Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FIM DE SEMANA, 27 E 28/10

Folha de S. Paulo

30/10/2007 na edição 457


BOIS MANSOS
Clóvis Rossi


De mansidão e taxistas


‘MADRI – O mundo mais uma vez se curva diante do Brasil. Pena que seja em aspectos profundamente lamentáveis. Começo pela constatação de Thomas Friedman (‘The New York Times’), talvez o colunista mais badalado do planeta, depois de incursão por campi de universidades nos Estados Unidos. Voltou com duas percepções.


A boa: os jovens norte-americanos continuam com o velho impulso de aventurar-se pelo mundo, seja para estudar, seja para ‘construir casas para os pobres em El Salvador’, seja para ‘serem voluntários em clínicas para doentes de Aids, em números recordes’. O lado ruim: como no Brasil, esse pessoal não se mexe para protestar contra o que quer que seja.


O colunista do ‘NYT’ lembra que Martin Luther King, entre outros, ‘não mudou o mundo pedindo que as pessoas se juntassem a ele ‘baixando’ [pelo computador] a sua plataforma’. Ao contrário, escreve Friedman, ‘ativismo só pode ser à maneira antiga -por meio de jovens eleitores falando a verdade para o poder, face a face, em grande número, nos campi ou no Washington Mall [a grande área no coração da capital norte-americana]. Política virtual é só isso: virtual’.


Na Europa ou, pelo menos, na Espanha, o colunista Vicente Verdú (‘El País’), que, além de jornalista, é escritor e formado em ciências sociais, diz o seguinte: ‘O pensamento complexo reduziu tanto sua presença nos debates que os conceitos ajustaram sua dimensão ao tamanho exato do discurso de taxista’ (sem qualquer preconceito de minha parte contra o taxista, com os quais muitas vezes é até divertido conversar, em qualquer lugar do mundo).


Como tenho reclamado, neste espaço, da bovina mansidão do brasileiro e da indigência do debate público, fico mais alarmado. Parece que globalizaram também a mansidão e a mediocridade.’


 


SEGURANÇA PÚBLICA
Elio Gaspari


O oportunismo aborteiro de Sérgio Cabral


‘QUANDO O GOVERNADOR Sérgio Cabral usou o trabalho do economista Steven Levitt (‘Freakonomics’) para defender o aborto como política de segurança pública, dizendo que a favela da Rocinha ‘é uma fábrica de produzir marginal’, juntou, num só ‘bonde’, oportunismo, impostura e ignorância.


Cabral é oportunista porque, em setembro de 1996, quando era candidato a prefeito do Rio, descascou seu adversário, Luiz Paulo Conde, por defender o aborto. Nas suas palavras: ‘Conde foi leviano. O que o Rio precisa é melhorar o atendimento na saúde’. Continua oportunista ao tentar reescrever o que disse ao repórter Aluizio Freire, do portal G1, onde sua entrevista está conservada na íntegra.


Cabral praticou uma impostura quando embaralhou uma questão de direito -a decisão da Corte Suprema que, em 1973, legalizou o aborto nos Estados Unidos-, com as estatísticas do crime nos anos 90. A Corte decidiu uma dúvida constitucional: o direito da mulher de interromper a gravidez. Esse é o verdadeiro e único debate do aborto. Nada a ver com o propósito de fechar (ou abrir) ‘fábrica de produzir marginal’. Levitt, por sua vez, indicou que o aborto foi responsável por até 50% da queda na criminalidade americana. Em momento algum apresentou-o como alternativa de controle da natalidade.


Pelo contrário, qualificou-o como ‘um tipo de seguro rudimentar e drástico’. Cabral submeteu-se a uma vasectomia e não terá mais filhos (teve cinco).


Tanto Levitt como a Corte Suprema não atravessaram a linha que o doutor transpôs, vendo no aborto uma modalidade de política pública capaz de produzir segurança. Uma coisa é dizer que houve uma relação de causa e efeito entre a liberação do aborto e a queda da criminalidade. Bem outra é associar o aborto às políticas de segurança pública.


A teoria de Cabral sustentou-se na ignorância. Ele disse que a Rocinha tem taxas de fertilidade africanas. Besteira, elas equivalem à metade.


Em 2000, o número médio de filhos nas favelas cariocas (2,6) era superior ao dos outros bairros do Rio (1,7), mas ficava próximo da estatística nacional (2,1). Quem acha que o problema da segurança está na barriga das faveladas, deve pensar em mudar de planeta. A taxa dos morros do Rio é a mesma do mundo.


Nos anos 70, muitos sábios sustentavam que o Brasil precisava baixar sua taxa de fertilidade (5,8) para distribuir melhor a riqueza. Passou-se uma geração, a fertilidade caiu a um terço (1,9) e o índice de Gini, que mede as desigualdades de renda, passou de 0,56 para 0,57, chegando ao padrão paraguaio. Nasceram menos brasileiros, mas não se reduziu o fosso social.


A tropa de elite pode acreditar que se aprimora a segurança pública com o capitão Nascimento cuidando dos morros e o governador Cabral dos ventres. As contas de Levitt são honestas, suas conclusões são rigorosas e ‘Freakonomics’ é um ótimo livro. Aplicando-se a outros números de Pindorama o mesmo tipo de tortura cerebrina a que Cabral submeteu as conclusões do economista americano, seria possível dizer que a queda de 67% na taxa de fertilidade nacional provocou um aumento de 300% nos homicídios no Rio de Janeiro.


Serviço: o artigo ‘The Impact of Legalized Abortion on Crime’ , de Steven Levitt e John Donohue 3º, está na internet, infelizmente em inglês. É melhor do que o resumo publicado em ‘Freakonomics’.’


 


TELECOMUNICAÇÕES
Elvira Lobato


Recuperadas, teles via satélite disputam mercado brasileiro


‘As companhias Iridium e Globalstar, ambas de origem norte-americana, entraram para a história, no final da década passada, como o maior desastre registrado no setor de telecomunicações. As duas empresas deram a volta por cima e agora voltam a se enfrentar, no Brasil, na disputa pelos usuários de telecomunicações via satélite: companhias pesqueiras, petrolíferas, mineradoras, Ministério da Defesa, aviação civil e agronegócio.


A Iridium anunciou neste mês a sua reentrada no mercado brasileiro, em parceria com a Tesacom, empresa argentina, com atuação no Chile, no Paraguai, no Peru e no Uruguai.


E chegou cutucando a Globalstar, única fornecedora de telefonia móvel via satélite no país até então. Anunciou que pagará R$ 1.000 por telefone aos clientes da Globalstar que quiserem trocar de operadora. ‘A competição vai esquentar’, afirmou o presidente da Globalstar do Brasil, Fernando Ceylão Filho.


