Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > NOSSA HISTÓRIA

Fabiana Cimieri

19/10/2005 na edição 351


‘O ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), Pedro Corrêa do Lago, entregou ao Ministério Público Federal (MPF) documentos que, segundo ele, comprovam que a Livraria Corrêa do Lago renunciou ao pedido de registro da marca da revista Nossa História em outubro de 2002, portanto antes de assumir o cargo, no início de 2003. Assim, diferentemente do que o Estado afirmou em sua edição de ontem, sua empresa nunca editou a revista, que é publicada pela Editora Vera Cruz desde 2003.


‘Renunciei ao nome muito antes de ser convidado para o cargo’, afirmou Lago. ‘A revista foi feita por um conselho editorial com os mais renomados historiadores, precisávamos apenas de um parceiro comercial, que foi a Vera Cruz. Como eles também haviam entrado com o pedido, renunciei ao nome’, disse. ‘E o fato de registrar o nome não me dá nenhum benefício pessoal.’


‘Por causa da morosidade do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, meu pedido de cancelamento das marcas não está ainda disponível no seu site e a ação foi feita baseada nessa omissão. Já entreguei ao procurador todos os comprovantes dos pedidos de cancelamento dos nomes àquela época’, informou.


Ele disse que se afastou do cargo ‘por razões pessoais’ e a decisão já havia sido comunicada ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, fazia dois meses.


O MPF confirmou ter recebido os documentos, mas informou que não vai desistir da ação por improbidade administrativa, apesar de a liminar que pedia seu afastamento ter perdido o sentido com a sua decisão. O procurador Maurício Manso, autor da ação, não quis se pronunciar por avaliar que não surgiu nenhum fato novo desde o dia 7.


A ação foi oferecida em maio contra Lago, a Administradora e Editora Vera Cruz e a Fundação Miguel de Cervantes (FMC). A Vera Cruz publicava a Nossa História em convênio com a FMC, entidade particular remunerada pela publicação.


A ação traz a denúncia de que o acervo da biblioteca era usado com fins lucrativos sem retribuição à fundação.’



INTERNET


Renato Cruz


‘Google mira mercado brasileiro de anúncios ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 18/10/05


‘O mercado brasileiro de anúncios via internet, que deve ultrapassar US$ 100 milhões este ano, atraiu a atenção do Google, líder de buscas na rede. A empresa está na fase final de estruturar sua presença no Brasil, e o objetivo é abocanhar uma boa fatia do bolo. ‘Queremos mostrar ao mercado que, além de ferramenta de buscas, o Google é uma ferramenta de negócios’, afirmou o diretor-geral da empresa no Brasil, Alexandre Hohagen, ex-HBO e ex-UOL.


A empresa vai fechar o mês com cerca de 20 funcionários locais, sem contar os que vieram da mineira Akwan para formar o centro de pesquisa e desenvolvimento para a América Latina, que respondem diretamente ao Departamento de Engenharia do Google, em Nova York. A sede da companhia nos Estados Unidos é em Mountain View, na Califórnia. Além de formar a equipe, uma das primeiras tarefas de Hohagen é escolher o local para o escritório local da empresa, em São Paulo.


O principal produto do Google são os links patrocinados, pequenos anúncios de texto que aparecem ao lado dos resultados das buscas, no Google, ou ao lado de conteúdo em sites de parceiros. Os anúncios estão sempre relacionados ao assunto que o internauta está buscando ou sobre o qual está lendo. O grande concorrente é o Yahoo, dono da Overture.


O Google tem 18 milhões de usuários únicos por mês no Brasil. No ranking do Ibope, está em terceiro lugar em audiência. Somado ao Orkut, site de relacionamento que controla, passa a primeiro. Os brasileiros são 74,6% dos usuários do Orkut, sem contar aqueles que declaram nacionalidade diferente da real.


