Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > CAFÉ SOCIETY

Festa reúne globais e governador

Por Mário Augusto Jakobiskind em 27/01/2009 na edição 522

No jornalismo brasileiro dos idos dos anos 1940 e 50, não poucos profissionais de imprensa, para compensar talvez os baixos salários, além de atuarem nas redações conseguiam de uma forma ou de outra alguma nomeação no serviço público. Tornavam-se, por assim dizer, dublês é de repórter e divulgadores de informes de suas repartições.

O Brasil, claro, era um país totalmente distinto do de hoje. Mas, apesar dessa deformação jornalística, nas grandes cidades brasileiras circulava diariamente um grande número de jornais, o que fazia com que os leitores tivessem maiores alternativas midiáticas impressas do que nos dias atuais. (No Rio de Janeiro, por exemplo, são poucas, ou quase nenhuma, as possibilidades de encontrar jornais de linhas editoriais diferentes nas bancas.)

Essas lembranças se devem a um informe da colunista social do Diário de S.Paulo Karen Kupfer – que também atua na revista semanal Acontece – em sua coluna intitulada ‘Quem Mais’, sobre uma festa comemorativa do aniversário do programa de televisão Saia Justa, de canal de TV a cabo do sistema Globo, ocorrida no início de janeiro, e que reuniu colunáveis das mais diversas áreas.

Por meio do informe de Karen, os leitores ficaram sabendo que no sábado (3/1) a anfitriã Suzana Villas Boas recebia em sua casa no Alto Pinheiros, em São Paulo, os convidados ‘ilustres’ em companhia do marido, o ex-cineasta e atual comentarista da TV Globo, Arnaldo Jabor. Um dos presentes foi o próprio governador José Serra, a quem Suzana presta assessoria, também candidato a presidente da República, que já conta com o apoio integral das Organizações Globo. Este apoio, diga-se de passagem, mobiliza tanto a emissora que um dos diretores foi acionado para dar sempre a última palavra nas matérias em que o governador de São Paulo aparece.

Sem contraponto

A festa em si, que reuniu também âncoras da TV Globo, seria um evento social paulista como outro qualquer, não fossem os detalhes relativos aos vínculos entre Serra, a anfitriã e o marido dela – um comentarista que tem se notabilizado por defender o mesmo ideário neoliberal do governador.

Para os estudantes de comunicação que estejam pesquisando as várias etapas do jornalismo no país, a festa comemorativa do aniversário de um programa em um canal de TV a cabo do Grupo Globo pode ajudar a melhor refletir sobre o tipo de jornalismo que se faz atualmente na mídia conservadora.

Pergunta-se: que moral tem uma empresa jornalística como a Globo, que diariamente trabalha a notícia, de forma sofisticada ou não, sempre voltada para a defesa de um ideário que basicamente defende determinados interesses econômicos e políticos que favorecem a própria organização midiática? E esse respaldo se reflete também no apoio que presta a determinados políticos, sobretudo quando ocupam cargos executivos.

Por estas e muitas outras, leitores e telespectadores deveriam ter a oportunidade de acesso a outros espaços midiáticos distintos da mídia hegemônica. Em outras palavras: se não acontecer a democratização dos veículos de comunicação, e a ampliação de espaços midiáticos, os brasileiros continuarão tendo poucas condições de conhecer o contraponto. E os mais prejudicados são sempre os leitores e telespectadores.

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Jornalista, Rio de Janeiro, RJ

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