Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 13 E 14/10

Folha de S. Paulo

16/10/2007 na edição 455

ENTREVISTA
Kennedy Alencar

Lula admite disputar novo mandato, mas só em 2014

‘O presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz que poderá disputar um terceiro mandato em 2014 ou 2015: ´A conjuntura do momento vai indicar´. Em entrevista à Folha, ele afirmou apoiar a emenda que acaba com a reeleição, desde que o mandato seja estendido para cinco ou seis anos. Quer uma candidatura única à Presidência dos partidos aliados -´se tiver quatro candidatos no campo do governo, o governo vai ficar imobilizado´- e admitiu apoiar o governador Aécio Neves (PSDB-MG): ´Se entrasse no PMDB e fosse candidato da base, não teria problema nenhum. Mas precisaria saber se a base quer´.

Em conversa de uma hora e meia na manhã de quarta-feira no Palácio do Planalto, Lula rejeitou tentar a re-reeleição em 2010. ´Não existe hipótese para o bem do Brasil, para o bem da democracia e para o meu bem´.

Bem-humorado, Lula (que completará 62 anos no dia 27) contou que aceitara convite da Aeronáutica para voar num caça a 45 mil pés (13,7 km) de altitude: ´Vai dar para ver a curvatura do globo terrestre´. Pediu café e fez introdução de cinco minutos sobre as realizações do governo: ´Hoje, sou um homem convencido de que o Brasil se encontrou enquanto nação´.

FOLHA – No primeiro mandato, FHC disse: ´Governar é fácil´. Ulysses Guimarães falou que o poder era ´afrodisíaco´. O que pensa?

LULA – Governar não é fácil. Tomar decisões nem sempre é fácil. Muitas vezes há choque do interesse do Estado com interesse de uma parte da sociedade, divergências entre dois ministros, pressão de interesses econômicos. Muito difícil governar. Para governar bem, é preciso determinação de fazer as coisas acontecerem.

FOLHA – O poder é afrodisíaco?

LULA – Não pelo lado sexual, mas pela adrenalina que toma conta de você. Você não vai mais a um restaurante, a uma festa: você vive por conta disso [poder] e isso te motiva. Às vezes, ligo para os ministros de noite cobrando coisa. Isso toma conta da gente, dá energia. Tinha muitas dúvidas sobre o segundo mandato: sempre achei que no segundo mandato você começaria a entrar na mesmice e iria cansando. Encontrei com o Fernando Henrique no velório do Frias [Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha, morto em abril] e eu estava comentando com ele o segundo mandato. E ele dizia: ´Você vai ver depois do segundo ano, quando as pessoas já estão pensando no sucessor´. Adquiri consciência de que quero chegar ao final do mandato com os políticos querendo que eu suba em palanque. Não tem nada pior do que chegar ao final sendo recusado pelos seus aliados. Imagina um presidente que não pode ir a um comício porque ninguém quer que ele vá lá.

FOLHA – Se o sr. chegar ao final do mandato com imagem forte não despertará uma onda queremista, o Lula 2010? Muita gente acha que o sr. vai tentar a re-reeleição.

LULA – Porque no Brasil tem muita gente que não quer levar a política a sério. A alternância do poder é educadora para a construção da democracia. Não existe ninguém insubstituível.

FOLHA – Está vacinado contra a tentação?

LULA – Não existe hipótese para o bem do Brasil, para o bem da democracia e para o meu bem.

FOLHA – Descarta ser candidato a presidente em 2014 ou 2015 [quando terá quase 70 anos]?

LULA – Não. Em política, seria infantil da minha parte dizer que vou decidir o meu destino em 2014, 2015. Tenho uma filosofia que aprendi com a minha mãe: ´Rei posto, rei morto´.

Lembro que Juscelino Kubitschek imaginava voltar depois e não voltou. Não posso trabalhar em momento nenhum com essa hipótese na minha cabeça porque será o meu fracasso. Essa coisa, se tiver de acontecer, a conjuntura do momento vai indicar. Até porque quero dar um exemplo de ex-presidente: quero deixar a Presidência e não vou virar palpiteiro.

FOLHA – Apóia a emenda que acaba com a reeleição?

LULA – Um mandato de quatro anos é muito pouco. O presidente toma posse em 1º de janeiro. No primeiro ano não faz nada porque o Orçamento já está comprometido. No segundo, quando começa a fazer, tem eleições municipais: seis meses antes da eleição não pode fazer convênio com nenhuma prefeitura. Então, já tem um ano e meio morto. Depois tem outro ano para governar e, no ano seguinte, tem eleição. Um mandato de quatro anos no Brasil é quase inadministrável. Vamos acabar com a reeleição e aumentar o mandato.

FOLHA – Apóia a emenda?

LULA – Apóio, apóio. Se não aumentar o mandato, é melhor ficar a reeleição. Sei que para a oposição é ruim, porque ela sempre acha um mandato mais longo difícil, uma reeleição difícil, mas é importante que um presidente tenha a possibilidade de concluir um projeto.

FOLHA – Por que o sr. fala em candidatura única em 2010? Não seria melhor lançar vários candidatos e apoiar o que chegasse ao 2º turno?

LULA – Tenho uma base de apoio com vários partidos. Todo o meu esforço será para uma candidatura única. É um sonho. Vai se concretizar? Não sei. Se tiver quatro candidatos no campo do governo, o governo vai ficar imobilizado. Daqui a pouco vai estar o PT brigando com o PMDB, que briga com o PSB, que briga com o PC do B, que briga com o PR, que briga com o PDT. Ficamos brigando entre nós e deixamos nossos adversários tranqüilos. Precisamos fazer a briga interna e construir a possibilidade de candidatura única. Há o cargo de presidente, de vice, dois senadores, governadores. Tem cargo para todo mundo.

FOLHA – O PT não aceita deixar de lançar candidato a presidente.

LULA – É normal todo mundo achar que tem de ter candidato. Mas, entre achar e fazer, tem uma diferença muito grande.

FOLHA – Vai tirar licença para fazer campanha se tiver um candidato só?

LULA – Se estiver ótimo, vou ajudar os candidatos exercendo o mandato de presidente. Não tem nada melhor para ajudar os meus aliados de que o governo estar bem. Se o governo estiver bem, posso continuar fazendo as viagens internacionais e deixando a eleição correr. Se o governo estiver mal, muitas vezes pode acontecer de o governo estar mal e o presidente estar melhor do que o conjunto do governo. Aí tomo a decisão.

FOLHA – Se Aécio entrasse no PMDB, o sr. o apoiaria a presidente?

LULA – Se entrasse no PMDB e fosse candidato da base, não teria problema nenhum. Mas precisaria saber se a base quer.

FOLHA – O governo do sr. repete e até acentua a cultura política da fisiologia, distribuindo cargos no governo e emendas a parlamentares como forma de mantê-los fiéis. O sr. desistiu de romper com a fisiologia?

LULA – Uma coisa é a política real. Outra coisa é a interpretação que vocês [imprensa] dão à política real. Quero explicar isso. Nós estamos num governo de coalizão. Isso não vale para o Brasil. Vale para o mundo. Se você olhar a Angela Merkel [chanceler alemã], ela ganha as eleições e faz composição.

FOLHA – É correto condicionar o voto ao governo a verba ou cargo?

LULA – Não é correto. Aqui não se trabalha assim. Quando propus aos partidos uma coalizão, é justo montar o governo com os partidos da coalizão. Não é correto montar com o PT e ficar pedindo o voto dos outros.’

 

TROPA DE ELITE
Laymert Garcia dos Santos

Darwin em negativo

‘Tropa de Elite` está dividindo seus espectadores entre os que o defendem como um filme crítico da ´realidade brasileira` e os que o qualificam como ´fascista` por tomar partido da violência policial contra ´os pobres´.

No entanto parece ter ficado de fora da polêmica um aspecto essencial de sua construção e da perspectiva desenhada pelo diretor José Padilha: o princípio operatório que lhe confere inteligibilidade.