Para o presidente da Tesacom, Jose Sanchez Elia, a extensão territorial e a existência de riqueza em áreas remotas -onde não chega a telefonia convencional fixa ou móvel- fazem do Brasil um dos melhores mercados do mundo para a venda de serviços de telecomunicações via satélite.


Passado turbulento


Iridium e Globalstar são redes de satélites de baixa altitude, projetadas nos anos 80, para oferecer o telefone global, sem fio, capaz de funcionar tanto nas cidades quanto nos lugares mais remotos do planeta. Consumiram bilhões de dólares em investimentos e foram atropelados pela explosão dos telefones celulares, no final dos anos 90.


Criado pela Motorola, a Iridium tem 66 satélites e custou US$ 5 bilhões. Foi inaugurada em 1997 e dois anos depois entrou em concordata nos Estados Unidos. A Motorola cogitou destruir, um por um, todos os satélites, para evitar que provocassem acidentes no espaço. Mas a Justiça norte-americana decidiu vendê-los a quem se comprometesse a manter o serviço. Um grupo de investidores pessoas físicas comprou os satélites (sem as dívidas) por US$ 25 milhões.


Efeitos no Brasil


A crise da Iridium deixou seqüelas no Brasil, que era a base das operações para a América do Sul. Para Cleofas Uchoa, ex-presidente da Iridium Sudamerica, o projeto naufragou nos anos 90 porque chegou tarde no tempo. Ele foi projetado nos anos 80, quando não existia o celular, mas a produção e lançamento dos satélites levaram mais de dez anos para serem completadas, afirmou o executivo.


O mesmo aconteceu à Globalstar, rede de 48 satélites criada pela indústria de satélites norte-americana Loral, ao custo de US$ 3 bilhões.


Assim como a Iridium, a Globalstar entrou em concordata logo após a inauguração, em 1999, e também foi adquirida por um grupo de investidores.


Segundo Ceylão Filho, quando a Iridium parou suas atividades no Brasil, em 2001, a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) patrocinou um acordo entre as duas empresas, para que os clientes da Iridium migrassem para a Globalstar.


Novo perfil


As companhias mudaram o foco de atuação, depois que as operadoras de telefonia celular ofereceram atendimento internacional e ampliaram a cobertura no interior.


O alvo migrou para as empresas baseadas em áreas remotas, não atendidas pelos sistemas de telecomunicações convencionais. Além de telefonia, elas passaram a oferecer acesso à internet em alta velocidade e transmissão de dados.


‘Enquanto as companhias telefônicas caçam patos na lagoa, caçamos lebres nas florestas. Não adianta querermos competir com as teles’, afirma o presidente da Tesacom, Jose Elia.


As empresas têm hoje cerca de 200 mil assinantes, cada uma, em nível mundial. De acordo com o vice-presidente da Iridium para as Américas, John O’Brien, a companhia alcançou 203 mil assinantes em julho último e é lucrativa desde 2004.


Investimento


As duas concorrentes já encomendaram novos satélites que substituirão os atuais, quando eles chegarem ao final da vida útil. Segundo O’Brien, a substituição dos satélites começa em 2013 e custará entre US$ 1,8 bilhão e US$ 2,5 bilhões. O custo da renovação dos satélites da Globalstar é calculado em 900 milhões.


De acordo com o presidente da Globalstar no Brasil, existem quatro sistemas de telecomunicações via satélite no mundo. Somente a Globalstar e a Iridium oferecem telefonia móvel e há diferenças entre esses dois sistemas. A Iridium tem cobertura em qualquer ponto do planeta, enquanto a Globalstar tem área de cobertura, no Brasil, limitada a até 500 milhas da costa.


Há ainda o sistema Inmarsat (que ainda não oferece telefone móvel no Brasil) e o Orbcomm, que é exclusivo para transmissão de dados.’


 


PUBLICIDADE
Louise Story


Publicidade em videogame é nova aposta de empresas


‘DO ‘NEW YORK TIMES’ – Entre seu outros recursos inovadores, o novo Toyota Yaris dispõe de um tentáculo gigante que sai de seu teto e dispara tiros contra os inimigos, enquanto o carro percorre um túnel futurista, se esgueirando entre bolas de fogo a apenas centímetros de distância.


O tentáculo não é equipamento de série nos modelos novos: o Yaris em questão foi desenvolvido por uma produtora de videogames, e não por engenheiros automobilísticos.


O carro armado com o tentáculo é o personagem central de um novo videogame para o Xbox chamado Yaris, que a Toyota apresentou no início do mês. O game é oferecido gratuitamente a todos os proprietários de consoles GameBox 360 nos EUA e Canadá. Trata-se do primeiro videogame para o Xbox criado por um anunciante e distribuído por intermédio do Xbox Live, o serviço em que os jogos podem ser baixados.


Como dezenas de outras empresas que produzem bens de consumo, a Toyota está cada vez mais criando conteúdo próprio, como esse videogame, em lugar de depender de publicidade em comerciais de TV.


‘As pessoas podem acelerar as imagens e fazer muitas outras coisas para evitar a publicidade inserida entre as partes de um programa’, disse Kim McCullough, gerente de marketing da Toyota. ‘É por isso que temos de avançar para além da publicidade convencional e criar conteúdo que realmente envolva as pessoas.’


A Toyota lançou o Yaris no segundo trimestre de 2006 e vem concentrando os esforços de publicidade do modelo nos consumidores jovens. O Yaris não é a primeira marca a ser veiculada por meio de um jogo produzido com exclusividade. Dois anos atrás, a Volvo introduziu um jogo para o Xbox cuja ênfase era a segurança ao dirigir; o videogame era distribuído gratuitamente nas concessionárias. O Doritos organizou um concurso de idéias para o Xbox Games -e as cinco idéias vencedoras estão sendo produzidas por profissionais.


Os anunciantes também estão cada vez mais adquirindo espaço de merchandising nos jogos, em lugar de criar jogos próprios. Os anunciantes nos EUA investirão US$ 502 milhões em publicidade em videogames neste ano, ante US$ 346 milhões em 2006, segundo o grupo de pesquisa de mercado eMarketer. Pouco mais de metade desse total representa publicidade inserida em jogos, e o restante, jogos desenvolvidos por anunciantes, conhecidos no setor como ‘advergames’.


Os anunciantes em geral consideram os fãs de videogames como pessoas difíceis de atingir e avessas a mensagens comerciais, disse Shahid Khan, da empresa de consultoria de mídia IBB Consulting Group.