Por que tanto sucesso? ‘Toda vez que um brasileiro passa pela matriz perguntam por que o Orkut faz tanto sucesso aqui’, disse Hohagen, que recentemente passou por um treinamento em Mountain View. ‘Não existe uma resposta científica. Ouvi as mais variadas teorias, até que o primeiro brasileiro a receber um convite para o serviço era muito bem relacionado.’ Ou seja, é um mistério até para eles.


Hohagen afirmou que não existe nenhum plano em andamento para ganhar dinheiro com o Orkut. ‘Qualquer pessoa que conhece o serviço tem três ou quatro idéias sobre como lucrar com o Orkut’, destacou Hohagen. ‘Mas existem certas atividades do Google que são para ganhar dinheiro e outras não.’ A fonte de receita que sustenta toda a operação são os anúncios.


Nos Estados Unidos, os links patrocinados respondem por 40% do mercado de anúncios na internet. Aqui, ainda não existem indicadores consistentes. ‘Em 2 ou 3 anos, acho que conseguimos alcançar o mesmo nível’, afirmou Emerson Calegaretti, gerente sênior de Vendas do Google Brasil. ‘É um mercado de US$ 40 milhões.’


Hohagen negou que seja concorrente dos portais locais: ‘Criar conteúdo não é nossa vocação’. Entre seus clientes está o Terra.’



O Estado de S. Paulo


‘Yahoo compra empresa de buscas britânica ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 19/10/05


‘O Yahoo anunciou ontem a aquisição, por valor não revelado, de uma pequena companhia britânica chamada Whereonearth, numa tentativa de melhorar suas buscas locais e seus serviços de telefonia para competir de maneira mais efetiva com o Google, líder no setor de buscas na internet. A Whereonearth possui uma sofisticada base de dados que permite aos usuários buscar de maneira eficiente bens e serviços, como cinemas e restaurantes. A base de dados da Whereonearth cobre mais de 90% da Europa, Ásia e Americas, segundo informou o Yahoo.’



BLOGOSFERA


FSP / Reuters


‘Blogs populares são poucos, diz estudo ‘, copyright Folha de S. Paulo / Reuters, 19/10/05


‘O fenômeno de publicação on-line conhecido como blogosfera é um conjunto de milhões de sites, mas apenas um pequeno número deles consegue público significativo, diz estudo recém-divulgado nos Estados Unidos.


‘Os blogs são a modalidade de conteúdo que mais cresce na internet’, afirma Jim Lanzone, vice-presidente do site de busca AskJeeves. ‘Mas o número de blogs que realmente importam é pequeno. Os demais são como árvores no meio da floresta.’


Segundo Lanzone, apenas 60 sites são populares, ou seja, são referenciados por mais de 5.000 links. Os sites que atraem mil ou mais links são apenas 437. Os números foram obtidos pelo serviço AskJeeves Bloglines.


Milhões desprezados


Os blogs são sites fáceis de publicar e manter, que são atualizados periodicamente. O conjunto de todos os blogs, conhecido como blogosfera, tem entre 14 milhões e 20 milhões de páginas.


Os sites que, segundo a pesquisa do AskJeeves, ‘realmente importam’ (o critério para isso é receber links de pelo menos 20 outros blogs) são 36.930. Já as páginas que, mais modestamente, apenas ‘importam’ são aproximadamente 1,4 milhão.


Apenas um site, o popular endereço de tecnologia Slashdot (slashdot.org), é referenciado por mais de 50 mil sites, dizem os números do Bloglines.


Lanzone apresentou os resultados na conferência Web 2.0 (www.web2con.com), que foi realizada entre os dias 5 e 7 de outubro em San Francisco.


Mena Trott, co-fundadora da Six Apart, empresa que criou duas das mais populares ferramentas para a criação de blogs, Live Journal e Movable Type, faz uma ressalva: os números não levam em conta os muitos blogueiros que simplesmente não se importam em estabelecer links.


