Sexta-feira, 24 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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ENTRE ASPAS >

Folha Online

24/04/2007 na edição 430

MAINARDI vs. KENNEDY
Kennedy Alencar

Teoria conspiratória, 20/04/2007

‘Em respeito aos leitores, segue um esclarecimento sobre nova teoria conspiratória que surgiu na praça em razão de uma nota publicada na noite de segunda-feira (16/08) na ‘Brasília Online’, uma das duas colunas que assino na Folha Online. A outra é esta Pensata.

Noticiei às 23h08 de 16/04 que o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, ganhara em primeira instância indenização de R$ 30 mil por danos morais em processo contra o colunista da revista ‘Veja’ Diogo Mainardi. Leia a nota aqui.

Em seu blog, o jornalista Reinaldo Azevedo publicou às 16h53 de quarta (18/04) uma nota com o título: ‘Um espectro ronda o direito: a Folha ‘condena’ Diogo no dia 16, e o juiz só assina a sentença no dia 17’.

Reinaldo então escreveu: ‘Acontece que a sentença do juiz, Sérgio Wajzenberg, é do dia 17. Como o repórter soube no dia 16 o que o meritíssimo só decidiria no dia seguinte é um desses mistérios que aguardam explicação. Diogo tratará desse mistério no podcast de amanhã (19/04) e na sua coluna na ‘Veja’ no fim de semana. Estou aqui com os dedos coçando, mas deixarei esse filé para a culinária mainardiana, hehe’. E pedia ainda aos seus leitores: ‘Por favor, façam apenas comentários que possam ser publicados. Para economizar nosso tempo’.

O mistério

Após as 22h de segunda-feira tive a dica a respeito da decisão do processo de Franklin contra Mainardi. Como repórter, chequei a informação. Obtive a sentença. Ela estava no site do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Tenho uma cópia. Data da sentença: 3 de abril. Número do processo: 2006.001.076179-2A.

Esse ‘A’ é fundamental. Significa que se trata de uma ação secundária (incidente, no jargão jurídico, e que versa sobre detalhes processuais da ação principal).

Quem procurasse a ação principal na internet teria de digitar todo o número acima sem o ‘A’. O juiz se deu conta do erro. Pediu que a sentença fosse republicada corretamente. Daí a data de 17 de abril. Uma confusão burocrática.

Não houve nada de ilegal ou de indevido na conduta do juiz. Tampouco na do jornalista. A informação era pública. Para confirmar o que escrevi, basta ligar para 21-3133-2000 e falar com a assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça do Rio.

Será possível saber, por exemplo, que é normal sentenças serem publicadas na internet antes de saírem no ‘Diário Oficial’. O Tribunal de Justiça do Rio é o único no país que está totalmente informatizado, diz a assessoria.

Procedimentos prosaicos do jornalismo dariam conta de esclarecer o mistério. Nem ‘Ubaldo, o Paranóico’, o divertido personagem do saudoso Henfil, cairia nessa.

A importância do fato

Em 24 de março, foi publicada nas versões impressa e eletrônica da Folha uma entrevista que fiz com Franklin. Abordei o episódio Mainardi, perguntando se, como ministro, ele manteria o processo. Achava que era um assunto de interesse público. Por isso dei a nota quando houve novidade a respeito. E pretendo fazê-lo novamente, em eventual prosseguimento do processo. Mainardi tem direito de recorrer da condenação.

Muitos leitores perguntaram se era correto ter me antecipado a uma decisão judicial. Alguns viram ameaça aos direitos individuais de Mainardi, abuso de poder, conluio entre juiz, fonte e jornalista. E por aí vai… Ora, não houve nada disso. E já está claro que não me antecipei à sentença. No entanto, ainda que isso tivesse acontecido, é um procedimento natural e desejável do bom jornalismo.

Quem tem experiência como repórter sabe como é importante dar a notícia em primeira mão. São freqüentes reportagens sobre assuntos secretos e informações reservadas. Exemplo: tentar antecipar como o STF (Supremo Tribunal Federal) pode se posicionar a respeito de determinados temas.

Minha missão principal desde 1996, quando virei editor da coluna ‘Painel’, é escrever sobre bastidores do poder. Ora, não vale antecipar notícia quando ela envolve um jornalista? Repito, não foi o caso. Mas poderia ter sido. Seria compatível com a ética jornalística.

Passado e presente

Como já disse, resolvi escrever este texto em respeito aos leitores que enviaram suas perguntas. Fiz uma atualização pela manhã, acrescentando esta nota, devido a nova manifestação de Reinaldo. Não pretendo tratar desse assunto em novas colunas. Se necessários, eventuais comentários futuros serão registrados neste link. Pretendo usar as próximas colunas para outros assuntos. Vamulá.

Em primeiro lugar, tenho cópia da sentença do juiz. Datada de 3 de abril. É rigorosamente a mesma do dia 17, até mesmo os erros de digitação. Os demais detalhes estão registrados acima, inclusive a explicação do tribunal.

Como o próprio Reinaldo falou do ‘ótimo relacionamento’ que tivemos no passado, vou tratar do assunto também.