‘Trata-se de um grupo que não gosta de ser alvo de publicidade’, afirmou. ‘O jogo precisa ser realmente bom. Se for um videogame realmente bom, não fará diferença que tenha sido produzido por um anunciante.’ A idéia e o projeto do jogo do Yaris vieram da Saatchi & Saatchi, a agência da Toyota, que terceirizou a produção para a Backbone Entertainment. A firma é conhecida principalmente pela criação do Sonic, o famoso porco-espinho da Sega. A Toyota investiu alguns milhões de dólares na campanha, incluindo os pagamentos à Microsoft pela promoção e desenvolvimento do jogo, a um custo superior ao dos jogos típicos.


‘O nível de acabamento desse jogo é realmente elevado’, disse Harvey Marco, diretor da Saatchi & Saatchi. ‘Não é um caso escancarado de ‘branding’. O jogo tem o nome do Yaris, e envolve dirigir um Yaris, mas não vamos colocar assinaturas publicitárias no jogo.’


Tradução de PAULO MIGLIACCI’


 


PLAYBOY
Daniel Bergamasco


Mulheres pagam R$ 1.500 para ter dia de Mônica Veloso


‘Os cachês para quem posa nua para a revista ‘Playboy’ são, em geral, múltiplos de R$ 100 mil. Mônica Veloso, nas bancas neste mês, anunciou que compraria uma casa na praia. Irislene Stefanelli, a Siri do programa ‘Big Brother’, tirou a família do aluguel. A apresentadora Sabrina Sato investiu o dinheiro e, mais tarde, com outros ganhos, comprou uma cobertura tríplex no Pacaembu, em SP.


Já a publicitária T.C., 24 anos, vai posar nua em abril. Não ganhará nada. Ao contrário: pagará cerca de R$ 1.500 para matar a vontade de fazer um ensaio nua. O figurino já está definido: nas fotos, ela vai se despir das peças de lingerie que usará na lua-de-mel.


Irislene teve ao menos 380 mil leitores (se contado um para cada exemplar vendido da revista). T.C. terá um só: ‘Vou fazer as fotos para meu marido e mandar o álbum para ele de surpresa no dia do casamento, enquanto eu estiver no salão’, conta, entusiasmada. ‘Vou estar oito quilos mais magra, até por causa do casamento, né? O ensaio vai ter véu, grinalda… Menos o vestido, lógico, que dá azar quando o noivo vê antes.’


O sonho de ser uma ‘playmate’ está à venda pelo preço mínimo de R$ 1.250 na agência Nude. O pacote básico inclui cinco horas de flashes na suíte de um motel, lanchinho, maquiagem, produção básica e, como nas revistas que inspiram a idéia, Photoshop ‘à volonté’. A sessão pode ser acompanhada nos bastidores por uma amiga, se a ‘modelo’ se sentir, assim, mais confortável.


‘As mulheres chegam tímidas, põem um roupão, mas logo relaxam’, diz a fotógrafa Darcy Toledo. ‘Colocamos uma música, damos uma taça de vinho, colocamos uma pluma e ela fica à vontade’, diz Jane Walter, sócia de Darcy.


Outra ‘garota da capa’ por um dia foi a enfermeira T.O., 27, que fez um ensaio ao estilo ‘Lolita’, um dos mais pedidos (o estilo ‘country’ também faz sucesso), com direito a pirulito de coração na boca e maçã vermelha na mão. ‘Fiz de aniversário para o meu marido, e ele adorou. É algo muito nosso. Eu não aceitaria posar nua para a ‘Playboy’, por exemplo.’


Opinião da especialista


Mônica Veloso, que deve emplacar a capa de ‘Playboy’ mais vendida do ano, diz que nunca havia sonhado em posar nua. ‘É engraçado, porque tantas mulheres têm me dito: ‘Ah, meu sonho é ser capa da ‘Playboy’. E eu nunca tinha pensando nisso, sabia? Sou reservada’, informa. ‘Bom, a gente até dá aquela olhada no espelho para ver quais são os melhores ângulos e valorizar, né? Mas posar nua, nua, nunca pensei. Adorei o resultado, ficou chique, não é aquela nudez pornográfica. Devo ser a primeira mulher a aparecer na ‘Playboy’ de calças compridas.’’


 


O tempo é cruel, melhor fazer logo, diz J.R. Duran


‘Autor de mais de uma centena de capas da ‘Playboy’ -Mônica Veloso inclusa-, o fotógrafo J.R. Duran diz que aprova a iniciativa das mulheres que contratam fotógrafos para fazer ensaio seminuas ou nuas ao estilo da publicação.


‘Elas estão certas: o tempo é cruel, melhor fazer logo e guardar uma boa lembrança do corpo’, diz ele, que nunca havia ouvido falar do serviço.


A dona-de-casa Zenaide Campos, 44, concorda com o argumento. Viúva há quatro anos, ela decidiu registrar em fotografias as formas elogiadas pelas amigas. ‘As mulheres não acreditam! Não tenho celulite nem estria’, celebra.


Sem namorado desde que perdeu o companheiro, ela diz que a grande motivação para fazer o ensaio foi massagear a auto-estima. ‘Meu marido era ótimo, mas me ‘cortava’ um pouco, como todo marido. Hoje meus pais não estão mais vivos e meus filhos estão grandes. Não tenho ninguém para me censurar e achei que deveria fazer as fotos’, diz ela, que realizou um ensaio ao estilo da revista ‘Trip’, sem tirar a parte de baixo da lingerie.


No álbum de fotos, disponível na mesa da cozinha para quem visitar a casa de Zenaide, ela exibe na canela outra doce transgressão realizada na fase pós-viuvez: uma tatuagem colorida da personagem Betty Boop. ‘Sempre adorei a Betty Boop e foi legal ver ela nas fotos’, afirma.


‘É dor de cabeça’


Fotografar anônimas nuas pode ser uma barca furada, diz a fotógrafa Renata Castello Branco. Dona de um estúdio especializado em retratos de políticos e empresários, como José Serra e Paulo Skaf, ela já chegou a oferecer esse serviço, mas acabou desistindo da idéia por achá-lo cansativo demais.


‘Comecei a fazer esse trabalho, tive algumas experiências legais, mas, em geral, é muita dor de cabeça. Posar nua mexe muito com elas [as mulheres ‘comuns’]. Se engordam dois quilos, querem adiar… Ficam muito nervosas.’


Renata aponta ao menos um ponto positivo no trabalho. ‘Você consegue fazer fotos diferentes, não eram só as princesas que vinham aqui. Algumas eram bem desajeitadas, aliás, mas tinham sua beleza. É como os empresários que eu faço: ele pode ser vesgo, corcunda, mas ter um sorriso bonito, que faz a foto ficar boa.’