Com efeito, nesta ficção que se apresenta como um documentário, o que fica evidente é que, no Brasil contemporâneo, não existe mais sociedade -o Estado de Direito e a cidadania sumiram pelo ralo e impera a lei da selva (convém lembrar, porém, que se trata de uma selva construída, e é por isso que os filósofos Francisco de Oliveira e Paulo Arantes têm caracterizado a sociedade brasileira, em seus escritos recentes, como um estado de exceção permanente).

Entretanto, a julgar pela óptica do filme, nem interessa mais desconstruir intelectualmente a selva, porque já teria se tornado consenso que ela não tem nem terá conserto.

É supérfluo analisá-la, a crítica teria ficado sem lugar; e o pensamento daqueles que poderiam ajudar a compreender as relações de poder e dominação -Foucault, Deleuze, Nietzsche e tantos outros- já pode ser desqualificado nas salas de aula das universidades como surreais, juntamente com mauricinhos e patricinhas. Nesse sentido, em termos culturais, ´Tropa de Elite` nos põe diante da máxima expressão da série ´A Que Ponto Chegamos´.

Assim, o filme retrata a ´lei` da selva. Mas que lei é essa que, ao mesmo tempo, estrutura a narrativa? O velho e bom princípio biológico darwinista da seleção natural, isto é, a ´lei` do mais forte. E se há um ´problema` com esse filme, é que ele faz da seleção o seu princípio operatório e a chave do seu sucesso.

Traço comum

´Cidade de Deus´, de Fernando Meirelles, explorou a questão da seleção natural pelo seu viés negativo, tal como ela se exerce no mundo miserável do tráfico da periferia. ´Tropa de Elite` a explora pelo seu viés positivo, tal como se exerce na aristocracia da polícia.

Mas há um traço comum: ambos glamourizam a violência pura e seduzem o espectador com a atração da afirmação da força sem limites. Diversos filmes do documentarista Harun Farocki, exibidos em junho no Centro Cultural São Paulo, também lidam com o princípio da seleção; mas lá o cineasta tem um ´parti-pris` estético-político que é o contrário do de José Padilha.

Trata-se de criar um distanciamento crítico, suscitado pelo comentário do narrador ´off´, que permita ao espectador perceber como as sociedades disciplinares e de controle ocidentais (fascistas inclusive) operam a seleção dos mais fracos, sejam eles loucos, prisioneiros, deficientes ou operários, para neutralizá-los e/ou eliminá-los.

E Farocki o faz adotando ora a perspectiva do dispositivo que seleciona, ora o ponto de vista do selecionado, mas sempre mostrando, na imagem, a lógica histórico-social da construção da violência. Nesse sentido, Farocki focaliza a violência pura como violência da sociedade. Não é o que acontece no caso de Padilha. Aqui, a voz ´off` nos induz a aderir ao eu do narrador… que é o herói.

Em ´Tropa de Elite` estamos diante de uma violência pura naturalizada. O ´mais forte` é o ´campeão´, e seu sentido é assegurar a sua reprodução como vencedor. O policial Nascimento só pode ´retirar-se` para cuidar de seu filho quando e porque já fez um outro filho dentro do batalhão, capaz de assegurar a continuidade da espécie.

É interessantíssimo observar o modo como a formação dos eleitos da tropa de elite se inscreve no interior da narrativa policial tradicional quase como um filme dentro do filme.

´Nascido para Matar´

Stanley Kubrick também dedicara parcela importante de seu ´Nascido para Matar` para mostrar os horrores e as humilhações inflingidos aos soldados. Mas ali o objetivo visava a desvendar de que modo a máquina militar norte-americana os desumanizava até que se tornassem máquinas de matar.

Em ´Tropa de Elite` o resultado é outro, pois, mesmo com toda a ambigüidade do mundo e as angústias do personagem Nascimento, a mensagem que fica é que nem tudo está perdido no Brasil porque, apesar de tudo, há homens que são ´homens´. E eles nasceram para matar… os bandidos pobres, é claro. Vale dizer: para fazer ´saneamento básico´, eliminar os inaproveitáveis.

E é aí que o princípio da seleção natural encontra uma perspectiva societária: ao se afirmar dentro dos parâmetros da seleção natural, o mais forte afirma o seu ´direito` de fazer limpeza social. Desse modo, a seleção natural positiva se completa com a seleção natural negativa, e os mais fortes de cima se irmanam com os mais fortes vindos de baixo, numa mesma cruzada. Não é à toa que o herdeiro de Nascimento no batalhão é o negro pobre, mas inteligente, que ´chega lá´.

O filme de Padilha não é apenas a legitimação da boa polícia. É a legitimação dela como vetor de consagração do estado de exceção em que vivemos.

LAYMERT GARCIA DOS SANTOS é sociólogo e professor titular do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (SP).’

 

Jorge Coli

A caveira da elite

‘Scarface´, filme de Brian de Palma (1983), expõe os mecanismos do tráfico internacional de cocaína. Conta a trajetória de um chefão da máfia que começou de baixo e passou por todas as etapas. Indica, em níveis progressivos, as articulações dessa grande rede criminosa.

Brian de Palma retoma, atualizando e dilatando, o outro ´Scarface´, de 1932, mítico, dirigido por Howard Hawks. Há um paralelismo de situações. Brian de Palma fala da cocaína; Hawks das bebidas alcoólicas, já que sua trama se passa nos tempos da Lei Seca norte-americana.

´Tropa de Elite´, dirigido por José Padilha, inscreve-se nessa linhagem.

Com, pelo menos, duas diferenças importantes. Primeiro, seu eixo centra-se na polícia, e não nos bandidos. Segundo, o vetor vertical, conduzido por um protagonista, é abandonado. O filme se espraia horizontalmente.

Enfrenta circunstâncias intrincadas no meio policial, graças a diversos personagens e situações. Seu objetivo não é alcançar a esfera dos manda-chuvas maiores, nacionais ou internacionais, nem do lado da lei nem do lado do crime.

Aqui e ali, surge alguma alusão a um oficial superior ou a um deputado.

Do combate violento à corrupção, o filme insinua-se pela vida privada, evitando todo clichê ou simplificação. Ao caracterizar ambientes complementares, festa de gente rica, aula na faculdade, a convicção permanece.

´Tropa de Elite` é como uma polifonia coral. Cada voz tem seu percurso justo, individualizado, mas confere sentido às outras vozes que cantam ao mesmo tempo, sem nunca entrar em uníssono.

Modulação

Esse modo de filmar, expondo vários enfoques, dando humanidade, por vezes contraditória, à trama de relações humanas, tende a diminuir o maniqueísmo. Há, de início, os bons e os maus policiais. Há a classe média, acusada de consumir drogas e, assim, de ser a verdadeira responsável pelo tráfico.

Mas o bom soldado se transforma pouco a pouco num animal feroz. Na última cena, ao assassinar o líder dos criminosos, sua arma aponta, ameaçadora, para a câmera, ou seja, para a própria classe média que constitui a platéia. A mensagem moralista (´ao usar drogas vocês, os ricos inconseqüentes, estão matando meninos no morro´) dissolve-se na fúria violenta.

Bemol

Uma passagem em ´Scarface´, de Brian de Palma, diz que, de cada 10, apenas 1 carregamento contrabandeado de drogas é apreendido. Essa proporção pequena estaria prevista na contabilidade dos traficantes. No mundo inteiro, quem quiser consegue facilmente a maconha, o ecstasy, a cocaína que desejar. Sinal de que o combate está perdido de antemão.

Maior

Emana uma lição implícita do ´Scarface` de 1983 e do antigo, de 1932, quando são postos lado a lado. A Lei Seca, nos EUA, serviu apenas para que os criminosos se organizassem e se fortalecessem.

Em escala muito maior, a criminalização das drogas, hoje, não faz outra coisa. Em ´Tropa de Elite´, a voz ´off` fala num ´sistema` para caracterizar as relações de corrupção inerentes ao funcionamento policial.

As tropas de elite querem sair desse sistema pela honra, pela coragem, pela honestidade.