Yahoo!


O buscador Yahoo! disse que vai começar a apresentar escritos de blogueiros lado a lado com textos escritos por jornalistas profissionais, eliminando distinções entre eles. O site Yahoo! News (news.yahoo.com) começará a testar um sistema de pesquisa que inclui, além de reportagens e textos de blogs, fotos e links enviados pelos internautas. As fotos virão do site Flickr (www.flickr.com), que o Yahoo! adquiriu, e do recurso My Web, que permite ao usuário aprender com as pesquisas de outras pessoas.’



TV RECORD


Keila Jimenez


‘MPF cobra explicação da Record ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 19/10/05


‘Diretores da Record foram convidados a fazerem uma visitinha ao Ministério Público Federal. Tudo por causa de uma edição do programa Sônia e Você de agosto deste ano. Na ocasião, o programa exibiu a imagem de uma criança portadora de câncer, tendo seu cabelo raspado ao som da mesma trilha sonora da personagem Camila (Carolina Dieckmann) em Laços de Família. Vale lembrar que a trama estava sendo reprisada pela Globo na época.


O procurador regional dos Direitos do Cidadão, Sérgio Suiama, pediu a fita do programa à emissora na ocasião, e, analisando o caso, resolveu chamar a Record para uma conversa.


O Ministério quer se certificar de que esse tipo de ato não se repetirá no programa e quer ouvir os argumentos da Record para tamanha exploração. Outras denúncias contra o Sônia e Você chamaram a atenção dos procuradores. Tanto que o Ministério ameaça punir a emissora pelas imagens já exibidas e até entrar com uma Ação Cível Pública contra a Record.


O Ministério confirma a existência da conversa, mas não tem data definida ainda para o encontro.


PARCERIA


Em tempo: Sérgio Suiama encabeça uma parceria que será fechada entre o Ministério Público Federal, o Ministério das Comunicações e o da Justiça, com relação a atentados contra os direitos humanos na TV. A idéia da parceria é levar aidante ações administrativas e todo tipo de iniciativa de investigação e punição de emissoras com relação a esses abusos.


O Ministério acredita que essas ações acabam esquecidas, arquivadas e os responsáveis não são punidos como deveriam. Quando são, recebem punições leves e que não inibem a prática desses abusos. O acordo deve ser fechado ainda este ano.’



Daniel Castro


‘Record fala inglês e abre filial em Uganda ‘, copyright Folha de S. Paulo, 19/10/05


‘Um tanto missionária, outro tanto comercial, será inaugurada em 2006 a Record de Uganda, pequeno país da África, onde a Igreja Universal é forte. Será a segunda rede aberta terrestre (em UHF) da Record fora do Brasil _a primeira, a Miramar, de Moçambique, já existe há vários anos.


A Record de Uganda vai falar inglês. Segundo o bispo Aroldo Martins, presidente da Record Internacional, a Record de Uganda terá ‘programas locais, jornalismo, filmes e novelas da Record [brasileira] legendadas em inglês’, além de programas religiosos. As transmissões, experimentais, começam em janeiro.


A Record também está ampliando a Miramar. A rede de Moçambique passará a ter oito emissoras (atualmente, são quatro). Lá, são exibidas novelas, programas da Record e da Universal e ‘muita programação local’.


No resto do mundo, a Record é distribuída por cabo e satélite _só é cobrada nos EUA e em alguns países da América Latina.


Em novembro, a Record inaugura sede própria em Portugal, com 1.000 m2 e seis pequenos estúdios, que consumiram 1 milhão. Em Lisboa, já produz quatro programas locais. Há produção local também em Londres e Madri, dirigidas a brasileiros. ‘Em Portugal, estamos entre os dez canais mais assistidos’, diz Martins.


Em 2006, a Record também terá produção local no Japão e passará a ser distribuída na Austrália.


