Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > AGENDA ESPORTIVA

Fatos tratados como não-fatos

Por Rafael Duarte Oliveira Venancio em 02/03/2010 na edição 579

O jornalismo esportivo, principalmente no Brasil, é sempre considerado – tal como se fosse possível fazer uma métrica disso – o ‘menos’ jornalismo dos jornalismos. Valores como imparcialidade, precisão e neutralidade perante o sensacionalismo não atuam na legitimação das notícias tal como operariam nos demais noticiários.

No entanto, neste primeiro bimestre (janeiro-fevereiro/2010), algumas linhas críticas são necessárias para registrar alguns abusos feitos e vê-los como um desafio à teoria e à crítica do Jornalismo. Abusos esses que forçam a gramática jornalística, tornando não-notícias legitimadas.

Ora, como bem sabemos, o jornalismo não é uma profissão tão sem rotina assim, como bem notou Carlos Eduardo Lins da Silva em seu último texto como ombudsman da Folha de S.Paulo. Em 2010, a agenda esportiva estava claramente definida no começo do seu ano: Campeonatos estaduais de futebol, Olimpíadas de Inverno e preparações para as temporadas de automobilismo, para ficar apenas nas mais notórias. No que parecia algo tão básico quanto ‘arroz com feijão’, encontramos ocultamentos e modificações que parecem duvidar da inteligência da opinião pública. A maior de todas foi concentrada na transmissão das Olimpíadas de Inverno, realizadas em Vancouver (Canadá).

Gerúndio olímpico sem fim

Com um fuso horário de menos seis horas (cinco quando terminado o horário de verão), os eventos esportivos caíam ou no horário nobre da noite ou nas madrugadas brasileiras. Isso mostrou ser um grande impedimento para a Rede Record, que montou uma grande estratégia de marketing para ganhar dividendos de prestígio perante a Rede Globo. Assim, não querendo tirar nem as novelas e jornais do horário nobre, nem o programa da Igreja Universal do Reino de Deus das madrugadas, a Record colocou as Olimpíadas na faixa das 14 às 18 horas. No entanto, realizou uma prática pouco conhecida: a narração ao vivo de reprise.

Competições que foram realizadas na madrugada anterior, tal como a patinação artística, eram amplamente divulgadas que seriam transmitidas às 14h. Chegando o momento de transmitir o tape, tal como foi bem dito por Juca Kfouri em seu blog em 23/02/2010, a Record ‘passa como se estivesse acontecendo agora, embora sem o selo de `Ao Vivo´. (…) Sem dúvida, para a audiência, principalmente neste horário, o tape do que houve ontem na Dança do Gelo é melhor do que as provas de esqui que acontecem neste momento, mostradas pela Sportv. Mas, ao menos, o telespectador da Record deveria ser avisado que se trata de um tape‘.

A articulação dito/não-dito nesse caso é evidente e mostra uma clara patologia da linguagem jornalística que só é criticada em casos como esse. Só que, e isso não significa que estejamos justificando o erro da Record, o jornalismo sempre falou do passado próximo no presente: o jornal de hoje anuncia com o verbo no tempo presente as notícias de ontem.

A vantagem do jornal impresso é que ele pode fazer isso. Seu protocolo de legitimação o deixa realizar tal prática, fato que não acontece com a TV e com o Rádio graças à sua capacidade de ser ‘ao vivo’. Aliás, esse ‘ao vivo’ da TV pode ser tão alargado que, tal como Eugênio Bucci descreve em sua tese, torna o tempo da televisão em um gerúndio sem fim.

Jornalismo nomeador

As falhas na agenda esportiva não se resumiram à Rede Record. A Rede Globo também ampliou suas preciosidades na hora de relatar os fatos. Por preciosidades, refiro-me aqui ao fato de mudar o nome das equipes esportivas por sinônimos convencionados por ela mesma.

Nas temporadas anteriores da Fórmula 1, a Globo já se tornou notória em chamar as escuderias Red Bull e Toro Rosso de RBR e STR, respectivamente. Ora, ao apelar para as siglas das escuderias (Red Bull Racing e Scuderia Toro Rosso) que parecem no prompt da transmissão da FIA, a Globo encontra uma boa saída para a sua política de não exposição de marcas comerciais.