Elas conseguem apenas cair num outro, muito maior, que as ultrapassa. Um sistema cujas determinantes estão fora da legalidade, mas que tem leis próprias indestrutíveis e impõe uma guerra terrível, crônica, com milhares de vítimas, diretas ou colaterais, e destinada sempre ao fracasso.’

 

O ROLEX
Renato Mezan

Prazeres expressos

‘O artigo em que o apresentador Luciano Huck protesta contra a insegurança nas cidades brasileiras [publicado na Folha em 1º/10] desencadeou uma polêmica considerável.

Nela, porém, uma pergunta brilha pela ausência: por que um povo conhecido por sua impontualidade dá tanto valor a um relógio? E não se diga que é apenas a ´elite` que o cobiça: os ladrões provavelmente o venderam a um receptador, mas nada impede que ele venha a adornar o pulso de um chefão da periferia.

O Rolex foi o primeiro relógio de pulso de precisão, fabricado na Inglaterra por um alemão chamado Wilsdorf; somente depois da Primeira Guerra é que a empresa se transferiu para Genebra.

Wilsdorf era um ótimo artesão, e também um gênio da publicidade. Tendo aperfeiçoado um sistema à prova d´água, colocou um aquário na vitrina e ali deixava suas máquinas funcionando; num golpe de audácia, ofereceu uma delas a uma nadadora que iria cruzar o canal da Mancha -e o mecanismo agüentou firme as muitas horas no mar.

Função e imaginário

Desde o início, portanto, a marca ficou associada à excelência, mas igualmente à resistência, à elegância e à aventura. O curioso é que a mesma combinação de realidade e imaginário aderiu ao bisavô do Rolex: o relógio de bolso, inventado no século 18.

Bárbara Soalheiro (´Como Fazíamos sem…´, Panda Books, 2006), explica que os primeiros a ser fabricados custavam pequenas fortunas: assim, chegar na hora a um compromisso se tornou símbolo de status, já que indicava que o cidadão pontual era rico o suficiente para possuir um ´watch´.

A autora conta que era comum as pessoas comprarem um em sociedade, reservando um dia da semana para cada proprietário: nos outros, na ponta da corrente não havia nada -mas ninguém precisava saber disso…

Assim, no simples ato de usar um relógio coexistiram desde sempre funcionalidade e imaginário. Os meios de comunicação -pinturas e gravuras, depois romances e jornais- se encarregaram de o transformar num objeto de desejo. Mas o que, exatamente, se deseja nesse desejo?

A palavra ´griffe` significa garra: é o leão que deixa na presa morta a marca do seu poder.

Como os poderosos são em pequeno número, usar um objeto de marca prestigiosa é também sugerir que pertencemos ao conjunto seleto dos que ´podem` -e mandam. Eis por que, além de servir a fantasias de exibição fálica, a roupa, a caneta, o carro (e o relógio) se tornaram ícones identificatórios, indicando que seu portador faz parte de um grupo valorizado, do qual a maioria está excluída.

Nesse sentido, cumprem a mesma função que as marcas tribais, a circuncisão, os símbolos religiosos e políticos etc.

Ora, aquilo que começa nas altas rodas é rapidamente imitado pelas outras camadas da sociedade. Pense-se no terno de linho branco em voga no início do século passado: pouco importava que fosse leve e confortável. Tornou-se rapidamente símbolo de ócio -quem o usava não se sujava trabalhando-, e era esse o recado que passava quando vestido por um boêmio carioca.

Curiosamente, no Brasil, a mensagem ´sou importante` não é veiculada pela pontualidade, mas pelo seu oposto. Bárbara Soalheiro explica por quê: como aqui o tempo não era marcado por relógios particulares, mas pelos sinos da igreja, chegar atrasado (à missa ou a um encontro) era sinal de desprezo pelas obrigações -portanto, privilégio senhorial.

Episódio revelador

Se o Rolex está do lado do que a psicanálise chama exibicionismo (termo que não tem caráter pejorativo, apenas designando um dos destinos possíveis da libido), outro ´fait-divers` da semana parece ligar-se ao seu par complementar: o voyeurismo. As fotos de Mônica Veloso despida excitaram a imaginação de muitos brasileiros (e talvez a inveja de muitas brasileiras). Mais uma vez, funcionalidade e aura se entrelaçam num episódio revelador.

À primeira vista, o que torna a jornalista desejável são as curvas sedutoras do seu corpo, que inspiram fantasias nas quais se oferece a quem a contempla. Mas inúmeras modelos adornam as páginas das publicações masculinas: por que então o auê em torno dessa?

Talvez haja aqui outro fator: ao nos entregarmos ao deleite de a olhar, colocamo-nos na mesma posição daqueles com quem ela teve relações. Ora, Mônica Veloso certamente teve outros namorados, mas é com o enlameado senador Calheiros que se identifica quem compra a ´Playboy` ou acessa o site da revista.

E que benefício nos traz essa identificação com Sua Excrescência? A resposta não é difícil: todos gostaríamos de poder exibir impunemente aquela postura arrogante, de poder pisotear impunemente as regras do convívio civilizado e de impor nossa vontade aos outros com a mesma truculência que o representante de Alagoas.

Ao comer com os olhos a mulher que foi dele, usufruímos por um instante dos prazeres que ele desfrutou. Mas apenas vicariamente: para nossa frustração, o superego, a polícia e o olhar reprovador dos outros limitam a realização desses desejos à esfera do devaneio.

Muitas outras questões, é claro, podem ser levantadas a partir de cada um desses episódios. Mas não deixa de ser interessante a perspectiva que eles abrem sobre nosso inconsciente. Ali, não nos basta ser amigos do rei: somos o próprio rei, o herói, o caubói -e nosso cavalo nem precisa falar inglês.

RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção ´Autores´, do Mais! .’

 

VENEZUELA
Fabiano Maisonnave

Chávez cria Hollywood bolivariana para promover revolução

‘O slogan da Fundação Villa del Cine anuncia sem pudores: ´Luzes, câmera, revolução´. Criado pelo presidente Hugo Chávez para combater ´a ditadura de Hollywood´, o estúdio de cinema estatal venezuelano enfrenta neste fim de semana a sua primeira grande batalha, com a estréia da superprodução ´Miranda Regressa´.

O ambicioso longa sobre a vida do herói da independência Francisco de Miranda (1750-1816) é a primeira das 19 produções recém-concluídas ou em andamento da Villa del Cine a estrear em circuito comercial. Com 140 minutos de duração e orçamento de US$ 2,32 milhões, o filme foi rodado na Venezuela, em Cuba e na República Tcheca e conta com uma pequena participação do astro norte-americano Danny Glover, um fã declarado de Chávez.

A maior parte parte das filmagens foi realizada na própria sede da fundação, que mantém um complexo com dois estúdios na cidade de Guarenas, na Grande Caracas. Trabalham ali cerca de 1.500 pessoas, quase todas de cooperativas vizinhas, responsáveis por áreas como figurino e carpintaria.

´A Villa preenche um espaço que ninguém ocupava´, disse à Folha o diretor de ´Miranda Regressa´, Luis Alberto Lamata, considerado um dos mais importantes do país. ´O cinema venezuelano tem sido feito por nós, cineastas, em alguns casos com o apoio de outras instituições do Estado ou com o dinheiro que se conseguir. A Villa possibilita que se faça um trabalho por encargo.´

Mesmo antes de sua estréia nas telas, a Villa, inaugurada no ano passado, tem atraído várias personalidades interessadas na experiência chavista. Já visitaram os estúdios os atores hollywoodianos Kevin Spacey e Sean Penn, além de Glover, que planeja desenvolver ali um controvertido projeto de US$ 18 milhões -prometidos a ele por Chávez- para filmar a história da independência haitiana.

Para a première, o local escolhido foi o Teatro da Academia Militar. Diante de uma platéia que misturava atrizes com decotes ousados, dezenas de cadetes uniformizados, jornalistas, entre os quais a reportagem da Folha, e o colega equatoriano, Rafael Correa, Chávez defendeu o cinema estatal.

