Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 23 E 24/2

Folha de S. Paulo

26/02/2008 na edição 474

CUBA
Carlos Heitor Cony

Um drama de Fidel

‘RIO DE JANEIRO – Dos males da mídia, não apenas a nacional, mas a internacional, a redundância é a mais constante. A renúncia de Fidel Castro, após 49 anos de poder, antecedeu a inevitável e imensa cobertura que ele teria por ocasião de sua morte, que, sinceramente, desejo estar bem longe ainda.

Já foi dito que toda a unanimidade é burra. No caso de Fidel, nunca houve unanimidade, a não ser em seus começos revolucionários, quando teve o apoio maciço de seu povo para derrubar uma ditadura. Quando da morte de Che Guevara, foram muitos os que começaram a contestar a sua linha de subserviência a Moscou. Para mostrar independência, ele expulsou alguns diplomatas soviéticos e mandou prender comunistas cubanos, entre os quais Aníbal Escalante, o mais destacado líder do partido.

A reação foi brutal. A URSS suspendeu o abastecimento de petróleo que fornecia a Cuba, as centrales que produziam açúcar ficaram sem combustível, o petroleiro diário que abastecia a ilha passou a ser quinzenal, depois mensal. Era a ruína da precária economia cubana, começou a faltar de tudo na ilha.

Fidel sentiu necessidade de pedir desculpas ao Kremlin. A oportunidade veio em 1968, com a crise da antiga Tchecoslováquia. Foi o primeiro chefe de Estado comunista a ir a Moscou levando seu apoio à intervenção das forças do Pacto de Varsóvia que esmagaram a decantada Primavera de Praga. A ilha voltou a ser abastecida com o petróleo soviético.

O episódio comporta contraditórias explicações. Jogada de mestre de um chefe de governo diante de um desafio truculento vindo do exterior? Ou oportunismo velhaco de um político que traía os fundamentos da luta a favor de um povo? Na ocasião, a quem ele poderia pedir ajuda? Aos Estados Unidos?’

 

IMPRENSA NA JUSTIÇA
René Ariel Dotti

Desafios para o Poder Judiciário

‘A MULTIPLICAÇÃO de ações indenizatórias contra esta Folha e a jornalista Elvira Lobato, propostas por fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus alegando suposto dano moral e tendo como causa uma única reportagem considerada ofensiva, revela aspectos que transcendem as rotineiras demandas forenses. A reportagem informa que, em 30 anos de existência, a igreja tornou-se detentora de um império na área de comunicação. Além de 23 emissoras de TV e 40 de rádio, a Folha aponta a existência de 32 empresas registradas em nome de membros da instituição, em sua maioria bispos.

Jornais diários, gráficas, agência de turismo, imobiliária, seguradora e táxi aéreo constituem a parte visível de um imenso patrimônio. Por trás dessa constelação de poder, está a figura do bispo Edir Macedo, com mais de 40 livros publicados e imensa fortuna pessoal. Uma espécie de reencarnação do magnata do jornalismo William Randolph Hearst, retratado no clássico filme de Orson Welles ‘Cidadão Kane’, interpretando o personagem Charles Foster Kane.

O primeiro aspecto peculiar dessa causa única da igreja com mais de 50 processos -como fogueiras da Inquisição acesas em múltiplos lugares- é o expediente ofensivo ao princípio do devido processo legal, ao restringir o exercício do contraditório e impedir a ampla defesa, que são garantias constitucionais. A obrigação imposta ao jornal e à jornalista de comparecerem fisicamente às mais distantes comarcas do país para responder às querelas revela um autêntico abuso do direito de petição, como salientou o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, em entrevista publicada nesta Folha. Comete ato ilícito o titular de um direito que ‘ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos costumes’ (Código Civil, art. 187). Um dos exemplos da litigância de má-fé é caracterizado pelo uso do processo para conseguir objetivo ilegal. Como poderão os juízes assegurar às partes litigantes a ‘igualdade de tratamento’ exigida pelo Código de Processo Civil (art. 125, I), se uma delas ofende esse ‘equilíbrio de armas’ ao repartir indevidamente o processo para conseguir um fim proibido por lei? Nesse caso, cabe ao juiz, de ofício ou a requerimento da parte, proferir sentença que obste tal objetivo (CPC, art. 129). A necessidade de reunião de todos os processos, até mesmo para evitar decisões contraditórias, é o primeiro desafio a ser enfrentado pelo Poder Judiciário como guardião da Constituição e da lei.

O segundo é o de proteger o princípio da liberdade de informação -indissociável de um Estado democrático de Direito- quanto aos assuntos de interesse público. Possuem esta natureza os serviços de radiodifusão sonora e de sons e imagens. Eles podem ser explorados pelo particular mediante concessão através de contrato administrativo, no qual se destaca a finalidade pública. A natureza dessa atividade não dispensa os controles formais e informais. Os recursos financeiros obtidos e aplicados por uma empresa que explora serviços de radiodifusão e com deveres inerentes à responsabilidade social podem e devem ser investigados pela imprensa. Trata-se de proporcionar o controle popular e democrático de um meio de comunicação social. O conflito entre a liberdade de informação jornalística e os direitos da personalidade (nome, intimidade, vida privada, honra e imagem) deve ser resolvido em favor da divulgação da matéria de interesse público.

Na célebre conferência ‘A imprensa e o dever da verdade’, editada em 1920, Ruy Barbosa (1849-1923) escreveu: ‘A imprensa é a vista da nação. Por ela é que a nação acompanha o que lhe passa ao perto e ao longe, enxerga o que lhe malfazem, devassa o que lhe ocultam e tramam, colhe o que lhe sonegam ou roubam, percebe onde lhe alvejam ou nodoam, mede o que lhe cerceiam ou destroem, vela pelo que lhe interessa e se acautela do que a ameaça’.

E Thomas Jefferson (1743-1826), terceiro presidente dos Estados Unidos da América, declarou: ‘Se pudesse decidir se devemos ter um governo sem jornais ou jornais sem governo, eu não vacilaria em preferir a última alternativa’.

RENÉ ARIEL DOTTI , 73, advogado e professor de direito penal, é vice-presidente da Associação Internacional de Direito Penal. Detentor da medalha Mérito Legislativo da Câmara dos Deputados (2007), é autor do livro ‘Proteção da vida privada e liberdade de informação’ (RT).’

 

TELEVISÃO
Daniel Castro

Dança do poste retorna a ‘Duas Caras’ em versão ‘conservadora’

‘Para a felicidade geral da nação (masculina), a polêmica dança do poste vai voltar a ‘Duas Caras’. Responsável pelo processo que resultou na reclassificação indicativa e em uma autocensura que eliminou traços de sensualidade e palavras chulas da novela das oito da Globo, a ‘pole dance’ de Alzira (Flávia Alessandra) terá uma nova chance, mas dessa vez em ‘versão conservadora’.

Segundo o autor da novela, Aguinaldo Silva, tudo recomeçará quando Alzira flagrar seu amado Juvenal Antena (Antônio Fagundes) em uma situação supostamente romântica com Branca (Suzana Vieira).

‘Ela entende tudo errado e sai da casa do Juvenal. Então, meio por vingança, aceita descer pelo cano de novo, agora numa boate em Copacabana’, adianta Silva.

No novo emprego, Alzira fará muito sucesso. ‘Ela vai atrair a atenção da mídia e de figuras carimbadas do jet-set carioca, que irão lá só pra vê-la. Pelo menos até ela ser arrancada da boate à força por Juvenal Antena. Mas, a essa altura, já será uma estrela, uma personalidade daquelas que vão aos camarotes das cervejarias, dão entrevistas e posam nuas em certas revistas’, conta Silva.

Mas Alzira não será a única desnuda. O democrático Aguinaldo Silva também fará os rapazes da oficina mecânica de Antônio (Otávio Augusto) posarem para um calendário. ‘Mas tudo isso será feito com toda a discrição e o maior bom gosto’, brinca Silva.

A MUSA DO NAVIO

A bela Milena Toscano (foto) servirá de isca para adolescentes em ‘Poeira em Alto Mar’, microssérie de cinco episódios a ser exibida pela Globo de amanhã até sexta, às 17h. No programa, estrelado por Renato Aragão, Milena viverá Joana, moça rica que sofrerá um naufrágio. Na história, Joana conhece Davi (Daniel Erthal) assim que embarca num transatlântico. É paixão à primeira vista, mas Joana já está prometida a outro homem. Eis que surgem Didi (Aragão) e Peteco (Rodrigo Faro) em socorro do casal.

OS HOMENS DE PRETO

O jornalista e ator Rafinha Bastos (na foto, entre Felipe Andreli e Rafael Cortez), 31, é uma das apostas da Band para ‘CQC – Custe o que Custar’, a versão brasileira de ‘Caiga Quien Caiga’, o ‘Pânico’ argentino. ‘Eu sempre quis fazer jornalismo com humor, algo que não tem espaço na TV aberta. Mas o ‘CQC’ fará jornalismo com humor’, diz. Um dos quadros de Rafinha será ‘Proteste Já’. ‘Vou levantar problemas sociais, de saúde pública, conduta, leis que não são respeitadas e buscar soluções. É bem jornalístico, mas tem humor’, conta.

HOMENAGEM 1

Muita gente estranhou ao ouvir, terça passada em ‘Duas Caras’, um diálogo que se referia a ‘um breu em que nem mutante com visão noturna consegue enxergar nada’. Sim, foi uma citação explícita a ‘Caminhos do Coração’, a novela da Record que tem incomodado o futebol da Globo às quartas.

