Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

ENTRE ASPAS > INFORMAR & DESINFORMAR

Facção não é ficção

Por Celio Levyman em 17/08/2010 na edição 603

Algumas coisas demoram para incomodar. Certamente não é de hoje, mas volta e meia a gente ouve nos meios de comunicação alguma coisa que vai se tornando chata, passa a desagradar um pouco, até chegar naquele momento em que se resolve tomar alguma atitude. E a atitude é pensar no que pode estar ocorrendo.

Imagino que todos devam se lembrar daqueles dias terríveis em que o PCC iniciou uma campanha de verdadeiro terrorismo em São Paulo, aparentemente causada pela transferência não desejada de um traficante de um presídio para outro. Houve intensa boataria, mas também mortes e atentados de vários tipos. Então, eis que nessa semana houve o julgamento de indivíduo que estava sendo denunciado por ter fornecido as armas para os criminosos que mataram um bombeiro, soldado da PM, portanto. Ouvi em rádios e TVs, li em jornais. Mas as coisas que ouvi, por exemplo, me levaram a pensar que em inúmeras outras ocasiões a mesma coisa estava sendo repetida, ad nauseam.

Eu me refiro ao fato de repórteres, por exemplo, noticiarem que réu foi condenado a uns 40 anos de prisão pela morte do bombeiro e pertencia à ‘facção que age dentro e fora dos presídios de São Paulo’. De tão falada, repetidamente, essa frase só incomodava. Não é por aí. Quem mandou se referir ao PCC dessa maneira? Foi a própria imprensa? A polícia? O judiciário? Não consigo entender. Qualquer pessoa com inteligência e memória medianas, ao ouvir ‘facção que age dentro e fora…’ vai se lembrar imediatamente do PCC, mesmo que a facção seja outra! E o crime organizado, creio, não deve ser monopólio de uma única facção.

Hospitais, bancos, supermercados…

Várias vezes, os jornalistas até cometem erros involuntários: facção que age só dentro ou só fora de presídios, que age em… em algum lugar que na hora não dá para lembrar, e assim por diante. E, certamente, não é só em São Paulo: não há tais indivíduos presos em Catanduvas, no presídio federal, por exemplo?

Não falar no PCC, é maneira de fazer o mesmo desaparecer? Falar em facção que age dentro e fora ajuda ou prejudica alguma coisa? Gostaria de saber a resposta. E podemos até ir mais adiante, especialmente nesse período. Não poderíamos falar na facção que age dentro e fora das Assembleias Legislativas? Ou da Câmara dos Deputados? Ou do Senado?

Poupemos os políticos um pouco – poderia ser a facção que age dentro e fora dos hospitais (já que gostam tanto de falar da máfia de branco, não apenas médicos, mas funcionários que podem roubar recém-nascidos, cobrar por atestados de óbito etc.). Ou a facção que age dentro e fora dos bancos, dos jornais, das TVs, dos supermercados, do Banco Central, dos açougues, das creches, dos shopping centers e por aí vai.

Quem pode dar uma resposta sensata a isso?

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Médico, mestre em Neurologia pela Unifesp

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