´Não há revolução sem cultura se não retomamos nossos valores, se não dizemos basta aos antivalores, ao veneno imperial. Começamos a resgatar esses valores, usando a mina interminável de nossa história´, discursou antes da projeção, na quinta-feira à noite.

Levando em conta a pouca tradição cinematográfica venezuelana, a qualidade técnica do filme surpreende. Mas a trama é desconexa e se resume a mostrar, de forma laudatória, vários episódios da rica trajetória de Miranda -ele também lutou na Revolução Francesa e na independência americana.

´É uma cátedra de história com pouquíssima paixão, um olhar de longe e de baixo. Miranda está no pedestal´, diz Robert Gómez, editor de cultura do jornal ´El Universal´. Ele aposta que o filme não cativará o público venezuelano.

Além de ´Miranda Regressa´, a Villa deve terminar nos próximos meses pelo menos outros seis longas, entre os quais ´Bambi C-4´, sobre o terrorista cubano Luis Posada Carriles, que vive em liberdade nos EUA apesar do pedido venezuelano de extradição.

Para que a empreitada nas telas tenha êxito, o governo Chávez criou ainda a empresa distribuidora Amazonia Films e está construindo uma rede de cinemas estatais em regiões do país onde não existem salas.’

 

PRODUTOS PIRATAS
Claudia Rolli e Fatima Fernandes

Polícia de SP tem suspeito de comandar a pirataria

‘Em parceria com a Polícia Civil, a APCM (Associação Anti-Pirataria Cinema e Música) já identificou que a produção, a distribuição e até a venda de filmes e CDs piratas em parte do Estado de São Paulo é comandada por um homem. Seu apelido circula há dois anos entre camelôs no centro da capital desde a prisão de Law Kin Chong, acusado pela PF de ser o maior contrabandista do país.

No entanto as provas para enquadrá-lo como um dos que comandam a ´cadeia produtiva` da pirataria paulista ainda são insuficientes.

Antônio Borges Filho, diretor-executivo da associação, afirma que a polícia já foi atrás de várias pistas para localizar uma pessoa que comanda a distribuição de filmes e CDs em território paulista, mas até agora não teve sucesso. ´Essa pessoa começou a atuar após a queda de Law, em 2005. Provavelmente, abastece o comércio irregular das ruas 25 de Março e 12 de Outubro, em São Paulo.´

´Os verdadeiros criminosos se escondem em empresas fantasmas e utilizam ´laranjas` para dificultar a ação da Receita Federal e da Polícia Federal. Quem acaba sendo punido é o ´laranja´. Daí a dificuldade em localizar os que comandam as organizações criminosas´, afirma Mauro de Brito, coordenador da área de vigilância e repressão da Receita Federal.

Nos cálculos da APCM, as produtoras e as distribuidoras que operam de forma legal no país perdem cerca de US$ 198 milhões por ano com a pirataria de DVDs e CDs. ´Sem contar os prejuízos causados para as locadoras´, diz.

A indústria da pirataria também cresceu no país, segundo a associação, à medida que os preços dos aparelhos de DVDs caíram. ´Há até dois anos, a preocupação maior era a réplica de CDs de música. Com o barateamento dos aparelhos de DVDs, que passaram da faixa de R$ 500 para cerca de R$ 100, o mercado ilegal se ampliou para atender ao aumento da demanda´, afirma Borges Filho.

A 1ª Delegacia da Divisão de Investigações Gerais do Deic (Departamento de Investigações Sobre o Crime Organizado), que investiga crimes contra a propriedade imaterial (direitos autorais e de marcas), apreendeu neste ano cem torres de computadores para fazer cópias de DVDs e CDs. Cada torre tem capacidade para fazer até 12 cópias de uma vez. O processo era administrado por um grupo de seis a sete pessoas.

´O objetivo da polícia é identificar quem financia a produção e a venda de mídias ilegais e isso demanda muito trabalho e cooperação das associações. Mas posso adiantar que estamos bem perto de identificar alguns deles´, diz o delegado Gilmar Camargo Bessa.

Normalmente, segundo afirma, a ´matriz pirata` de um DVD é feita na pré-estréia do filme. Com um celular ou com uma filmadora, faz-se a reprodução. Nesse caso, o filme pirata não tem boa qualidade. Mas há casos também em que a pirataria ocorre no momento em que cópias são entregues aos críticos de cinema.

´Quando os filmes vêm de fora, o processo da pirataria é o mesmo, só que a ´matriz pirata` é feita no exterior, assim como as cópias, que passam depois a ser feitas no país. A pirataria, na verdade, tem vários tentáculos.´’

 

Indicado ao Oscar deve ser alvo do mercado ilegal

‘O filme ´O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias´, dirigido por Cao Hamburguer, indicado para concorrer ao Oscar, pode ser o próximo alvo do mercado brasileiro de pirataria.

Em Brasília, cópias do filme já foram apreendidas, segundo informa Luiz Paulo Barreto, presidente do CNCP (Conselho Nacional de Combate à Pirataria), ligado ao Ministério da Justiça. ´As cópias ainda não se multiplicaram [na velocidade de outras produções nacionais pirateadas] porque o filme será mais badalado com a proximidade do Oscar.´

Devido à profissionalização na fabricação de DVDs e CDs piratas, o conselho deve assinar um convênio com a Ancine (Agência Nacional de Cinema), que terá o apoio da Polícia Federal, para ´dar maior segurança ao trâmite dos filmes e tentar desvendar quadrilhas que operam na produção de mídias ilegais no país´, diz Barreto.

Se a produtora notar o sumiço de uma cópia, por exemplo, a orientação é que a polícia seja informada imediatamente.

Barreto afirma que a Polícia Rodoviária Federal apreendeu, em 2006, 7,52 milhões de DVDs e CDs piratas no país. Esse número já ultrapassa 8 milhões de unidades neste ano.’

 

Márcia Brasil

Equipamento para pirataria é comprado em 24 prestações

‘Uma pista de como a pirataria está disseminada e pulverizada foi encontrada pela polícia no mês passado.

Ao estourar um ´laboratório` (local de produção de cópias ilegais de DVDs e CDs) localizado em uma sala comercial, no centro do Rio, a polícia apreendeu quatro carnês das Casas Bahia, referentes à compra da maior parte da aparelhagem usada na produção dos DVDs e CDs piratas: quatro torres, dez gravadores de imagens e de som e três impressoras. O responsável pelo local foi preso.

A equipe da DRCPIM (Delegacia de Repressão contra os Crimes de Propriedade Imaterial) relatou que o ´dono do negócio` estava desempregado e comprou os equipamentos em 24 prestações.

´O lucro com a pirataria é enorme. Alguns até quitam o carnê antes do prazo fixado´, revela o delegado Ângelo Ribeiro de Almeida Júnior, titular da DRCPIM.

Segundo levantamento da DRCPIM, um CD virgem custa R$ 0,80 e é vendido por R$ 5, enquanto um DVD virgem é comprado por R$ 1,50 e depois vendido por R$ 10.

As investigações mostram que a produção de DVDs, CDs e jogos no Rio de Janeiro está difundida entre homens e mulheres de todas as idades, regiões da cidade e classes sociais.

´A produção e o comércio de cópias ilegais não são centralizados ou organizados. Qualquer pessoa, se quiser, pode se transformar num ´pirata´. Basta contar com a tecnologia adequada. A única característica que os une é a alegação de que produzem pirataria porque estão desempregados´, disse Almeida Júnior.

Produção espalhada

Os locais onde são produzidas as cópias ilegais também são pulverizados. Existem pontos de produção de DVDs e CDs ilegais espalhados por todo o Estado, além de não haver, segundo a polícia, uma grande quadrilha ou região que concentre as cópias ilegais.

Segundo Almeida Júnior, a maior parte da produção é caseira. ´Alguns chegam a alugar imóveis apenas para esse fim.´

A linha de produção na pirataria é formada normalmente por três pessoas. O proprietário do equipamento pode dividir o trabalho com mais um, que seria um sócio, e ´empregar` alguém para vender as cópias na rua ou nos mercados populares -os ´camelódromos´.

