Segunda-feira, 25 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 15 E 16/3

Folha de S. Paulo

18/03/2008 na edição 477

INTERNET
Carlos Heitor Cony

O nome deles é Legião

‘RIO DE JANEIRO – No meu tempo, dizia Machado de Assis, já havia velhos, mas poucos. Parodiando o mestre, direi que, no meu tempo, já existiam chatos, mas relativamente poucos. E não eram tão espalhafatosos e onipresentes. Quando Cristo expulsou Satanás de um endemoniado, perguntou-lhe o nome. Satanás respondeu: ´Meu nome é Legião´. Os chatos de agora são também uma legião, a internet ampliou-os em número, freqüência e virulência.

Todos os meus amigos -e até mesmo alguns que não chegam a isso- reclamam das mensagens, das sugestões e, sobretudo, das denúncias do interesse de cada um. Do prefeito que não asfaltou a rua, do emprego que alguém não obteve, do concurso que o reprovou.

O e-mail, que deu oportunidade à comunicação de forma surpreendente, se, de um lado, está servindo na busca e na troca de informações para aproximar pessoas, de outro, está produzindo chatos em massa, em escala industrial.

Desocupados, embriões de gênios que desejariam ser comentaristas de política, de esportes, de economia e de cultura, ditando regras disso ou daquilo, encontraram afinal a tribuna, o miniespaço que buscavam e não conseguiam.

Entram na internet com tempo e garra suficientes para tentar criar um mundo à sua imagem e semelhança, mundo que felizmente não existe, a não ser na cabeça desses novos Petrônios informatizados.

E, ao contrário de Deus, que quando criou todas as coisas, o céu e a Terra, o Sol e as estrelas, descansou no sétimo dia, o chato eletrônico não descansa, trabalha em tempo integral, todos os dias, sábados, domingos e feriados, não tira férias, não adoece. E como ninguém toma as providências que ele reclama, o chato adota um moralismo pedestre, primário, tentando mudar o mundo que insiste em rejeitá-lo.’


ENGARRAFAMENTO
Clóvis Rossi

A barbárie

‘SÃO PAULO- Os âncoras de radiojornais e telejornais locais parecem estar treinando para a Olimpíada de Pequim: vira e mexe, anunciam novos recordes. Pena que estejam falando de algo que está à minha, à sua, à nossa frente, qual seja, um novo recorde de congestionamento em São Paulo.

Não faz tanto tempo assim, antes de sair da Folha batia os olhos nos on-line sobre trânsito e via a informação de cem ou pouco mais quilômetros de congestionamento. Já era o inferno até em casa, a escassos dez quilômetros. Agora, os recordes não deixam por menos: são de 200 quilômetros para cima.

É o ´progresso´, segundo a filosofia malufo-manteguiana. Acho que está mais para fim da civilização do que para progresso, no discutível pressuposto de que, em algum momento, floresceu uma civilização nos campos de Piratininga.

As fotos de anteontem na capa desta Folha, de um menino no carro e de um jovem dormindo apoiado no vidro do ônibus, carro e ônibus parados no trânsito, contam toda uma história de prisioneiros do tal ´progresso´.

A inacreditável quantidade de motos que circulam por São Paulo conta mais um pedaço dessa triste história. Não há nada, nada, nada, parecido em outras metrópoles do mundo, pelo menos nas que conheço. Nada contra as motos, se fossem meio de transporte de livre escolha.

Não são. São impostas pelo ´progresso´, para que mercadorias e pessoas consigam, com sorte, muita sorte, chegar ao destino, nem sempre inteiras. De carro/ônibus/ caminhão, ficariam prisioneiras do caos.

Menos mal que o prefeito Gilberto Kassab vai proibir o estacionamento e o trânsito de caminhões de carga e descarga entre 5h30 e 7h30. Que medida revolucionária, ousada. Seria a volta da civilização, não fosse o detalhe de que, nesse horário, não há recordes a cantar.’

 

LANÇAMENTO
Folha de S. Paulo

Folha Corrida vai trazer o noticiário em cinco minutos

‘O jornal estréia na próxima terça-feira a Folha Corrida, uma página que trará diariamente resumo de notícias, extratos de colunistas, dicas práticas, artes e gráficos para ser lida em poucos minutos.

De segunda a sábado, a nova página da Folha funcionará como mais uma ´porta de entrada` para o jornal. Depois de passar pela primeira página, o leitor apressado encontrará na Folha Corrida mais informações essenciais do dia, em textos curtos e diretos que perpassarão todos os cadernos, do noticiário político à cultura, Informática, Folhinha etc.

No domingo, a Folha Corrida fará um resumo dos acontecimentos mais importantes da semana e dos personagens que mais se destacaram, também para ser lido em até cinco minutos. O objetivo é atender o leitor que não acompanhou o noticiário e os que lêem jornal apenas no fim-de-semana.

Às segundas-feiras, haverá uma agenda do que acontece na semana, como eleições no mundo, finais de campeonatos, divulgação de índices importantes ou estréias de cinema. A Folha Corrida será publicada sempre na última página do caderno Cotidiano.

Esporte

Também a partir desta terça-feira, Esporte passa a circular diariamente como caderno independente, separado de Cotidiano, como já acontece nos finais de semana. Reivindicação antiga dos leitores, a separação permitirá dar maior visibilidade à cobertura dos principais fatos e eventos esportivos do país e do mundo.’

 

TREINAMENTO
Folha de S. Paulo

Programa de treinamento em jornalismo da Folha faz 20 anos

‘Depois de amanhã completam-se 20 anos da conclusão da primeira turma do programa de treinamento da Folha. Desde então, o programa, hoje na 45ª turma, formou mais de 350 jornalistas, dos quais 82 permanecem no jornal.

O programa original foi concebido, ao longo de 1987, por Arthur Ribeiro Neto, então secretário-assistente de Redação, e teve como orientadores os jornalistas Leão Serva e Silvia Bittencourt. O primeiro programa aconteceu de 29 de fevereiro a 18 de março de 1988.

Entre os oito integrantes daquela turma, estava Ana Estela de Sousa Pinto, hoje editora de Treinamento. É ela que vem coordenando todos os programas desde a 26ª turma.

Quem concebeu o atual formato do programa foi o antecessor de Ana, o colunista da Folha Marcelo Leite. As principais mudanças foram no processo de seleção, que passou a incluir o preenchimento de uma ficha pela internet que inclui espaço para que os interessados relatem gostos pessoais e experiências de vida -uma maneira de fugir da seleção óbvia apenas pela formação- e uma semana de palestras para os pré-selecionados.

O programa teve a sua duração ampliada. A turma atual será treinada por quatro meses. Além disso, os trainees deixaram de fazer simulações -nas quais jornalistas da Folha faziam o papel de entrevistados- e passaram a fazer reportagens de verdade.

Com isso, nasceram os cadernos especiais. O primeiro teve como tema o trânsito caótico de São Paulo -assunto que, como naquele 1997, está na pauta do dia. Desde então, os trainees produziram 22 edições, todas disponíveis na internet, no site do programa.

Na avaliação de Leite, o programa é benéfico para a Folha e para os trainees. ´Para os jornalistas que fazem eu não tenho dúvida de que é útil. Para a Folha também é bom. Garante um fluxo de reposição de gente que vem com menos problemas para trabalhar imediatamente no jornal´, afirma.

Atualmente, o programa de treinamento é patrocinado pela Philip Morris Brasil, pela Odebrecht e pela Pfizer. Entre outras atividades, os atuais trainees participarão do 3º Congresso Internacional da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em maio, em Belo Horizonte.

Encontram-se abertas até julho as inscrições para o 47º programa. Para se inscrever, basta ter concluído ou estar cursando um curso superior, em qualquer área.

O programa tem como uma de suas características a pluralidade na escolha dos candidatos -desde 1997, dos 222 trainees, 104 eram de outros Estados que não São Paulo.

NA INTERNET

www.folha.com.br/treinamento – site do programa de treinamento’

 

LEI DE IMPRENSA
Rainier Bragon

Após 10 anos, Câmara reinicia debate sobre Lei de Imprensa

‘A possibilidade de o STF (Supremo Tribunal Federal) anular ainda neste ano os 77 artigos da Lei de Imprensa reacendeu no Congresso um debate sepultado havia mais de dez anos.

Deputados começam a discutir três opções: um grupo quer criar uma nova lei de imprensa, moderna; outro defende que não há necessidade de lei; já um terceiro quer aproveitar a chance para aprovar uma lei de acesso a informações públicas.

O debate surgiu depois que o STF suspendeu, em fevereiro, 20 dos 77 artigos da lei 5.250, sancionada em 1967 por Castello Branco, o primeiro presidente do regime militar (1964-1985). A decisão atendeu a ação movida pelo deputado Miro Teixeira (RJ), em nome do PDT. A Lei de Imprensa permitia, entre outras coisas, apreensão de publicações sem decisão judicial, penas de prisão mais duras para jornalistas que as previstas no Código Penal e blindagem de autoridades contra as quais não se poderia provar a veracidade de reportagem apontada como falsa.

Em seis meses, o STF definirá o que continua a valer. A tendência é de derrubada na maior parte dos artigos.

No dia 5 de março, o assunto foi tema de debate na Câmara. O presidente da Casa, Arlindo Chinaglia (PT-SP), informou que havia acordado com o presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), a aprovação de uma nova lei de imprensa. ´Uma lei democrática tanto para a sociedade quanto para a própria imprensa.´

Há 28 projetos sobre o tema tramitando na Câmara, sendo que o principal está engavetado desde agosto de 1997 aguardando inclusão na pauta de votações. Trata-se do projeto de lei 3.232/1992, cujo texto é de responsabilidade do ex-deputado Vilmar Rocha (DEM-GO).