HOMENAGEM 2

‘Foi um chiste entre colegas. Adoro Tiago, que é neto do lobisomem. O pai foi Dias Gomes, e o filho, eu’, diz Aguinaldo Silva, aludindo à ‘árvore genealógica’ do realismo fantástico nas novelas.

HOMENAGEM 3

Santiago, que já trabalhou com Aguinaldo Silva em uma minissérie inédita, adorou. E vai retribuir: ‘Em algum momento, vou dizer que o Pachola [André Mattos] veio lá da Portelinha’. Portelinha é a favela de ‘Duas Caras’.

Pergunta indiscreta

FOLHA – Tem gente dizendo que sua minissérie seria plágio do filme ‘Para o Resto de Nossas Vidas’, de 1992, em que um cara convida os amigos para um fim de semana numa casa de campo e, ao final, revela que tem Aids. Pode uma coisa dessas?

MARIA ADELAIDE AMARAL (escritora) – ‘Queridos Amigos’ é tão parecida com esse filme quanto ‘Desejo e Reparação’ é parecido com a peça ‘Calúnia’, de Lillian Hellman. E os personagens e seus conflitos, desculpe, já estão no meu livro, publicado em 1992. Aliás, na linha do tema há pelo menos dois filmes bem superiores: ‘O Reencontro’ e ‘As Invasões Bárbaras’. A minissérie sairia ganhando se fosse comparada a eles.’

 

Lúcio Ribeiro

Novas temporadas de ‘Lost’ estréiam na Globo e no AXN

‘Mais mistérios sem respostas, mais gente reclamando dos mistérios sem respostas, mais discussões inconclusivas sobre o que afinal está acontecendo naquela ilha cheia de sobreviventes (não só) do desastre de avião. ‘Lost’ está de volta à TV, em dose dupla.

Nesta terça, 26, a terceira temporada da série estréia na Globo, no sofrível horário após o ‘Jornal da Globo’, mas com o apelo irresistível da participação de Rodrigo Santoro -que, na versão dublada, também faz a voz de seu personagem.

No entanto, é bom avisar: seu personagem, Paulo, um dos sobreviventes da queda do avião, não agradou aos fãs do programa e não conseguiu sobreviver a uma temporada inteira. Mas foi protagonista de um ótimo episódio e teve um fim que pode ser considerado ‘digno’.

A terceira temporada começa entediante, mas a partir do sétimo capítulo os roteiristas acordaram e fizeram o que foi o melhor ano da série até agora.

Menos de uma semana depois -e menos de um mês após a estréia nos EUA, fato inédito-, na segunda-feira, dia 3, chega ao ar no canal pago AXN a quarta temporada da série, com a promessa de resolver muitas dúvidas dos telespectadores. A principal delas é mostrar como alguns personagens conseguem sair da ilha e o que acontece com eles depois que voltam à civilização.

Novos integrantes, morte de personagens e até viagem no tempo estão presentes no novo ano, que tem a missão de reconquistar a audiência americana e manter o ânimo de quem continua à procura de respostas. Mesmo que para isso seja necessário criar mais perguntas.

LOST – 3ª TEMPORADA

Quando: estréia à 0h17 de terça para quarta

Onde: Globo

LOST – 4ª TEMPORADA

Quando: dia 3/3, às 21h

Onde: AXN’

 

Bia Abramo

Moldura paradidática

‘PARA QUEM tem mais de, digamos, 35 anos, é difícil ficar insensível à ‘Queridos Amigos’, a nova minissérie de Maria Adelaide Amaral que estreou na última segunda-feira.

Está lá um pedaço de memória muito vívida para os brasileiros nascidos até o início dos anos 70: o ano é 1989, da primeira eleição direta para a Presidência da República depois do golpe de 1964.

Em termos dramáticos, não poderia haver período melhor: os personagens, ao mesmo tempo, têm que se haver com as escolhas de juventude, algumas delas ainda marcadas pela radicalidade típica da geração do imediato pós-Segunda Guerra, e com a debacle das possibilidades utópicas tanto no plano histórico-político, assinaladas pela queda do Muro de Berlim, como no pessoal.

Um grupo de amigos, virando a esquina dos 40 anos no final da fatídica década de 80, volta a se reunir, por insistência de um deles, o escritor/ publicitário Léo (Dan Stulbach), que está doente. São professores, artistas, jornalistas, todos com um passado ligado à esquerda e às mudanças comportamentais da década de 60, ao refluxo político dos anos 70 e ao desencanto da década que sepultou o século 20.

A fórmula já foi usada no cinema – ‘O Reencontro’, de Lawrence Kasdan em 1983; ‘Para o Resto de Nossas Vidas’, de Kenneth Branagh em 1992- e, nos dois casos, resultou em filmes, se não brilhantes, simpáticos e emocionantes. Como na minissérie de Maria Adelaide Amaral, o balanço da geração do baby boom tem uma certa amargura e desencanto que acabam por tocar a todos que estiveram por lá.

Em ‘Queridos Amigos’, entretanto, ao balanço existencial de uma geração se impõe uma moldura paradidática que tenta ‘explicar’ tudo o que acontece reiterando de forma mecânica as ligações com a história. Como nas minisséries ‘Um Só Coração’ e ‘JK’, parte-se do pressuposto de que os indivíduos estão como que acossados pela história (e não pela memória), o que resulta em narrativas esburacadas pela obrigatoriedade de fazer referências emblemáticas a todo momento.

É como se a vida privada de determinado período se desse na frente de um pano de fundo de uma apresentação em Power Point, onde se sucedem as imagens, os sons, os objetos, as palavras típicas daquele momento.

Mesmo que a autora não classifique ‘Queridos Amigos’ como ‘histórica’ e tenha baseado a série em obra original, o molde da história, ao menos nos primeiros capítulos, se impôs. Além de empobrecedor para a história e para a narrativa, resvala fácil, fácil na chatice pura e simples.’

 

OSCAR
Sérgio Rizzo

A nova Hollywood

‘Se é verdade que os ‘velhinhos’ controlam a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, como ainda se costuma dizer em relação às preferências de seus 6.000 integrantes, então já não se fazem mais ‘velhinhos’ como antigamente.

Nos anos 70, eles preferiam ‘Golpe de Mestre’ (1973) e ‘Rocky’ (1976), mas também ‘O Poderoso Chefão’ (1972) e ‘Um Estranho no Ninho’ (1975). Na década de 80, consagraram ‘Gente como a Gente’ (1980), ‘Gandhi’ (1983), ‘Laços de Ternura’ (1984) e ‘Entre Dois Amores’ (1986), ainda que sobrasse também para ‘O Último Imperador’ (1987). ‘Dança com Lobos’ (1990), ‘A Lista de Schindler’ (1993), ‘Forrest Gump – O Contador de Histórias’ (1994) e ‘Titanic’ (1997) estão entre as preferências dos anos 90, junto a ‘O Silêncio dos Inocentes’ (1991) e ‘Os Imperdoáveis’ (1992).

No século 21, a troca de guarda em Hollywood se expressa em dois movimentos distintos. O primeiro, característico da Academia, é a reverência aos velhinhos de verdade, jovens rebeldes de ontem transformados em mestres da geração que tomou o poder, como Clint Eastwood (‘Menina de Ouro’, 2005) e Martin Scorsese (‘Os Infiltrados’, 2007).

O segundo, que privilegia de forma corporativa o reconhecimento ao talento de representantes da nova ordem, como Peter Jackson (‘O Senhor dos Anéis’, 2004) e Paul Haggis (‘Crash’, 2006), pauta a 80ª cerimônia de entrega do prêmio, realizada hoje, em Los Angeles.

A vez dos Coen

Se as previsões da imprensa norte-americana se confirmarem, os principais vencedores da noite serão os irmãos Joel, 53, e Ethan Coen, 50, que devem receber os prêmios de melhor filme (eles são os produtores), direção e roteiro adaptado por ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’, policial com ambientação de faroeste que, em tempos de outros velhinhos, poderia aspirar somente a indicações secundárias -e olhe lá.

A festa dos cinqüentões deverá incluir o inglês Daniel Day-Lewis, 50, favorito ao Oscar de melhor ator por ‘Sangue Negro’, de Paul Thomas Anderson, 37, que disputa o Oscar de direção e roteiro adaptado em status semelhante ao dos irmãos Coen à época de ‘Fargo’ (1996): ele é o jovem talento cujo dia ainda chegará. Até pouco tempo atrás visto como representante da novíssima geração, Anderson já começou a parecer ‘velhinho’, ao menos neste ano, em que o lugar da nova turma da cidade é ocupado pelos realizadores de ‘Juno’: o diretor Jason Reitman, 30, a atriz Ellen Page, 21, e a roteirista Diablo Cody, 29.

O processo de renovação já havia sido notado dois anos atrás, quando ‘Crash’ disputou o Oscar de melhor filme com outros colegas do cenário independente, ligados aos grandes estúdios, mas à margem deles: ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ (história de amor gay), ‘Capote’ (drama sobre um jornalista gay que se envolve com um assassino) e ‘Boa Noite e Boa Sorte’ (apologia liberal da independência jornalística contra os poderosos).

Oscar dos independentes

Neste ano, ao menos quatro concorrentes na principal categoria pertencem ao mesmo espectro: ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’ (produzido pela Paramount Vantage e pela Miramax, entre outras), ‘Sangue Negro’ (idem), ‘Juno’ (Fox Searchlight e outras duas produtoras menores) e ‘Conduta de Risco’ (produzido por George Clooney, Steven Soderbergh, Anthony Minghella e Sydney Pollack, entre outros).