´A pirataria é um meio de subsistência, e não alternativa ao desemprego. A cultura de que ´o bom é levar vantagem em tudo` é muito forte em nossa sociedade e precisa ser combatida´, defende o delegado.’

 

Luisa Belchior

Esquema de falsificação passa por produtoras, afirmam ambulantes

‘O esquema de cópias ilegais de DVDs que abastece os vendedores de piratas do centro do Rio de Janeiro tem nas produtoras de filmes seu ponto de partida, dizem dois homens que trabalham no mercado informal. Sem se identificar, eles relataram à Folha o caminho que os piratas percorrem até chegar à mão do consumidor.

Um dos ´pirateiros´, que está no ramo há cinco anos, afirma que todos os DVDs vendidos no centro do Rio são originários de cópias feitas em estúdios e produtoras por onde o filme passa. ´Sempre tem alguém que faz [as cópias] lá dentro [nas produtoras]´, afirma.

Questionado sobre como os vendedores da área conseguem ter em mãos cópias de filmes ainda não lançados no cinema, diz: ´Aí entra a ´treta´.

Segundo os dois ´pirateiros´, uma cópia é feita nas produtoras e repassada a centrais, que vão pulverizá-la. Nenhum dos dois quis falar sobre a localização dessas centrais e o número de pessoas que trabalham nelas. Já transformados em várias cópias, os DVDs são então entregues para ´distribuidores´, que vendem o produto ilegal para os vendedores ambulantes ´in loco´.

As cópias, afirmam os ´pirateiros´, são repassadas diariamente por esses ´distribuidores` todas as manhãs pelas ruas do centro do Rio.

Para despistar a polícia e evitar prejuízos se forem presos ou tiverem suas mercadorias apreendidas, os vendedores circulam com poucas cópias na bolsa. ´Se me pegarem, só estou com umas 20 cópias. Não é nada´, diz um deles.

Ele afirma que, por dia, saem pelo menos 30 cópias só do filme ´Tropa de Elite´, a R$ 10 cada uma. ´Se o movimento está bom, chega a 50 [cópias] ao dia´, conta ele, que trocou o mercado formal para vender produtos piratas há cinco anos.

O lucro dos vendedores em cada DVD é de 100%, já que cada cópia sai das mãos dos ´distribuidores` por R$ 5.’

 

Empresa de onde saiu 1ª cópia de ´Tropa` vê danos

‘A empresa de legendagem Drei Marc, de onde foi gerada a primeira cópia ilegal do filme ´Tropa de Elite´, está sofrendo com os prejuízos originados a partir do episódio. Embora negue ter perdido clientes até agora, o diretor de atendimento da produtora, Marcelo Camargo, afirma que houve baixas financeiras e desgaste.

Para evitar novos incidentes do tipo, a Drei Marc disse à Folha que mobilizou outras produtoras para adotar, com elas, novos mecanismos de proteção. As medidas, diz Camargo, já foram implementadas, mas, por segurança, serão mantidas em sigilo.

´Tomamos outras providências não só internamente como dialogando com os grandes ´players` da indústria sobre o cuidado que todos devemos ter com nossas obras. Antes de tudo, a Drei Marc é uma produtora e, como produtores, enxergamos a pirataria como um mal extremamente nocivo.´

A Drei Marc disse que demitiu os três funcionários identificados pela polícia como os responsáveis pela cópia pirata. Um deles, o operador Marcelo Santos, foi indiciado por violação de direitos autorais.’

 

FICÇÃO E REAL
Carlos Heitor Cony

A vida e o filme

‘RIO DE JANEIRO – ´Era gente sem perna, parecia um filme´. Foi a manchete de um jornal no dia seguinte ao desastre de caminhões em Santa Catarina, na última quarta-feira. Em setembro de 2001, eu estava no aeroporto de Curitiba, um sujeito chamou minha atenção para a televisão, exclamando admirado: ´Nunca vi um filme como este!´. Olhei e também ia concordando com o desconhecido quando notei que estávamos vendo o atentado ao World Trade Center.

Em 1895, quando exibiram na parede de um café de Paris a chegada do trem de Vincennes, a primeira imagem em movimento que a técnica da época produzira, o comentário foi mais ou menos o mesmo, só que não parecia um filme, mas a realidade.

Não parece, mas cento e tantos anos depois, a questão inverteu-se: a realidade é que parece filme, e o filme fica parecendo a realidade. Um sintoma bom para o cinema, péssimo para a vida. Feitas as contas, ficamos no eterno dilema da galinha e do ovo: quem veio primeiro, a galinha ou o ovo?

A diferença é que galinha e ovo são contemporâneos, vieram ao mesmo tempo, existem desde que existem galinhas e ovos. Já a realidade é bem anterior ao cinema, mas, pouco a pouco, estão se aproximando de tal forma que se confundem. Quem habitualmente lê jornais ou assiste a noticiários da TV não devia se entusiasmar e muito menos se escandalizar quando entra num cinema e vê cenas inspiradas ou copiadas da violência nossa de cada dia.

Volta e meia, aparece um filme cujo letreiro inicial avisa que a história a ser vista é verdadeira, tirada da vida e de personagens reais. Afinal, o que importa? Mais emocionante é quando na vida real surge um filme como o que estamos assistindo com locação em Brasília e com personagens da vida real.’

 

JOGOS OLÍMPICOS
Tatiana Cunha

COI decide em 2 meses sobre blogs em Pequim

‘Os atletas que quiserem manter blogs durante os Jogos Olímpicos de 2008 terão que esperar pelo menos mais dois meses para saber se poderão atualizar suas páginas pessoais de dentro da Vila Olímpica.

A informação foi dada anteontem pelo Bocog, o comitê organizador do evento, em encontro com jornalistas.

A explicação para uma possível proibição é que, pelo regulamento da competição, ninguém, a não ser a imprensa, pode reportar sobre os Jogos.

Além disso, o COI (Comitê Olímpico Internacional) teme que possa haver conflito de patrocinadores no caso de atletas manterem blogs pessoais.

´Nós, porém, entendemos esses sites como uma forma legítima de expressão, portanto não vemos mal nenhum´, disse Anthony Edgar, chefe de operações de mídia do COI para a Olimpíada. ´A Comissão de Atletas já enviou uma carta solicitando que os blogs sejam liberados durante os Jogos.´

O documento já foi enviado ao Comitê Executivo do COI, que em dezembro irá tomar uma posição sobre o assunto.

Segundo o dirigente, ex-jogador de rúgbi na Austrália, a liberação dos sites deve ocorrer sem problemas, mas com algumas normas a serem seguidas pelos blogueiros, como escrever os textos em primeira pessoa e não deixar que haja conflito de patrocinadores.

O tema não é tão simples, já que na China a internet não é 100% liberada. Algumas páginas são censuradas pelo governo. O serviço ainda não atende aos padrões internacionais.

Apesar de haver internet sem fio por boa parte de Pequim, muitas vezes o serviço é lento e inconstante. Para a Olimpíada, o Bocog já prepara uma rede própria, que funcionará em todos os locais relacionados ao evento, como estádios, ginásios, centro de imprensa, hotéis e vilas olímpica e de imprensa.

Os blogs já causaram polêmicas também no Brasil. No início do ano, o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) baixou norma proibindo os atletas de manterem sites durante o Pan do Rio.

Muitos competidores já tinham se comprometido com portais de internet para manter os diários virtuais durante os Jogos. O COB chegou a ameaçar tirar as credenciais de quem descumprisse a determinação. Após quase seis meses de discussão, a entidade liberou os atletas para fazerem seus blogs, sem conteúdo comercial ou menções desrespeitosas a rivais e colegas de time.’

 

ACERVO EM APUROS
Rogério Pagnan

Abandonado, arquivo histórico faz 100 anos

‘O Arquivo Histórico Municipal de São Paulo, o principal acervo da história da cidade, faz cem anos na quarta com poucos motivos para comemorar.

Esquecido na praça Fernando Prestes, no centro, ainda não conseguiu sequer os recursos para fazer a ´festa` como quer: exposições pela cidade e o lançamento de um livro de capa dura com suas relíquias.