OUTRO CANAL


Cartão Juca Kfouri não apresenta mais o esportivo ‘Cartão Verde’, da Cultura. A partir de agora, o comentarista será exclusivo da ESPN Brasil. Seu desafeto na Cultura, Flávio Adauto, diretor de transmissões esportivas, também deve deixar a emissora.


Toque Executivos da Globo já não escondem. Dizem que não fazem questão de que Mário Prata volte a escrever a novela das sete, ‘Bang Bang’, que acaba de estrear. O escritor se afastará por pelo menos três meses para tratar de tendinite. Por enquanto, como a novela está estável no Ibope, ninguém fala em reduzir sua duração.


Thriller Três personagens _de Henri Castelli, Fernanda Montenegro e Leona Cavalli_ serão assassinados em ‘Belíssima’. Mas não haverá um serial killer na próxima novela das oito.


Duvidoso Com um barraco protagonizado por um jornalista idoso que se envolveu com uma modelo jovem, que mais parecia o ‘Teste de Fidelidade’ de João Kléber (sem a parte, digamos, de teledramaturgia), o ‘Superpop’ (Rede TV!), de Luciana Gimenez, ficou em segundo lugar no Ibope anteontem, durante cinco minutos, batendo Hebe Camargo (SBT).


Comentário A seqüência do parto do bebê de Sol (Deborah Secco), exibida anteontem, comprova: ‘América’ já é a melhor pior novela da Globo nos últimos tempos.’


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PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Fabiana Cimieri

Por lgarcia em 11/11/2003 na edição 250

A DITADURA DERROTADA

“General diz que debate distorce os fatos”, copyright Folha de S. Paulo, 6/11/03

“O general reformado Carlos Meira Mattos, 90, sub de Ernesto Geisel quando ele ocupava a chefia do Gabinete Militar do governo Humberto Castello Branco (1964-67), afirmou que o conteúdo das fitas divulgadas no livro de Elio Gaspari está sendo distorcido por uma má interpretação: ?Quando você diz que quer matar alguém não quer dizer que realmente vá matar essa pessoa?.

Segundo ele, dizer que Geisel permitia a tortura é um ?despropósito, pois ele era contra qualquer tipo de violência?.

Para a pesquisadora Maria Celina D?Araújo, do CPDoc (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea) da FGV (Fundação Getúlio Vargas), apesar de Geisel ter tentado enquadrar as forças de repressão dentro de uma linha de comando, o ?baixo clero? -sargentos, capitães e oficiais reformados- continuou a fazer ?terrorismo de direita?. D?Araújo, autora do livro ?Geisel, Depoimentos?, em parceria com o pesquisador Celso de Castro, disse que alguns trechos das fitas trazem informações inéditas e paradoxais.

?Ele começou o processo de abertura ao mesmo tempo em que foi o primeiro presidente do regime a explicitar verbalmente a questão da tortura e do assassinato. Além disso, preocupou-se em deixar registradas as conversas.?

O general reformado Newton Cruz, 79, disse ontem que tinha ?resquícios ditatoriais? e era ?omisso? diante das denúncias de tortura. Cruz foi chefe da Agência Central do SNI (Serviço Nacional de Informações) entre 74 e 76.

?Houve muita omissão em face da tortura, mas não houve incentivo. Que houve tortura, só um estúpido diria que não houve, mas houve dos dois lados?, afirmou.

Para ele, a mentalidade dos militares era a de que havia uma revolução em curso. ?Nós de um lado. De outro, os inimigos.?

Essa filosofia de combate teria surgido durante o governo Costa e Silva, quando a chamada linha-dura do regime militar começou a imperar, disse o general.

Para Cruz, Geisel assumiu acreditando que poderia resgatar a mentalidade de tolerância do governo do general Castello Branco: ?Mas o quadro era bem diferente?. Cruz afirmou também duvidar que Geisel soubesse que estava sendo gravado.”