Se a Lei de Imprensa prevê penas de prisão mais duras para jornalistas condenados por crimes contra a honra (calúnia, difamação e injúria), o projeto 3.232 estabelece o oposto. Ele troca a prisão por trabalhos comunitários e multa de R$ 2.000 a R$ 150 mil (a detenção só se daria caso o jornalista se recusasse a prestar os serviços). Pelo Código Penal, qualquer pessoa condenada por crime contra a honra está sujeita a pena de prisão de até quatro anos.

O projeto também não fixa limites para pagamento de indenização por danos morais, determinando apenas que o juiz leve em conta a ´solvabilidade` (capacidade de pagar a dívida) do réu. As empresas de comunicação defendem limites, sob o argumento de que a falta deles estimula a ´indústria da indenização´. A Lei de Imprensa estabeleceu teto de 200 salários mínimos, mas o STF já decidiu que a Constituição não prevê limite para indenização.

O projeto define que o foro competente para ações judiciais é a sede da empresa ou sucursais. Isso inibiria atitudes como as de fiéis da Igreja Universal, que ajuizaram em várias cidades do interior 74 ações contra a Folha. As 15 sentenças proferidas até agora são favoráveis ao jornal.

Em artigo publicado na Folha no dia 11, o ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior e o advogado René Ariel Dotti defendem uma lei substituta. ´Não se pode pretender que o universo da informação jornalística fique limitado ao campo do Código Penal, pois a liberdade de crítica será prejudicada.´

Miro se diz contra uma nova lei. Ao lado de outros deputados, como Fernando Gabeira (PV-RJ), defende idéia constante do projeto do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), desde 2004 pronto para votação, que obriga órgãos públicos a fornecer em 15 dias documentos pedidos por cidadãos.

O projeto é inspirado na Freedom of Information Act (Lei de Liberdade de Informação), de 1966, que permite o acesso à maioria dos documentos federais produzidos pelas autoridades nos EUA. A Constituição define que ´todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo e geral, que serão prestadas no prazo da lei´. A lei, porém, ainda não foi aprovada.

Em 2004, foi criado o Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas. ´O morador de cidade do interior que tenha interesse em saber como foi a licitação para a coleta de lixo encontrará dificuldade para obter esse dado´, diz o site do fórum (www.informacaopublica.org.br), que reúne 20 entidades, como OAB, Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e ANJ (Associação Nacional de Jornais).’

 

Fernando Barros de Mello

Maior parte das democracias tem lei específica

‘A maior parte das democracias tem lei de imprensa. A Folha conversou com quatro especialistas sobre as principais leis pelo mundo.

´De 191 países da ONU, a grande maioria tem algum tipo de lei sobre a imprensa´, diz o advogado José Paulo Cavalcanti. ´É preciso lei especial em função das peculiaridades que tem o universo da informação´, completa o jurista René Ariel Dotti.

Na Itália, a primeira lei é de 1948 e sofreu modificações. Ela trata desde o direito de resposta e retificação, publicação de sentenças, até o direito de sigilo da fonte. Define ainda penas, referindo-se ao Código Penal.

É ali que está definida a difamação, que, quando se dá por meio da imprensa, tem multa nunca inferior a 500 e pena de seis meses a três anos de prisão. Diretores e editores também podem ser responsabilizados por isso.

A nova lei de Portugal, de 2007, diz que crimes cometidos pela imprensa têm penas elevadas em um terço. ´Mas as leis também prevêem punição a tentativas de solapamento da imprensa´, diz o advogado Miguel Reale Jr. Em Portugal, quem ´atentar contra a liberdade de imprensa` é punido com pena de prisão de até dois anos ou multa. Se a pessoa pertencer ao Estado, a punição é maior.

´Leis internacionais levam em consideração que o jornalista tem um dia-a-dia que o coloca mais em risco de ser processado´, diz Victor Gabriel Rodríguez, doutor em direito penal. Na Espanha, a lei é de 1966, mas artigos foram declarados inconstitucionais ou revogados.

Ainda há definições sobre infrações muito graves (publicação de documentos oficiais que tenham caráter reservado), graves (intenção manifestada de deformar a opinião pública) ou leves.

Há artigos considerados fundamentais no Código Penal espanhol. ´Se quem escreveu a reportagem é responsabilizado, todos os outros não serão, como editor, diretor etc.´, diz Rodríguez.

Na França, a lei é de 1881, mas houve várias mudanças, uma em 2007. Em caso de difamação e injúria, a multa é de 12 mil. Em casos de discriminação, a multa sobe para 45 mil para difamação, com prisão de um ano; e 22,5 mil para injúria, com prisão de seis meses.

No país, quando a imprensa se refere a personalidades públicas, abre-se a possibilidade de provar o que foi publicado na Justiça, com exceção de dois casos: se o texto se referiu à vida privada da pessoa ou tratou de algo ocorrido há mais de dez anos.

José Paulo Cavalcanti diz que uma lei norte-americana em discussão desde a década de 1980 representa ´uma nova geração de lei de imprensa´. ´Ela faz distinção entre informação e opinião. Se discute que opinião é livre e que pode dizer que fulano de tal é ladrão. O jornal não pode.´

Hoje, diz, os EUA têm três grupos de regulação. ´A legislação penal trata de calúnias; instâncias reguladoras limitam quem pode ter meio de comunicação; e o Judiciário é muito presente, tratando de ações de indenização. Já a liberdade de imprensa é garantida na Constituição.´’

 

MERCADO
Tatiana Resende

Banda larga puxa TV por assinatura, que cresce 13% em 2007

‘O acesso à internet de alta velocidade mais uma vez puxou o crescimento da TV paga no país, que chegou a 5,3 milhões de assinantes no final de 2007, com alta de 13% sobre 2006. Uma das estratégias das operadoras para expandir a base de clientes tem sido oferecer um pacote de serviços, que pode incluir também telefone fixo.

Outro fator que alavancou as vendas foi o aumento real na renda da população, principalmente da classe C, onde vem crescendo a penetração da TV paga, segundo Alexandre Annemberg, presidente da ABTA (associação do setor).

Os dados divulgados pela entidade mostram que, de 2006 para 2007, a quantidade de assinantes de banda larga cresceu 47%, para 1,8 milhão de clientes. A expansão contribuiu para um aumento de 22% no faturamento bruto, que fechou o ano em R$ 6,7 bilhões.

A Net Serviços, que detém quase metade dos assinantes de TV paga do país, aumentou em 16% a base de clientes em 2007 e em 65% a de banda larga. Na esteira do ´triple play´, o Net Fone via Embratel teve expansão de 212%. Ambas as empresas têm como acionista o mexicano Carlos Slim.

Por enquanto, para oferecer pacotes semelhantes, a Sky tem parceria com Oi, Brasil Telecom e TIM, e a TVA, com a Telefônica. No mês passado, a Net lançou uma campanha ofensiva com um ´combo popular` que inclui telefone, banda larga e recepção só de emissoras abertas pelo cabo por R$ 39,90, preço similar ao cobrado pela assinatura da telefonia fixa.

O avanço das operadoras no mercado de internet rápida, diz Annemberg, é o que está fazendo as teles se sentirem ameaçadas e de olho nesse nicho.

A Sky, segunda maior empresa de TV paga do país, pediu à Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) que recomendasse ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) a rejeição da aquisição da TVA -terceira no ranking- pela Telefônica. O órgão, que já aprovou o negócio do ponto de vista regulatório, ainda não se pronunciou sobre o efeito na concorrência.

´As empresas de TV por assinatura tiveram 15 anos de monopólio sozinhas e em 15 anos conseguiram ter 5 milhões de assinantes´, ironiza José Fernandes Pauletti, presidente da Abrafix (Associação Brasileira das Concessionárias de Telefonia Fixa Comutada).

´Não cresceram, não investiram. Agora vamos entrar nesse mercado não pelo mercado em si, mas para fazer uma oferta conjunta de serviços.` Para ele, as operadoras de TV paga querem o monopólio para concentrar esforços nos grandes centros. ´Só querem ir no filé.` As TVs a cabo e com transmissão por rádio estão em 479 dos cerca de 5.500 municípios do país.

Na opinião de Annemberg, as companhias telefônicas poderiam começar a operar nas cidades em que não há TV a cabo, mas, nas demais, seria preciso criar uma regra de transição.

Eduardo Tude, presidente da Teleco, consultoria especializada em telecomunicações, destaca a vantagem financeira para o cliente, que tem desconto ao adquirir dois ou três produtos, mas argumenta que a consolidação dos serviços só vai ser realmente benéfica se os grandes grupos passarem a concorrer nacionalmente, e não apenas continuarem a ter monopólios regionais.

Outra preocupação das TVs por assinatura neste ano é o projeto em discussão na Câmara que cria cotas obrigatórias para a programação nacional, o que, segundo as operadoras, vai encarecer a mensalidade.

Sobre o fim do pagamento mensal pelo ponto extra, quando a manutenção do equipamento não for feita pela operadora, Annemberg reitera que a norma foi mal redigida e nada muda em junho. Questionada, a Anatel confirmou que a cobrança será mesmo proibida. Se isso acontecer, as operadoras também ameaçam aumentar a mensalidade para diluir o custo com todos os assinantes.’

 

***

Conexões de internet em alta velocidade já superam acessos por linha discada

‘No ano passado, pela primeira vez, o número de lares brasileiros com conexões em banda larga -50% dos que têm internet- foi maior do que aqueles com acesso por linha discada (42%). Os 8% restantes não souberam responder à pesquisa realizada pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação em 17 mil domicílios, divulgada na semana passada.

