Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Fora, Parreira!

Por Antonio Carlos Teixeira em 06/04/2004 na edição 271

Já que a mídia esportiva não dá o menor sinal de que reagirá ao péssimo desempenho de Carlos Alberto Parreira no comando da Seleção Brasileira, dou início neste Observatório à campanha ‘Fora, Parreira!’. Que ele vá para a Arábia, a Ásia, a Grécia. Que continue atuando como técnico, mas que se mantenha às léguas da Seleção Brasileira. Não duvide, caro observador: nessa campanha, eu, você e todos os torcedores brasileiros estaremos sós.

Parreira é visto no meio esportivo como lorde, gentleman ou qualquer outra denominação que dê ares de nobreza a seu caráter. No entendimento da mídia, Parreira é ‘homem que não merece críticas’. Até concordo que o cidadão Parreira deva estar imune a julgamentos dessa natureza, ao mesmo tempo em que defendo sua condenação do ponto de vista profissional.

Na quarta-feira (31), o Brasil fez, estatisticamente, sua pior apresentação de todos os tempos. A equipe de Parreira não criou sequer uma chancezinha de gol. O goleiro paraguaio entrou em campo e saiu com seu uniforme intacto, limpinho. Se não fosse o acúmulo de suor poderia tirar o conjunto e guardá-lo no armário. Partida para os brasileiros deixarem cair no esquecimento. Ocorre que esse jogo poderá até ser esquecido, mas outros de desempenho semelhante virão ainda nestas Eliminatórias para a Copa de 2006. Tenho dito sempre a colegas que Parreira é mestre em dar fim aos talentos.

Os jornalistas especializados, no entanto, afirmam que as equipes de Parreira são pragmáticas. Vejo de outra forma. Os times treinados por ele são enfadonhos, fastidiosos. Cansam o torcedor. Esses mesmos jornalistas, quando querem destacar o trabalho do técnico, recordam-se da Seleção de 94 e do Corinthians de 2002. Péssimos exemplos. A Seleção ganhou um título na bacia das almas. A Copa dos Estados Unidos foi a de pior nível técnico a que assisti desde 1978. A partir da primeira fase, batemos nossos adversários no limite do tempo regulamentar. Ou não? E vejam que, tecnicamente, era um bom time. Mas Parreira conseguiu transformar as principais peças daquele grupo em meros robôs, preparados para praticarem um futebol de quinta categoria.

Com o Corinthians, Parreira ganhou duas competições de qualidade discutível: Rio-São Paulo e Copa do Brasil. O torneio interestadual não conta muito porque os clubes participantes ainda estavam fazendo pré-temporada. A Copa do Brasil só foi vencida graças à ajuda providencial do árbitro gaúcho Carlos Eugênio Simon, cujos erros levaram o clube paulista a comemorar o título em cima do Brasiliense. Essas duas equipes, portanto, em nada me fizeram (ou me fazem) mudar o pensamento sobre o trabalho de Parreira.

Depois da partida contra o Paraguai, acompanhei algumas análises sobre o jogo, e confesso que me senti completo idiota. A desculpa padrão da mídia: ‘O baixo desempenho da equipe se deve à falta de conjunto, o qual não se consegue porque o grupo reúne-se hoje e amanhã já está jogando’. Ora, leitor amigo, essa equipe é a mesma que disputou e venceu sete jogos na Copa de 2002! Felipão deixou a Seleção prontinha. Da equipe pentacampeã, houve mudanças em apenas duas posições: Renato no lugar de Kléberson e Kaká no de Rivaldo.

Pesadelos nos esperam

Dessa forma, o argumento de que a equipe não está entrosada é desculpa esfarrapada – uma forma de minimizar o fracasso de Parreira no comando do selecionado canarinho. Argentinos, paraguaios, chilenos e até venezuelanos enfrentam o mesmo problema. Os colegas da mídia esportiva argumentam ainda que eliminatória ‘é isso mesmo’. O Brasil sofre, mas sempre acaba se classificando e vencendo a Copa, dizem. Com Parreira, o brasileiro sofrerá hoje, amanhã e depois. Se o Brasil for à Copa da Alemanha, não trará o hexa pelas mãos de Parreira.

O treinador tem a capacidade singular de arruinar a técnica de qualquer jogador. O ex-atacante Tostão sonha em ver o atacante Robinho, do Santos, fazendo a função de Zé Roberto no time de Parreira. Sonhe, Tusta, sonhe! Casagrande, da TV Globo, vê o zagueiro Alex, do Santos, no lugar de Lúcio ou Roque Júnior. Sonhe, Casão, sonhe! Outros pedem a entrada de Juninho Pernambucano na posição de Gilberto Silva. Sonhem, colegas, sonhem! O certo é que, em se tratando de Parreira, a questão vai mais além que a presença de jogadores mais técnicos. Parreira aprecia, sim, bons jogadores. Ele só não sabe lidar com eles, com o talento de cada um.

Faço um desafio ao leitor: escale uma seleção com os melhores jogadores do mundo e a entregue a Parreira. Convoque Zidane, Nesta, Roberto Carlos, Ronaldinho Gaúcho, Thierry Henry, Figo, Ronaldo, Del Piero, Buffon, Cafu, Beckham, Robinho, Kaká, entre outros. Antes de pôr esses craques para jogar juntos, dê ao treinador quatro meses para entrosá-los. No fim, Parreira terá transformado um grupo de jogadores fora de série numa equipe apática, sem brilho, beirando o ridículo. Ou alguém acha que o time atual do Brasil tem atuado diferente disso? Parreira tem o dom de fazer o torcedor brasileiro sofrer.

Fecho esse texto com frase usada em artigo publicado na edição deste Observatório em 15 de janeiro de 2003 [ver remissão abaixo]. Na ocasião, critiquei a escolha de Parreira para treinar a Seleção Brasileira. Vejam: ‘Não se surpreendam, caros observadores: apesar da riqueza de craques que o país produz, muitos pesadelos nos esperam a caminho do hexa’. Agora, para concluir este texto, deixo a seguinte advertência, que caberia à mídia esportiva: ‘Parreira faz mal ao futebol brasileiro’.

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Jornalista em Brasília

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