“Surge a face oculta de Geisel”, copyright O Globo, 5/11/03

“Obra mostra um presidente que apoiava o extermínio de militantes de esquerda e queria mudar os métodos de repressão

O nze meses depois do lançamento dos dois primeiros volumes de ?Ilusões Armadas? – ?A ditadura envergonhada? e ?A ditadura escancarada? – Elio Gaspari volta a revolver a História e lança ?A ditadura derrotada?. O terceiro livro desse mergulho nos bastidores do regime militar de 64 chega hoje às livrarias envolto em mistério. Ao contrário dos primeiros, este não foi entregue com grande antecedência às redações, como é praxe no mercado editorial brasileiro.

No estilo americano dos livros de impacto, a obra é posta à venda sem que antes jornalistas e críticos tenham tido acesso privilegiado a ela. Todos – jornalistas, críticos, personagens e o público em geral – conhecerão ?A ditadura derrotada? praticamente ao mesmo tempo.

Editada pela Companhia das Letras, a obra abrange o início da Era Geisel. Relata o processo de sua escolha para substituir Emílio Garrastazu Medici – deixa claro que o grande e decisivo eleitor de Geisel foi mesmo Medici – descreve a formação do governo e acompanha os primeiros meses de poder até logo após a derrota histórica do regime nas eleições de 74. Daí o título do livro.

A obra traz, ainda, alentadas biografias dos dois personagens centrais de ?Ilusões armadas?: o general Golbery do Couto e Silva, o Feiticeiro, e o Sacerdote, Geisel. Golbery foi fundador do Serviço Nacional de Informações (SNI) e chefiara a sua criação no governo de Humberto Alencar Castello Branco, primeiro presidente do regime de 64, para quem Geisel cuidou do Gabinete Militar. Golbery, na gestão Geisel, assumiu o Gabinete Civil. E junto com os dois, Heitor Aquino Ferreira, secretário pessoal de Golbery na gestão Castello e depois do presidente Geisel.

?Matar é barbaridade, mas tem que ser?

Rico em informações de bastidores, este capítulo de ?Ilusões armadas? desvenda a face oculta do Sacerdote e do seu governo. Chama a atenção como um dos mais fechados períodos da ditadura militar está bem documentado. E não só por papéis. Também por fitas, gravadas com o conhecimento dos próprios Geisel e Golbery. ?A ditadura derrotada? traz a público gravações de conversas mantidas entre Geisel, auxiliares e candidatos a ministros, de outubro de 1973, quando começou a fase de montagem da equipe, ao dia 14 de março de 1974, véspera da posse.

As gravações foram feitas no Rio, nos gabinetes que o presidente escolhido utilizava no Jardim Botânico e na sede carioca do Ministério da Agricultura, um prédio já demolido que existia no Largo da Misericórdia, Praça Quinze, próximo ao Museu Histórico Nacional. As fitas foram entregues a Gaspari junto com o famoso ?Arquivo do Golbery? e o diário de Heitor Aquino, acervo que se torna importante protagonista neste terceiro volume.

Uma preciosidade deste volume é o diálogo travado no dia 16 de fevereiro de 1974, a um mês da posse, entre o presidente escolhido e o seu futuro ministro do Exército, general Vicente de Paulo Dale Coutinho. Falam, entre outros assuntos, sobre a eliminação de adversários.”

***

“Violência era política do regime”, copyright O Globo, 5/11/03

“Geisel queria controlar os porões dos quartéis; como não conseguiu, fechou-os

A conversa entre Geisel e Dale Coutinho deixa claro que as eliminações eram conhecidas e aprovadas pela cúpula do regime. Geisel considerava a violência um mal inevitável:

– (…) Ah, o negócio melhorou muito. Agora, melhorou, aqui entre nós, foi quando nós começamos a matar. Começamos a matar – diz o general Dale Coutinho.