Em 2006, 40% tinham internet rápida. O levantamento mostrou ainda que a proporção de domicílios com conexão de ambos os tipos subiu de 14% para 17% do total de lares.

Rogério Santana, membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil, destaca que a presença das TVs por assinatura nesse segmento estimula a competição, mas ressalta que ainda há poucos produtos destinados às classes mais baixas.

Na análise por faixa salarial, o estudo mostra que, nas classes D e E, 39% dos entrevistados afirmaram ter banda larga, e 37%, acesso por linha discada. Entretanto, 24% nem souberam responder à pergunta.

Além da renda, há ainda mais três variáveis, segundo Santana, que influenciam na aquisição do serviço: nível educacional, idade e local onde o consumidor mora, já que é comum haver restrições à oferta em bairros da mesma cidade.

A falta de disponibilidade na área, aliás, foi o motivo apontado por 15% dos entrevistados para não ter uma conexão mais veloz. O custo elevado foi citado por outros 32%. A maior parte (43%), no entanto, respondeu que não tinha interesse no serviço.

O presidente da Abranet (Associação Brasileira dos Provedores de Internet), Eduardo Parajo, lembra que um grande passo rumo à democratização foi dado com a redução da carga tributária na venda de micros, dentro do programa Computador para Todos. A queda no preço também foi impulsionada pela desvalorização do dólar ante o real. ´Mas o computador ainda é caro´, avalia.’

 

TELEVISÃO
Daniel Castro

Atores da Globo fazem fila para visitar a casa de ´Big Brother`

‘O reality show ´Big Brother Brasil` deixou de ser um programa odiado por atores -pelo menos por boa parte deles.

Há 20 dias, Regina Duarte visitou o ´camera cross´, o corredor onde ficam as câmeras. O Projac nunca mais foi o mesmo.

´Depois que a Regina mostrou que gosta de ´BBB´, o programa ficou mais aceitável. Muita gente tinha vergonha de dizer que gosta. Agora tem artista batendo na porta, querendo entrar, virou uma Disneylândia particular. O mundo está pedindo para visitar a casa. Nesta semana, vieram dois presidentes de empresas. Os anunciantes querem trazer suas famílias´, diz o diretor J.B. de Oliveira, o Boninho.

Passaram pelo ´câmera cross` neste ano Lázaro Ramos, Murilo Benício, Fabio Assunção, Serginho Groisman e Luciano Huck. ´A mais nova fanática é a Sasha. Ela virá com a Xuxa´, abre Boninho.

Outros, mais privilegiados, participaram de festas dentro da casa, fantasiados de ´clóvis` (personagem de farta roupa e máscara). Foram os casos de Claudia Rodrigues, Fernanda Rodrigues, Marcelo Novaes, da ex-BBB Grazzi e do próprio Boninho. Deborah Secco iria à ultima festa, mas se atrasou.

Mas ´BBB` ainda não é unanimidade. ´Há atores que detestam ´Big Brother´. Quando passam perto da casa, querem jogar uma bomba´, exagera Jorge Coutinho, presidente do sindicato dos artistas do RJ.

Me diverti muito, como se não houvesse amanhã. Fiquei lá só 40 minutos porque a roupa é muito quente, não dava para respirar direito

Fernanda Rodrigues, 28, atriz

sobre a experiência de ser ´clóvis` de ´Big Brother Brasil`

A NOVA TIGRESA

A gatíssima Ildi Silva (foto), 25, está de volta à Globo. Depois de ganhar fama em ´Paraíso Tropical´, aparecerá em um dos primeiros episódios de ´Guerra e Paz´, a estrear em abril. Interpretará Miréia. ´Ela é casada com o Elias Gleiser e tem um caso com o filho dele [Thiago Fragoso]. O Guerra [Marcos Pasquim] é um detetive e desconfia que ela está tentando matar o velho, mas na verdade ela apenas protege o filho. Quem quer matar o filho é o velho´, entrega. Ildi adorou fazer um texto de Carlos Lombardi. Sobre seu suposto affair com Caetano, silêncio.

PAPAI É SEDUTOR

Este ano promete para Isabela Meirelles (foto), 19. A atriz terá papel fixo em ´Dicas de um Sedutor´, uma das novas séries da Globo. Será Ganesha, filha do protagonista Santiago (Luiz Fernando Guimarães). Dedicada, faz último ano da faculdade de artes cênicas, está em dois filmes que devem estrear em 2008 e, nesta semana, começa a ensaiar texto teatral de Domingos de Oliveira.

ÉPICO 1

O SBT só gravará cenas de ´A Revelação` em Portugal depois da Páscoa, um mês além do inicialmente prevista. A emissora nega que as gravações da primeira novela de Íris Abravanel tenham atrasado porque Silvio Santos mandara a mulher reescrever dez capítulos.

ÉPICO 2

A assessoria de imprensa do SBT justifica: ´As autorizações das prefeituras e órgãos locais [de Portugal] demoraram 108 dias para chegar ao Brasil´. Uau! Até a família real portuguesa, em pleno início de século 19, foi mais rápida. Saiu de Portugal em 29 de novembro de 1807 e chegou a Salvador em 22 de janeiro de 1808.

´BIAL NÃO É MEU TIPO`

Muita gente que assistiu a ´BBB` na última segunda-feira achou que o eliminado Marcelo Arantes, 31, jogou um charme para cima do apresentador Pedro Bial. ´Não, o Bial não é o meu tipo. Talvez seja pela inteligência, mas ele não me atrai sexualmente´, nega o urso. Em breve, Marcelo quer tomar chope com Bial -´ou champanhe´- para afinar as idéias. Para o ´protagonista` do ´BBB 8` (e toda a torcida do Atlético Mineiro, seu time), Gyselle e Rafinha são favoritos ao prêmio de R$ 1 milhão.

Pergunta indiscreta

FOLHA – O quadro ´Construindo um Sonho´, do ´Domingo Legal` (SBT), em que carros velhos são totalmente reconstruídos, tem o mesmo chassi do ´Lata Velha´, do ´Caldeirão do Huck` (Globo)?

GUGU LIBERATO (apresentador) – Não é o mesmo chassi porque a carroceria muda todo domingo. Em um programa construímos carros, no outro, um jardim, no outro, uma pastelaria. E por aí vai.’

 

Cristina Fibe

Ex-´Friends` se isola em nova série

‘Mais isolada do que nunca, a atriz Courteney Cox Arquette, 43, volta à TV quase quatro anos depois do fim da série ´Friends` com uma personagem de um amigo só, com ar de vilã, e que passa por cima de quem for para ter sucesso.

Lucy Spiller, protagonista de ´Dirt` (sujeira), que estréia hoje no People & Arts, às 22h, é a editora de uma revista de celebridades que faz qualquer coisa por um escândalo e cujo único amigo é um paparazzo esquizofrênico.

´Quando estava grávida de Coco [de 2003 a 2004], fui tremendamente assediada pelos paparazzi, a ponto de me sentir ameaçada, daí surgiu a idéia de fazer uma série com esse tema´, conta a atriz, em entrevista à Folha, por e-mail.

´Enquanto procurávamos um autor, nos reunimos com Matthew Carnahan, casado com [a atriz] Helen Hunt. Eles também já haviam passado por experiências terríveis com paparazzi. Na ocasião, Matthew vinha trabalhando em um personagem esquizofrênico inspirado em um software que simulava os efeitos da esquizofrenia. Ele então abraçou a idéia e acrescentou a ela o que viria a ser Don Konkey.`

Interpretado por Ian Hart, Konkey é o segundo grande personagem da série. Fotógrafo freelancer para a ´Dirt Now` de Lucy, ele é o seu protegido.

Não por seus atributos como melhor amigo, mas porque se sacrifica pela ´notícia` -é capaz de cortar um dedo, literalmente, por uma boa (leia-se escandalosa) foto de capa.

´Existem momentos em que essa relação dos paparazzi com as celebridades se torna realmente perigosa, com perseguições e abusos que já conhecemos. ´Dirt` não tem o propósito de atacar nenhum dos dois lados -até porque existem celebridades que se beneficiam de alguma forma desse tipo de atenção- e sim de ser um programa que satisfaça o desejo das pessoas por escândalos. E elas adoram, incluindo os próprios paparazzi!´, afirma Cox.

Cerco à casa

Para que a celebridade Cox entendesse o outro lado do jogo, fez ´até acordo com um dos paparazzi que cercavam` a sua casa: ´Estava me exercitando, sem a menor preocupação com o meu visual, e ele insistia na foto, então eu disse: ´Olha, eu te dou a foto desde que você me dê o seu cartão e aceite se reunir com os roteiristas da série´.

Desse tipo de encontro e de histórias suas e de amigos famosos, a atriz e produtora-executiva da série tirou o ´recorte mais polêmico, apimentado e extremo da relação entre celebridades e tablóides´.

Mera coincidência

Assim foram criados episódios que se parecem com histórias reais, como o vídeo de sexo que uma atriz mergulhada nas drogas e esquecida joga na internet, tentando voltar à luz. Daí para pior: por uma capa, Lucy Spiller põe em risco a vida de um atleta, precipita o suicídio de uma atriz grávida, infiltra fotógrafos em velórios e hospitais.

Segundo Cox, ´nenhum dos episódios é a reprodução de algo que seja relacionado a alguma pessoa em particular. Pensamos em criar, a partir de referências reais, situações extremas, mas a cada dia víamos que essas situações aconteciam´. Em tempo: é no último episódio desta temporada que Jennifer Aniston, de ´Friends´, dá um selinho em Courteney Cox. Nada como saber criar material para os tablóides.