Apenas ‘Desejo e Reparação’ (produzido pela britânica Working Title e pela francesa Studio Canal) tem um modelo de produção que lembra o dos dramas de reconstituição histórica bem-sucedidos em outras ocasiões. O Oscar, ao completar 80 anos, não traduz apenas uma nova troca de guarda em Hollywood. Ele aponta também para uma outra forma de realizar filmes em que autonomia, inventividade e alguma ousadia possam renovar o cinema como negócio no limiar de uma revolução tecnológica que, para muitos, provocará o seu fim, tal como o conhecemos.’

 

Pedro Butcher

Teatralidade de Day-Lewis pode render 2º prêmio

‘Daniel Day-Lewis faz jus à estirpe da grande escola de interpretação britânica, ao perpetuar e modernizar o estilo de Laurence Olivier, Alec Guinness, David Niven e Peter O’Toole -todos reconhecidos pela Academia. Sem medo de mergulhar fundo na composição de seus personagens, ele recusa o minimalismo e busca a grandiosidade, flertando com a canastrice. Mas sua teatralidade, estranhamente, guarda incrível empatia com a câmera.

Como Daniel Plainview, o homem-monstro de ‘Sangue Negro’, que despreza a humanidade e é movido pela ganância, Daniel Day-Lewis foi indicado pela quarta vez ao Oscar de melhor ator e pode, com justiça, ganhar sua segunda estatueta. A primeira veio em 1990, pelo filme ‘Meu Pé Esquerdo’, pequena produção irlandesa em que vivia Chris Brown, um homem com paralisia cerebral.

Filho do poeta Cecil Day-Lewis e neto, por parte de mãe, de Michael Balcon -figura importantíssima do cinema inglês, que chefiou os estúdios Ealing-, Daniel Day-Lewis estudou teatro em Bristol e chegou a atuar na Royal Shakespeare Company. No cinema, depois de algumas pontas (uma delas em ‘Gandhi’), a primeira vez em que chamou atenção de fato foi em 1985, quando foram lançados ‘Uma Janela para o Amor’, de James Ivory, e ‘Minha Adorável Lavanderia’, de Stephen Frears.

No primeiro, típica produção de época, ele encarnava a essência do esnobe inglês; no segundo, era o oposto absoluto: um punk londrino que namorava um jovem de origem paquistanesa. Essa dupla de personagens lhe rendeu o prêmio de ator coadjuvante da Associação de Críticos de Nova York.

Em 1988, Lewis viveu o fotógrafo Tomas em ‘A Insustentável Leveza do Ser’, adaptação de Phillip Kaufman para o best-seller de Milan Kundera -um trabalho que, hoje, ele não vê com bons olhos: ‘Fui tragado pelo furacão criado em torno do projeto e acreditei que todos os atores jovens queriam aquele papel. Mas se tivesse prestado atenção e lido o roteiro com calma, saberia que não estava pronto para a experiência’, disse Lewis, recentemente, em entrevista ao jornal inglês ‘The Guardian’.

Outros de seus trabalhos marcantes são ‘Em Nome do Pai’ (que lhe rendeu sua segunda indicação ao Oscar); ‘As Bruxas de Salém’, adaptação da peça de Arthur Miller em que ele conheceu sua atual mulher (Rebecca Miller, filha do autor), e as duas parcerias com Martin Scorsese: ‘A Época da Inocência’ (1993) e ‘Gangues de Nova York’ (2002, filme que lhe rendeu sua terceira indicação ao Oscar).’

 

França tem boa presença na festa dos EUA

‘Se no ano passado o México triunfou no Oscar, garantindo 12 indicações e quatro prêmios com ‘Babel’, ‘O Labirinto do Fauno’ e ‘Filhos da Esperança’, na cerimônia de hoje, se há uma cinematografia não-americana em destaque, ela é a francesa.

São, ao todo, sete indicações para produções da França: três para ‘Piaf -Um Hino ao Amor’, uma para a animação ‘Persépolis’ e outras três para o drama ‘O Escafandro e a Borboleta’ (já descontando, nesse último caso, a quarta indicação do filme, que foi para o diretor americano Julian Schnabel).

A presença de estrangeiros entre os indicados ao Oscar não chega a ser novidade. Mas é fato que, com a globalização das produções e o crescimento da importância do mercado estrangeiro para Hollywood, a freqüência de indicados de outros países tem sido cada vez maior.

Esse ano, por exemplo, alguns favoritos nas categorias principais não são americanos. É bem provável que o inglês Daniel Day-Lewis leve seu segundo Oscar como melhor ator por seu desempenho em ‘Sangue Negro’. O espanhol Javier Bardem (‘Onde os Fracos Não Têm Vez’) também é apontado como provável vitorioso na categoria de melhor ator coadjuvante.

Entre as candidatas a melhor atriz, a disputa está entre a britânica nascida na Índia Julie Christie (por ‘Longe Dela’) e a francesa Marion Cotillard, pela sua atuação em ‘Piaf – Um Hino ao Amor’. A australiana Cate Blanchett concorre duas vezes -uma como melhor atriz, por ‘Elizabeth – A Era de Ouro’, e outra como coadjuvante, por ‘Não Estou Lá’, em que é apontada como favorita.

Se forem contados os vizinhos canadenses, o índice de estrangeiros cresce ainda mais com as indicações de Ellen Page (na categoria melhor atriz, por ‘Juno’), Sarah Polley (indicada em melhor roteiro original, por ‘Longe Dela’) e Jason Reitman (melhor diretor, por ‘Juno’).

Além de Bardem, a Espanha tem outro representante na categoria de melhor trilha sonora original, que inclui entre seus concorrentes Alberto Iglesias, por ‘O Caçador de Pipas’.’

 

Inácio Araújo

Só ‘Juno’ pode salvar uma premiação sem graça

‘Não se fala uma linha em Hollywood sem ajuda dos roteiristas. E eles são grevistas contumazes e durões. As séries de TV já estavam no toco, nas reprises, e eles, parados.

Mas voltaram para o Oscar. Um Oscar que promete ser um tanto chocho, na verdade. Para evitar que isso aconteça, o mínimo a fazer é dar o prêmio de melhor roteiro a ‘Juno’, um filme não sem problemas (um deles, aliás, vem do roteiro: todos os personagens têm o mesmo tipo de humor mordaz), mas também não sem uma vitalidade que vem, em grande medida, do roteiro. Há quanto tempo não víamos em cena uma adolescente com pais (uma madrasta, inclusive) tão compreensivos? Não custa fugir à convenção.

Mas o que fará a diferença num Oscar para ‘Juno’ é menos o roteiro propriamente dito do que sua autora, Brooke Busey-Hunt, que atende pelo nome de Diablo Cody, nos meios literários e cinematográficos, mas já se chamou Bonbon e Roxanne, entre outros, no tempo em que fazia strip-tease. Só ela pode restaurar a falta de respeitabilidade do cinema, o que ‘Juno’ às vezes até ameaça fazer.

Do outro lado, o da reverência, está ‘Sangue Negro’, de Paul Thomas Anderson, que parece carregar nos ombros o peso da tradição cinematográfica. Ao assisti-lo, lembramos de ‘Assim Caminha a Humanidade’, de ‘Ouro e Maldição’, de ‘Cidadão Kane’, só para ficar nos mais óbvios. Assim como é óbvia a trajetória de Daniel Plainview e mais óbvio ainda que Daniel Day-Lewis tem de ganhar o prêmio de melhor ator. Todos os demais concorrentes são ótimos, não há dúvida, mas o papel de Day-Lewis é o filme de Anderson, além de ser difícil pra caramba. O filme, no mais, é bem menos impressionante do que ele.

Com o mesmo senso de humor e leveza que a levou à indicação de ‘Juno’ como melhor filme, a Academia podia ter indicado ‘Os Senhores do Crime’, de David Cronenberg, ou ‘Sweeney Todd’, de Tim Burton: têm a cara da vitalidade do cinema, são fiéis a si mesmos, mas capazes, sempre, de trilhar caminhos inesperados. Mas as indicações de Viggo Mortensen (‘Os Senhores do Crime’) e Johnny Depp (‘Sweeney Todd’) para melhor ator são animadoras.

É difícil falar de atriz, já que alguns filmes ainda não chegaram a nós. Em todo caso, se Cate Blanchett não ganhar, já estaremos no lucro. Não por ela: ‘Elizabeth – Os Anos de Ouro’ é um tormento (e os produtores já nos ameaçam com uma terceira parte).

Nunca fui muito fã dos irmãos Coen, mas ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’ é, de longe, o filme mais inteiro dos que concorrem a melhor filme e/ou direção. Tem uma questão que desenvolve (o passar do tempo, as mudanças, as inadequações a que são submetidos os velhos), um elenco forte e enfrenta de frente os problemas e riscos do ‘thriller’, sem defender-se do eventual ridículo (coisa que os Coen costumam fazer). Como a véspera é feita mesmo para palpites, se o prêmio roteiro original me parece oportuno, que vá para Diablo Cody (quando mais não seja pelo nome), os Coen poderiam bem levar o de roteiro adaptado, junto com os de direção e filme.’

 

Marco Aurélio Canônico

Animações favoritas contrapõem estilos

‘Caçula do Oscar, a categoria de melhor longa de animação (que estreou na festa de 2002) terá neste ano mais uma briga de cachorros grandes, polarizada entre o francês ‘Persépolis’ e o americano ‘Ratatouille’.