– Porque antigamente você prendia o sujeito e o sujeito ia lá pra fora (…) Ô Coutinho, esse troço de matar é uma barbaridade, mas acho que tem que ser – responde Geisel, a um mês da posse.

Nessa mesma conversa os dois tratam da guerrilha do Araguaia e do aniquilamento de um guerrilheiro (Osvaldão, Osvaldo Orlando da Costa, chamado por Coutinho de ?Chicão, Luizão?). Geisel afirma que o estilo da repressão, em geral, se manterá:

– (…) Vamos ter que continuar ano que vem. Nós não podemos largar essa guerra.

Há, ainda, uma conversa com o chefe de sua segurança pessoal, Germano Arnoldi Pedrozo, tenente-coronel do Exército, sobre a prisão de um grupo de pessoas no Paraná vindas do Chile:

– Pegaram alguns? – pergunta Geisel.

– Pegamos, pegamos. Foram pegos quatro argentinos e três chilenos.

– E não liquidaram, não?

– Ah, já, há muito tempo (…) – tranqüiliza o tenente-coronel, para ouvir o conselho do futuro presidente:

– É, o que tem que fazer é que tem que nessa hora agir com muita inteligência, para não ficar vestígio nessa coisa.

O controle dos porões

?A ditadura derrotada? desvenda, assim, a postura de Geisel diante dos porões do regime. O presidente da República, que vergou esses mesmos porões, considerava necessária aquela máquina de extermínio. Mas não admitia que atuasse fora da linha de comando. Queria controlá-la. Não conseguiu e a desativou.

Naquela mesma conversa com o general Dale Coutinho, Geisel refere-se à necessidade de em algum momento o governo ter de ?repensar? aquele ?processo ?, que ?infelizmente? ainda teria de continuar. Ou seja, Geisel queria mudar os métodos de repressão política. Mas como a autonomia faz parte da lógica desses aparatos genocidas, o conflito tornou-se inevitável. E nesse choque ganharam Geisel e o projeto de abertura.

Gaspari relata, também, como Geisel se comprometeu a garantir o resultado das urnas de 74, quando ao oposição (MDB) preencheu mais de dois terços das cadeiras em disputa no senado (16 de 22) e e quase a metade da Câmara dos Deputados (165 dos 364 assentos). Quando chegou ao Planalto no dia seguinte às eleições, encontrou duas propostas de golpe na mesa: do SNI e da Marinha. Não as levou a sério. Ali o regime começava a se dividir.

A amizade a serviço

Achava-se nas sombras dessa face desvendada por Gaspari um Geisel amargo que jamais absorveu a morte do filho, de 16 anos, atropelado por um trem. Surge, também, um Geisel capaz de soltar sonoros palavrões em momentos de ira. Mas nunca na presença de pessoas pouco íntimas.

Imaginava-se que o taciturno presidente baixaria a guarda diante de Golbery e de Heitor, companheiros de jornada. O livro acaba com o mito. Nos despachos com Heitor, o auxiliar ficava em pé. A amizade com Golbery não estremeceu, mas desde que Geisel assumiu a Presidência, as conversas a sós foram racionadas. Gaspari calcula que por semana dificilmente passavam mais de uma hora frente a frente. Conversa solta, só três por ano. São escassos os registros da ida de Golbery para almoçar ou jantar no Alvorada. Não chegam a dez. E poucas vezes Geisel foi à Granja do Ipê, residência oficial do chefe da Casa Civil. ?Era uma amizade a serviço?, interpreta Elio Gaspari.

Agora, a obra chega a 1.462 páginas. E faltam dois volumes: o quarto, já na editora, e o último, a ser escrito. Sobre o governo Figueiredo, nada. Por desimportante, diz Gaspari.”