DIRT

Quando: estréia hoje, às 22h

Onde: no People & Arts’

 

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Nerd desajeitado quer ser popular em série da TV paga

‘Embora distante da realidade dos universitários brasileiros, a série americana ´Greek -Sexo, Livros e Rock´n´Roll` estréia no Universal Channel, na próxima quarta-feira, de olho nos telespectadores da era ´Gossip Girl´, da adolescência aos 20 e poucos anos.

A trama é centrada nas desventuras de Rusty (Jacob Zachar), um garoto nerd e desajeitado, mas carismático, que entra na faculdade de engenharia mais preocupado em ser adotado por uma irmandade. Para tal, já no primeiro episódio enfrenta uma série de provas -parecidas com os infelizes trotes daqui- para ser aceito como ´irmão` em alguma fraternidade.

Pior: a sua irmã mais velha, loira e patricinha, já é quase manda-chuva da mais ´importante` organização de meninas da universidade, e não quer que o garoto seja visto com ela. Isso enquanto ele faz o papel de bom irmão, protegendo-a do namorado traidor.

´Eu só quis mostrar alguém que pode parecer tímido ou fraco superando obstáculos que nunca imaginou. Meu personagem é colocado em situações inesperadas´, diz Zachar, em entrevista por telefone.

Para protagonizar a sua primeira série, o ator usou a técnica de ´aproximação com a própria vida` -mudou-se para Los Angeles, ´a primeira vez longe dos pais´, e afirma ter descoberto uma ´nova família` no elenco da série, que já tem segunda temporada em produção nos EUA.

Por aqui, além dos dez episódios a serem exibidos, o Universal Channel mantém um blog (greek.globolog.com.br), que estreou na última quinta-feira, com informações sobre a produção.

GREEK

Quando: estréia na quarta, às 23h; reprise aos sáb., às 20h

Onde: no Universal Channel’

 

Lucas Neves

Chico Bacon leva seu mau humor à MTV

‘O novo VJ da MTV é baixinho, barrigudo e marrento que só. Para desespero dos figurinistas, não há quem o convença a trocar o ´conjuntinho` short vermelho/camisa amarela. O departamento de relações públicas também sofre para zelar pela imagem do contratado, já que suas investidas amorosas sempre acabam em, digamos, onomatopéias (´pow´, ´puf´…).

O novato atende pelo nome de Chico Bacon e foi ´importado` das tirinhas criadas por Caco Galhardo e publicadas nesta Ilustrada nos últimos três anos. Até o fim deste semestre, o personagem deve surgir, nos intervalos comerciais da MTV, como protagonista de vinhetas de 30 segundos.

As primeiras cinco ´pílulas` (que a equipe encara como um piloto) foram gravadas na semana passada, com o ator Fabio Espósito, 37 e 1,68 m, na pele do irascível diminuto. Ele comenta a caracterização: ´A barriguinha é efeito especial de anos e anos de bar; para o figurino, fizeram uma roupa acolchoada que torneia o desenho do meu corpo. Não deixa de ser sexy, é só outro ponto de vista´.

Para sublinhar a diferença de estatura entre Bacon e a mulher gigante de quem ele coleciona ´foras´, Espósito fez cenas sentado no chão, com uma câmera pousada no ombro. A beldade monumental com que contracenou é Luna Martinelli (´superalta, tem 1,80 m fácil´, segundo Espósito).

A idéia de apresentar Bacon à TV foi do ´pai` da criatura. ´Estava com vontade de brincar com atores. Já tinha feito animações no Cartoon Network [vinhetas com os personagens de ´Os Pescoçudos´, em 2004, e ´O Pequeno Pônei´, em 2006] e queria experimentar a mistura de dramaturgia, televisão e cartum´, diz Galhardo.

Atrás de diversão

Despretensioso, ele não vê nas vinhetas -dirigidas pelo ator, dramaturgo e amigo Mário Bortolotto, que ´foi superfiel ao original´- um aquecimento para uma série propriamente dita (com episódios de 20, 30 minutos). ´Ninguém sabe o que vai virar. O tesão do negócio é a experiência, o processo, a diversão.´

O certo é que, até o fim do ano, Bacon volta ao seu ´habitat natural` (a folha impressa), em uma história em quadrinhos inédita que integrará um dos volumes de uma ´caixa Galhardo` -os outros serão dedicados a ´Julio & Gina` e ´O Pequeno Pônei´.

Além disso, ele assina a HQ ´Quando Parei de me Preocupar com Canalhas` (´sobre a minha opção por me alienar politicamente´), que a revista ´Piauí` publica em breve, e finaliza uma história em que brinca com Popeye.

Na linha dramaturgia + cartum pela qual ele diz ter interesse, o próximo passo pode ser a chegada do casal-encrenca de ´Julio & Gina` aos palcos, com um empurrãozinho de Hugo Possolo, do grupo Parlapatões.’

 

Laura Mattos

´Manhattan Connection` festeja 15 anos com Francis

‘Morto em 1997, Paulo Francis é o convidado de honra do aniversário de 15 anos do ´Manhattan Connection´, o mais antigo programa da TV paga brasileira. Ele foi o membro mais marcante da mesa-redonda intelectual comandada pelo jornalista Lucas Mendes, de Nova York, exibida pelo GNT.

Para comemorar a data, o programa foi gravado pela primeira vez em São Paulo, no teatro do colégio Santa Cruz (Alto de Pinheiros), na última quarta-feira. Estavam presentes todos os participantes atuais.

De Nova York, além de Mendes, viajaram Ricardo Amorim, Lúcia Guimarães e Caio Blinder. Do Rio de Janeiro, veio o colunista da revista ´Veja` Diogo Mainardi, que ocupa a cadeira que já foi de Francis.

O programa de aniversário vai ao ar hoje, às 23h. Terá material de arquivo, como trechos da edição número um.

Francis aparece em vários momentos, e os participantes também comentam seu romance ´Carne Viva´, que pretendia lançar em 1997, mas só agora chega às livrarias.

Ex-participantes do ´Manhattan´, Nelson Motta e Arnaldo Jabor gravaram depoimentos sobre o programa. ´Foi um prazer sentar meu humilde rabo nessa cadeira´, disse Motta. ´O ´Manhattan` inaugurou essa coisa globalizada da TV, porque, na época, não tinha nem internet´, analisou Jabor.

Mainardi, após comentar que parecia ´um bispo da Universal` por estar com gravata e pedir ´10% do salário` dos colegas, brincou que todos só o adoram porque, graças a ele, ´se livraram do Jabor´.

Hoje, após o ´Manhattan…´, vai ao ar um especial de uma hora em homenagem a Francis.’

 

CINEMA E PRECONCEITO
Mônica Bergamo

Vida de mano

‘Numa tarde de domingo, no início de fevereiro, o ator Caio Blat estava caminhando na rua São Carlos do Pinhal (paralela à avenida Paulista), onde mora, quando começou a chover. Buscou abrigo ´em um restaurante ´furreba´, tipo pizzaria de bairro, desses que põem quadros abstratos na parede´, chamado Arcadas Galeto. Não tinha almoçado. Resolveu comer alguma coisa e sentou-se em uma mesa no meio do salão.

O ator está com aparência bem diferente daquela de ´mocinho` das novelas da TV Globo. Para estrelar o filme ´Bróder!´, do diretor Jeferson De, que acaba de ser rodado na região do Capão Redondo, em SP, ele incorporou características do personagem Macu (inspirado em ´Macunaíma´), um rapaz de periferia que é branco, se vê como negro e acaba no crime. Caio, além de alugar uma casa simples no Capão, raspou o cabelo em um salão do bairro e fez até um risco na cabeça com gilete, imitando o visual que, diz, ´surgiu na cadeia e depois foi imitado na favela´.

À mesa, naquele domingo, ele foi surpreendido por um funcionário do restaurante. ´Era o gerente, um alemãozinho de cabelinho com gel e um paletozinho. Encostou e falou assim: ´Eu não vou ter problema com você não, né?´, conta. O ator perguntou a que tipo de problema ele se referia. ´Você sabe muito bem. Eu te conheço, eu te conheço. Vai querer alguma coisa?` ´Quero um suco de laranja e um galeto´, respondeu. ´O que você quiser, você pede no caixa.` Caio perguntou se os outros clientes também precisaram fazer aquilo. O gerente repetiu as instruções e o deixou sozinho na mesa.

´Fiquei 15 minutos em estado de choque. Olhava a chuva, as pessoas comendo e falava: ´Isso não tá acontecendo. O cara me reconheceu, fez uma brincadeira e vai voltar para me servir.` Caio acabou indo embora, sem suco, sem galeto e com ´uma puta humilhação, uma vergonha´, misturadas a uma certa felicidade. ´Eu devia estar emanando a vibração do personagem, para ser tratado daquele jeito. O Macu estava todo comigo.` Em outra ocasião, foi barrado na porta giratória de um banco. ´Vi como é ser tratado como suspeito.´

De volta ao Capão, contou a história para o diretor Jeferson De e para os atores Jonathan Haagensen (´Cidade de Deus´) e Sílvio Guindane (´De Passagem´), todos negros. Os três lhe disseram: ´Bem-vindo ao clube´. ´Ele sacou que foi só cortar o cabelo e andar como maloqueiro e já era. É o que acontece se um menino do Capão tentar estudar na Faap ou procurar emprego na rua Oscar Freire´, avalia Jeferson. O diretor diz viver isso quase diariamente. ´Eu moro na Oscar Freire. Quando saio, percebo os olhares. Existe uma coisa meio paramilitar dos seguranças. Quando entro na [livraria] Fnac de Pinheiros, eles se revezam para me seguir. E olha que já deixei um bom dinheiro do cinema em compras lá.` A loja diz que nunca registrou problemas de racismo envolvendo seus funcionários e que profissionais que se comportem assim serão desligados.

