Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

FEITOS & DESFEITAS > CORRIDA PRESIDENCIAL

Falta jornalismo, estúpido

Por César Fonseca em 17/08/2010 na edição 603

Está todo mundo, com grande ansiedade, buscando interpretar por que o tucano oposicionista ex-governador José Serra, conhecidíssimo da sociedade brasileira, está caindo nas pesquisas, enquanto Dilma Rousseff, petista governista desconhecidíssima, sobe, vertiginosamente, de acordo com as pesquisas mais recentes, que convergem para um mesmo ponto, com poucas variações.

O critério de julgamento da mídia e de seus comentaristas é a pesquisa, não é a reportagem. Alguém leu alguma grande matéria espetacular, por esses dias, dando conta de esforço brilhante de reportagem, junto aos atores e atrizes principais, ou seja, eleitores e eleitoras, que elegerão o próximo presidente do país em 3 de outubro?

O que se vê é um blá-blá-blá em torno dos números cruzados, levantados pelos pesquisadores. Deles, são tiradas as mais diversas ilações, umas brilhantes, outras nem tanto, em mesas-redondas, programas elitizados etc. Mas, e aquele ou aquela repórter, que poderia ser da Globo, da Record, da Band etc, saindo pelo Brasil afora, a fim de, num final de semana, atestar, olho no olho, dente no dente, o que está pensando, nesse instante, o povão? Não se vê.

No domingo, a sociedade é presenteada não com a inteligência, mas com a burrice. Os programas de variedades esperneiam, na disputa pela audiência, demonstrando que a vida inteligente está fora da TV. No programa do Faustão, nesse domingo, por exemplo, houve até uma possibilidade dessa inteligência emergir, quando um biólogo apareceu com duas lindas araras no palco. Desejava demonstrar a beleza da natureza em sua expressão genuína, dando conta da inteligência dos dois araras machos, preservando-os, o que, igualmente, deveria ocorrer relativamente aos demais animais, inteligências instintivas, não racionais.

Voos surrealistas

Só que o esforço pedagógico do professor de biologia tinha de caber em trinta segundos, de modo a atender as brilhantes invectivas dos editores em enquadrar caracterizações surpreendentes em espaço diminuto. Claro, as araras, mais inteligentes que os pauteiros e que Faustão, não cumpriram com as determinações do programa. Precisou passar o tempo, os 30 segundos, para que elas cumprissem com a sua habilidade, devidamente cultivada e estimulada pelo treinamento humano, para deleite da plateia. Passado o tempo estipulado pela Globo, as araras, acionadas, fizeram o belo gesto de cumprimentarem o público, levantando suas imensas e coloridas asas. Mas, haviam recusado a fazê-lo sob o martelo faustiano.

Outras baboseiras vão e saem ao ar, deixando, até, envergonhados telespectadores e telespectadoras, frustrados com o excesso de pretensão midiática de variedades invariavelmente idiotas. É essa mentalidade que está comandando o Brasil, nos meios de comunicação, tratando o público como débil mental. Mutatis mutandis, como os débeis mentais poderiam ser entrevistados, para colocarem suas opiniões sobre os problemas mais instigantes, como avaliação de propostas e comportamento dos candidatos e políticos brasileiros, no reinado dos fichas sujas.

Só é possível concluir que os meios de comunicação têm medo de ouvir a massa sobre o que ela mesma impulsionou o Congresso a realizar, ou seja, a votação de projeto de lei que condena quem não tem ficha limpa no exercício do mandato. Os vais e vens que os congressistas exercitaram para levar até o fim o assunto sob pressão popular, na qual os meios de comunicação se engajaram muito pouco, dado o rabo preso disponível, comprovam o receio de se fazer o verdadeiro jornalismo em tempo de campanha eleitoral.

Como, num ambiente dessa natureza, poderá ser exercido o sadio jornalismo? Resta o impulso opiniático, para tentar interpretar por que Serra desce e Dilma sobe, enquanto Marina parece parada no espaço incomensurável. Poder-se-ia, de diversas formas, lançar interpretações e todas elas teriam, naturalmente, uma pequena ou grande base de sustentação, pois há que se respeitar as pesquisas, já que critérios econométricos, científicos, ancoram seus voos surrealistas.

Por que o sistema não é questionado?

Mas, não seria mais fácil, mais convincente, o jornal, a revista ou a televisão, a partir de uma pauta instigante, percorrer todos os 27 estados brasileiros para dar uma panorâmica vibrante da realidade nacional a condicionar psicologicamente brasileiros e brasileiras que se preparam para colocar sua consciência ou falta dela nas urnas, para escolher quem comandará, politicamente, os destinos da nação brasileira? Seria pedir muito?

Depois dizem que o povo não lê jornal ou revista, que a internet decretou a morte dos periódicos, faltando, apenas, enterrá-los. A falta de assunto mais intenso, mais dinâmico, que respeite os leitores e leitoras, esta, sim, é a causa da lenta agonia midiática nacional, que reflete o interesse de uma elite que chegou ao Brasil no descobrimento para refletir o interesse da metrópole, exercendo essa tarefa até hoje. A colonização continua, minha gente, firme.

O capitalismo está aí, caindo pelas tabelas, o desemprego amplia-se, agora nos países poderosos, que caminham para a ruína, sob o congelamento dos juros, para evitar a explosão das dívidas públicas, erguidas ao longo do século 20 para esconder, dialeticamente, a inflação, mas o questionamento real do sistema não ocorre. Por que? Simples.

Pau que nasce torto morre torto

Quem fará a crítica, pelos jornais, rádios e TVs, se rádios, jornais e TVs são editados pela elite que defendeu o que está falindo e com essa falência ela se identifica, totalmente, pois é parte intrínseca dela?

A bancarrota do sistema pede jornalismo, mas quem o fará se quem comanda a mídia não ousa ir fundo nas motivações e razões dessa bancarrota, que é produto de uma estrutura produtiva e ocupacional que colocou uma elite para relatá-la cujos interesses se misturam à sua essência apodrecida?

Afinal, existe, realmente, imprensa brasileira? Ou o que está aí é importação barata comandada pelos sócios internos do capitalismo internacional?

Fernanda Montenegro, numa observação inteligente, em excelente reportagem sobre o poder no Brasil, levado ao ar neste final de semana na TV Câmara (li, no expediente, que corre rápido, ao final do programa, que um dos consultores é o brilhante Dines), disse que a cabeça da elite brasileira é a cabeça de fora que chegou para ficar aqui dentro relatando para seus próprios interesses localizados no exterior da realidade nacional.

Grande Fernanda, é isso aí: não há imprensa brasileira, mas a anti-imprensa nacional.

O pau que nasce torto não tem jeito: morre torto.

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Jornalista, Brasília, DF

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