrer das pesquisas que separadamente desenvolveram no Brasil. Como homenagem à dupla de cientistas vale a pena desenvolver uma ‘Teoria da Evolução Aplicada À Mídia’ com exercícios críticos capazes de acabar com esta perigosa atitude contemplativa e preparar o espírito para as surpresas do processo de seleção natural.

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/07/2008 Marta Aparecida Camilo

    Meu caro Alberto Dines!
    Antes de mais comentários, quero que saiba que admiro seu profissionalismo.
    Mas esta sua matéria… Está cheia de equívoco. Perdôo-te! Afinal você é jornalista e não cientista. E Ciência é o “Novo Poder” após todos os poderes que os humanos já conheceram. Mas tenha cuidado! Afinal, a pessoas tendem acreditar em tudo que os Jornalistas dizem. Sua matéria contém erros graves e afirmativas que nem a Ciência ousaria arriscar em dizer. Irei por parágrafos.
    I-Os naturalistas Darwin e Wallace, ainda, não conseguiram mudar a percepção da humanidade diante das mutações da natureza. Os “pobres coitados” conseguiram, apenas, diante de alguns intelectuais e naturalistas fazer valer uma Lei da Ciência, ou seja, “Não me conteste até provar o contrário”. A tal Teoria ainda se encontra confinada à Biologia (Ciência que engloba, além de outras, a Zoologia e Antropologia), e não pode ser estendida a todos os campos do conhecimento humano, por exemplo, Ideologia e Filosofia. Mais erros: o que chamamos de Civilização é antagônico à Natureza, ou seja, às suas Leis (nosso dilema ou paradoxo). Sobre Cosmologia? Nem Darwin afirmaria o que o Senhor afirmou com tanta certeza. Aliás, um dos limites das Ciências exatas é a Verdade absoluta. E sobre os conhecimentos relativos à Cosmologia, é bem provável que a humanidade esteja em sua pré-história ou nem isto.

  2. Comentou em 02/07/2008 Luiz Domingos de Luna Domingos

    Entre Colunas

    Luiz Domingos de Luna
    www. Revistaaurora.com

    Entre nascimento e morte
    Pego o meu passaporte
    Numa vida a bailar
    Dos dois pontos faço linha
    Numa estrada que caminha
    Na sorte ou no azar
    Entre colunas eu fico
    Sempre a caminhar
    Não pode ter acidente
    Senão quebra a corrente
    Já não posso respirar
    Uma reta esticada
    Cada passo, uma pisada
    Tenho que controlar
    Não posso sair do prumo
    Ou então um tombo
    Para me derrubar
    Do útero para cova
    Uma vida se renova
    Cheirando interrogação
    No meio das ampulhetas
    Viro pó, sombra e chão.
    Ou larva de borboleta
    Uma vida nova nasce
    É uma transformação ?

  3. Comentou em 02/07/2008 Luiz Domingos de Luna Domingos

    Entre Colunas

    Luiz Domingos de Luna
    www. Revistaaurora.com

    Entre nascimento e morte
    Pego o meu passaporte
    Numa vida a bailar
    Dos dois pontos faço linha
    Numa estrada que caminha
    Na sorte ou no azar
    Entre colunas eu fico
    Sempre a caminhar
    Não pode ter acidente
    Senão quebra a corrente
    Já não posso respirar
    Uma reta esticada
    Cada passo, uma pisada
    Tenho que controlar
    Não posso sair do prumo
    Ou então um tombo
    Para me derrubar
    Do útero para cova
    Uma vida se renova
    Cheirando interrogação
    No meio das ampulhetas
    Viro pó, sombra e chão.
    Ou larva de borboleta
    Uma vida nova nasce
    É uma transformação ?

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