Por sugestão da coluna, Caio Blat aceitou voltar ao Arcadas Galeto em um domingo no início deste mês. Desta vez, ele veste camiseta branca, calça jeans e havaianas azuis. O risco na testa é quase invisível, porque seu cabelo começa a crescer. ´Tem que pegar ficha no caixa ou pode pedir na mesa?´, diz, após se sentar no mesmo assento que ocupou um mês antes e receber o cardápio. ´Pode ser na mesa´, responde o garçom. Escolhe novamente suco de laranja e galeto e, desta vez, é atendido. Uma garota o reconhece, pede autógrafo e tira fotos. O garçom passa, põe a mão em seu ombro e diz: ´É bom ser famoso. Todo mundo vem falar com você´. ´Tô me sentindo mal. Eu tinha jurado não colocar mais os pés aqui´, diz Caio.

Nas duas TVs de tela plana do restaurante, Corinthians e Palmeiras se enfrentam. ´Naquele dia, era esse mesmo horário e também estava passando jogo´, diz o ator, corintiano. ´Fiquei imaginando quantas vezes eles já serviram com minhas novelas passando. Quanta gente já almoçou aqui me assistindo e o cara não queria me atender!´

Depois que Caio recebe o suco, o repórter chama o gerente. Está de camisa e gravata e se identifica como Paulo Roberto. Reconhece o ator? ´Sim, ele esteve aqui há um mês´, responde. E por que não foi atendido na ocasião? ´Foi um equívoco. A gente não chegou a um entendimento e só percebemos depois que era ele. No intervalo entre o almoço e o jantar, tem que comprar ficha no caixa. Acredito que a gente tenha atendido ele mal. Não houve tempo de conversarmos.` Caio argumenta que ficou ´dez minutos na mesa, esperando´.

´Eu estava fazendo um filme no qual vivia um marginal e tive a nítida sensação de que não fui atendido pela minha aparência´, diz Caio ao gerente. ´Eu até perguntei se não te conhecia´, responde Paulo Roberto. ´É, mas não sabia de onde. Fiquei pensando se vocês já foram assaltados aqui, se achou que eu era algum bandido.` ´Graças a Deus, nunca aconteceu´, diz o gerente, falando que o ´terceiro erro` do estabelecimento foi não terem ido atrás de Caio quando ele saiu.

O ator cancela o pedido feito no restaurante e pega o caminho de casa. No dia seguinte, ele viajaria para o Rio, para os workshops de ´Ciranda de Pedra´, próxima novela das seis. Nela, será Afonso, um ´alpinista social´, que usa roupas finas e sapato cromado alemão.’

 

LITERATURA
Sylvia Colombo

Ficção diluída resiste na Bahia de nossos dias

‘Todo dia, dona Marinalva, 51, acorda cedo, mesmo tendo ido dormir quando já ia alta a madrugada. Aproxima-se da varanda de seu bar, na ladeira da Conceição, em Salvador, e contempla a orla e o oceano que se abrem diante da Cidade Baixa.

Dependendo dos navios que vê ali ancorados, muitos dos quais conhece de prévias ocasiões, sabe que tipo de clientes receberá na noite que virá. Seu estabelecimento oferece cerveja, comida e ´encontros íntimos` a tripulantes de passagem pela cidade.

Buscar na Bahia dos nossos dias os tipos que inspiraram os romances de Jorge Amado (1912-2001) não é tarefa fácil.

Por exemplo, Guma, o marinheiro melancólico e valente de ´Mar Morto´, não se parece nem um pouco com os pescadores rudes que se vêem na rampa do Mercado Modelo.

Quando se fala em trapiche, então, não é o local onde viviam os Capitães da Areia (do romance homônimo) de que as pessoas se lembram de imediato. Agora, a palavra surge mais relacionada ao badalado restaurante Trapiche Adelaide, freqüentado por vips locais.

O Palace Hotel, na rua Chile, onde o malandro Vadinho leva Dona Flor para jantar no dia de seu aniversário (´Dona Flor e Seus Dois Maridos´), está de portas fechadas. Espiando pela porta, vê-se nada mais do que um guarda dormindo, ao lado de um radinho de pilha.

No Pelourinho, a estalagem onde Amado viveu quando se mudou de Ilhéus para estudar virou uma galeria de lojinhas e um hotel. Na parte de trás, os cômodos antigos ainda existem, mas estão semi-abandonados. Foi no período em que o escritor morou nesse lugar que surgiram as idéias para ´Suor´, romance em que figuram árabes, prostitutas, trabalhadores do cais e outros desvalidos.

O próprio Pelourinho, como conjunto, está bastante deteriorado. Sobram poucos sinais da reforma e tentativa de recuperação realizados nos anos 90.

Nesse cenário tão diverso ao que Amado vivenciou e usou para criar seus enredos e personagens, dona Marinalva surge como uma espécie rara.

Conversar com ela é ouvir histórias reais, mas que parecem mágicas, ou vice-versa. Bem que poderiam compor a trama de um dos livros do autor. Conta que ´fez vida` um tempo, depois casou com um italiano ´da máfia` que a teria levado para Roma e a maltratado. Então, fugiu e tomou carona num navio que ia para as Filipinas. Passou lá um tempo. Mas, na primeira oportunidade, voltou para a Bahia, sempre a bordo de cargueiros.

Começou, então, a tocar o bar de uma parente. Lugar que, ainda segundo ela, Amado costumava visitar. ´Eu contava meus segredos para ele, e ele me colocou em um de seus livros´, conta, com olhar saudoso.

No final da ladeira, resiste a igreja de Conceição da Praia, onde os marinheiros buscam proteção. Em ´Mar Morto´, Amado descreve uma das festas a que acudiam ´mulheres embrulhadas em xales` a rezar para que Iemanjá não levasse seus maridos para o fundo do oceano, as ´terras do sem-fim´.

Ilhéus

O rastro de Amado em Ilhéus, cidade onde passou a infância e parte da juventude, é mais fácil de seguir. Cidade pequena, a praça principal abriga o bar Vesúvio, onde uma estátua desbotada do escritor está ´sentada` em uma das mesas.

Em ´Gabriela, Cravo e Canela´, o local pertence ao comerciante sírio -apelidado de turco- Nacib, que cai de amores pela moça. Hoje o Vesúvio é um point noturno local. Com música ao vivo -violão, teclado e voz-, recebe os visitantes com o repertório padrão desse tipo de formação em todo o Brasil. A certa altura, tocam ´Sampa´, causando estranhamento na reportagem, que veio de longe atrás de um mundo mítico para topar com esquina tão familiar.

Mas a grande atração da cidade é o Bataclan, o cabaré-bordel que também ganhou vida em ´Gabriela´, freqüentado por coronéis do cacau em seu apogeu.

Agora o local chama-se ´Espaço Bataclan Decor´. Seus vários ambientes -bar, reprodução do quarto da cafetina Maria Machadão, escritório típico de um fazendeiro- são apresentados por um casal de atores. Ele faz o coronel; ela, a meretriz.

A encenação é lastimável e trata o universo de Amado como algo folclórico. A vinheta de propaganda diz tudo: ´Os tempos mudaram. Vá ao Bataclan e leve a sua família´.

Amado possivelmente tremeria na cova ao ver o ambiente de transgressão que retratou em suas páginas se transformar nesse verdadeiro parque temático para turistas.’

 

CINEMA
Sérgio Rizzo

Extras do clássico de Kubrick relembram corrida espacial

‘Mais do que apenas um realizador de longas ambiciosos, o norte-americano Stanley Kubrick (1928-1999) tornou-se especialista em filmes-evento, que ´nasciam` na imprensa muito antes do lançamento e, quando concluídos, geravam polêmica que se prolongava por meses, anos ou mesmo décadas.

É o caso de ´Laranja Mecânica` (1971), até hoje referência obrigatória, embora nada consensual, para discussões sobre as imagens da violência e a violência das imagens. E também de ´2001: Uma Odisséia no Espaço` (1968), que completa 40 anos de lançamento no início de abril e cuja edição especial em DVD chega agora ao Brasil.

Presença habitual em listas de clássicos da ficção científica no cinema, gênero que ajudou a modernizar, o oitavo longa de Kubrick alimentou a imaginação até de quem não o viu, graças às imitações e aos pastiches sobre a corrida espacial e o futuro da humanidade.

Futuro que já virou passado, sem que algumas de suas previsões fossem confirmadas. Era algo verossímil, no entanto, que se buscava com a produção de ´2001´, iniciada em 1965. O material mais revelador dos extras é um curta-metragem promocional de 1966, ´A Look Behind the Future` (´um olhar por trás do futuro´, mas também trocadilho com a revista ´Look´, que patrocina a peça).

Com a pompa de quem anuncia a chegada de novos tempos (e de oportunidades publicitárias), o editor da revista, Vernon Myers, afirma que a ´exploração celestial` e seus efeitos sobre a humanidade seriam mais facilmente compreendidos pelo público graças ao que Kubrick fazia nos estúdios da MGM em Londres.

A presença de maior destaque nos extras é a do escritor Arthur C. Clarke, autor do conto que deu origem à história, ´The Sentinel´, e parceiro de Kubrick em todo o projeto.

Aparecem o Clarke dos anos 60, com ar de autoridade sobre temas futuristas, e o Clarke do século 21, mais relaxado, admitindo que, hoje, a corrida espacial soa ´como algo tão distante quanto as cruzadas´.

Kubrick paira misterioso sobre os extras, em imagens de bastidores, mudo, e em uma entrevista de 1966, mas apenas em áudio (e sem legendas). Sua voz agora fantasmagórica evoca o grande protagonista do filme, o supercomputador HAL -que, insiste Clarke, nada tem a ver com a IBM.

