Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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FEITOS & DESFEITAS > VEJA & ESTADÃO

Factóides e armações

Por Luís Nassif em 12/08/2008 na edição 498

A matéria de Veja, ‘De olho em nós’ (edição nº 2073, de 13/8/2008), é comprovação da encrenca em que a revista se meteu graças aos seus ‘aloprados’. Confesso não conseguir entender mais tanta incompetência (clique aqui para ler a íntegra).


É evidente que a revista envolveu-se até o pescoço nesse jogo, mas continua caminhando em direção ao meio do pântano, sem uma estratégia de saída, como se ninguém estivesse percebendo nada.


Releve-se o fato de que Veja foi a revista que mais recorreu a grampos ilegais na história da imprensa brasileira, mais manipulou frases fora do contexto.


Vamos esquecer o passado e ficar apenas na matéria de hoje.


Apenas um fato basta para ilustrar esse jogo capenga. Daniel Dantas está sendo processado pela prática de grampo. Antes de se alinhar com Dantas – no segundo semestre de 2005 – a revista publicou matérias mostrando grampos dele, inclusive a famosa cena de espionagem em Armínio Fraga, então presidente do Banco Central, confundido com Andréa Calabi, do BNDES. Em várias matérias, acusou Dantas de ser ‘o gênio do mal’. Depois da Kroll, a própria Polícia Federal descobriu que Dantas contratou Avner Shemesh para espionar seus adversários.


Na capa, no entanto, Veja tenta de todas as maneiras apresentá-lo como vítima. Nenhuma menção sequer às próprias matérias anteriores da revista.


A peça principal da capa é um documento reservado – ‘obtido com exclusividade por Veja‘– preparado pela assessoria do Ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Consegue com a assessoria de Gilmar Mendes e ainda conta prosa sobre a ‘exclusividade’.


Jornalistas & arapongas


Diz a revista que ‘espiões, instalados do lado de fora do tribunal, usaram equipamentos para tentar interceptar as conversas do ministro e de seus assessores dentro da mais alta corte de Justiça do país’. Quando? ‘Um dia depois de o ministro Gilmar Mendes ter concedido o primeiro habeas corpus que liberava da prisão o banqueiro Daniel Dantas’.


Pequenos detalhes:


** O relatório fala em ‘possível monitoramento’ externo.


** Se de fato ocorreu – nem o relatório admite como fato consumado – há duas hipóteses. A primeira, que tenha sido preparado pela Polícia Federal. A segunda, que tenha sido preparado por alguém que pretendia lançar a suspeita sobre a PF.


Ora, convenhamos, depois de um alerta de que poderia ter sido grampeado, o gabinete de Gilmar Mendes tornou-se o mais vigiado do país. A própria revista informa que os equipamentos antigrampo são de alta sofisticação. Além do fato de que Mendes certamente está medindo cada palavra, ao telefone ou ao vivo.


Só a Veja para achar que é crível a PF – que pode ser tudo, menos incompetente (como demonstrou a própria Operação Satiagraha) – arriscar quatro anos de investigação por um grampo com possibilidade quase nula de obter resultados. Sequer menciona a hipótese óbvia do grampo (se existiu) ter sido uma armação visando comprometer a PF e o inquérito.


Ora, basta a qualquer um que quiser contaminar o inquérito contratar um araponga – o próprio autor da matéria é ligadíssimo aos arapongas de Brasília, conforme se pode conferir no capítulo de ‘O Caso de Veja’, ‘O araponga e o repórter‘ – colocar o equipamento em um carro estacionado na rua, do lado externo da sala de Mendes. Depois aguardar que a varredura do STF localize o sinal. Finalmente, passar as suspeitas ‘com exclusividade’ para a Veja. Ou não? (Dei o exemplo do diretor de redação da Veja em Brasília apenas para ilustrar a facilidade com que jornalistas convivem com arapongas).