Se não tem o mesmo calibre da disputa de 2006 (quando ‘O Castelo Animado’, de Hayao Miyazaki, e ‘A Noiva-Cadáver’, de Tim Burton, perderam para ‘Wallace & Gromit’, da Aardman) é apenas porque seu terceiro concorrente, ‘Tá Dando Onda’, não está à altura.

‘Persépolis’, baseado na HQ homônima da iraniana Marjane Satrapi (e dirigido por ela e por Vincent Paronnaud), levou o Prêmio do Júri em Cannes 2007, disputando com filmes não animados. Foi também o indicado da França para o Oscar de melhor filme estrangeiro, mas ficou fora da disputa.

Já ‘Ratatouille’, de Brad Bird (leia-se Pixar), venceu recentemente o britânico Bafta e o Globo de Ouro, ambos na categoria animação, e bateu ‘Persépolis’ na única vez em que se encontraram -no Prêmio Annie (o Oscar do gênero).

Briga de estilos

A competição é também um tira-teima entre dois estilos (a animação clássica, de ‘Persépolis’, e a computadorizada, de ‘Ratatouille’) e duas escolas (a mais comercial, da Pixar, e a de pretensões mais artísticas, representada por Satrapi).

Este tipo de disputa está empatada até agora -no Oscar 2002, a arte (‘A Viagem de Chihiro’) bateu o comércio (‘A Era do Gelo’), mas, no ano seguinte, o resultado se inverteu, e ‘Procurando Nemo’ venceu ‘As Bicicletas de Belleville’.

Quanto aos pingüins surfistas de ‘Tá Dando Onda’, de Ash Brannon e Chris Buck, podem ser chamados de zebras -sua simples entrada na disputa já foi recebida com surpresa, pois alijou concorrentes de peso como ‘Os Simpsons – O Filme’ e ‘Bee Movie’, que concorreram ao Globo de Ouro.’

 

Sérgio Rizzo

Votação tem regra que limita lobby de produções

‘De ‘Across the Universe’ a ‘Zodíaco’, a lista de candidatos ao Oscar totalizou 306 longas-metragens – incluindo documentários e filmes de animação- lançados em Los Angeles durante o ano passado. O maior contingente, de 33 títulos, se concentrou na letra ‘S’, a de ‘Shrek Terceiro’, ‘Sicko’, ‘Os Simpsons’, ‘Sunshine’ e ‘Superbad’.

Produções estrangeiras como ‘Persépolis’, ‘Piaf -Um Hino ao Amor’, ‘Novo Mundo’ e ‘A Desconhecida’ também estavam na lista, habilitadas a concorrer nas mesmas condições de ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’ e de ‘Sangue Negro’. Se tivessem votos, poderiam concorrer ao Oscar de melhor filme.

É por esse motivo que ‘Persépolis’ -representante da França na categoria de filme estrangeiro, para a qual não foi selecionado- disputa o Oscar de longa de animação, e Marion Cotillard (‘Piaf’) foi incluída entre as cinco indicadas ao prêmio de melhor atriz. Tanto um quanto a outra tiveram votos para chegar à reta final.

Cerca de 6.000 integrantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood extraíram dessa relação de 306 ‘indicáveis’ os cinco finalistas em 19 das 24 categorias -regras específicas orientam as disputas de filme estrangeiro, documentários de longa e curta-metragem, e curtas ao vivo e de animação, bem como os prêmios honorários.

O processo das indicações ocorreu em janeiro, com o envio das cédulas aos integrantes da Academia, sua devolução e tabulação, feita com base em metodologia particular, por funcionários da auditoria PricewaterhouseCoopers. Cada profissional pode apontar cinco nomes em sua área de atuação (atores votam em atores, fotógrafos em fotógrafos) e todos indicam cinco títulos para melhor filme.

Antes mesmo que as cédulas fossem enviadas, no entanto, anúncios publicados na imprensa por produtores e distribuidores ‘lembravam’ os eleitores quem poderiam ser os candidatos, com o uso da tradicional frase ‘for your consideration’ (para sua consideração).

Esse esforço de lobby -que prosseguiu, no caso dos indicados, até o último final de semana- precisa se submeter a algumas regras. Em tese, elas limitam o poder de fogo de produções com mais recursos (que, se não houvesse restrições, poderiam enviar um kit promocional, incluindo o próprio filme em DVD, para cada um dos 6.000 eleitores).

Empate

Na segunda fase de votação, que foi encerrada na última terça, todos os integrantes da Academia votam em todas as categorias -com exceção, novamente, das cinco disputas mencionadas anteriormente. Leva o Oscar aquele que tiver mais votos.

Em caso de empate entre concorrentes, divide-se o prêmio, como ocorreu com Katharine Hepburn (‘Leão no Inverno’) e Barbra Streisand (‘A Garota Genial’), na categoria de melhor atriz, em 1969.’

 

ELEIÇÕES NOS EUA
Daniel Bergamasco

Todos os ternos do presidente

‘Única mulher na disputa à presidência dos EUA, Hillary Clinton vê seus modelitos ‘estampa de sofá’ virarem atração na campanha.

E quem precisa do tapete vermelho do Oscar quando os candidatos à presidência usam as roupas mais comentadas (e espinafradas) do país, são assunto nas revistas de moda e fazem até debate dentro do Kodak Theater (onde é entregue a estatueta)?

Um alento e tanto em um ano que teve greve dos roteiristas de Hollywood e dos funcionários da Broadway, os presidenciáveis dos EUA têm feito seu Fashion Week particular a cada semana de eleições primárias. O democrata Barack Obama, em um estilo que lembra o dos galãs da era Kennedy, e o republicano John McCain, com o cabelo lambido para despistar a calvície e o colarinho apertado para esconder as queimaduras do pescoço, rendem assunto. Mas Hillary Clinton, a rival de Obama e única mulher no páreo, é a favorita dos paredões.

‘O cabelo dela parece o do Piu-Piu’, diz Perez Hilton, que assina um blog americano de moda e celebridades. Para o jornal ‘Washington Post’, Hillary lança mão de ‘um amplo vestuário de ternos e jaquetas, com tudo do cáqui escuro ao amarelo canário e florais de estampa de sofá’. Tudo, tudo, não: há também os sapatos quase masculinos, as calças pretas, os ternos monocromáticos em vermelho ou azul Bic, as bijuterias de feirinha hippie e os colares de pérola.

Convidada pela revista ‘Vogue’ para um ensaio, Hillary disse não. E depois tomou bronca da editora Anna Wintour, que escreveu na Carta do Leitor, o editorial da revista: ‘A noção de que uma mulher contemporânea deve parecer masculina para ser tomada seriamente como aspirante ao poder é francamente assombrosa. Aqui é a América, não é a Arábia Saudita’. Semanas depois, Hillary aceitou o convite da revista ‘US Weekly’ para comentar suas roupas mais feias de todos os tempos. Algumas das considerações, enviadas por e-mail à publicação: ‘Não foi minha culpa, foi culpa dos anos 60’; ‘É só uma ilusão de ótica’; ‘Eu sou uma grande entusiasta da reciclagem – mesmo de carpetes [sobre um blusão estampado]’. Não faltou quem achasse que as gracinhas fossem coisa de marqueteiro de campanha. Afinal, Hillary está em processo de ‘humanização’ para enfrentar o carisma de Barack Obama, à frente dela na corrida presidencial. O jornal ‘The New York Times’ colocou em dúvida a autoria das respostas, mas anotou que Hillary tem sido criticada até por seu ‘cleavage’ (espaço deixado entre os seios, antes folgado demais e atualmente sempre coberto).

O brasileiro Walter Rodrigues, que veste a primeira-dama do Brasil, Marisa Letícia, diz que ‘a única vez que vi a Hillary bonita foi na época do big escândalo de seu marido [com Monica Lewinsky], quando a toda-poderosa Anna Wintour a colocou na capa da ‘Vogue’ toda repaginada. Pena que ela não aprendeu a lição e nem tenha pedido os telefones dos stylists que a vestiram’. Mas em que a candidata peca? ‘Hillary, como uma boa americana de Illinois, mesmo tendo passado dias de glória na Casa Branca com toda as mordomias que podemos imaginar, não perdeu seu ar de advogada do interior nos anos 80’, critica Rodrigues. ‘Ela opta por estes costumes de calça e blazer que a deixam com ar de matrona e de diretora de pensionato chique. E tenta disfarçar a sisudez com colares que não ajudam e lhe encurtam o pescoço, deixando sua imagem sufocada. Isto sem falar nas echarpes, que têm até sentido no frio, mas… não poderiam ser leves e macias, garantindo um look mais jovial?’

Virou hit de humor também a afirmação de Hillary de que, ‘na minha Casa Branca, eu é que vou usar pantsuits [calça do terno]’. Logo surgiu na internet o videoclipe de uma garota, Taryn Southern, que diz ter uma queda por Hillary e afirma torcer para ela ser bissexual. A letra: ‘Hillary, eu gosto de seu cabelo/das pantsuits que você veste/ e do formato do seu bumbum’.

BARACK OBAMA

O John Travolta do Havaí

Como Hillary, seu adversário, Barack Obama, também ganhou vídeo de uma ‘fã’ na internet, uma garota que ficou famosa como ‘Obama Girl’ e que dizia ter ‘uma queda’ por ele. Chamado de ‘John Travolta do Havaí’, por seu estilo da ilha onde nasceu e foi criado, o senador de 49 anos usa ternos ajustados, vez ou outra sem gravata. O hábito gerou matéria extensa no jornal ‘The Wall Street Journal’. Chris Lehane, que já foi consultor de Bill Clinton, aparece na reportagem afirmando que ‘o visual [sem gravata] pode ajudar a transmitir juventude e abertura para mudança’.