***

“Tortura Nunca Mais volta a pedir abertura dos arquivos do Araguaia”, copyright O Globo, 5/11/03

“Para a professora de história contemporânea da USP Maria Aparecida de Aquino, o ex-presidente Ernesto Geisel tolerou a tortura e os assassinatos de inimigos do regime, como mostra o livro ?A ditadura derrotada?, porque imaginava viver um ciclo revolucionário:

– Geisel era militar até a raiz dos cabelos. Ele e seu grupo se consideravam em guerra e, em guerra, tudo seria possível. Para eles, a lei existia, mas não precisava ser cumprida em momentos excepcionais.

A pesquisadora Maria Celina d?Araújo, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da Fundação Getúlio Vargas (CPDoc) e autora com Celso Castro do livro ?Geisel – Depoimentos?, disse que, ao contrário da imagem que ficou, associada ao início da abertura, o livro mostra um presidente decidido a usar os meios de eliminação de inimigos:

– A diferença de Geisel para os outros é que ele fez isso mantendo a autoridade do presidente sobre as Forças Armadas. Não desautoriza o combate ao anticomunismo, mas exige que seja feito dentro da cadeia de comando.

O secretário nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, disse que não havia mais guerra suja no Brasil na época, como alegavam os militares:

– Não existia uma guerra de verdade. O que o governo Geisel fez foi exterminar pessoas que queriam participar da luta legal, institucional, de redemocratizar o país.

Suzana Lisboa, da comissão de famílias de mortos e desaparecidos políticos, diz que o livro revela que não havia apenas conivência de Geisel com tortura e morte de inimigos do regime.

– Era uma política de Estado. Com a distensão iniciada em 1973, acabam as mortes oficiais. Todos viram desaparecidos. Nada foi sem querer.

Elizabeth Silveira, do grupo Tortura Nunca Mais, lamenta que os militares insistam em não abrir os arquivos do Araguaia:

– Não querem que venha a público este horror.”

“Sobre revelações de Gaspari, Viegas afirma que é feliz por ter democracia plena”, copyright Folha de S. Paulo, 10/11/03

“O ministro da Defesa, José Viegas, disse ontem que ?nós [brasileiros] somos felizes de viver hoje num país plenamente democrático e que não existe nenhum divórcio quanto à importância de seguir as leis e quanto à necessidade absoluta de não compactuar, nem da maneira mais leve, com qualquer procedimento tipo tortura?.

A afirmação referia-se ao livro do jornalista Elio Gaspari ?A Ditadura Derrotada?, lançado na quarta-feira. O livro revela que o ex-presidente Ernesto Geisel sabia do assassinato de adversários do regime militar.

Viegas disse que, por não ter lido o livro, não comentaria as gravações reveladas por Gaspari. Segundo o ministro, as Forças Armadas estão hoje plenamente inseridas no ?ambiente democrático?. As declarações foram feitas durante visita ao projeto Soldado-Cidadão, que dá capacitação técnica aos jovens militares desligados do Exército.”

***

“Sarney se diz ?frustrado? com fitas de Geisel”, copyright Folha de S. Paulo, 6/11/03

“?Foi frustrante.? Assim reagiu o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), ao saber que o assassinato de adversários do regime militar teve o aval do presidente Ernesto Geisel (1907-1996), segundo revelação do livro ?A Ditadura Derrotada?, do jornalista Elio Gaspari, colunista da Folha, que chegou ontem às livrarias.

A reação de Sarney, que na época era senador pela Arena, resume o sentimento expressado por outros protagonistas do período, como o ex-senador Jarbas Passarinho, o deputado Delfim Netto (PP-SP) e o presidente nacional do PT, José Genoino (SP), um dos opositores do regime. ?Estou perplexo?, disse Passarinho.

Personagem do livro, Delfim quer primeiro ler e depois comentar as passagens nas quais aparece como manipulador do índice de inflação ou em situações pouco lisonjeiras, como um comentário de Mario Andreazza (ex-ministro dos Transportes) a Geisel: ?Conheço os podres do gordo?.