2001: UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO

Diretor: Stanley Kubrick

Distribuidora: Warner Home Video

Quanto: R$ 35, em média

Avaliação: ótimo’

 

***

Imprensa inspirou cortes

‘Na semana que separou a conclusão de ´2001: Uma Odisséia no Espaço` de seu lançamento nos EUA, Kubrick fez diversas sessões privadas, inclusive para a imprensa de Nova York, que assistiu ao filme pela primeira vez em 1º de abril de 1968. Com base em sua própria avaliação e nos comentários feitos nessas ocasiões, decidiu cortar 19 minutos de imagens que não lhe pareceram cruciais, a maior parte delas no trecho inicial, ´A Aurora do Homem´.’

 

QUADRINHOS
Leneide Duarte-Plon

Vade retro, Roma!

‘O mundo inteiro conhece Asterix e o punhado de gauleses da pequena aldeia que resistiu à invasão das tropas romanas de Júlio César. Isso, na história em quadrinhos. Na história real, a que se aprende nos livros, os gauleses foram dominados pelos romanos, apesar da resistência do corajoso chefe Vercingétorix.

As aventuras desses heróis gauleses de quadrinhos começaram a ser publicadas em 1959 e renderam fama, fortuna e aventuras reais aos autores, o desenhista Albert Uderzo e o roteirista René Goscinny.

Depois de vender 330 milhões de exemplares em cem línguas, ter inspirado 33 álbuns, três filmes com atores, oito desenhos animados, jogos, brinquedos e um parque temático perto de Paris, um dos pais de Asterix, Albert Uderzo (1927) resolveu contar essa história de sucesso em sua autobiografia, que acaba de ser lançada em Paris, ´Albert Uderzo Se Raconte…` (Albert Uderzo Fala de Si Mesmo, ed. Stock, 286 págs., 19,50, R$ 51).

Ele rememora o difícil começo da dupla, às voltas com outros personagens que não decolaram, até o dia em que tiveram a brilhante idéia de criar uma aldeia de empedernidos gauleses que resistem ao invasor romano, graças à poção mágica do druida Panoramix.

Nesta entrevista exclusiva à Folha, Uderzo diz que uma das maiores tristezas de sua vida foi a perda de Goscinny, em 1977, vítima de um ataque cardíaco.

Em 1979, Uderzo resolveu lançar o primeiro álbum solo. Em pouco tempo, foram vendidos mais de 2 milhões de exemplares. Depois, escreveu e desenhou sozinho mais oito álbuns. ´Ainda vemos alguns críticos dizerem que o humor de Goscinny era insubstituível. É verdade, sou o primeiro a reconhecer, mas, pelas tiragens dos meus álbuns realizados sozinho, só posso me parabenizar por minha decisão, que parecia totalmente absurda, mas foi incentivada pelos leitores que continuaram fiéis´, diz.

FOLHA – Na sua autobiografia, uma extraordinária ´succes story´, o senhor diz que nasceu com seis dedos em cada mão. Além do mais, é daltônico. Era uma predestinação?

ALBERT UDERZO – A predestinação que a pergunta supõe poderia dar a entender que os 12 dedos que eu tinha ao nascer só poderiam ser benéficos para o que se tornou minha vocação.

Ora, conheço desenhistas que provaram que o talento não se conta pelo número de dedos e que a única predisposição que se poderia ver aí seria ser exibido num circo como um exemplar excêntrico. Graças a Deus, meus pais não fizeram isso!

Quanto ao daltonismo que me distingue dos meus colegas, foi sempre um problema, pois, depois de ter colorido de verde a crina de um cavalo que eu queria fazer marrom, tive que me associar a um colorista.

FOLHA – Antes de vir morar em Paris com seus pais, o senhor habitava em Clichy-sous-Bois, um bairro da periferia de Paris que pegou fogo -sobretudo os automóveis- nos distúrbios de novembro de 2005. Como acompanhou a escalada de violência e os choques entre a polícia e os jovens dessa região?

UDERZO – Dificilmente eu poderia expressar meu espanto e tristeza vendo e lendo o que se passava nessa ´banlieue` que conheci tão calma. Ela se tornou ´agitada` e hoje serve de contra-exemplo, enquanto no meu tempo as pessoas não sabiam nem localizá-la geograficamente.

FOLHA – Seus ancestrais eram os romanos, já que seus pais vieram da Itália para a França em 1923. Isso é engraçado, pois o sr. e René Goscinny imaginaram uma aldeia que é o último bastião da resistência gaulesa aos romanos. Essa resistência aos romanos era uma metáfora da resistência à dominação de Disney nos desenhos animados e nas histórias em quadrinhos para crianças?

UDERZO – Pode parecer estranho que os dois criadores de um personagem que se pretende ser o protótipo dos franceses sejam ambos, apesar de nascidos na França, de origem estrangeira. Goscinny tinha pais russo-poloneses, e os meus eram italianos. Nada disso! Meu pai era do Vêneto, região do norte da Itália ocupada antes dos romanos por tribos celtas vênetas, logo gaulesas, e das quais uma veio ocupar o oeste da Bretanha criando Darioritum (hoje Vannes). Quanto à resistência gaulesa ser uma metáfora à dominação de Disney, seríamos muito ingratos se tivéssemos pensado nisso pois entramos nessa profissão graças a Walt Disney… Que, aliás, nunca soube disso.

FOLHA – No seu livro, o senhor compara sua dupla com Goscinny a Laurel e Hardy (o gordo e o magro), a dupla genial do cinema mudo. O senhor fala do entendimento perfeito na criação dos personagens e sua tristeza quando seu amigo morreu. Quais eram as principais qualidades de Goscinny?

UDERZO – Nunca me cansarei de falar da formidável osmose que existiu entre nós nos 26 anos da nossa colaboração. René [Goscinny] possuía um humor fora de série no início de nosso trabalho, e eu desenhava narizes fora de série de tão grandes, daí uma certa dificuldade em impor nosso estilo. Sua morte foi uma das grandes tristezas da minha vida. Seu talento e sua amizade me fazem muita falta.

FOLHA – Em seu livro, o sr. faz uma vibrante defesa das histórias em quadrinhos. Diz que ela era acusada de todos os pecados do mundo: incitação à violência, principal causa da delinqüência dos jovens etc. Os pais a vêm de forma diferente hoje? Na França, Tintin [de Hergé] e Asterix teriam sido os responsáveis por essa mudança?

UDERZO – Eis a grande questão : o sucesso de Tintin e de Asterix foi o que trouxe o reconhecimento que se esperava há muito tempo para a história em quadrinho de maneira geral? Se foi assim, me dou parabéns e desejo que isso continue, mesmo se a invasão dos mangas japoneses, ao contrário das séries norte-americanas, perturbe o clima atual.

FOLHA – Asterix é conhecido no mundo inteiro, vocês criaram um personagem que representa a resistência a todos os imperialismos. A empatia que ele desperta vem do fato de representar o oprimido contra o opressor, uma espécie de Davi contra Golias?

UDERZO – Davi contra Golias seria Asterix contra Roma? Pode ser, mas a comparação é sua. Quando o criamos, não podíamos imaginar o interesse que ele despertaria e que suscitaria exegeses para explicar esse sucesso, enquanto seus pobres autores ignorantes só sabiam de uma coisa: as legiões romanas de Júlio César tinham invadido toda a Gália. Os humoristas não têm nenhum pudor, isso todo mundo sabe.

FOLHA – Quando Goscinny morreu, em 1977, a imprensa escreveu que ´o pai de Asterix havia morrido´. Com o entusiasmo dos leitores, o sr. enfrentou o desafio e escreveu e desenhou o primeiro álbum sozinho, em 1979. Por que era importante continuar essa aventura?

UDERZO – Asterix foi, tanto para René quanto para mim, o sucesso de nossas vidas profissionais. Devemos muito a ele e a morte de meu amigo anunciava para mim, além da tristeza, o fim dessa bela aventura. Então, por que resolvi mudar de idéia e me arriscar à zombaria de alguns? Orgulho, sem dúvida.

FOLHA – O primeiro álbum das aventuras de Asterix, em 1959, teve uma tiragem de 5.500 exemplares. Depois do sucesso, o senhor atingiu tiragens de mais de 1 milhão na França. Até hoje, já foram vendidos 330 milhões dos 33 álbuns, os primeiros feitos com Goscinny e os nove últimos assinados somente pelo senhor. Além disso, o senhor criou o Parque Asterix, em 1989. O senhor se considera o Walt Disney francês?

UDERZO – Nunca tive a pretensão de ser o Walt Disney francês! Alguns que conheço poderiam pretender, não eu. Sei a enorme distância que nos separa, nós, pequenos franceses, desse colosso americano. Mas há uma coisa da qual fiquei orgulhoso e que é uma diferença em relação ao grande Walt e que vou lhe contar. Eu tinha um amigo francês que conhecia o pai de Mickey, que adorava Paris.

Esse amigo o recebia com sua mulher e sua filha e, quando passeavam por Paris, os passantes reconheciam Walt Disney e lhe pediam para desenhar um Mickey. Ele, modestamente, lhes dizia que não sabia desenhá-lo, e isso era motivo de surpresa para as pessoas que quase não acreditavam.

Pois bem, quando acontece de me reconhecerem na rua -e confesso que isso é muito raro-, posso desenhar um Asterix! É isso.

FOLHA – José Bové, o líder camponês que usa um bigode do tipo gaulês e luta contra os transgênicos, é um herdeiro de Asterix na França atual?

UDERZO – Não tenho opinião sobre as afinidades que possa haver entre Asterix e José Bové, mas li na imprensa que alguém lhe fez essa pergunta, e ele disse que não via nenhuma relação.’

