Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > LEITURA DE JORNAIS

Fermento e banalidade

Por Xikito Affonso Ferreira em 04/01/2005 na edição 310

Durante os quase 10 anos em que estudei e trabalhei fora do país, nos anos 1970, desenvolveu-se em mim uma verdadeira libido do jornal brasileiro. Não existindo ainda internet, nem se encontrando nossos periódicos à venda em banca estrangeira, tratava-se de uma questão física, de conseguir o objeto impresso.

As lojas da Varig eram o melhor recurso. Na de Lagos, Nigéria, sendo o vôo do Rio semanal, desembarcavam de uma só vez, às segundas-feiras, os jornais de todos os dias da semana anterior. Não tendo outro compromisso, costumava passar ali a tarde toda me atualizando. Nem os anúncios eu aceitava deixar de ler – eram eles também forma de reviver a pátria.

Isso de ler jornal varrendo a página de alto a baixo, da esquerda para direita, quase como um livro, depois começou a exigir mais tempo do que eu tinha, por mais livre fosse minha agenda profissional. Aproveitei então uma sugestão lida em coluna de Paulo Francis e passei a descartar alguns cadernos ainda fechados. Assim faço desde então: vão direto para o lixo Esportes, Classificados e Turismo.

Relevância e oportunidade

Os quatro jornais diários que chegam aqui em casa têm finalidades distintas. A Tarde serve apenas para não se ficar alheio à vida de Salvador, mas pelo vazio do conteúdo sua leitura toma menos de 10 minutos, faço-a ainda à mesa do café e sem óculos.

O Estado de S.Paulo é o matutino de cabeceira, aliás, do ‘Gabinete Português de Leitura’. Sendo distribuído a domicilio à hora do almoço, leio sempre na manhã seguinte o número que andou pelas bancas do Sul na véspera. Adaptei-me à circunstância, deixei de procurar novidades no jornal impresso – essas, a mídia online já entregou pela TV ou internet.

É a opinião de seus colunistas que me interessa conhecer para confrontar com as minhas. Balizo também meus pontos de vista pelos editoriais do jornal dos Mesquita, freqüentemente discordando deles, e implicando com aquele tom altivo fora-do-planalto-do-Piratininga-não-há-solução mas identificando-me com a relevância e a oportunidade de discussão dos problemas ali levantados e as categorias de análise empregadas. Quinzenalmente alimento-me da sabedoria de Gilberto Kujawski, todos os sábados encontro dois outros mestres: Miguel Reale e Jose Genoino. O primeiro caderno do Estadão toma-me uns 30 minutos, deixo-o sempre com lucro.

Jornalismo de entretenimento

Os dois outros jornais são complementares. Tendo trocado o caderno de Economia do Estado pelo Valor Econômico inteiro, sobrevôo como em um helicóptero as páginas deste descartando o que não for matéria econômica ou de negócios. Afino-me com a linha afirmativa de Valor, que aproveita os elementos positivos das situações, entusiasma-se com as iniciativas promissoras, dá crédito de confiança ao futuro dos empreendimentos e do país sem ser ufanista.

Em seguida vem a Folha de S.Paulo, não pelo jornal em si, cuja falta de ideologia definida me incomoda, mas por alguns de seus articulistas. Preciso saber como reagiram aos fatos do país e do mundo gente como Carlos Cony, Rubens Ricupero, D. Luciano Mendes, Luis Nassif. Em matéria de coluna social, Mônica Bergamo é de longe a mais criativa do país. À pág A-3 sempre se encontram debates relevantes.

Leio neste Observatório, e não é difícil verificar na realidade, que a imprensa escrita está sofrendo um avanço do jornalismo de entretenimento. Que os espaços de textos mais densos e reflexivos estão perdendo terreno para outros voltados a ‘comportamento & manias, páginas de medicina & saúde, seções de comes & bebes, cadernos de showbizz e, sobretudo, colunas de notinhas mundanas’.

Que mau negócio, que triste sina!

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Empreendedor social

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