Mas as mulheres, afinal, sentem-se realizadas ao posar nua? ‘Não sei dizer… Será? Algumas ficam muito à vontade, outras nervosas. Depende da mulher, do momento, é tudo muito variável’, diz o fotógrafo André Schiliró, cuja lista de clicadas seminuas inclui da atriz Luana Piovani à modelo top Gisele Bündchen.


J.R. Duran é mais objetivo. ‘Se as mulheres gostam de posar nua? Não tenho a mínima idéia. Nunca me preocupei com isso. Só quero saber de entregar a foto boa. Nunca fui lá perguntar: ‘E aí? ‘Tá’ feliz? ‘Tá’ gostando?’ Pra mim, honestamente, isso não faz a menor diferença.’’


 


TROPA DE ELITE
Michele Oliveira


Universidade reage ao seu papel em filme


‘Estereótipo, absurdo, distorção. É com palavras desse tipo que estudantes e professores de ciências sociais reagiram ao modo como os universitários foram retratados no filme sensação do momento, ‘Tropa de Elite’. Embora reconheçam o consumo de drogas nas faculdades pelo país, rejeitam o rótulo de responsáveis pelo tráfico e pela violência que, dizem, foi dado aos universitários e/ou usuários de drogas no filme.


As impressões acima foram ouvidas pela Folha de estudantes e professores que participaram da 31ª Anpocs, congresso que reuniu, na semana que passou, em Caxambu (MG), pesquisadores de antropologia, ciência política e sociologia.


No filme do diretor José Padilha, alunos do primeiro ano de direito de uma faculdade na zona sul -e nobre- do Rio debatem, em uma aula de sociologia, a ação da polícia contra as drogas. Embora não seja citada nominalmente, a universidade em que foram feitas as filmagens é a PUC (Pontifícia Universitária Católica), na Gávea.


A discussão, na presença de um policial novato, acaba por condenar a ação da polícia contra o tráfico -e inocentes ao redor- e os usuários de drogas, pela truculência com que ela é, dizem, realizada. Nas cenas seguintes, sabe-se que naquele grupo de estudantes há usuários de maconha e cocaína e também envolvidos em um trabalho social realizado em um morro, por meio de uma organização não-governamental. ‘Houve uma estereotipização imensa dos estudantes.


Uma classe estereotipada, na qual foi mostrada uma homogeneidade espantosa demais. É de se supor que haja um pouco mais de resistência, alunos mais heterogêneos, e de se esperar que houvesse mais defensores da ação da polícia’, critica Paulo Menezes, professor de sociologia do cinema no curso de ciências sociais da USP. ‘O filme passa a mostrar que todos os estudantes com consciência social defendem o tráfico de drogas, o que é completamente absurdo.’


‘É um estereótipo achar que todos [os estudantes] financiam as drogas e que todos fazem passeata e ao mesmo tempo fumam maconha. Aquilo existe, mas a minha experiência de academia não bate com aquele retrato’, diz Vinicius Rivello, 26, que faz ciências sociais na Universidade Federal do Paraná. ‘Achei distorcida a visão da academia.’


Em vez de representar toda a classe universitária, Sergio Miceli, professor de sociologia da USP, vê a cena dos estudantes como uma ‘infração de classe’. ‘É uma infração de classe, dos estudantes do mundo da lua, bebendo, totalmente apaziguados e que interagem totalmente protegidos por suas rendas familiares, suas festinhas.’


‘Acho que é uma realidade geral’, rebate um estudante da PUC do Rio que preferiu não se identificar. Ele conta ter assistido ao filme na universidade, próximo de uma rodinha de alunos que fumava maconha durante a exibição. ‘Não teve constrangimento nenhum, como se a realidade tivesse sido banalizada. Não teve uma autocrítica. Mas teve um mal-estar do estereótipo que foi colocado no filme’, afirmou.


Visão do Bope


Também classificando a participação dos estudantes na trama de ‘Tropa de Elite’ como um estereótipo, Lucas Castro, 24, formado em direito e aluno de ciências sociais da Federal do Paraná diz, no entanto, que o filme mostra a visão da polícia sobre a universidade e as ONGs. ‘É a visão do policial, totalmente estereotipada, de que o usuário de entorpecentes financia o tráfico’, diz. A antropóloga Alba Zaluar, professora da Uerj, concorda.


‘O filme apresenta preconceitos que os policiais têm e veiculam constantemente acerca das ONGs, dos estudantes e, por extensão, dos intelectuais’, afirma. ‘É óbvio que não são os estudantes usuários de drogas que são responsáveis pela violência. Ela é extremamente complexa, tem várias fontes, inclusive a facilidade com que as armas chegam aos traficantes, que é uma coisa que tem que ser esclarecida.’


Ecoando o que parece ser uma opinião da minoria, José Alexandre Silva Jr., 26, mestrando em ciência política na Federal de Pernambuco, avalia o retrato da universidade no filme como ‘realista e sensato’. ‘Boa parte dos estudantes age daquela forma.’


A jornalista MICHELE OLIVEIRA viajou a convite da Anpocs’


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Globo ataca com ‘Da Vinci’, SBT terá ‘Superman’, e Record, ‘007’


‘As três grandes redes já estão definindo os filmes que estrearão em 2008. A Globo acaba de fechar novos acordos com as distribuidoras Fox e Columbia Pictures (Sony), suas principais parceiras (além da Disney). O SBT dá continuidade ao contrato de exclusividade com a Warner. Já a Record tem seu pacote de cinema apoiado na Universal Pictures e na MGM.


A Globo, que não teve um 2007 muito feliz nas sessões de filmes, terá no ano que vem o megassucesso ‘O Código Da Vinci’. Também da Columbia, poderá exibir ‘Triplo X 2: Estado de Emergência’, ‘A Lenda do Zorro’ e ‘Hitch – Conselheiro Amoroso’. Da Fox, a Globo comprou ‘Sr. e Sra. Smith’, ‘O Quarteto Fantástico’, ‘O Vôo da Fênix’, ‘Doze É Demais 2’, ‘Robôs’ e ‘Johnny e June’.


Do cinema brasileiro, a Globo contará com ‘O Coronel e o Lobisomem’, ‘Acquaria’, ‘Brasília 18%’ e ‘Casa de Areia’.


No SBT, as atrações serão ‘Superman – O Retorno’, ‘Harry Potter e o Cálice de Fogo’, ‘A Fantástica Fábrica de Chocolate’, ‘A Sogra’, ‘O Filho do Máscara’, ‘A Ilha’, ‘Poseidon’, Terra Fria’, ‘A Noiva Cadáver’, ‘Penetras Bom de Bico’, ‘Syriana’, ‘Firewall – Segurança em Risco’, ‘V de Vingança’, ‘O Grito’ e ‘Rios Vermelhos’ -os dois últimos da independente Europa Filmes.


