Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & EDUCAÇÃO

Filosofia ou feijão com arroz?

Por Gabriel Perissé em 10/06/2008 na edição 489

Não há semana em que não se leiam artigos, reportagens e matérias sobre educação. Ora é o resultado de avaliações estaduais, nacionais ou internacionais, sobre o nível do ensino, ora são lamentos perante a calamidade atual, associados a elogios nostálgicos a um pretenso tempo de ouro da educação, ora é a busca de culpados para o analfabetismo, a repetência, a violência, a evasão escolar… Ora é alguma nova decisão do MEC.

À luz da mídia, a educação aparece como salvação nacional e problema crônico. Dependendo da autonomia e do tirocínio de quem escreve, podemos ler meras transcrições de dados, análises mais ou menos certeiras, comentários ideologicamente comprometidos, desabafos inócuos…

Na Folha de S.Paulo de domingo (8/6), Gilberto Dimenstein escreveu sobre o ‘direito ao deslumbramento’, enfatizando a importância da arte e da filosofia dentro da escola. A arte como porta aberta para o deslumbramento e a reflexão: ‘Nada melhor que a arte para servir de introdução a essa aventura.’

Importância da reflexão filosófica

De filosofia, e de sociologia, tratava um dos editoriais do Estado de S.Paulo no dia anterior (7/6). Se voltarmos rapidamente ao passado, lembraremos o veto de Fernando Henrique Cardoso, em outubro de 2001, ao projeto de lei da autoria de Roque Zimmerman (aprovado pela Câmara e pelo Senado), cujo objetivo era introduzir como obrigatórias aulas de filosofia e sociologia no ensino médio público. O ilustre sociólogo vetou o projeto argumentando que ‘não há no país formação suficiente de tais profissionais para atender à demanda’.

Sete anos depois, a lei é sancionada. A partir de 2009, 9 milhões de alunos poderão dedicar-se ao deslumbramento filosófico e à discussão sociológica. O editorial do Estadão, porém, lança a semente da dúvida: se não teria sido melhor ‘reforçar o ensino de português, matemática e ciência’. Insinua, talvez, que o aluno da rede pública não aproveitará a chance de refletir mais profundamente, chance em geral concedida ao estudante da escola particular. Para os mais pobres, bastaria o feijão com arroz?

O Globo, ao divulgar a notícia em sua versão on-line, vai um pouco mais longe: apresenta um vídeo, no qual alunos do colégio particular Notre Dame, no Rio de Janeiro, mostram com seriedade e serenidade a importância da reflexão filosófica.

Sem dúvida, feijão com arroz é fundamental. Mas filosofia, se queremos educação de qualidade para todos, a todos deve ser, ao menos, oferecida.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/06/2008 Igor Rack

    Alunos do ensino médio não são mais crianças Thiago. Tem capacidade de refletir filosoficamente sim. Olha aí as deficiências da educação aparecendo: não sabe ler e interpretar. Realmente o caso da educação nacional é grave.

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