Obama também fez sua marca por embarcar na tendência do paletó de dois botões, tido atualmente como mais sofisticado. ‘Obama não deve se preocupar em ser chique ou estar na moda. Deveria se vestir com a simplicidade americana. Aconselharia um paletó mais simples’, diz o estilista Carlos Miele, que tem loja em Manhattan.’

 

CIDADÃO KANE
Diógenes Muniz

A tela fora do lugar

‘O professor britânico John Ellis, 55, do departamento de mídia e artes da Universidade de Londres, diz nunca ter dado uma ‘entrevista profunda’ sobre o documentário ‘Muito Além do Cidadão Kane’. Simon Hartog, diretor do filme, morreu em 1992, antes mesmo de a obra ser exibida no Reino Unido. Ellis tornou-se assim uma testemunha rara dos bastidores de um dos mais polêmicos filmes sobre a mídia e a política brasileiras.

Transmitido pela primeira vez em 1993, no canal britânico Channel 4, o filme usa o empresário Roberto Marinho (1904-2003) como metonímia da concentração da mídia no Brasil -daí a referência a Charles Foster Kane, personagem criado por Orson Welles em ‘Cidadão Kane’ (1941).

Políticos como Leonel Brizola (1922-2004), Antonio Carlos Magalhães (1927-2007) e Luiz Inácio Lula da Silva -apresentado como líder sindical- falam sobre a emissora no filme. Hoje, ao comentar o governo Lula em entrevista à Folha, Ellis critica a criação de uma TV pública no Brasil. ‘Talvez seja tarde demais’, pondera, por e-mail, de Londres.

Completando 15 anos, ‘Muito Além do Cidadão Kane’ nunca foi transmitido pela TV brasileira -nem poderia, por questões de direitos de imagem. Virou, apesar disso, ou talvez por isso, um ícone na luta pela democratização do acesso à informação desde os anos 90, quando já circulava em VHS nos sebos e nas universidades.

O documentário, que custou cerca de US$ 260 mil [R$ 445 mil] à extinta produtora independente Large Door, na qual Hartog e Ellis eram sócios, já foi visto cerca de 800 mil vezes na internet. Nos fóruns da rede, é elogiado, criticado e ganha a alcunha de ‘a história proibida da Rede Globo’.

FOLHA – O que acha de o governo Lula tentar erguer uma TV pública?

ELLIS – Talvez seja tarde demais para a criação de uma TV pública. O que ela mostraria na maior parte do tempo? Há, claro, sempre espaço para uma melhora da informação pública na TV, tanto em notícias, em programas factuais, quanto nos assuntos presentes nas novelas, e como eles são abordados. A experiência no Reino Unido mostra que a TV pública deve ser separada do governo. Esse modelo de TV pública é possível no Brasil?

Nenhum governo que eu conheço iria querer criar agora uma empresa de telecomunicações se não pudesse controlá-la diretamente. Especialmente agora, quando há muitas TVs espalhadas pelo mundo. O serviço público de TV na Europa foi iniciado em uma época em que a TV era uma novidade.

Mesmo que a BBC seja separada do poder, quando a emissora foi realmente contra o governo em questões políticas específicas, o governo conseguiu reagir de maneira bem-sucedida contra essa oposição.

O sucesso da TV pública independente no Reino Unido não foi propriamente na área da política. Entretanto foi bem-sucedida na educação pública, sobre temas locais importantes, na participação social, na proteção do consumidor e até em melhorar o padrão geral dos programas no país.

FOLHA – O sr. acha que o documentário ‘Muito Além do Cidadão Kane’ ainda é atual?

ELLIS – Ele descreve uma situação que evoluiu, mas não sei bem qual é a profundidade dessas mudanças. O filme é bem-sucedido também, com a ajuda de muitos arquivos que permitem fazer essa oposição, em contar a história do crescimento da dominação da Globo na mídia brasileira.

Essa é uma história importante e deveria ser conhecida pelo menos por todos que estão estudando a mídia nas universidades e qualquer pessoa que estiver interessada na história política do Brasil.

FOLHA – Há quem diga que o Channel 4 encomendou seu documentário para atacar a Globo, que ameaçava entrar no mercado europeu de TV. Isso é verdade?

ELLIS – Definitivamente não. O objetivo do programa era justamente entender a TV no Brasil. No passado, o Channel 4 exibiu pelo menos uma novela da Globo (‘Escrava Isaura’), mas a produção não foi um grande sucesso. Há uma enorme diferença entre a cultura das TVs do norte e do sul da Europa.

A Globo teria mais chances em mercados como Espanha, Itália, Grécia ou, especialmente, Portugal, mas não no Reino Unido. A competição no Reino Unido vem das empresas norte-americanas e das empresas de Rupert Murdoch (News International, BSkyB e o conglomerado da Fox).

FOLHA – O filme foi proibido?

ELLIS – Isso não é verdade. A Large Door concedeu o direito de exibir o programa em eventos e em público a diversas organizações no Brasil. Não poderia ser transmitido pela televisão porque muitas imagens pertencem à TV Globo.

Fiquei sabendo que o vídeo foi mostrado em muitos eventos públicos no Brasil. Ele foi feito por meio da lei britânica de direitos autorais, que permite o uso de trabalhos escritos e, por extensão, audiovisuais, desde que ‘com o propósito de fazer comentários e revisões críticas’ [sobre aquela obra].

O documentário foi finalizado por Simon em março de 1992. Ele entrou em coma no início de junho daquele ano e morreu em 17 de agosto sem ter recobrado a consciência. Eu supervisionei a revisão do programa e a inclusão de uma entrevista para atualizar o filme, que foi ao ar em maio de 1993.

No Brasil, talvez você possa considerar que o filme é proibido, já que a recusa da Globo em ceder os direitos de exibição de suas imagens significa que ele não pode ser transmitido por canais brasileiros.

FOLHA – O documentário é apontado por alguns como um produto manipulador, que usa uma falsa linearidade para induzir o público a acatar sua posição.

ELLIS – Toda representação ‘manipula’ o público. O filme tem uma narração linear exatamente porque quer mostrar o crescimento do poder da mídia durante um período difícil da história moderna do Brasil. Ele foi feito para uma audiência no Reino Unido que não sabia nada sobre a história do Brasil, não se esqueça! Deveria haver outras narrativas sobre essa história também.

FOLHA – Nos últimos anos, o Brasil viu se intensificar uma guerra entre a Record e a Globo. O sr. tem acompanhado?

ELLIS – Não tenho acompanhado de perto esse essa história. Mas sei que duas empresas estavam interessadas em comprar os direitos de ‘Muito Além do Cidadão Kane’ no Brasil quando ele foi mostrado pela primeira vez no Reino Unido. Uma era a própria Globo.

Eles perderam o interesse quando disse a eles que poderiam comprar os direitos de TV, mas não as licenças para exibição em público e a distribuição de VHS, já que esses direitos já haviam sido concedidos a outras organizações no Brasil.

A outra empresa era a TV Record. A igreja [Universal do Reino de Deus] já tinha uma filial em Londres naquela época. Mas percebeu que haveria uma disputa judicial com a TV Globo a respeito das muitas imagens retiradas da programação deles. Então decidiu não comprá-lo.’

 

RAMBO E CAP. NASCIMENTO
Inácio Araújo

O Rambo da periferia

‘Em ‘Rambo 4’, John Rambo está na Tailândia. É um homem amargo e solitário, que não acredita nos outros homens.

Do outro lado da fronteira, em Mianmar, milicianos esmagam uma revolta muito mais pelo prazer de fazer mal aos outros do que por um (inexistente) espírito profissional. É nessa selva que um grupo de médicos e pregadores pretende se aventurar, com a arrogância da ciência e da fé. Rambo desaconselha a aventura, mas acaba levando-os no seu barco.

Entregues à própria sorte, os missionários caem nas mãos dos sádicos governamentais. Um grupo de mercenários é contratado para efetuar o resgate. O barco de Rambo novamente é convocado. Apesar de toda a arrogância (a do saber militar, desta vez) do líder dos mercenários, na primeira chance ele quer pular fora.

É bem aí que o instinto do guerreiro vai se manifestar e John Rambo proclamará que ‘ou vive-se por nada ou morre-se por uma causa’.

Não há nenhuma causa, essa é a verdade, exceto a atração que exerce sobre ele a pregadora Sarah, que pode não ser uma Catherine Zeta-Jones, mas para aquela selva está mais que satisfatória.

O quadro está completo: 1) uma causa política -restituir a Mianmar os direitos humanos; 2) um objetivo humanístico -levar a fé cristã a esse povo bárbaro; 3) um objetivo militar -demonstrar a superioridade ocidental (e americana) a esses sub-homens; 4) um objetivo metafísico -reencontrar o espírito guerreiro.

Salvar o mundo

Talvez o ideário de Rambo não tenha mudado muito desde o segundo exemplar: trata-se, sempre, de salvar o mundo, mesmo à custa do desprezo de seus concidadãos (aqui os missionários torcem o nariz até quando ele lhes salva a vida).

Podemos dizer, ao primeiro olhar, que é o velho imperialismo americano em ação. No espírito do Partido Republicano, que não por acaso Sylvester Stallone apóia. Talvez seja isso mesmo. Mas, se Rambo permanece um herói americano, a despeito das intervenções no mínimo controversas dos últimos anos, é menos por pregar uma espécie de antiisolacionismo do que por encarnar uma virtude muito americana.