Um dos objetivos dessa ´festa` é, justamente, torná-lo conhecido, trazer luz ao lugar que é a própria ´história da cidade´. ´Não é culpa da população, foram muitos anos sem divulgação do arquivo. Acabam conhecendo o arquivo do Estado, mas não sabem que existe o arquivo municipal´, disse a diretora Liliane Schrank Lehmann.

Entre os documentos históricos estão, por exemplo, esboço do estádio do Pacaembu, da expansão da avenida Paulista, um abaixo-assinado de moradores pedindo o fim da cobrança de pedágio pelo município no Viaduto do Chá e as primeiras atas da Câmara.

´Toda a documentação da história urbanística da cidade está aqui. A questão da fiscalização, a relação da prefeitura com o cidadão, está tudo aqui.´

As conseqüências desse esquecimento podem ser percebidas já na entrada do prédio. A fachada revela a carência de nova pintura e o visual piora com o material de construção estocado na calçada, resquício de uma obra paralisada.

Nos primeiros lances de escada, outra mostra: a identificação das pessoas é feita como há cem anos: tinta e papel. Não há computadores para registro e o visitante precisa identificar-se sempre que entra no prédio.

O visual do interior é agradável, com espaçosos e limpos corredores e salas, mas esconde um outro problema: falta de espaço. Construída em 1920, a sede atual do arquivo não suporta peso elevado -todo material pesado está estocado no porão.

Com isso, a memória do acervo compreende documentos de 1555 a 1922, mas deveria, por lei, abrigar pelo menos até 1977. Hoje o acervo equivale a um quilômetro linear de estantes, um sétimo do que deveria.

Um prédio de seis andares que fica ao lado é sondado como opção de espaço, mas a sondagem já dura 20 anos.

O esquecimento reflete no quadro de funcionários. Das 54 pessoas contratadas, metade da necessidade do arquivo, praticamente nenhuma ocupa a função que foi contratada. ´Na prefeitura não tem até hoje carreira de arquivista, historiador e restaurador. Existe o projeto na Câmara´, afirmou Liliane.

A falta de estrutura interfere no atendimento ao público. Como não estão digitalizados, os registros antigos de cemitérios só podem ser tocados por funcionários. Isso faz de uma pesquisa de minutos uma espera de até uma semana.

Esses documentos são importantes, por exemplo, para ajudar na construção da árvore genealógica -expediente utilizado por pessoas que pretendem obter dupla cidadania.

Das cerca de 10 mil plantas de prédios particulares e públicos do acervo, outro exemplo, apenas 700 delas estão digitalizadas. Os recursos da ´festa´, estimados R$ 275 mil, Liliane tentará captá-los através de patrocinadores pela Lei Rouanet. ´O arquivo, apesar de não estar no ideal, encontra-se hoje, sem dúvida, melhor do que há cinco anos. Alguns secretários passaram sua gestão sem ao menos conhecê-lo pessoalmente.’’

 

LADO B
Luiz Fernando Vianna

Um horror de censura

‘Pesquisadora conclui levantamento sobre a censura em 269 produções lado B, entre pornochanchadas, como ´O Homem de Itu´, e filmes de terror, caso de ´O Despertar da Besta´

Em 26 de junho de 1964, o censor Carlos Lúcio deu seu parecer sobre ´À Meia-Noite Levarei Sua Alma´, de José Mojica Marins. ´O filme é bem conduzido de modo a evitar exagero no tocante às mistificações, procurando ao máximo apresentar a realidade de uma alucinação´, escreveu, dentre outros elogios, não sugerindo cortes.

Em agosto de 1972, o longa passou por novo crivo. ´É inconcebível que ainda se permita [sic] películas tão negativas e afrontosas ao bom senso e decoro social´, atacaram duas censoras, pedindo a interdição do filme, o que aconteceria no ano seguinte.

O contraste mostra como a censura, formada por burocratas da Polícia Federal, acompanhou o aparelho repressor da ditadura militar. E ainda indica que filmes sem pretensões de combate ao regime sofreram também fortes restrições, assim como os políticos.

A pesquisadora Leonor Souza Pinto, que vem analisando há dez anos os processos de censura guardados no Arquivo Nacional de Brasília, concluiu neste mês uma amostra de 269 filmes lado B, entre pornochanchadas, pornográficos, dramas eróticos e os de terror. No dia 29, eles se juntarão, no site www.memoriacinebr.com.br, aos 175 da etapa de 2005, quando ela enfocou os principais cineastas nacionais do período.

Na segunda fase, Pinto localizou 15 produções que foram proibidas por algum tempo e 153 liberadas com cortes. Mojica é o campeão: enfrentou interdições temporárias em quatro filmes de terror e três pornográficos. O caso mais turbulento foi de ´O Ritual dos Sádicos´, rejeitado em 1970 e só liberado em 1983 já com o nome ´O Despertar da Besta´.

´Muita gente diz que é a minha maior obra. Se tivesse sido lançado na época, eu poderia ser hoje o cineasta mais popular do país´, acredita ele. Mojica conta que, em 1978, recolheu cenas cortadas pela censura e as usou em ´Delírios de um Anormal´. O filme passou. ´Botei a boca no trombone.´

´Beijo da Mulher-Piranha´

Nos anos 80, precisando de dinheiro, dirigiu filmes como ´24 Horas de Sexo Explícito` e ´48 Horas de Sexo Alucinante´, que sofreram pela liberação.

Do fim da ditadura, em 1985, à promulgação da nova Constituição, em 1988, filmes pornôs ainda eram proibidos, mas em seguida conseguiam uma liminar e entravam em cartaz, por exemplo, na Boca do Lixo paulistana.

Foi o que aconteceu em 1986 com ´O Beijo da Mulher-Piranha´, dirigido por Jean Garret, e ´Oscaralho – O Oscar do Sexo Explícito´, de José Miziara.

´Eu tinha certa vergonha de fazer esses filmes. Mas o pessoal da Boca me ironizava, mostrava um borderô três vezes maior do que o meu, e acabei fazendo. O exibidor me perguntava: ´Quantas trepadas têm por rolo?´, diz Miziara.

Ele dirigiu uma das mais famosas pornochanchadas: ´O Homem de Itu´, liberado em 1978 sem qualquer corte. Nenhum exemplar do gênero que Pinto recolheu em sua amostra sofreu interdição.

´Os censores viam esses filmes como brincadeira para adultos. O homem veria sozinho, não afetava a família´, diz.

O ´rei da pornochanchada` Carlo Mossy nunca teve um filme proibido, mas ´Giselle` demorou a ser liberado em 1980. ´Hoje, os netos dos censores devem ver o filme em horário vespertino´, ironiza.

Mas não foram poucas as vezes em que teve de ir a Brasília negociar com os censores. ´Tinha que ir pianinho, o negócio era ´vaselinar´. Eu queria fazer um cinema popular, ganhar dinheiro. Não tinha ideologia política a não ser comer as atrizes e figurantes. Gosto de Bergman, John Ford, Fritz Lang, mas só sou intelectual duas horas por dia´, explica.

Fim de carreira

Cineastas como Mossy e Miziara já faziam cenas fortes para que os censores as cortassem e deixassem as principais. Era bem diferente dos que faziam um ´cinema erótico sério´, na classificação de Tereza Trautman, que enfrentou uma situação kafkiana: seu ´Os Homens que Eu Tive` foi liberado em 1973 e, depois de um mês em cartaz, proibido pelo general Antônio Bandeira, diretor-geral da Polícia Federal, por causa de um telefonema contra o filme dado por uma senhora mineira. Só em 1979, após várias tentativas, saiu a liberação.

´Eu tinha 22 anos em 1973. De promissora cineasta passei a cineasta interditável. Fiquei estigmatizada e minha carreira foi ceifada´, afirma.