Certamente sem saber do conteúdo da matéria da Veja, já que sai antes, a CartaCapital deu a chave para entender mais uma jogada da revista:




‘Na terça-feira 15, Nélio Machado, um dos representantes do banqueiro, anunciou que pretende ingressar com uma ‘argüição de suspeição’ contra o juiz. Segundo Machado, o magistrado prejulgou Dantas, cerceou-lhe o direito de defesa e teria pactuado com irregularidades cometidas pela Polícia Federal. É uma estratégia jurídica previsível, fortalecida pelo anúncio da saída de Queiroz do caso, algo tão óbvio que só a cúpula da PF parece não ter percebido’.


***


O dia que o Estadão foi Veja


L.N.


Durante dois dias foi possível discutir tecnicamente o tal relatório sigiloso do STF sobre a presumível escuta no tribunal. Aqui no blog não faltaram análises técnicas demonstrando a fragilidade do relatório preparado pela segurança do STF. Havia tema e tempo para desdobrar o factóide da Veja e fazer jornalismo: conferir se as análises técnicas estão corretas; estando, questionar a leviandade da mais alta corte, de se prestar a insinuações dessa monta sem estar tecnicamente amparada.


Nada disso. O Estadão – que vinha se destacando pelo discernimento – repercute o factóide de Veja ouvindo o ministro Tarso Genro (clique aqui).


A ingenuidade do ministro Tarso Genro é temerária. Uma das espertezas maiores de quem quer criar um factóide é induzir a fonte a falar sobre hipóteses.


É o caso do ‘Boimate’ da Veja, excepcional feito de Eurípedes Alcântara nos anos 80. O repórter procurou um especialista para perguntar sobre a importância do feito. O especialista disse que era impossível juntar boi com tomate. Aí o repórter indagou: ‘E se fosse possível?’. O especialista, ironizando: ‘Seria a maior revolução da história da genética’. Na edição seguinte, a matéria da Veja dizia que o especialista declarou que era a maior revolução da história da genética.


Manchete sob medida


Tarso embarcou nesse jogo. Objetivamente, o que disse sobre escutas:




‘Não acredito que tenha havido escuta no Palácio do Planalto. Mas a Polícia Federal está à disposição para investigar, se for o caso.’


Ora, se não acredita que houve, não comente sobre hipóteses. Ou acredita que quem indaga sobre hipóteses age de boa fé? Mas não conseguiu resistir:




‘Se foi feita, foi por alguém totalmente à margem da estrutura de poder da Polícia Federal. Se houve, é uma escuta marginal.’


‘Escuta ilegal clandestina é um crime. E feita contra o Supremo, se é que existe, não é só um crime, como uma vergonha.’


Ele lembrou que, se na escuta contra Mendes tiver sido usado o Guardião, instrumento oficial da PF para monitoramentos telefônicos, será fácil detectar o autor. O sistema exige que o usuário forneça digitais e registre a que investigação está ligado e quem ordenou o grampo.


Qual a manchete? Óbvia:


** ‘Escuta contra o STF é `inaceitável´, diz Tarso – Ministro afirma que suposto monitoramento não foi ordenado pela PF: `Se houve, é marginal´’


***


Gilmar Mendes e o factóide


Do Globo Online:




Presidente do STF minimiza escuta


Ainda nesta segunda, Gilmar Mendes minimizou a informação de que seu gabinete foi vítima de escuta eletrônica, dizendo que há um ‘exagero’ nesse tipo de informação. Sobre o hábeas corpus que concedeu ao banqueiro Daniel Dantas, colocando-o em liberdade, Gilmar Mendes disse que muitas vezes a opinião pública se deixa levar pela mídia, sem conhecimento de informações técnicas dos processos judiciais. Por isso, ele entende que o STF não se ‘deve deixar levar pela opinião pública’.


Desde a primeira leitura da reportagem de Veja, insisti que a tal denúncia de escuta no Supremo era um factóide da revista. Agora, o próprio presidente do STF, Gilmar Mendes, confirma. Como é que ficam as repercussões acríticas? Quando é que os jornais vão entender que repercutir denúncia da Veja tem alta probabilidade de se estar embarcando em uma furada? (L.N.)

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