Sem estabelecer um juízo sobre a, digamos, qualidade de seu heroísmo, ele é herói porque representa uma nação em que, se você tem algo a fazer, deve fazer direito e até o fim.

No Brasil temos um herói recente, na pessoa do Capitão Nascimento de ‘Tropa de Elite’. Ele sobe o morro nas piores circunstâncias, desafia os traficantes, combate os corruptos e acomodados da polícia e não se dobra a certos preceitos civilizados (como o de não torturar suas vítimas) que costumamos associar a fraqueza no combate ao crime.

Acordo tácito

Breve, Nascimento é o nosso Rambo. Ou quase.

Porque, a despeito da solidão a que é condenado, do desprezo que muitos lhe dedicam, existe um acordo tácito, garantido pelo pragmatismo americano, que insere Rambo numa ordem: a da eficiência, do fazer bem-sucedido.

Já Nascimento é uma anomalia (assim também os recrutas que trabalham com ele).

A classe média que o elege como herói tem seus motivos: só um cara assim, à frente de uma tropa competente e impoluta, para limpar o Rio de Janeiro, triunfar nessa até aqui inglória guerra do tráfico e liquidar o espírito mafioso que se estabeleceu.

Nascimento criou-se, em nosso imaginário, como uma mistura de Rambo e Elliot Ness (mais algo como um sociólogo capaz de nos libertar das invencionices de Foucault e outros que envenenam nossos universitários -porque, se nada funciona, a culpa deve ser da cultura, esse veneno).

O que os fãs do capitão Nascimento talvez não tenham notado no filme é que seu herói é mais fracassado do que o Homem-Aranha. Para ser quem é, ele não pode preservar o casamento, ele não tem direito nem sequer à paternidade.

Numa sociedade moral (em que seus princípios se mantenham minimamente coesos), o sujeito que rouba ou que mata é uma anomalia. O policial corrupto é um criminoso. Etc.

O combate ao crime, ao erro, faz parte natural da existência e da cultura (ver os inúmeros filmes policiais).

No Brasil, sabemos que as coisas não funcionam assim, e é nessa medida que os heróis de ‘Tropa de Elite’ aparecem como seres dignos de admiração e imitação. São exemplares, o que não significa que sejamos capazes de imitá-los.

Tudo se passa como se o mundo simbólico, do cinema no caso, não devesse ter relação com o mundo empírico, de tal modo que Nascimento só existe como ser ideal. O sujeito que o evoca, assim como se evoca o Super-Homem, é o mesmo que não admitiria um policial perto de sua filha. O mundo das imagens não é, em definitivo, o mundo real.

Como se nossa experiência cultural conduzisse a um tipo de esquizofrenia, em que nos miramos e de certa forma aspiramos ao heroísmo cultivado pelo cinema americano, mas somos simplesmente incapazes de inserir esse tipo de experiência na nossa vivência cotidiana. Porque Nascimento é tragicamente cortado de sua sociedade.

Ainda que vivendo na Tailândia, isolado, ignorado por todos, John Rambo está de certa forma em seu mundo, é capaz de reencontrá-lo. Já o capitão está cortado de seu mundo: o Bope, mais que uma tropa de elite, é um refúgio, um lugar que constrói à sua imagem e semelhança, mas que, para existir, o isola até mesmo da mulher e do filho.

Porque o seu mundo é o da eficiência e de uma lógica simples: se a polícia existe para combater o crime, ela não pode se associar a ele. Mas o capitão vive em um mundo que não foi feito para funcionar. Podemos elogiar ou questionar à vontade seus métodos e idéias.

O problema não está em eventuais virtudes ou defeitos, mas no fato de ambos existirem numa esfera exclusivamente simbólica, a do cinema, como se não concebêssemos mais, como real, outra sociedade que não a do espetáculo.

Esse mundo simbólico que não mantém relação com o real é tão doentio quanto a incapacidade de distinguir os heróis do cinema da vida. Nesse sentido, ‘Tropa de Elite’ é um fenômeno terrivelmente saudável, entre outras porque desvenda alguns dos impasses em que vivemos afundados.’

 

Rafael de Luna

Nascimento e morte

‘O principal mérito do longa-metragem ‘Tropa de Elite’, de José Padilha, é o de despertar controvérsias. E elas vão continuar, apesar da unanimidade que se tenta impor justificada pelo enorme sucesso de bilheteria (que salvou do fiasco comercial o cinema brasileiro em 2007), pelos elogios de parcelas da crítica que encontram inegáveis qualidades estéticas na obra (freqüentemente avaliadas como divorciadas da política) e, mais recentemente, por ter ganho o Urso de Ouro no Festival de Berlim, no último dia 16.

A premiação internacional serviria para ‘calar’ aqueles que ainda insistem no debate, sob o risco de estarem investindo contra os interesses do cinema brasileiro ou parecerem ignorantes teimosos que não ‘compreenderam’ o filme. Ainda assim, insisto.

‘Tropa de Elite’ segue a tese do filme anterior de José Padilha, o documentário ‘Ônibus 174’, expressa claramente na narração do sociólogo Luiz Eduardo Soares (co-autor do livro ‘Elite da Tropa’), que acompanhava as imagens finais da tentativa de linchamento do seqüestrador Sandro pela multidão e o trajeto da viatura onde ele foi assassinado (ou ‘asfixiado’) por policiais. Ou seja, uma Polícia Militar assassina é um desejo inconfesso do povo. Ela é fruto da sociedade. Mas os criminosos também o são.

Ao longo de sua história, o cinema brasileiro tomou como personagem privilegiado o marginal, oprimido pela sociedade e que não encontra saídas além de ingressar na vida do crime. Nos anos de 1960 e 1970, em filmes como ‘Assalto ao Trem Pagador’, ‘Mineirinho Vivo ou Morto’ e ‘Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia’, entre outros, os personagens bandidos ganhavam alguma legitimidade como vítimas das injustiças sociais, num quadro em que, de alguma maneira, os filmes de cangaceiros também se encaixavam.

Nos últimos anos, com a sensação de um crescimento assustador da violência urbana, especialmente no Rio de Janeiro, o foco parece se deslocar para personagens que, ilesos ou não, buscam de diversas maneiras escapar da pobreza e do crime, como o Buscapé de ‘Cidade de Deus’ ou o protagonista de ‘Querô’.

Em relação a uma linhagem do filme policial brasileiro, ‘Tropa de Elite’ é ao mesmo tempo uma ruptura e uma continuidade. Apesar de se diferenciar por tomar como protagonista um policial, o filme de José Padilha não foge à tradição dos personagens marginalizados, impotentes em um universo que não controlam e em crise pela incompatibilidade entre o ofício e a necessidade de segurança e paz na vida familiar.

Apesar de o Capitão Nascimento e o Bope serem a elite da tropa, eles representam também uma minoria, um grupo marginal dentro do universo muito mais amplo da Polícia Militar e do aparato estatal como um todo.

Mas todas essas contradições são frutos do ‘sistema’, explica a narração do Capitão, desfiando um antielitismo rasteiro que é um dos principais responsáveis pela grande empatia do filme. Policial do Bope não tem carro importado nem casa com piscina. ‘Faca na caveira e nada na carteira’, debocha um PM quando os ‘homens de preto’ aparecem para salvar o dia.

Lógico, afinal de contas, rico não presta, sejam os oficiais e políticos corruptos ou os alienados filhinhos de papai. E os pobres? Quem mandou morar em favela cheia de bandido? Se o favelado é inocente, basta trancar a porta do barraco e se proteger de bala perdida, porque o Bope só tortura quem tem o rabo preso.

Um dado novo apresentado por ‘Tropa de Elite’ é justamente a eficiência. É com um orgulho quase ufanista que louvamos a melhor tropa do mundo. Para matar bandidos em favela, com o brasileiro não há quem possa!

De ‘Nascido para Matar’ a ‘Até o Limite da Honra’, os artifícios do cinema de ação são traduzidos com perfeição para o cenário nacional. Mais do que um Rambo, Wagner Moura cria uma autêntica versão brasileira do policial John McLane de Bruce Willis, que, em meio a crises familiares e profissionais, destila carisma e violência.

Se os americanos sempre salvaram o mundo dos terroristas europeus ou árabes, pelo menos no Rio de Janeiro quem manda é o Capitão Nascimento, como mostraram dezenas de piadas que ainda circulam na internet.

No retrato traçado por ‘Tropa de Elite’, o Bope representa a eficiência absoluta -o drama do Capitão Nascimento é justamente encontrar seu substituto ‘perfeito’- e também a reserva moral da polícia e, conseqüentemente, do Estado.

Com a autoridade concedida por justificativas econômicas (o pertencimento à classe média responsável e trabalhadora), morais (a honestidade a toda prova) e técnicas (a superioridade indiscutível em seu ofício), a elite da tropa tem todos os motivos para fazer o que acha melhor, inclusive transgredindo as leis de um sistema podre.

Os fins justificam os meios, sobretudo se quem o faz é considerado autorizado para tal. Como o personagem de Charles Bronson da série ‘Desejo de Matar’, torna-se lícito reunir na mesma figura juiz, júri e executor.

Apesar do tiro disparado na nossa cara, o longa-metragem de José Padilha, no final das contas, é um alívio para as aflições da classe média honesta e sofredora.

Após dezenas de filmes insistirem em tirar seu sono, atribuindo-lhe culpa ou preocupação, ela poderá enfim dormir em paz. Se seus privilégios são defendidos ardorosamente por ‘Meu Nome É Johnny’, sua segurança é plenamente garantida por ‘Tropa de Elite’. Fiquemos tranqüilos: enquanto o Capitão Nascimento vai merecidamente aproveitar o ‘happy end’ com a mulher e filhinho, o Capitão Matias vai seguir aniquilando os malfeitores.