 

Iker Seisdedos

Gato pingado

‘O anúncio de que já passou da hora do jantar encontra Robert Crumb, nome lendário dos quadrinhos underground, sentado, muito atento, murmurando uma melodia e balançando-se com as mãos nos joelhos. Já faz uns 30 segundos que o alto-falante monofônico cospe a sujeira acumulada durante 80 anos nos sulcos da belíssima canção ´Lost Child´, gravada pelos irmãos Stripling no Estado do Alabama, nos rurais anos 1920.

Qualquer pessoa que saiba algo sobre Crumb já imaginará que a canção, que ele próprio escolheu com suas mãos recém-lavadas entre sua coleção de 5.000 discos raros de 78 rpms, terá que terminar antes que o mundo moderno possa continuar seu caminho.

Se dependesse dele, o resto da vida poderia ser passada assim: ao lado do velho amplificador de válvulas. Absorto na música e soltando frases como: ´A morte me preocupa menos do que me preocupava antigamente. Agora que a vejo de perto, não encontro razões para passar o dia me lamentando, me sentindo infeliz ou aflito´.

Algo assim só poderia estar acontecendo em Crumbland, uma casa de pedra situada à margem do rio, com sete pisos abarrotados de coisas belas e tendo como única concessão à tecnologia uma máquina Xerox arcaica.

Colinas e vinhedos

De suas janelas, se tem uma vista de Sauve e dos vinhedos que cercam esse povoado medieval agarrado às colinas da região francesa do Languedoc Roussillon, como um dos personagens mirrados de Crumb se agarraria ao corpo de uma mulherona.

Foi para cá que o universo Crumb completo se mudou em 1990, vindo da Califórnia. Os discos, as canetas hidrográficas Rapidograph e os míticos personagens: o gato Fritz, Mr. Natural, o enxerido Flakey Foont e as muito reais Aline Kominsky, sua mulher, e Sophie, filha e desenhista, como seu pai e sua mãe.

Além de, é claro, o próprio Robert Crumb (nascido na Filadélfia, em 1943), que, graças a seus quadrinhos autobiográficos, se tornou um dos arquétipos mais conhecidos da HQ mundial. E um dos mais inacessíveis.

Há o Crumb pervertido sexual, o Mr. Sixties, herói e flagelo da contracultura, e o neurótico de família disfuncional que Terry Zwigoff retratou num documentário perturbador.

O inimigo das feministas, ´o desenhista mais amado da América´, a inspiração de sucessos do cinema independente, como ´Anti-Herói Americano´, e o velho amargurado que, perto do final de ´R. Crumb -Handbook` (R. Crumb – Manual, MQ Publications, 440 págs., 15 libras, R$ 51, Reino Unido), escreve: ´Minha própria condição consiste em odiar o que sou´.

Vida underground

São sua mulher, Aline, e o fiel amigo e co-autor do livro, Peter Poplaski, outro expatriado americano, artista por profissão, que recebem o convidado.

Crumb detesta qualquer encontro marcado para falar de temas pessoais previamente pautados (ou seja, qualquer entrevista). E não é brincadeira: circulam em Sauve histórias sobre jornalistas vindos de Los Angeles que voltaram para o lugar de onde tinham vindo depois de três dias de tentativas infrutíferas de aproximação.

Na sexta-feira passada, tive sorte. Perto do final da tarde, Crumb não achou má idéia jantar com o grupo depois de um dia passado trabalhando sobre sua mais recente e ambiciosa obra, uma HQ sobre o ´Gênese´, e de lhe ser informado, por Aline, que o jornalista parecia ´um ser humano decente´.

Vendo-o aparecer, percebe-se que a imagem legendária de ermitão não é uma pose falsa. Crumb é um tímido rematado que se encurva, magro, se esconde atrás dos óculos e tem ar de quem conheceu mais pessoas do que teria desejado.

Mais tarde, à mesa de um restaurante vietnamita da cidadezinha vizinha, ele explica: ´Não vejo que interesse há em falar comigo. É muito melhor falar com Aline. Me perguntam: ´Por que vocês se mudaram para a França?´. E eu digo: ´Não sei.

Aline, por que o fizemos?´. Em sua condição de notária de tudo o que diz respeito a Crumb, Aline já me fizera um ´relatório` à tarde no estúdio de seu marido, uma sala diabolicamente organizada, de paredes forradas de quadros, capas de discos de blues e bonecos alienígenas.

Durante cerca de quatro horas, Aline e Peter Poplaski tinham repassado a vida de Crumb. Desde sua infância na Filadélfia, como filho do meio de cinco irmãos, filhos de um fuzileiro naval e de uma ´maluca´, até o surgimento em San Francisco, no final dos anos 1960, dos quadrinhos underground, gênero do qual Crumb se erigiria em expoente maior, ´convertendo-se em alguém em quem, de repente, as mulheres prestavam atenção´.

´Predestinados´

De como seus desenhos são tremendamente valorizados num mercado de arte que Crumb e sua mulher desprezam (´fechamos um pacto com o diabo para ganhar uma fortuna´, admite Aline), até a razão pela qual Robert coleciona apenas discos lançados entre 1926 e 1932. Desde o candidato em quem ele pensa apoiar nas próximas eleições americanas (democrata, ainda não se decidiu por Hillary ou Obama) até o dia em que Aline conheceu Robert.

´Alguém me disse ´você precisa conhecê-lo -parece um de seus personagens´, recorda Aline. ´Apesar de ele ter mulher e namorada, parecíamos predestinados. Ele pôs meu sobrenome, Kominsky, numa garota, em um de seus gibis, antes de nos conhecermos.`

O tempo não fez mais que acentuar a semelhança entre ela e os sonhos de Crumb: essas mulheres grandes, de músculos torneados e bíceps avantajados que Robert sempre procurou obsessivamente. Inclusive hoje, quando Aline se aproxima dos 60 anos e, na região em que vivem, é mais conhecida como professora de ginástica e pilates do que como artista.

Marido e mulher

Na época, ela também desenhava quadrinhos underground. E sentia o mesmo impulso biográfico que Crumb para escancarar suas intimidades, como em pouco tempo ficou claro com um volume ao qual deram o título de ´Dirty Laundry` (Roupa Suja, 1976).

Com ele, inaugurou-se um gênero em que cada um se representava, por seu lado, em vinhetas baseadas em fatos reais (vinhetas essas que ainda são publicadas regularmente na ´New Yorker´). ´Não há muito o que fazer com relação a nossa falta de vergonha´, admite Aline. ´É como dizer ao mundo: sou asqueroso, horrível, faço coisas censuráveis… Você ainda me quer?`

Depois de mais de 30 anos de sinceridade absoluta, Robert e Aline Crumb, me diz em sua voz grave Aline, fabulosa contadora de histórias, ´ainda nos fazemos rir um ao outro` e ainda se tratam de maneira tão afetuosa quanto brincalhona.

´Me diga, Robert´, pergunta Aline durante o jantar, ´o LSD afetou seu traço nos anos 1960?´. ´Sim, é claro´, ele responde. ´Tomei umas 15 vezes, depois desisti. Primeiro deixei as anfetaminas, depois o ácido, os baseados, o álcool e, finalmente, a América.`

A voz de Crumb se movimenta em freqüências baixas, entre ironias e encolhimentos dos ombros. ´A razão pela qual odeio dar entrevistas é que deixo tudo sair e fico vazio´, ele tinha dito, antes de revelar as entrelinhas do contrato firmado para seu projeto mais recente, uma recriação literal do livro bíblico do ´Gênese´.

´Me ofereceram US$ 200 mil [cerca de R$ 341 mil], que pareciam uma dinheirama. Três anos de trabalhos forçados depois, já não parece tanto dinheiro assim.` Crumb já tem prontas cerca de 120 páginas em que recria passagens bíblicas com um grau de detalhes nunca antes visto em sua obra.

Para isso, todos os dias ele deixa sua casa para ir a um estúdio nas proximidades, cuja localização até mesmo seus amigos desconhecem. Encerra-se ali e passa horas desenhando. Diz que precisa ficar recluso para concluir sua ´obra mais ambiciosa´. Num esconderijo que, depois de muito procurar, encontrou na propriedade de uma cidadã inglesa da região.

Reviravoltas

Numa reviravolta mais própria de Paul Auster [romancista norte-americano], descobriu-se que a proprietária da casa fizera seu doutorado em Oxford sobre o ´Gênese` e se chamava Arabella Crumb (o casal a conheceu porque ela freqüentemente recebia a correspondência deles por engano).

´Acho que o resultado não vai agradar a ninguém´, diz o autor. ´Os judeus vão odiar que dei um rosto a Deus; os cristãos, que as pessoas saiam transando e coisas desse tipo.`

O casal Crumb espera que dessa controvérsia plausível saia um sucesso editorial que lhes permita compensá-los pelo negócio que deveria ter sido e nunca foi a edição inglesa de ´R. Crumb – Manual´. Fruto de meses de conversas entre Poplaski e Crumb, o livro foi editado em 2005 por ´alguns amigos` e lançado com grande mobilização da mídia.

Poplaski e os Crumb fizeram uma turnê promocional sem precedentes à qual um jornal inglês dedicou dezenas de páginas. As críticas foram excelentes, e a estilista Stella McCartney organizou grandes festas de lançamento em Londres e Nova York, cidade em que, diante de uma biblioteca pública lotada de pessoas, Crumb teve um diálogo com o respeitado crítico de arte Robert Hughes (que freqüentemente compara seu xará a artistas da estatura de Bruege, o pintor flamengo do século 16).