Já a Record terá ‘A Era do Gelo 2’, ‘007 – Cassino Royale’, ‘Break Up – Separados pelo Casamento’, ‘Miami Vice’, ‘A Pantera Cor de Rosa’, ‘Capote’, ‘As Tartarugas Ninjas – O Retorno’, ‘Velozes e Furiosos -Desafio em Tóquio’, ‘O Plano Perfeito’, ‘Vôo 93’, ‘O Jardineiro Fiel’, ‘O Virgem de 40 Anos’, ‘Dois É Bom, Três É Demais’ e ‘Soldado Anônimo’.


FOI PARA MARTE E ACABOU NA GLOBO


Aos 39 anos, atriz Monica Martelli (foto) já participou das novelas ‘Por Amor’ (1998) e ‘Pé na Jaca’ (2006/07). Mas foi a bem-sucedida peça ‘Os Homens São de Marte… E É Pra lá Que Eu Vou!’ que despertou o interesse da Globo pela atriz. Monica acaba de ser escalada para a próxima novela das sete, ‘Beleza Pura’, que estréia em fevereiro. ‘Considero minha primeira novela. É a primeira que terei peso na trama’, festeja. Na história, viverá Helena, motorista de perua escolar que tem um filho doente. ‘Ela será dramática até o 20º capítulo. Depois, terá humor’, adianta.


A peça [‘Os Homens São de Marte…’ ] virou o antes e depois na minha vida. Antes, na TV, só fiz figuração de luxo


MONSTROS 1


A novela ‘Caminhos do Coração’, da Record, ainda não exibiu todas as suas ‘armas’. Em breve, o time de crianças e adolescentes mutantes, que já conta com uma menina que quebra vidros e um garoto mais veloz que o Papaléguas, terá reforços.


MONSTROS 2


Vêm aí um rapaz vampiro, interpretado por Daniel Aguiar, e um monstro invisível, que, obviamente, não terá intérprete. Eles habitarão uma ilha (você já viu isso em ‘Lost’) para onde foram mandados todos os mutantes que não deram certo.


RUMO A NOVA YORK


A Globo vai montar um esquema especial para que Lázaro Ramos, no ar em ‘Duas Caras’, não perca a cerimônia de entrega do Emmy Internacional, o Oscar da TV mundial, dia 19 em Nova York. O ator concorre a melhor ator e viajará com a mulher, Taís Araújo. Ficará quatro dias nos EUA. Para tanto, a Globo antecipará as gravações das cenas que tenham a participação de seu Evilásio. Também já estão com o passaporte em dia Lilia Cabral (que concorre a melhor atriz) e os diretores de núcleo José Alvarenga (por ‘Os Amadores’) e Ricardo Waddington (‘Por Toda a Minha Vida – Elis Regina’). A delegação da Globo terá ainda Andréa Barata Ribeiro, da produtora O2, finalista com ‘Antonia’.


Pergunta indiscreta


FOLHA – O que você fez para o caracterizador de ‘Duas Caras’ para ele arrumar uma peruca tão ridícula como a que seu personagem, o Geraldo Peixeiro, usou na primeira fase da novela?


WOLF MAYA -(ator e diretor, via assessoria da Globo) -Primeiro, garanti que só usaria a peruca durante cinco dias. Agora sou um cinqüentão careca. Antes era um quarentão cabeludo (risos).’


 


Cássio Starling Carlos


Astro de ‘Arquivo X’ vira galã em série à base de sexo e drogas


‘‘Sex and the City’ na Costa Oeste com um garanhão no lugar das quatro amigas. A inversão da fórmula de sucesso da HBO é a estratégia da produtora Showtime com ‘Californication’, em mais um passo para desbancar a concorrente. A série, que começa a ser exibida no Brasil no próximo dia 6, às 22h, é um dos carros-chefe da nova programação do Warner. Criada por Tom Kapinos, cujo currículo até agora só registrava roteiros de ‘Dawson’s Creek’, ‘Californication’ anuncia desde o piloto a intenção de ir além dos limites considerados respeitáveis da TV.


Centrada no personagem de Hank Moody (que marca o retorno de David Duchovny, o agente Fox Mulder de ‘Arquivo X’, depois de um longo hiato em papéis sem destaque), a série narra o cotidiano de um escritor nova-iorquino que parte para Los Angeles em busca de novas chances no território hollywoodiano, mas passa por um bloqueio criativo. Em torno dele, gravitam a ex-namorada Karen e Becka, filha do casal. O que distingue este da interminável lista de dramas familiares é que ‘Californication’, em definitivo, não é uma produção para famílias assistirem.


Logo na primeira cena do piloto, Hank entra numa igreja, conversa com uma imagem de Cristo em tom jocoso e é abordado por uma freira, que lhe diz: ‘Na maioria dos casos eu recomendaria cinco ave-marias e dez pai-nossos, mas acho que o que você está precisando é de um boquete’. O que vem a seguir é uma sucessão de cenas de transas, nudez e um tratamento sem pudor do sexo recreativo.


A questão familiar, contudo, centrada no problema dos papéis e dos exemplos morais volta à tona nas situações de cotidiano entre Hank e a filha de 12 anos, e os problemas de relacionamento ocupam o centro da trama depois dos três primeiros episódios mais quentes.


Com essa mistura, ‘Californication’ se afasta relativamente de ‘Sex and the City’, já que seu foco em crônica de costumes recorre ao sexo num viés mais moralista do que aparenta à primeira vista, graças ao comportamento em permanente crise de seu protagonista. Hank mergulha em sexo, cigarros, álcool e drogas, mas a combinação só serve para acentuar sua sensação de estar perdido no mundo.


A ambigüidade do personagem de Duchovny, de fato, aproxima ‘Californication’ de ‘Nip/Tuck’, em particular nas ironias recorrentes sobre a obsessão física (uma garota lhe pergunta o que acha de seu rejuvenescimento vaginal, uma parceira quarentona quer saber se ainda é gostosa).


A série também traz uma aparente novidade na mistura de gêneros e formato. É anunciada como comédia, mas de fato trata-se de uma farsa dramática. Por outro lado, preserva da sitcom a duração dos episódios: 30 minutos, em vez dos mais de 50 minutos estabelecidos como padrão pela HBO em suas produções dramáticas.


CALIFORNICATION


Quando: estréia 6/11, às 22h, no Warner Channel


Avaliação: bom’


 


Lucas Neves


Novas séries trazem nerd, feiosa latina e amnésica


‘‘Californication’ divide com ‘Ugly Betty’ e ‘Chuck’ o posto de carro-chefe da safra de séries que os canais Warner e Sony estréiam por aqui a partir de 5 de novembro.