?O livro do Elio é uma coisa séria. O que apareceu até agora na imprensa é pouco. No que se refere a mim, li que ele retrata o conjunto de intrigas armado dentro do staff de Geisel pelo temor que o general tinha de que eu fosse eleito governador de São Paulo?, disse Delfim, por e-mail, à Folha.

?Para mim, particularmente, foi frustrante, porque vulnera a imagem que eu tinha do presidente Geisel?, disse Sarney. ?Tanto mais considerando a respeitabilidade da fonte e a objetividade com que o fato é narrado.?

Passarinho diz que Geisel carregava a imagem de ser contra a tortura, desde a origem do regime. Ele foi o encarregado pelo primeiro presidente do ciclo militar, Castello Branco, de investigar denúncias de que presos políticos eram torturados em Pernambuco. Depois demitiu o general Ednardo D?Ávila Melo do comando do Exército em São Paulo, onde presos foram mortos sob tortura.

Ministro do Trabalho do antecessor de Geisel, o general Emílio Garrastazu Médici, cujo governo era mais identificado com a eliminação dos opositores do regime, Passarinho não resiste a uma ironia: ?O [José] Genoino foi preso e saiu vivo no governo Médici?.

?O que está aí é a documentação do que se sabia na época, do que se sabia oficiosamente?, afirmou Genoino. O presidente do PT estava preso em fevereiro de 1974 -época da gravação em que Geisel demonstra admitir a morte de opositores durante a repressão militar- por ter participado da guerrilha do Araguaia, movimento armado desencadeado pelo PC do B no início dos anos 70, na selva amazônica. ?É uma questão histórica, e o povo vai tomando conhecimento do passado sem medo, sem idolatria e sem preconceito?, afirmou Genoino, que foi solto em abril de 1977.

Aldo Rebelo (PC do B-SP), líder do governo na Câmara, disse que ?o episódio é uma mancha na história do Brasil?.

O livro é o terceiro da série ?As Ilusões Armadas?, que trata do ciclo militar (1964-1985) e foca a abordagem nas trajetórias de Geisel, quarto dos cinco presidentes do regime militar, e de Golbery do Couto Silva (1911-1987), idealizador do extinto SNI (Serviço Nacional de Informações) e uma das principais figuras do regime.

No livro, são utilizados trechos de 222 horas de gravação de conversas de Geisel e assessores feitas entre outubro de 1973 e março de 1974. Elas foram coordenadas pelo secretário particular do general, Heitor Aquino Ferreira.”

***

“Impacto do livro é muito forte, afirma Nilmário”, copyright Folha de S. Paulo, 6/11/03

“O ministro Nilmário Miranda (Direitos Humanos) classificou de ?muito forte? o impacto causado pelas declarações de Ernesto Geisel reveladas pelo jornalista Elio Gaspari em seu novo livro. ?É o próprio presidente falando e discutindo friamente maneiras de eliminar pessoas?, disse Nilmário, que esteve preso entre 1972 e 1975.

Em 1974, ele foi transferido de Juiz de Fora (MG) para o DOI-Codi, em São Paulo. ?Lá estava entupido de presos políticos. Os 12 dias que fiquei no local foram infernais. Nesse período, ficou claro que prendiam pessoas pacíficas, não era mais contra a luta armada.?

Segundo Nilmário, ?hoje a questão é achar os corpos?. Ele é contrário a medidas punitivas: ?É preciso um esforço da sociedade, inclusive de quem participou das operações, para descobrir onde estão os corpos. Mas não se trata de punições?.

A representante dos familiares na Comissão de Mortos e Desaparecidos, Suzana Lisboa, afirmou que o jornalista ?prestou um favor à história? ao revelar as gravações. ?É um favor à história e à nação. Comprova as denúncias que nós, familiares, vínhamos fazendo?. Segundo Lisboa, as gravações provam a responsabilidade do Estado na morte de presos.”

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