Ora, na Fórmula 1, as únicas marcas possíveis são aquelas que vendem carro. Assim, a mera menção das demais – tal como a fabricante de bebidas Red Bull, dona das duas equipes citadas – significaria uma hiperpromoção de uma marca ‘alienígena’ ao automobilismo. Essa regra praticada pela Globo é a mesma que leva os técnicos do Jornal Nacional a apagarem fachadas em suas notícias.

No entanto, a temporada de 2010 de Fórmula 1 apresenta uma dificuldade para a Globo: a Virgin Racing, do conglomerado de multinegócios (especialmente, gravadora e empresa de aviação) Virgin. No entanto, a Virgin não pode ser meramente ignorada porque é a escuderia de um brasileiro, Lucas di Grassi.

Por ser uma marca que não atua fortemente no Brasil tal como a Red Bull, a Globo chegou a noticiar o nome ‘Virgin’ no G1 e no Jornal Nacional. No entanto, da noite para o dia, isso se modificou. Ironicamente, a sigla não poderia ser usada, já que o VR, de Virgin Racing, lembra a marca brasileira de vale-refeição muito mais famosa que o conglomerado.

A solução encontrada foi utilizar o nome antigo da Virgin, o nome que só foi utilizado para pedir autorização para entrar na categoria: Manor. Ora, apesar de utilizar um pouco da estrutura da Manor – equipe que atua nas categorias ‘de base’ do automobilismo – é um desafio encontrar o nome Manor no paddock ou mesmo na blusa de Lucas di Grassi.

Muito dificilmente a FIA colocará Manor no seu prompt de transmissão, tal como faz com o RBR e o STR. Assim, o GP do Bahrein, no dia 14 de março, será um desafio para Globo: dá para chamar de ‘lebre’ aquilo em que está escrito ‘gato’?

Inexistência noticiosa

Só que essa nem é a pior falha da Globo – apesar de causar problemas em outras categorias, como na transmissão de vôlei pela Sportv, que chama, por exemplo, a equipe Unilever de ‘Rio de Janeiro’, causando fuga de patrocinadores – na agenda esportiva de 2010. O destaque da Globo nesse começo de 2010 é a construção do não-fato em relação à corrida de Fórmula Indy, São Paulo Indy 300.

Ora, uma corrida de rua na maior cidade do Brasil que passará pela maior via da cidade, a Marginal Tietê, recebe mínima cobertura da Globo Nacional e da Globo São Paulo, mesmo em seus aspectos não-esportivos, tais como a discussão da viabilidade, no trânsito caótico de São Paulo, de se interditar a Marginal Tietê.

Além disso, a Fórmula Indy não é qualquer categoria do automobilismo, possuindo mais brasileiros que a Fórmula 1 e, talvez, a corrida mais notória, as 500 milhas de Indianápolis. O fato de não se noticiar a São Paulo Indy 300 se baseia em uma decisão comercial – sem a mínima base jornalística – que vai além dos próprios direitos de imagem: divulgar a corrida de rua de São Paulo é divulgar a concorrência jornalística.

O interessante é que essa construção do não-fato pela Globo seria, para muitos analistas, a peça-chave do fracasso da São Paulo Indy 300. Ora, não podemos fazer previsões de futuro, mas a atração pela prova – com a ajuda essencial da internet – surpreendeu os próprios organizados quando 52% dos ingressos foram vendidos nas três primeiras semanas de venda. A São Paulo Indy 300 coloca novamente o dia 14 de março como crucial para o jornalismo esportivo da Rede Globo. Será que fatos serão tratados como não-fatos no mesmo dia em que gatos podem ser chamados de lebres?

Essa discussão parece menor por causa da baixa confiabilidade que temos no jornalismo esportivo. Só que não podemos esquecer que ela abre uma grande questão: se fazem isso no jornalismo esportivo, por que não podem fazer isso nos demais noticiários?

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Jornalista e mestrando em Ciências da Comunicação da ECA-USP, São Paulo, SP

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