Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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FEITOS & DESFEITAS >

Fatal ou factual?

Por Fernando Schweitzer, de Buenos Aires em 03/03/2009 na edição 527

Em período pós-carnaval é um tanto crítico refletir, diz a lenda. Em resposta ao que questionam a mim em momentos fortuitos da vida, dizendo que estou com um nível de álcool acima da média comum, sempre tive duas respostas simples e concisas.

A primeira resposta surgiu por acaso quando uma amiga me disse: ‘Nossa! Você bebe muito!’ E minha resposta foi: ‘Bebo pouco, pois sou pobre e a bebida no Brasil é muito cara.’ A segunda foi quando em uma festa alguém disse que não deveria filosofar embriagado e eu rapidamente questionei: ‘Não sabia que o teor de sangue no meu álcool alterava o meu QI.’

Imbuído deste espírito pós-carnavalesco, me atrevo a falar sobre algo que não é samba ou mulher. Difícil, em um momento de queda vertiginosa da poderosa, não citar esta nota repetida em milhares de veículos:

‘Na madrugada de segunda para terça, por volta das 5h, durante o desfile da escola de samba da Mangueira, do Rio, a câmera aérea da Globo, presa com um cabo, que passeava por todo o sambódromo, dando imagens aéreas da festa, se partiu e caiu na área das frisas, próximo ao setor 9.’

A que ponto chegamos?

Mas o assunto a que necessito me reportar é uma nota que me deixou pasmo, esquálido e talvez estarrecido. Ao ler a Folha on-line esta semana, me embasbaquei com esta nota:

‘TV Cultura deverá acabar com jornalismo diário

A TV Cultura deverá, em breve, terminar com todos seus jornalísticos diários. Segundo a coluna Canal 1, tais atrações deverão ser substituídas por programas da mesma área, porém sem compromisso com o factual.

Como a emissora é estatal, essa medida teria sido tomada a fim de seguir as vontades do governo de São Paulo.’

Que o jornalismo tem se modernizado, e até modificado alguns de seus paradigmas através dos tempos, isso habitualmente é dito desde rodas de bar a centros acadêmicos e seminários do ramo jornalístico. Agora fico bestificado ao saber que a TV Cultura, a mesma que já possui inúmeras figuras da mais fina nata do jornalismo em todos os períodos da história brasileira, possa passar a não mais possuir jornalismo diário. Quisera que fora mentira, pensei ao ler, mas infelizmente, ao checar em blogs e sítios outros confirmaria que sim, procedia a nota realmente.

Um ponto que também me causou dano fora a opção substitutiva. Pôr no lugar programas da mesma ‘área’, mas sem compromisso com o factual? Para mim, o jornalismo tem compromisso com o factual até mesmo em matérias de gaveta. ‘Afe, Maria!’ A que ponto da história chegamos?

Que interesses estariam por trás?

Outro aparte que se pode tentar refletir é que ao mesmo tempo que vivemos em uma sociedade de consumo e futilidades das massas, até as elites se perdem, pois cada vez mais ser parte de algo é importante. O fenômeno das tribos urbanas é grande reflexo disso. Ao pensarmos neste reflexo de contracultura social, podemos ver que o jornalismo também entrou nesta barca furada. Pois como as tribos que negam qualquer coisa da ‘sociedade’ e pensam criar a sua, temos hoje em dia o jornalismo querendo não ser mais jornalismo.

Em um contraponto à estatal do governo paulista, as duas grandes emissoras comerciais hoje do país investem massivamente em comunicar. A Record teve investimentos da escala de milhões em seu setor de jornalismo maximizando seu objetivo de crescimento no ibope, além de ter aberto um canal de notícias 24horas que, mesmo que não tenha apenas notícias em sua programação, tem uma inegável fonte inspiradora dentro e outras várias fora do país. A TV Cultura, com esta ação, realmente vai contra a maré mundial em que estamos vivendo. Na era da informação, é inconcebível que uma das maiores redes do país e sendo um órgão de ordem pública.

A mídia no Brasil nunca foi algo que se diga estar entre as mais compromissadas com a informação, mas neste caso parece ser pior, pois estamos falando de dinheiro público. Que empresas privadas deturpem o jornalismo ou usem vértices não muito criteriosos em seus noticiários, já é fato comum, criticável, mas comum. Agora temos um afronte de precedentes jamais antes pressentidos nem pela maior das videntes ao direito à informação livre de interesses comerciais.

Quais interesses estariam por trás deste ato? Prefiro não manifestar-me antes que me acusem de tendencioso ou qualquer outro ‘oso’ que possam querer proferir contra a minha pessoa.

******

Ator, diretor teatral, cantor, escritor e jornalista

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