RAFAEL DE LUNA FREIRE é professor de preservação, restauração e políticas audiovisuais no curso de cinema da Universidade Federal Fluminense e autor de ‘Navalha na Tela – Plínio Marcos e o Cinema Brasileiro’ (Tela Brasilis).’

 

Cássio Starling Carlos

A doença e sua cura

‘Primeiro, veio a recepção da imprensa internacional, que tratou o filme quase unanimemente a pedradas. Depois, a consagração do júri no Festival de Berlim, com a escolha de ‘Tropa de Elite’ para receber o Urso de Ouro. Entre os dois, repetiu-se o mesmo fenômeno midiático que cercou o lançamento do filme no Brasil e seu conseqüente ótimo resultado nas bilheterias, numa espécie de confirmação do velho ditado ‘falem mal, mas falem de mim’.

Já as acusações recorrentes de ‘fascismo’, que voltaram a circular nas críticas feitas ao filme, desta vez pela imprensa internacional, chamam a atenção por constituir a reação quase universal daqueles que repudiam o filme de José Padilha. Resta saber a que fascismo se referem.

O retorno iminente de outro herói, John Rambo, também considerado em seu tempo um ícone do fascismo, um portador do pior da América dos anos Reagan, ajuda a estabelecer algumas nuanças relativas ao uso indiscriminado dessa expressão, que faz as vezes de xingamento.

Fuzil apontado

Quando assisti ao filme de Padilha pela primeira vez, já havia lido e relido textos que atacavam o filme pelo suposto teor fascista de sua mensagem.

Mas, diante do plano final, com aquele fuzil apontado contra a cara de todos na platéia, saí da sessão a me perguntar se é o filme que é fascista ou se ele traz à tona, de modo astuto e insidioso, nosso fascismo cotidiano e inconfessável sob a forma de desejo de extermínio.

Pelo fato de essa reação comportar a ambigüidade, provocar esse ruído em sua recepção, fiquei convencido de que ‘Tropa de Elite’ trazia algo de saudável. O que se confirmou em seguida, com a calorosa e importante discussão social provocada pelo filme.

Por outro lado, é preciso reiterar que o ótimo desempenho de bilheteria do longa de Padilha se deve em parte às platéias que cultuam o Capitão Nascimento como uma versão longe de Hollywood e perto do coração do velho e sempre eficaz Rambo.

Não à toa seu bordão pegou, dizem, no meio dos pitboys e outras espécies de aborígenes. E paira a dúvida, acima de tudo, se o filme teria tido tanto sucesso se houvesse algum tipo de punição às atitudes do Capitão Nascimento.

Já o retorno do soldado programado para matar, encarnado ainda uma vez pelo agora sessentão Sylvester Stallone, é um filme que não provoca nenhum tipo de ambigüidade.

Tudo recomeça com Sly do seu jeito Rambinho Paz e Amor, quieto no seu recanto tailandês enquanto militares birmaneses abastecidos pelo tráfico de drogas praticam genocídio na vizinhança.

Basta, porém, que um grupo de defensores de direitos humanos, obviamente americanos brancos e cristãos, sejam atacados para que Rambo se transforme ainda uma vez em eficaz máquina de extermínio.

À diferença do personagem de Wagner Moura, o de Stallone não admite opções. Seu funcionamento robótico é o mesmo das máquinas, nas quais, uma vez que seu mecanismo é posto para funcionar, não há nada que as controle.

Heróis brutamontes

E só nos resta torcer para que ele elimine o maior número possível de inimigos, retratados mais uma vez como uma sub-espécie de militares do Terceiro Mundo, todos sem nome, interpretados de modo a reiterar a animalidade dos tipos, ou seja, banir da tela qualquer resquício de humanidade ou de valores humanistas, tanto de um lado como de outro das metralhadoras.

Isso tudo faz lembrar ‘Cobra’, outro filme protagonizado por Stallone nos anos 80, que provocou reações semelhantes e teve várias cenas cortadas pela censura brasileira -a distribuidora acabou retirando-o de cartaz às pressas.

Sob o slogan ‘o crime é uma doença; eu sou a cura’, o tenente Mario Cobretti, vulgo Cobra, satisfazia os delírios sanguinários de platéias cujo desejo de diversão rima sem pudores com destruição.

O que não se vê em toda essa linhagem de heróis brutamontes é a ação corrosiva da dúvida. Nenhum deles sofre de pânico ou assume ter planos de abandonar aquele tipo de vida, como Nascimento.

Não se trata aqui, obviamente, de encontrar rastros de humanidade para poupar o personagem de Wagner Moura dos significados negativos que ele encarna. É inegável que há uma atitude de eliminação em sua relação de poder com aqueles que persegue.

Além disso, a narração do filme em ‘off’ funciona como elemento fortíssimo de identificação. E Padilha certamente levou isso em conta como potencial isca de bilheteria, mesmo sob o risco de elevar um exterminador ao patamar de herói.

Mas há nele outra força inoculada, que John Rambo trocou pelo exclusivo uso dos músculos: a dúvida.’

 

Ernane Guimarães Neto

Do ‘love’ à guerra

‘A canção pop ‘Your Love’ atingiu a 6ª posição na parada Billboard em 1986, ficando 22 semanas entre os ‘100 mais’ da lista elaborada pela revista norte-americana homônima. Desde essa época a composição, do primeiro álbum do grupo britânico The Outfield, não pára de nos atravessar por ondas de rádio.

Mesmo que esses nomes não sejam lembrados por muitos leitores, a canção faz parte da paisagem sonora no Brasil. E, antropofagicamente apropriada, participa cada vez mais da cultura do país: sua melodia é a base do ‘Rap das Armas’, criação de 1992 alçada a sucesso nacional no ano passado, com o filme ‘Tropa de Elite’.

‘Your Love’, aquela do refrão ‘I just wanna use your love tonight/ I don’t wanna lose your love tonight’ [Só quero usar teu amor nesta noite/ Não quero perder teu amor nesta noite], começa com as mesmas notas que, nas versões em português, são cantadas com a onomatopéia bélica ‘parapapapapapapapapapa’.

Enquanto o pop tipicamente oitentista falava de relações românticas de uma maneira descompromissada, o ‘Rap das Armas’ oficial, cantado pela dupla MC Junior e MC Leonardo, denuncia a violência. Em sua invocação, a letra de Leonardo anuncia que vai ‘falar de um problema nacional’, antes de listar mais de 20 nomes de armas -técnicos, como M-16, ou coloquiais, como ‘oitão’.

Seria uma ironia? MC Leonardo diz à Folha que sua inspiração em ‘Your Love’ foi puramente musical, e que desconhece a letra em inglês. Segundo o autor, a composição surgiu originalmente como uma descrição das belezas do Rio de Janeiro, mas só emplacou depois que ele acedeu à sugestão de incluir as armas na letra.

Glamourização

Simone Pereira de Sá, professora de comunicação na Universidade Federal Fluminense que pesquisa o funk na condição de ‘música eletrônica popular brasileira’, ri da ironia involuntária: ‘É a polissemia, o deslize dos significantes, que faz parte da história da música ‘massiva’, gravada. Você escreve a música com um sentido e não sabe o que vão fazer dela’.

Na controvertida reinterpretação que circulou com os milhões de DVDs piratas comercializados antes do lançamento do filme, a denúncia é deixada de lado em favor de uma violenta e bem-humorada descrição do conflito entre facções armadas de duas favelas.

A apropriação da canção pelos colegas de baile e pela pirataria deu azo a críticas que põem a cultura funk no mesmo balaio de filmes que fazem a ‘estetização da violência’, como ‘Cidade de Deus’ e ‘Tropa de Elite’.

A teórica do funk apressa-se em defender seu campo de estudo: ‘Para circular, há ‘estetização’, de seja o que for: a política, a violência, o amor. Isso não anula o potencial político, social, de discutir a violência’, diz Simone Sá.

Antropofagia nos une

A versão mais violenta não prejudicou tanto Leonardo, pois tanto ele e o irmão Junior quanto Cidinho e Doca estão na trilha sonora de ‘Tropa de Elite’, que já vendeu mais de 28 mil CDs. Segundo a gravadora EMI, já foram vendidos mais de 50 mil toques de celular com o ‘Rap das Armas’. Leonardo esclarece que não ficaram rusgas entre os dois grupos.

O toque de celular pode ser ouvido em estádios como o Morumbi, em São Paulo, onde o deslocamento temático atingiu um nível mais extremo.

A canção melosa, transformada em funk por um jornaleiro que admirava as paisagens fluminenses, mas era atento à crise social, e foi apropriada como ode à guerra do tráfico, espalhou-se por outros Estados brasileiros como hino da guerra lúdica do futebol, entoado pelas torcidas organizadas. ‘Parapapapapapapapa clac bum, Torcida Independente derrubou mais um.’

NA INTERNET – Leia a íntegra deste texto e ouça trechos de ‘Your Love’ e ‘Rap das Armas’ em www.folha.com.br/080521′

 

DOCUMENTÁRIO
Virginia Postrel

a fonte da discórdia

‘Quando vai (e volta) de metrô para seu trabalho na Plexifilm, uma produtora de cinema e selo independente de DVDs com sede no Brooklyn [em Nova York], Gary Hustwit vê a mesma coisa por toda parte: a fonte Helvetica. O metrô, diz, ‘está coberto de Helvetica. Eu quis entender o porquê disso’.