A primeira é uma adaptação da novela latina ‘Betty, a Feia’ (exibida no Brasil pela Rede TV!), que transporta a protagonista para a Redação de uma revista de moda nova-iorquina. Em seu segundo ano nos EUA, o programa já abocanhou três Emmys (o Oscar da TV) e dois Globos de Ouro (incluindo melhor comédia).


Já ‘Chuck’ -que caiu nas graças da crítica, mas tem passado em branco no ibope- mostra os perrengues de um nerd que, ao abrir um e-mail, inicia, sem saber, o download (no próprio cérebro) de arquivos secretos do governo americano. Ele então vira alvo de órgãos de inteligência.


É bom ficar de olho ainda em ‘Samantha Who?’, comédia sobre uma psiquiatra que acorda de um coma com amnésia. Nos EUA, a série é líder de audiência entre as novatas.


Outro destaque é o telejornal satírico ‘The Daily Show with Jon Stewart’, dos poucos programas de variedades a atacar frontalmente o governo Bush -e invicto em sua categoria no Emmy desde 2003.’


 


Laura Mattos


‘Vila Sésamo’ volta ao Brasil


‘Garibaldo está de volta. O famoso pássaro azul que contracenava com Sônia Braga na ‘Vila Sésamo’ agora é amarelo como Big Bird, o original norte-americano. A cor havia sido modificada para melhorar a imagem nos televisores preto-e-branco do Brasil dos anos 70.


A nova versão do programa infantil educativo entra no ar amanhã, da TV Cultura, e será exibida de segunda a sábado.


Além do Garibaldo repaginado, a ‘Vila Sésamo’ brasileira terá um personagem exclusivamente desenvolvido para o país.


A boneca cor-de-rosa Bel, uma menina de três anos, brinca e aprende com o pássaro, que representa uma criança de seis.


O cenário, assinado pelo brasileiro Gert Seewald, tem referências regionais do país, como desenhos indígenas dos marajoaras. Interpretado por Vanessa da Mata, o tema de abertura foi composto por Arthur Nestrovski, articulista da Folha, que assina a trilha sonora.


Veiculado em 120 países, ‘Sesame Street’ é voltado à idade pré-escolar e dá noções de matemática e alfabetização, além de consciência sobre diversidade e meio ambiente.


O projeto é pioneiro na utilização da televisão como ferramenta de educação infantil. Foi desenvolvido por uma organização sem fins lucrativos criada nos EUA há 38 anos, a Sesame Workshop, que assinou contrato com a TV Cultura para a co-produção da versão brasileira.


A ‘Vila Sésamo’ exibida no país na década de 70 foi a primeira adaptação estrangeira do programa original, ‘Sesame Street’. Na primeira fase (1972 a 1974), foi co-produzida e exibida pelas TVs Cultura e Globo. Entre 1974 e 1977, quando saiu do ar, era exclusiva da Globo.


‘Nos anos 70, a nossa luta era para colocar as crianças no ensino fundamental. O Brasil avançou, e a maioria está matriculada. Hoje a luta é pelo ensino infantil. Apenas 35% das crianças de zero a cinco anos estão na escola. ‘Vila Sésamo’ tem o objetivo de universalizar o acesso de todos ao aprendizado nessa fase’, afirmou Âmbar de Barros, coordenadora do núcleo infanto-juvenil da Fundação Padre Anchieta (que administra a TV Cultura), durante a apresentação à imprensa.


‘O Brasil, com 18 milhões de crianças abaixo dos 5 anos, renovou seu compromisso com a educação básica’, disse Daniel Victor, vice-presidente-executivo de projetos internacionais da Sesame Workshop.


78 episódios


Paulo Markun, presidente da Fundação Padre Anchieta, afirmou que o contrato prevê a co-produção de 78 episódios, com um investimento inicial de R$ 2 milhões. Parte dos recursos será captada na iniciativa privada, que poderá ter anúncios institucionais nos intervalos.


Nos últimos anos, a TV Cultura, uma TV pública, vem exibindo comerciais para crianças da mesma maneira que qualquer rede comercial.


‘As regras para a publicidade estão mais rígidas com a ‘Vila Sésamo’ e tendem a ser assim também em toda a programação’, declarou Paulo Markun, presidente da Fundação Padre Anchieta (FPA) desde junho.


‘Vila Sésamo’ também rompe a norma de privilegiar o canal pago da FPA, TV Rá-Tim-Bum, que costuma veicular antes da Cultura os infantis inéditos. ‘Essa é uma estratégia mercadológica, mas o contrato da ‘Vila Sésamo’ é para TV aberta’, explica Markun.’


 


Cristina Fibe


‘Teca na TV’ completa dez anos e protagonista ‘ganha’ pai e mãe


‘Uma família tradicional, em uma casa toda colorida, comanda o reformulado ‘Teca na TV’, do Canal Futura. Os pais de Teca, 8, e de seu irmão, Guto, 6, que antes não apareciam, finalmente ganham rostos no infantil, que completa dez anos e já teve sete temporadas.


A protagonista, hoje interpretada por Clara Tiezzi -a terceira atriz que assume a Teca-, adora usar o irmão caçula (José Carlos Gurgel), com seus óculos quadrados parecidos com os do pai, nas brincadeiras que sua imaginação propõe.


Enquanto isso, os pais (Antônio Fragoso e Josie Antello), caricatos, cuidam de transmitir as mensagens ‘adultas’ e recolocar as crianças na linha.


Quadros educativos


Mas o programa diário, que reestréia amanhã e é exibido em três horários (9h, 14h e 19h), não trata só da rotina e das brincadeiras dos irmãos e seus amigos. O canal traz ainda blocos educativos sobre música, ciência, dança etc., além de animações bem-feitas que ilustram as ‘Aventuras de Teca’.


No primeiro episódio, que abre com o tema ‘Homem pode usar saia?’ em meio à gritaria dos personagens, os telespectadores-mirins são apresentados, em uma breve pílula, ao violino e aos seus sons agudos e graves, por uma violinista de 18 anos ‘entrevistada’ por Teca.


Em outro momento, eles aprendem a ‘questão do dia’: por que uma garrafa fechada, com furos no fundo, não vaza. Antes disso, um urso gordinho briga com aparelhos de ginástica em um desenho animado.


O programa, que terá reprises aos sábados, às 14h30, e domingos, às 10h, procura atingir crianças de 5 a 7 anos.’