Carlos Reichenbach não sofreu o mesmo abalo, até porque nenhuma obra sua foi proibida. Mas ´Amor, Palavra Prostituta` teve cortada uma cena em que era mostrado o sangue menstrual de uma jovem que recém abortara. ´Sem essa cena, nunca considerei esse filme exibido de fato´, diz ele.’

 

CRIANÇAS NA TV
Cristina Fibe

Cultura estréia infantil interativo que exibirá séries e bastidores

‘Na onda de reformulações que a TV Cultura tem feito desde que Paulo Markun assumiu a presidência da emissora, em junho, estréia hoje ´Cambalhota´, que intercala a exibição de alguns dos melhores infantis do canal e a participação de telespectadores-mirins.

O dominical terá, no estúdio, uma criança convidada que queira ´mostrar alguma habilidade´, conta o diretor, Mario Masetti. Hoje, a partir das 13h, participa uma ´espectadora-fotógrafa´, que irá registrar imagens do programa para serem incorporadas ao cenário.

´Não precisa ser um virtuose´, diz Masetti. Basta se dispor a mostrar uma aptidão, como cozinhar ou tocar violino.

Ele afirma ainda que, em iniciativa ´inédita´, histórias enviadas por telespectadores serão transformadas em uma animação de cerca de um minuto -´sempre com um final feliz´.

O diretor diz que o objetivo é, de maneira interativa, ´amarrar a programação da semana` com a ajuda dos apresentadores Fábio Lucindo, 23, e Jéssica Nigro, 18, nas duas horas e meia de programa.

Entre as séries transmitidas neste intervalo, ´Castelo Rá-Tim-Bum` e ´Um Menino Muito Maluquinho´, além de episódios inéditos de ´Cocoricó` e do ´Teatro Rá-Tim-Bum´.

´Cambalhota` terá também entrevistas com personagens dos programas exibidos; o episódio de estréia traz Júlio, de ´Cocoricó´, falando, entre outras coisas, sobre sua relação com as galinhas da fazenda.

A idéia de expor bastidores dos programas está impressa, segundo Masetti, no próprio ´Cambalhota´: ´Uma câmera está sempre mostrando o estúdio e outra fica na mão da Jéssica, mostrando um outro olhar’.

Para ele, ´o lado infantil do canal está crescendo muito com a nova diretoria. Novidades ainda virão´, conclui, ressalvando que não pode contar quais.’

 

PUBLICIDADE
Bia Abramo

Feliz Dia das Crianças?

‘ÀS VEZES , chego até a achar que ele está de sacanagem -mas não, aos quatro anos e meio, as crianças ainda não dominam um recurso como o sarcasmo. É que meu filho, quando vê televisão, fica muito atento aos anúncios e, ao final de cada um, declara: ´Quero um desses´. Sua afirmação é tranqüila, em tom de voz normal, mas é a inequívoca expressão de uma vontade.

Há variações, claro. Em certos momentos, o pequeno superego em formação acorre em auxílio e avisa: ´Mas só no Natal´. Quando o objeto em questão é escancaradamente ´de menina´, na profusão de rosas e lilases e florzinhas e babados, ele faz o reparo: ´Mas se tiver ´de menino´.

O pai e eu não damos bola: não prometemos nada, não dizemos sim nem não, e ele não parece se importar. Quando isso começou, enunciamos a lei (´presente só no aniversário e no Natal´) algumas vezes, demos explicações simplificadas sobre orçamento doméstico (´não dá para comprar tudo o que vemos´), em outras e, claro, nos afligimos com o impacto brutal da propaganda sobre a nossa criança, mas acabamos intuindo que o melhor era deixar quieto.

Ele topou a negociação: continua dizendo que quer isso e quer aquilo, sem muitas negativas ou preleções de nossa parte, e, quero acreditar, sem esperar grande coisa desse rol infindável de desejos. A cada interrupção de seus desenhos, continua a fazer seu catálogo mental: o tênis com rodas, uma cobra que ataca incríveis miniaturas de carros, armas poderosas de super-heróis inacreditáveis (´mamãe, você sabe que com isso vira Power Ranger de verdade?´), mais tocadores de MP3, celulares (´mamãe, isso é de criança? Se for, eu quero´), videogames e até títulos de previdência privada anunciados como se fossem pirulitos.

Nos momentos em que o comércio tem esperanças de vender muito, fica, evidentemente, pior. A avalanche de propagandas adquire uma intensidade histérica e modalidades agressivas, como as de uma rede de lojas de brinquedo. No comercial, crianças pequenas fazem caretas imitando expressões de enfado, revolta e tédio, enquanto dizem em tom autoritário: ´Vê se me entende` (´e vai já já comprar meu brinquedo caríssimo lá na loja tal, seu perdedor` é o subtexto).

Não há refúgio: mesmo nas emissoras ´cada vez mais públicas´, cujo tempo foi esquartejadinho por interesses cada vez mais privados, até mesmo nos canais pagos com preocupações ditas educativas, a disputa pela hora em que a criança formula o desejo de ter algo que precisa ser comprado pelos pais é implacável.

Por ora, suponho, tenho sorte. Nos ajeitamos lá em casa, mas não sei até quando esse armistício dura. Fico arrepiada de pensar em dezembro.’

 

OUTRO CANAL
Daniel Castro

Livro conta a história das novelas que viraram moda

‘A TV Globo lança em janeiro o livro ´Entre Tramas, Rendas e Fuxicos´, primeira publicação a contar a história dos figurinos das produções da emissora. Obra do projeto Memória Globo, mostra a influência do figurino sobre a sociedade, que adota roupas e adereços usados pelas estrelas de novelas.

Figurino não é moda, diz o livro. Está a serviço da produção. Serve para passar mensagens sobre o personagem.

Mas o figurino acaba virando moda, pela força da televisão. Alguns, como os vestidos hippie-chiques de alcinhas de Vitória, personagem de Cláudia Abreu em ´Belíssima` (2005), se tornam febres passageiras.

Outros viram ícones, como as meias de lurex de ´Dancin´Days` (1978) e os turbantes de Porcina (Regina Duarte) em ´Roque Santeiro` (1985).

Baseado em entrevistas, ´Entre Tramas, Rendas e Fuxicos` revela que a maioria desses ´fenômenos` de moda são casuais. A figurinista Gogóia Sampaio teve que mandar fazer os vestidos de Vitória, porque não os encontrou no mercado.

´Baila Comigo` (1981) lançou a moda de academia no Brasil. A figurinista Helena Gastal conta que, na época, só havia no país roupa de ginástica azul marinho. Ela teve, então, que mandar fabricar peças como macacões, conjuntos de calça e casaco coloridos, meiões de lã e faixa de cabeça. Usados por Betty Faria, conquistaram os telespectadores. Já as famosas meias de ´Dancin´Days` saíram da capa de um disco.

ADEUS, ´ZORRA´

A atriz Maria Clara Gueiros vai deixar o ´Zorra Total´. A dona do bordão ´Vem cá, você me conhece?` se acertou com a direção da Globo na semana passada e vai fazer a próxima novela das sete, ´Beleza Pura´, de Andrea Maltarolli.

´Sei pouquíssimo sobre a personagem, mas estou animadíssima. Só sei que ela será a melhor amiga da Carolina Ferraz. Será uma perua, uma comédia´, conta.

Apesar do sucesso em ´Zorra Total´, já fazia algum tempo que ela batalhava para deixar o programa. ´É bom dar um tempinho. Estou há quatro anos no ´Zorra´. Isso desgasta. O público pode se encher´.

A comediante já atuou em ´Mulheres Apaixonadas` (2003), como secretária do personagem de José Mayer.

A NOVA CINDERELA

Sophie Charlotte (foto), 18, é a mais nova aposta da Globo. A partir de amanhã, ela será protagonista da temporada de 2008 de ´Malhação´, antecipada por causa da baixa audiência da versão 2007. Ela será Angelina, uma Cinderela contemporânea a viver um amor impossível que ressalta as diferenças entre os jovens brasileiros, questionando seus valores diante do novo. ´Angelina é uma menina simples, batalhadora, que vai trabalhar em um hotel AA, para ajudar a mãe. Lá, ela conhece Gustavo [Rafael Almeida], que é rico´, conta. Sophie, por incrível que pareça, não é brasileira. ´Eu nasci em Hamburgo, na Alemanha, e morei lá até os oito anos´, diz. Sua ´brasilidade` vem do pai, que conheceu sua mãe, alemã, na Europa. Atualmente, a família vive em Niterói.