E não é apenas o metrô. Os números dos táxis de Nova York também estão em Helvetica. A fonte está presente nos formulários de Imposto de Renda, nas caixas do correio dos EUA e em caminhões da ConEd [empresa de energia].

A fonte ‘sans serif’ criada há 50 anos [completos em 2007] é vista em inúmeras logomarcas: Sears, Fendi, Jeep, Toyota, Energizer, Oral-B, Nestlé.

Quando você se dá conta de que a Helvetica está em toda parte, diz Hustwit, ‘não consegue deixar de pensar nisso’.

Para descobrir a razão da onipresença dessa única fonte, Hustwit fez um documentário, seu primeiro como diretor (ele já tinha produzido cinco documentários sobre temas relacionados à música).

‘Helvetica’ estreou em março do ano passado no festival de cinema South by Southwest e, divulgado em grande parte por sites voltados ao design e pelo boca-a-boca, em pouco tempo se tornou sucesso cult internacional. O DVD foi lançado em novembro. Uma semana mais tarde, Hustwit foi indicado ao prêmio Independent Spirit na categoria ‘Mais Verdadeiro que a Ficção’.

Uma fonte tipográfica parece um tema improvável para um filme, mas o tema da Helvetica suscita reações fortes. Para alguns designers, a fonte representa um tipo de beleza transparente, racional e moderna.

Para outros, ela é tediosa, opressiva e empresarial demais. Hustwit usa a história da Helvetica para relatar a história do design gráfico no pós-guerra e demonstrar a eterna tensão estética entre o expressivo e o clássico. Abaixo, ele explica seu projeto.

PERGUNTA – Por que não um filme sobre a [fonte] Times New Roman? Por que a Helvetica se impõe a tal ponto?

HUSTWIT – A Helvetica é uma questão que realmente polariza opiniões dentro da comunidade do design. As pessoas que gostam dela geralmente são pessoas interessadas no modernismo, e as que não gostam são pessoas que o rejeitam.

Ela se tornou símbolo do design gráfico modernista posterior e do chamado estilo suíço, o estilo internacional que ganhou imensa popularidade mundial nos anos 1960.

Na década de 70, todo mundo que se rebelava contra isso odiava a Helvetica, porque ela simbolizava uma linguagem visual uniformizada, internacional, corporativa. Ainda existe uma divisão entre designers, mesmo os jovens: há os que gostam daquele estilo clean, minimalista, racional, e os que querem que as coisas sejam mais emocionais e expressivas. A Helvetica é a linha divisória que separa esses dois lados.

PERGUNTA – Como se sente, pessoalmente, em relação à questão?

HUSTWIT – Acho que provavelmente me situo entre os modernistas. Nos últimos 20 anos, venho gostando dos dois lados. Meu pano de fundo está no punk rock, então gosto daquele estilo visual anarquista, detonado, mas também gosto de elementos gráficos ‘clean’, inspirados na Bauhaus.

Minha opinião não chega a ter muita importância no filme, que funciona como vitrine para todos esses diferentes designers gráficos e de fontes. Não gosto de documentários feitos na primeira pessoa. Não me interessam as opiniões do cineasta. O que me interessa é o tema das opiniões expressas no documentário.

PERGUNTA – Você mesmo desenhou algumas fontes um tanto quanto ‘grunge’ no início dos anos 1990. O que se aprende quando se cria uma fonte?

HUSTWIT – Descobre-se que o trabalho dos designers de fontes é espantosamente complexo. O nível de detalhe que entra em todas as decisões tomadas quando se cria uma fonte tipográfica é simplesmente inacreditável. Que distância deve existir entre duas letras diferentes quando elas aparecem lado a lado, como, por exemplo, um tê em maiúscula e um ó em minúscula? Que distância aquele ó deve deslizar para baixo da trave horizontal do tê?

É preciso tomar essas decisões para cada par de letras que poderia ser formado. É uma coisa capaz de enlouquecer. Alguém como [o britânico] Matthew Carter é mestre nesse assunto. É uma daquelas formas de arte feitas por pessoas completamente invisíveis.

É como se elas não quisessem que seu trabalho fosse notado. Querem apenas que as pessoas leiam a mensagem e compreendam o que o texto diz, sem nenhum tipo de interferência da fonte.

Quando as pessoas notam a fonte, geralmente é porque há algo de errado com ela: é difícil de ler ou as letras estão próximas demais uma da outra.

PERGUNTA – O cinema está passando por algo semelhante à transformação que atingiu a tipografia no início dos anos 90, com ferramentas digitais barateando muito a produção e distribuição. Existe algo que os cineastas possam aprender com o que aconteceu na área das fontes?

HUSTWIT – A democratização da tecnologia, seja ela a tecnologia do design gráfico ou a da cinematografia, é uma faca de dois gumes. Ela abaixa as barreiras de entrada, de modo que muitos designers ou cineastas novos podem se expressar.

Ao mesmo tempo, enche a paisagem de muito lixo. Há algumas coisas interessantes que o YouTube levou à atenção de um público maior, mas, se você pensar na porcentagem de coisas no YouTube que valem a pena em qualquer sentido cultural, verá que ela é minúscula.

O trabalho envolvido na criação de um documentário é muito maior do que pensa a maioria das pessoas quando assistem a um programa de meia hora ou a um documentário de uma hora na TV. É preciso muito mais trabalho em termos da edição, do som, da fotografia e tudo o mais.

PERGUNTA – Você foi a 90 sessões de seu filme em todo o mundo, algumas com públicos amplos e outras com platéias formadas por designers gráficos. Quão diferentes foram as reações? Quais eram as perguntas que faziam?

HUSTWIT – ‘Por que fazer um filme sobre uma fonte tipográfica?’ é a pergunta mais freqüente. O que acho da Helvetica, como escolhi os designers que trabalham no filme: essas foram as perguntas feitas com mais freqüência.

Mesmo quando mostramos ‘Helvetica’ em festivais de cinema em que o público era formado não por designers, mas por pessoas que simplesmente gostam de documentários, a reação foi a mesma.

Uma coisa que descobri foi que os estudantes de design gráfico são exatamente iguais em todos os países -até sua aparência é igual. Eles usam as mesmas roupas. É uma rede verdadeiramente global de designers. Eu me senti como se estivesse mostrando o filme 90 vezes diferentes para o mesmo grupo de pessoas.

PERGUNTA – Uma das coisas divertidas do filme é que ele mostra tantos usos diferentes da Helvetica. Qual é sua favorita?

HUSTWIT – No cartaz da Copa do Mundo de Berlim. Estávamos passando de carro, por acaso, olhamos para cima e vimos um sujeito suspenso de cordas a 15 metros de altura, costurando as letras gigantes em Helvetica no cartaz da Copa do Mundo, que devia ter um quarteirão de comprimento. Quase todas as imagens de Helvetica que filmamos em cidades foram encontradas aleatoriamente, por puro acaso.

A meta era encontrar usos interessantes da fonte ou pessoas interagindo com ela. A bandeira da Copa do Mundo foi um exemplo perfeito disso. Eu também queria encontrar a Helvetica em letras grandes, e as do cartaz estão entre as maiores que encontramos.

PERGUNTA – O filme discute se a Helvetica pode continuar a ser neutra, depois de ser tão usada.

HUSTWIT – É verdade que as fontes tipográficas vão acumulando bagagem em decorrência de como são usadas. Quando olho para a Helvetica, penso em em American Airlines.

Uma das coisas espantosas da Helvetica é que ela vem sendo usada há décadas, inclusive usada em excesso, mas, mesmo assim, ainda a vemos por toda parte. E alguns designers gráficos jovens, muito voltados ao futuro, ainda a usam da mesma maneira como ela era usada nos anos 1960.

Não consigo explicar por que, com os milhares de fontes das quais as pessoas dispõem hoje, uma grande porcentagem delas ainda opta por usar a Helvetica.

PERGUNTA – Como você financiou seu filme?

HUSTWIT – Foi financiado por meu próprio dinheiro, meus cartões de crédito, meus amigos e minha família. Uma firma canadense de design chamada Veer entrou como patrocinadora, quanto o projeto já estava perto de ser finalizado.

PERGUNTA – Teria custado muito mais fazer o filme 20 anos atrás?

HUSTWIT – Provavelmente. Rodamos 60 horas de filme. Se tivéssemos filmado com película de celulóide, o custo teria sido maior. E o processo de edição custa muito menos hoje. Dá para fazê-lo num sistema Mac sofisticado. A maior despesa ainda é a que se tem com as pessoas -conseguir um bom diretor de fotografia, um bom editor e bons técnicos de som. Isso é algo que não muda. Se você quer fazer um ótimo trabalho, precisa chamar ótimas pessoas.

PERGUNTA – Você já sabe qual será seu próximo projeto?

HUSTWIT – Os filmes de música com os quais trabalhei, e ‘Helvetica’, com toda certeza, tratam da criatividade -do processo criativo- e também da comunicação. Acho que esses dois temas vão reaparecer em meu próximo filme.

Nos últimos cinco a dez anos, percebe-se uma tendência nas pessoas em acharem que um documentário precisa ser político para valer a pena.

Para mim, isso é lamentável. Há esse outro lado do cinema documental que analisa a criatividade e outras questões não ligadas à justiça social ou à guerra, que são igualmente merecedoras de análise. É como se não pudéssemos ter literatura de não-ficção, como se nunca pudéssemos ter romances.

A íntegra desta entrevista foi publicada na ‘Atlantic Monthly’. Tradução de Clara Allain.’

 

 

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