 


Bia Abramo


Novela dos mutantes afunda na confusão


‘SE A Record quer ganhar audiência com outras armas além das bravatas e da propaganda, é melhor se apressar para salvar ‘Caminhos do Coração’. A boa idéia de fazer uma novela com apelo juvenil e distante da matriz melodramática corre o risco de afundar numa confusão sem precedentes.


‘Caminhos do Coração’ combina crianças e adolescentes mutantes, policiais corruptos e incorruptos, cientistas loucos, artistas de circo de passado misterioso, executivos implacáveis, malfeitores trapalhões, gays dentro e fora do armário… O que essa gente toda está fazendo numa mesma novela, não se sabe muito bem -para tecer uma trama que fizesse um mínimo de sentido com tantas possibilidades, era preciso um gênio de Holywood ou um roteirista completamente anárquico; a novela, entretanto, não tem nem uma coisa nem outra.


Os personagens estapafúrdios, ao menos, podem ficar engraçados segundo o grau de canastrice de seus atores. Os casos de canastrice involuntária, em geral, resultam melhor, como a vilã de Preta Gil, o rico folgado de André de Biasi, o policial mauricinho de Leonardo Vieira.


Mas é nos diálogos que a coisa pega mesmo. Merchandising constrangedor (uma cena inteira a serviço de uma marca de margarina), conversas em que os personagens repetem uma, duas ou três vezes a mesma frase (quase que palavra por palavra) e explicações científicas ultra-simplificadoras estão entre alguns dos exemplos colhidos de forma mais ou menos aleatória.


Parece que impera uma atitude ‘para quem é, bacalhau basta’, expressão antiga (do tempo em que bacalhau era comida de pobre) que significa que qualquer coisa está bom para aquele considerados inferiores, de alguma forma. E se há um grupo que é sistematicamente tratado como menos exigente, que topa qualquer negócio, que só merece aquilo que, nos gabinetes das emissoras, se imagina que seja do seu gosto, este grupo é o público de TV.


É só pegar carona no sucesso de ‘Heroes’ (que, apesar da competência pop dos seriados americanos, é também incrivelmente canastrona), temperar com efeitos, aproveitar as partes mais aventurescas da experiência bem-sucedida de ‘Vidas Opostas’, juntar umas cenas de sexo completamente descoladas da qualquer lógica na trama e pronto.


Se a idéia é simplesmente disputar no tapa os números de audiência, tudo bem. Vez por outra, esse tipo de estratégia pode colar. Se, por outro lado, a Record quer fazer teledramaturgia de outras maneiras, precisa de mais arroz com feijão.’


 


PARCERIA
Ana Laura Nahas


TV e cinema unem Brasil e Alemanha


‘Um filme-família baseado no livro infantil ‘Eu e Meu Guarda-Chuva’, do titã Branco Mello e do parlapatão Hugo Possolo, inaugura um acordo de co-produção de filmes e séries de TV entre o Brasil e a Alemanha.


O longa-metragem, com direção de Toni Vanzolini (diretor de arte de ‘Eu Tu Eles’ e ‘O Homem do Ano’), roteiro de Adriana Falcão e elenco ainda indefinido, começa a ser rodado em julho e deve chegar aos cinemas um ano depois.


Segundo Leonardo Monteiro de Barros, da Conspiração Filmes, serão sete semanas de gravações no Brasil e uma na Alemanha, com vilão germânico e herói brasileiro. Entre os recursos, 20% serão captados por lá (pela produtora 2 Pilot) e 80% divididos aqui (entre a Conspiração e a Fox do Brasil).


O acordo, firmado em janeiro em Berlim e aprovado pelo Senado brasileiro no último dia 18, aguarda sanção do presidente Lula. Sancionado, permitirá a parceria comercial entre os dois países. ‘Os filmes e as séries poderão utilizar as leis de incentivo no Brasil e os fundos de financiamento na Alemanha’, explica o diretor da Ancine (Agência Nacional de Cinema), Mario Diamante.


Uma convenção semelhante, de 1974, viabilizou a produção dos longas ‘O Céu de Suely’ (2006), de Karim Aïnouz, ‘A Matadeira’ (1994), de Jorge Furtado, e ‘Erotic’ (1994), de Ana Maria Magalhães. Mas não previa, ao contrário da atual, o financiamento de programas de TV e a distribuição de filmes no exterior -’Cinema, Aspirinas e Urubus’ deve ser o primeiro título nacional a ser levado aos cinemas alemães.


‘O acordo é um grande avanço’, disse à Folha o diretor da TV alemã ZDF Meinolf Zurhorst, que está em São Paulo para dois debates na Mostra. Hoje, às 18h, ele participa do encontro ‘Co-Produção Cinema e TV e o Papel da TV Pública’; amanhã, às 16h, integra a mesa ‘Co-Produção Alemanha/Brasil – O Novo Acordo’, no shopping Frei Caneca (r. Frei Caneca, 569, Consolação).


Zurhorst dirige o departamento de cinema da ZDF, uma das duas emissoras públicas da Alemanha, e administra o canal Arte, mantido por seu país em parceria com a França desde 1993. Para ele, a criação da TV pública brasileira, que o governo federal pretende lançar em dezembro, é uma iniciativa relevante. ‘A TV pública é uma parte importante da vida cultural e política do país’, defende Zurhorst .


Ainda não se sabe qual papel efetivo terá a Empresa Brasil de Comunicação na produção de cinema, mas as expectativas são grandes. ‘Como no mundo inteiro as televisões públicas co-produzem filmes, é forte a tendência de isso se repetir no Brasil’, acredita Diamante.


Zurhorst concorda. ‘A TV pública não depende de publicidade, então ela pode apresentar à platéia diferentes pontos de vista ou de estética’, afirma.’


 


ARTE
Jorge Coli


Na beira do rio


‘Você gosta de arte contemporânea? Esse verbo soa meio esdrúxulo: não se ‘gosta’ de arte contemporânea. Enfim, não como se gosta de um Rafael [1483-1520] ou de um Velázquez [1599-1660]. Ou de um Pollock [1912-56]. A arte contemporânea solicita exercícios intelectuais.


Reflexão crítica, como dizem, acreditando que essa palavra seja uma bóia de salvação contra o oceano das ingenuidades.


Arte contemporânea não é para ser amada; não é para o coração, mas para a inteligência. Ora, uma visita à 6ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre [até 18/11], revira esses hábitos austeros.


Ela traz para as margens do Guaíba um ar de beleza. Belo, beleza: como a sensação de gostar, é uma expressão que o intelectualismo artístico de vanguarda costuma repudiar. Mas, justamente por estar excluído das convenções bem-pensantes, o princípio da beleza contém forças subversivas.