DESAFIO

A minissérie ´Queridos Amigos´, de Maria Adelaide Amaral, vai lançar uma nova atriz. Trata-se de Jaqueline Dalabona, ex-modelo e apresentadora de TV (passou pelo Sony e pela Band, onde esteve à frente do ´Na Pressão´, em 2005). Ela será Helô, uma médica solteira, que tem uma filha em ´produção independente` e guarda um dos segredos da história.

SUPERFAMA

Apresentadora do ´TV Fama` (Rede TV!), a ex-´BBB` Íris Stefaneli agora tem uma assessoria de imprensa. Na semana passada, os jornalistas que cobrem celebridades foram ´brindados` com essa ´vibrante` notícia: ´Íris Stefaneli organiza festa do afilhado´. Mas o melhor ainda estava por vir. O texto informava que o evento teria cerca de cem convidados. ‘Tudo por conta da madrinha´, esclarecia. Ah, bom.

PERGUNTA INDISCRETA

FOLHA – Diz a lenda que você dava beliscões nos baixinhos nas gravações do ´Xou da Xuxa´. Você ainda faz isso?

XUXA (apresentadora, via assessoria) – Como você mesmo descreveu, ´diz a lenda´. ´Lenda – do latim ´legenda` – tradição oral ou narrativa escrita de actos praticados, conforme a fantasia popular; conto; mentira; patranha; invenção´. Você mesmo respondeu à sua pergunta.’

 

CINEMA
Silvana Arantes

São Paulo pára para ver ´Cegueira´

‘São Paulo, a cidade que nunca pára, está aprendendo a pausar seu corre-corre, para virar cenário de cinema. Mas sem perder a mania de reclamar.

No último domingo de setembro, os atores Julianne Moore (a mulher do médico), Mark Ruffalo (o médico), Danny Glover (o velho com a venda), Alice Braga (a rapariga dos óculos escuros), Yusuke Iseya (o primeiro a cegar), Yoshimo Kimura (a mulher do primeiro a cegar) e Mitchell Nye (o garotinho estrábico), acompanhados do Cão das Lágrimas, percorreram o viaduto do Chá e atravessaram a rua Líbero Badaró, em busca de suas casas.

A cena, feita para o longa ´Cegueira´, que o premiado diretor Fernando Meirelles (´Cidade de Deus´) termina de filmar hoje, em São Paulo, corresponde ao momento em que os personagens saíram da prisão.

Nesse ponto da história de ´Ensaio sobre a Cegueira´, do Nobel de Literatura José Saramago, no qual o filme se baseia, toda a população (exceto a mulher do médico) já foi atingida pela epidemia da falta de visão, não havendo mais nem meios nem fins para manter suas primeiras vítimas encarceradas.

Na madrugada, a equipe substituíra placas que identificam o viaduto do Chá e o entorno da praça Ramos por outras, como ´Upper Street´. No filme, a população habita uma cidade não-identificada, mas de língua inglesa, assim como a maior parte do elenco. Toronto e Montevidéu também sediaram parte das filmagens.

Quatro caminhões de lixo cenográfico (parece real, mas é limpo e não cheira mal) foram descarregados em SP, reproduzindo a degradação que se instala na cidade fictícia, à medida que a cegueira avança e os serviços vão sendo suspensos.

Pedestres pararam para reclamar com a equipe sobre o ´absurdo daquela sujeira´. Eram informados de que se tratava de uma filmagem e que o lixo seria recolhido pelos mesmos que o colocaram ali.

Impaciência

Quando o elenco teve de cruzar a Líbero Badaró, ou melhor, a travessa da West Street, o tráfego foi interrompido por minutos. Um motorista não se conformou com a espera. Parado, não tirou a mão da buzina. Quando autorizado a avançar, parou, desceu do carro, subiu a voz e saiu dizendo: ´Todo domingo é a mesma coisa!´.

Meirelles acha ´uma vergonha a impaciência do paulistano´, mas não se queixa. ´Graças ao apoio da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), paramos o Minhocão, o viaduto do Chá e parte da Paulista às seis da tarde de um dia de semana. Não podemos reclamar.´

Quem também deu graças à CET por descobrir o plano de filmagens foi a relações públicas Regiane Tosatti, 30, que, dependurada na grade a partir da qual o acesso ao viaduto estava restrito à equipe de filmagem e com uma câmera na mão, tentava avistar seu ídolo Mark Ruffalo, ´um dos mais belos homens do cinema atual´.

Tosatti sabia que ´ontem [29/9] eles estiveram em Higienópolis e que hoje seria aqui´. Como descobriu? ´Pergunto para a CET, com um sorrisão, e eles dizem.´

Dentro do set, Ruffalo abria mão de formalidades de astro. A uma assistente que o chamou, perguntou: ´Você põe apelido em todo o mundo. Por que me trata por Mark?´

Meirelles diz nunca ter visto ´gente com tão bom humor` como os protagonistas. ´Às vezes, precisava soltar um pigarro para eles pararem de dar risada, ouvirem alguma instrução e rodar a cena.’’

 

Filmar ´foi como andar na corda bamba´, diz Meirelles

‘´Foi como andar numa corda bamba, perdi algumas noites de sono pensando no tom do filme´, diz Fernando Meirelles sobre as filmagens de seu quinto longa, ´Cegueira´.

Ele julga o novo filme ´mais difícil dramaticamente` que os dois anteriores -´Cidade de Deus´, painel da guerra do tráfico no Rio; e ´O Jardineiro Fiel´, drama passado no Quênia, com lobby da indústria farmacêutica de fundo. Os dois somam oito indicações ao Oscar.

A maior complexidade, diz, está no fato de ´a história não ser naturalista´. ´Um tom a mais pode deixar o filme teatral; com um tom a menos, fica bobo´, avalia. Já o processo de produção, que empregou 283 técnicos e 250 figurantes no Brasil, Meirelles diz ter sido ´mais fácil do que o de ´Cidade` e o de ´Jardineiro´, sobretudo pela concentração de seis semanas de filmagem numa antiga penitenciária no Canadá.

Ao lado do diretor pela primeira vez na equipe esteve seu filho, Francisco Meirelles, 19.

´Colocar o Quico neste filme foi a melhor idéia que tive. Melhor até do que a escolha deste excelente elenco. Nós somos muito amigos e acho que ambos gostamos da companhia um do outro´, diz o cineasta.

Embora não tenha incentivado a escolha profissional do filho -´Até duas semanas antes do vestibular, ele ia prestar física, matemática ou história. Entrou em cinema para ver se gosta´-, Meirelles acha ´bom tê-lo por perto, na mesma área` e opina que ´ele deveria tentar atuar também. Tem carisma, é sensível e bem cara-de-pau´.

Em paralelo às filmagens, ´Cegueira` está sendo montado por Daniel Rezende (´Cidade de Deus´, ´Tropa de Elite´) e deve estar pronto até maio do ano que vem, a tempo do Festival de Cannes. A estréia nos cinemas está prevista para o segundo semestre de 2008.

Meirelles prevê para março apresentar o filme ao escritor José Saramago, que demorou anos para autorizar essa adaptação de seu livro ´Ensaio sobre a Cegueira` pelo roteirista canadense Don McKellar.

´Quero mostrar para o Saramago quando tudo estiver mais fechado, música composta, pré-mixagem. Temo por este dia e tento adiá-lo ao máximo, mas é inevitável. Talvez devesse inventar uma desculpa e mandar um DVD pelo correio´, diz, em tom de brincadeira.

Expectativas quanto ao desempenho no Oscar, Meirelles prefere adiar ainda mais. ´Esse filme só seria indicável para 2009. Então é um pouco cedo para pensar nisso. Preciso antes acabá-lo e ver se presta.’’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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