Depois de tudo isso (que Crumb concordou em fazer com a boa vontade com que um vegetariano devoraria um javali), os editores se declararam falidos. E desapareceram. ´Não nos pagaram nem sequer o adiantamento´, explica o co-autor Poplaski. ´Acreditamos que venderam 120 mil exemplares, o que é um recorde para um livro de Robert.`

Será preciso esperar até outro dia para obter uma declaração irada do desenhista sobre esse assunto. Ele sempre parece ter outras coisas na cabeça. Ou será a mesma o tempo todo?

Quando a noite chega ao fim, o mundo parece aliar-se para gerar um episódio inequivocamente crumbiano. No fundo de uns copinhos de saquê, aparece a imagem ousada de uma asiática nua. Diante da qual Robert exclama: ´Opa! Desta aqui se vê o matagal todo!´.

Este texto foi publicado no ´El País´. Tradução de Clara Allain’

 

João Pequeno

O gordo e o magro

‘Fundador, em 1993, da editora Conrad, uma das principais responsáveis por alavancar os quadrinhos no mercado brasileiro, Rogério de Campos, 46, vê o sucesso dos mangás japoneses e a consolidação mundial dos livros em preto-e-branco -formato que consagrou Robert Crumb, autor lançado pela editora no país- como a ´pá de cal` dos álbuns coloridos consolidados nos anos 50 por expoentes como Albert Uderzo e seu parceiro René Goscinny, criadores de Asterix.

Campos é otimista em relação ao crescimento do mercado nacional e acredita que essa ´maturidade` pode se traduzir na criação local.

Embora seja entusiasta de artistas como Laerte, Angeli, Marcatti, Marcelo Quintanilha e Lourenço Mutarelli, ele pondera que os quadrinhos brasileiros sempre se basearam nos movimentos que aconteciam no exterior, sem estabelecer uma ´linha evolutiva` própria, conforme explica na entrevista a seguir.

FOLHA – Qual é a importância de Crumb e Uderzo/Goscinny para os quadrinhos?

ROGÉRIO DE CAMPOS – Isso nunca tinha me passado pela cabeça, mas acho que representam movimentos opostos. Uderzo significa o impulso pela americanização dos quadrinhos europeus e, Crumb, a europeização dos quadrinhos americanos.

Ainda que faça muitas referências a quadrinhos antigos, a clássicos como Popeye, o universo dele é muito mais europeu, tanto que mora na França. Enquanto isso, Uderzo e Goscinny criaram o grande herói dos quadrinhos franceses, embora Uderzo seja filho de imigrantes italianos e o Goscinny tenha tenha pisado na França já homem. É engraçado que não são dois… franceses.

FOLHA – O curioso é que muitos imaginam Asterix como símbolo antiimperialismo americano. Alguma vez, Uderzo e Goscinny se colocaram nesse sentido?

CAMPOS – Na verdade, eles sempre foram um tanto alienados. [Asterix] é basicamente nacionalista, com toda aquela xenofobia.

FOLHA – Que características mais se destacam em cada um, Crumb e Uderzo?

CAMPOS – Uma característica comum aos dois é o gosto pelo desenho. É visível que gostam das figuras desenhadas, o que é uma característica dos grandes artistas dos quadrinhos.

A outra é que o Crumb vive numa verdadeira aldeia gaulesa. Ele, a mulher, o amante da mulher mora na casa em frente e os vizinhos vão chegando. Nesse sentido, o do desenho, eles são comuns, mas, de resto, são de gerações muito diferentes. Uderzo sonha com o ´american way of life` dos anos 50 e queria que a França se tornasse um país como os EUA, enquanto Crumb abomina o que eles se tornaram e queria que virassem uma vila francesa [ri].

FOLHA – Os estilos do Crumb e do Uderzo deixaram quais seguidores importantes?

CAMPOS – As influência de Uderzo e Goscinny mais Hergé [belga francófono, 1907-83], criador do Tintin, moldaram uma indústria no quadrinho francês. Fizeram todos aqueles personagens com o nariz de beterraba que assola o quadrinho francês -e que é um tédio.

É diferente quando você fala do Crumb, que com o passar do tempo vai se afirmando como o grande autor dos quadrinhos ocidentais da segunda metade do século 20. O ´Maus´, do Art Spiegelman (Cia. das Letras), é obviamente e assumidamente derivado dele…

Agora, essa nova geração francesa, com o David B., de ´Epilético` (Conrad), a Marjane Satrapi, de ´Persépolis` (Cia. das Letras), tem ligação direta com ele. Tem outros, como o Christophe Blain, de ´Isaac, o Pirata` (Conrad), e até o ´American Splendor` (de Harvey Pekar, ed. Vertigo).

FOLHA – O Crumb tem muita influência no Brasil?

CAMPOS – Sem dúvida… o Angeli, o Marcatti, ainda que este diga não gostar do Crumb, têm toda a influência da personalidade dele. Mesmo quando a pessoa não se inspira do traço, ele é uma referência de atitude, de comportamento.

Hoje, dá para considerar que o Crumb e os mangás são as grandes influências do quadrinho mundial. E são o enterro, a pá de cal no projeto de Goscinny e Uderzo. Isso porque Asterix significou o auge de um modelo que os europeus costumavam chamar de 48 c.c. -álbuns de 48 páginas e coloridos: é o formato dele, é o formato de Tintin.

Em torno dele, se montou toda a indústria de álbuns de quadrinhos da França, principal referência na Europa. Quadrinhos de direita, de esquerda, de vanguarda, conservadores, de ficção científica, policiais, infantis ou adultos, eróticos… Todos seguiram esse modelo.

FOLHA – E como ele foi ´enterrado` pelo Crumb e pelos mangás?

CAMPOS – Não é que não existam mais álbuns de 48 páginas, coloridos. Eles continuam sendo produzidos na França e vendem muito, mas o que mais cresce no mundo todo, inclusive nos EUA, é o formato de livro preto-e-branco, ao qual Crumb sempre esteve ligado e também é o formato dos mangás.

FOLHA – O Crumb passa a ser bastante influente nos anos 60 e, ainda mais, nos 70. E os mangás, quando começam a tomar o Ocidente?

CAMPOS – Nos anos 90. Antes, existiam como curiosidade, para segmentos específicos. O que mudou totalmente a história do mangá no Ocidente foi ´Dragonball´, que entrou e, em todo lugar onde foi publicado, vendeu mais do que os quadrinhos dos super-heróis americanos -menos nos EUA, é claro. Isso abriu a porteira para todos os outros, o que criou a indústria.

FOLHA – Como vê a evolução dos quadrinhos no Brasil? Existe uma escola própria brasileira?

CAMPOS – É muito difícil falar de uma linha evolutiva do quadrinho brasileiro, porque ele está aberto ao que acontece lá fora e as gerações se sucedem, ao que parece, sem ter contato com a geração precedente.

O que é diferente, por exemplo, de falar da bossa nova: por mais revolucionária que possa ter sido, todo mundo conhecia Noel Rosa (1910-37) e Ismael Silva (1905-78).

Não é o caso dos quadrinhos: existia uma geração de terror e aventura nos anos 60 que não tinha nada a ver com a turma do ´Pasquim´. E a ligação desta com a ´Balão` [revista fundada por Laerte e Luiz Gê em 1972, na USP] é muito tênue.

FOLHA – Quanto ao ´Pasquim´, que foi muito forte até para a história brasileira recente, qual foi a maior influência estrangeira?

CAMPOS – Em primeiro lugar, houve a passagem do Steinberg [Saul Steinberg, desenhista americano, 1914-99] pelo Brasil, que teve uma influência gigante sobre Millôr Fernandes… Eles não eram adolescentes e, mesmo quando ainda eram, já tinham gostos de adultos. Então, as influências foram a ´New Yorker` e alguns quadrinhos europeus, mas sem relação com Goscinny e Uderzo.

FOLHA – Qual deve ser, então, o futuro da HQ no Brasil? Para que lado ela vai?

CAMPOS – Ela tende a seguir o que acontece no resto do mundo. Os quadrinhos são o segmento que mais cresce no mercado editorial. Enquanto livros de referência sofrem bastante com a concorrência da internet, os quadrinhos não param de crescer e de aparecer nas listas de mais vendidos.

Como vai ser o desenvolvimento particular da produção brasileira como linguagem específica, é um pouco difícil saber. Confesso estar curioso, porque o Brasil ficou muito isolado das diversas formas de quadrinhos que aconteciam no mundo. Foram décadas dominadas pelos quadrinhos americanos, exclusivamente super-heróis e patos.

A exceção era o Maurício [de Souza, criador da turma da Mônica], mas que era só para crianças. Até o próprio Crumb foi muito mal publicado no Brasil.

Então, todo esse negócio está sendo descoberto agora, mas, por outro lado, o Brasil também está pulando etapas. A gente [Conrad] está publicando agora o ´Jornada Oeste´, que é a primeira publicação no Ocidente de uma história em quadrinhos famosíssima na China.

Depois que compramos os direitos, fiquei pensado; ´Que maluquice, como é que algo assim, que tem um nível, sei lá, do Príncipe Valente ou do Tarzan, não é publicado?´. O desenho é maravilhoso, a história é ótima.

Acho que essa maturidade tende a gerar, no futuro próximo, coisas muito interessantes. E já vejo algumas acontecerem. Sem falar da minha editora, por exemplo, o Marcello Quintanilha, Marcello Gaú [pseudônimo que ele usava], é uma coisa especialmente única.

E os europeus e americanos ficam falando, ficam surpresos… o Marcatti, o Lourenço Mutarelli. Veja o Laerte, como os quadrinhos dele vão rompendo clichês…

Seria muito bom para o Brasil ter um maior desenvolvimento, porque a linguagem de quadrinhos tem tido um papel essencial na indústria pop mundial. É a base de Hollywood, é a base dos games e de tudo mais.’

 

 

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