O curador-geral, Gabriel Pérez-Barreiro, não pertence ao meio brasileiro. Há ótimos curadores no Brasil, está claro: a própria bienal do Mercosul teve grandes edições precedentes. Mas eles são poucos. Revezam-se nas mostras importantes. Isso significa forçosa repetição de enfoques, inevitáveis déjà vus. Pérez-Barreiro, espanhol de origem, com formação européia e norte-americana, responsável pelo setor latino-americano no museu de Austin, Texas, renovou expectativas que, no Brasil, tendem para o costumeiro.


Soft


Uma sábia decisão da 6ª Bienal do Mercosul reduziu o número dos artistas expostos. É difícil dar sentido para uma pletora de obras. Mesmo reunidas sob algum conceito esperto, viram quase sempre um acúmulo sem grande coerência.


A Bienal do Mercosul restringiu-se a 67 artistas. Permanece substancial e reforça a clareza.


O espectador, num dia, termina a visita captando bem seus múltiplos sentidos.


Sutil


A Bienal do Mercosul criou uma subdivisão: conversas.


Não se trata de uma idéia abstrata, de um conceito. É um método simples: o curador convida um artista, que deve trazer uma obra sua. Esse artista, por sua vez, elege obras de dois outros criadores que mostrem afinidades com a dele. A curadoria define uma quarta, que possa intervir no sentido do conjunto. A primeira obra é forçosamente latino-americana; as outras são livremente escolhidas no mundo inteiro.


O procedimento dilui a autoridade (para não dizer o autoritarismo) da curadoria, ao mesmo tempo que reforça relações.


A tal ponto que, às vezes, o conjunto forma uma unidade intensa. Está claro, evita-se também o provincianismo, as fronteiras nacionais ou mesmo continentais.


O artista uruguaio Fernando López Lage escolheu o filme de Terrence Malick ‘Além da Linha Vermelha’. Não é muito freqüente encontrar nas bienais de arte contemporânea, sempre preconceituosas e cabeça, a presença de filmes destinados ao grande público, mesmo que sejam admiráveis.


Letra e música


A arte de Jorge Macchi já foi exposta no Brasil pelo menos duas vezes: no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo e na última bienal paulista. Em Porto Alegre ganhou realce, instalada no prédio, antigo e solene, do Santander Cultural.


Sua prodigiosa fascinação pela concretude da palavra, da música, dos vazios inventa um lirismo imaterial.


Waltercio Caldas, Nelson Leirner, o ‘Marulho’, de Cildo Meirelles, o ‘Never Ending Continuity Error’ [Erro de Continuidade Sem Fim], de Beth Campbell, são formidáveis, mas qualquer enumeração não completa fica injusta. É melhor, é imperativo, ir a Porto Alegre antes que a Bienal acabe.’


 


LITERATURA
Robert Solé


Quando Paris era uma festa


‘Ele ainda escuta os grevistas da Frente Popular que vinham gritar sob as janelas de sua casa, nas proximidades de Bordeaux: ‘Joyaux ao pelourinho!’ A família de Philippe Joyaux, aliás Sollers, possuía então uma fábrica de utensílios domésticos. Ele acabara de nascer. Mais tarde, na classe ou no recreio, o escolar frágil, muitas vezes adoentado, sofreria todas as piadas idiotas que ‘Joyaux’ pode sugerir [significa ‘jóias’, ‘preciosidades’].


O pseudônimo que ele inventa é inspirado no latim ‘sollus’ e ‘ars’ (industrioso, hábil, destro). Em suma, Sollers. O qual, 70 anos após seu nascimento, não pára de ouvir os gritos dos invejosos ou dos imbecis. Sollers ao pelourinho!


A leitura, descoberta aos 5 anos, foi para ele um maravilhamento. O mundo subitamente lhe pertencia. Incentivado pela família, o jovem Philippe Joyaux tenta sem empenho preparar-se para o concurso da Escola Superior de Ciências Econômicas e Comerciais.


Não demora a voltar para os jesuítas, em Sainte-Geneviève, onde bifurca para a literatura.


Um primeiro romance, ‘Uma Curiosa Solidão’, publicado pela editora Seuil, o coloca imediatamente sob os refletores. Tem 21 anos, em dezembro de 1957, quando François Mauriac lhe dedica sua coluna no ‘L’Express’. Onze meses depois, Aragon o elogia em ‘Les Lettres Françaises’. Ei-lo revestido do ‘temível apadrinhamento da Igreja e do Partido’.


Com outros jovens autores menos conhecidos que ele, Sollers funda a revista ‘Tel Quel’, que se tornará ‘L’Infini’ em 1982, quando rompe com ‘a antiga editora’, Seuil -cujo nome jamais cita-, para se instalar na Gallimard.


Sob a proteção de Barthes e Lacan, o objetivo dessa revista de vanguarda é interrogar a filosofia, a arte, a ciência e a política a partir da literatura.


Suicídio


Sollers afirma que foi tentado duas vezes pelo suicídio, aos 20 e aos 30 anos. E nas duas vezes foi salvo por uma mulher excepcional. Foi primeiramente sua paixão inextinguível por Dominique Rolin, romancista de origem belga, mais velha que ele, ‘uma das mulheres mais belas que jamais existiram’.


Depois, sua paixão duradoura por uma jovem universitária búlgara, Julia Kristeva, com quem se casou, ‘a mulher mais inteligente que já conheci’.


Teríamos gostado de ficar nesses belos retratos femininos, mas Sollers sente-se obrigado a lembrar as ‘prostitutas fabulosas’ que freqüentou, antes de nos tranqüilizar, com uma fanfarronice de colegial, sobre sua competência sexual: ‘Depois de 40 anos de aventuras diversas, pode-se constatar uma espécie de saber absoluto sobre essas coisas’.


Ele é muito mais convincente quando evoca sua paixão ilimitada pela leitura e a escrita. Ele diz que tem ‘duas bússolas: o sexo e o fraseado’. Mas a frase mais instrutiva dessas ‘Memórias’ está na página 119.


Sollers fala com Sollers: ‘Em suma, você sempre misturou mais ou menos o transcendental, a mística, a poesia, o pensamento, o amor, o erotismo, a ironia, a Revolução? Sim, e é justamente isso a Revolução’.


A propósito de revolução, é melhor esquecer o envolvimento maoísta que teve durante três anos. Foi uma máscara. Compreendamos bem: ele pregava a revolução cultural, não por adesão a essa ‘loucura’, mas para combater a França mofada… Que parem, portanto, de importuná-lo com isso: ‘Nenhum remorso, nenhuma culpa, nenhum crime, loucura passageira, paixão pela China mal controlada’.


A íntegra deste texto saiu no ‘Le Monde’.


Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves.’


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Folha de S. Paulo – 1


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O Estado de S. Paulo – 1


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