Faz tempo que não converso com ele. Nos conhecemos na segunda metade dos anos 80 na Metodista. Ele já era formado. Eu estudava jornalismo naquela faculdade.

Reinaldo apareceu lá num dia em que havia manifestação dos estudantes contra a direção. Eu pertencia à chapa que acabara de vencer a eleição para o Centro Acadêmico e participava do ato.

Reinaldo pediu a palavra. A praça estava lotada. Ele começou o discurso elogiando o passado de lutas do então diretor. Falou que ele havia sido perseguido pela ditadura. Lembrou de sua militância. Enquanto isso, os alunos começaram a estranhar. Afinal, o negócio era malhar o diretor.

Num desfecho sagaz, Reinaldo disse que o militante que ostentava tal currículo não podia ser o mesmo diretor autoritário que se negava então a atender reivindicações justas. Fez sucesso. E algumas reivindicações acabaram atendidas, como a devolução de uma das melhores salas da faculdade para o Centro Acadêmico.

Reencontraria Reinaldo na editoria de Política da Folha no início dos anos 90. Trabalhamos juntos e, de fato, o relacionamento foi ótimo. De amizade mesmo.

Fui inquilino dele por anos, num apartamento no qual minha família viveu muito feliz em Santa Cecília, São Paulo. Ele visitou minha casa. Eu visitei a dele.

Quando cheguei a Brasília, em 2000, ele já havia deixado a capital federal e retornado a São Paulo. Nos encontramos algumas vezes nos últimos anos. Sempre numa atmosfera cordial. Discordo de muitas de suas avaliações, mas as respeito.

Reinaldo, portanto, me conhece. Poderia ter me procurado antes de publicar três notas injustas. Mas, se o jornalista confia nas suas fontes e está seguro do que apurou, manda ficha. É da profissão.

Escrevo isso para deixar claro que considero que relações de amizade não podem significar imunidade a críticas. O trabalho do jornalista é público. Está aí para ser criticado por todos.

Reinaldo, porém, me conhece bem. Conhece o meu caráter. Não hesitou em desqualificar o meu trabalho e a minha conduta pessoal, atribuindo o que escrevo a simpatia por Lula e a relações com o PT e o poder. Incomodou-se com a menção a ‘Ubaldo, o paranóico’, vestindo a carapuça. Ele, porém, não hesitou em dizer que adivinhei decisões, insinuando conluio com autoridades. Vira e mexe atribui reportagens e colunas minhas a jogo de interesses.

Agora, Reinaldo deu eco a ataques que Mainardi desferira no final de 2005. Numa de suas colunas, Mainardi me acusara de ser um jornalista petista. Escreveu que eu era porta-voz de André Singer, então secretário de Imprensa e Divulgação de Lula. Escreveu que fui assessor de imprensa do PT para jogar lama no meu trabalho. Como de costume, mesclou leviandade, grosseria e desinformação.

Não respondi à época. Juridicamente, ele não me acusara de crime. Um eventual processo por danos morais poderia prosperar, mas geraria muita perda de tempo. Achei que seria gastar energia com quem não merecia crédito e que recorria a estratagemas de provocação para fazer barulho e chamar atenção. Ou seja, um provocador meio irresponsável, meio humorístico.

Alguns leitores passaram a repetir os ataques de Mainardi ao enviar comentários negativos a respeito do meu trabalho. Sempre tento responder aos que enviam mensagens civilizadas. Não perco tempo com gente grosseira. As notas do Reinaldo, a quem sempre dei crédito, estimularam nova leva de mensagens. Agradeço a oportunidade de uma resposta coletiva.

Não virei jornalista no governo do PT. Cobri assuntos policiais, os bastidores do governo FHC e duas guerras (Kosovo e Afeganistão). Reinaldo sabe disso.

Mais: está registrada na Carteira de Trabalho a minha passagem pelo PT como assessor de imprensa entre abril de 1994 e julho de 1995. Atividade profissional, mas de natureza diferente da exercida na Folha de S.Paulo nos últimos doze anos –período no qual me esforço diariamente para oferecer com honestidade aos leitores o melhor que posso a respeito dos bastidores da política.

Quem tem ética sabe separar uma função da outra e exercê-las com dignidade. Quem não tem julga os outros pelos parâmetros de conduta que estabelece para si mesmo.

Por último

Avisado por amigos, soube que a revista ‘Veja’ dedicou uma parte generosa de sua maledicência semanal ao meu trabalho. Foram, pelo que ouvi, um editorial disfarçado de reportagem e uma coluna opinativa.

Em ambos os casos, a revista se esforça para transformar um furo jornalístico que ela mesma confirma com dias de atraso num problema para seu autor. Não sou eu que devo explicações à Justiça. Por fim, agradeço às fontes que me deram uma notícia correta e de tamanha repercussão.

Kennedy Alencar, 39, é colunista da Folha Online e repórter especial da Folha em Brasília. Escreve para Pensata às sextas e para a coluna Brasília Online, sobre os bastidores da política federal, aos domingos.’

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Clique nos links abaixo para acessar os textos do final de semana selecionados para a seção Entre Aspas.

Folha de S. Paulo – 1

Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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Veja

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