Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > FESTIVAL DE CANNES

Frente a frente com Rupert Murdoch. E agora?

Por Guilherme Azevedo, de Cannes em 24/06/2008 na edição 491

Ele acabou de falar para o auditório lotado. Veste camisa azul, calça cáqui e não usa meias. Foi um bate-papo de cerca de 40 minutos, moderado pelo presidente mundial da agência Young & Rubicam, Hamish McLenann, do qual participou, também, o presidente e chefe de operações da News Corporation, Peter Chernin.

Considerou o momento atual da mídia muito positivo em termos de oportunidades, elogiou a ascensão de países como o Brasil, disse acreditar que a entrada de nova gente no mercado poderá aumentar a rentabilidade. É um otimista.

Eu assistia a tudo de minha poltrona, na primeira fila, tendo de me esticar aqui e ali para poder ver. Havia um segurança de pé, à minha frente, coisa inédita no festival, até o seminário desta tarde.

E, assim que o encontro terminou, sem abertura para perguntas do público, saiu pelo palco e desapareceu.

Prontamente me recordei do local por onde deveria sair. ‘Entrée des artistes’, escrito em néon azul, quando está de noite. Fica nos fundos do Palais des Festivals, onde ocorre, anualmente, o Festival de Publicidade de Cannes e o Festival de Cinema, também.

É por ali que entram os artistas, diretores, atores, que participam do festival de cinema, que, este ano, aconteceu de 14 a 25 de maio.

Olhar desconfiado

Imagino que será por ali que ele virá. Acelero o passo, saio do Palais, viro à direita (o dia é azul, claro, são seis horas da tarde), dobro à direita, outra vez, chego à entrada.

Procuro disfarçar, como se eu fosse uma ameaça, uma espécie de guerrilheiro, na guerra contra o Império. Espero. Espero. Então arrisco-me a seguir pela entrée, enquanto uma jornalista e um fotógrafo me observam, parece que eles tiveram a mesma idéia que eu.

Finjo observar cartazes dos festivais mais antigos, expostos no corredor interno. Ando de lá para cá, vou à frente, volto. E descubro um cartaz com o mapa completo do Palais. Olho-o detidamente, a fim de bolar um plano e surpreendê-lo. É um mapa que especifica as rotas de fuga, em caso de incêndio.

Decido subir, arriscar um caminho. Afinal, já conheço um pouco o lugar. É pela entrée que saio toda noite, após labiríntico caminho, no mais profundo anonimato, sozinho, faminto, amarfanhado.

Subo a escada à esquerda, viro à direita, saio por uma porta corta-fogo, contorno, avanço. Ouço vozes, e sigo-as. Será que ele está ali? Estico a cabeça com cuidado, furtivo: são apenas funcionários do Palais.

Desço com velocidade, é melhor mesmo esperar lá fora. Há dois homens ao portão. Imagino serem seguranças e, apesar de me parecer imprevidente, pergunto se o monsieur sairá por ali. Olham-me com desconfiança, procuram meu nome no crachá do peito. Para que eu gostaria de saber. Digo que sou jornalista e que gostaria de fazer umas poucas perguntas a ele.

São eles mesmos que o levarão de volta ao hotel. Esperam por ele.

Passo ligeiro

Escrevo perguntas num papel, apressada e nervosamente. Mal posso compreender. Ensaio mentalmente as perguntas. Procuro algo novo, diferente, para perguntar.

Agora a porta se abre lá dentro e um grupo se aproxima pelo corredor. Não dá para distinguir ainda. Observo, e me exaspero: é ele que vem ali. Tiro o gravador do bolso enquanto me arremesso em sua direção. Está cercado.

Mister, please… Ele pára à minha frente. Balbucio algo incompreensível, uma mistura de inglês com francês com português. Uma fração de segundo, um lapso. Um homem de terno preto, óculos escuros pretos, intervém, diz que não há tempo. Ele, o personagem dessa história, diz que, se quiser, posso caminhar ao seu lado. O homem de preto retorna, me afasta, interdita. Acompanho a marcha rápida da comitiva, caminho ao lado. Conversam apressadamente. Atravessa a praça em frente do festival sem notar ninguém, apesar do tumulto, o primeiro que observo desde que estou aqui, com muitos policiais e um homem que esbraveja.

Faltou malícia ao repórter, dessa vez.

Ele coxeava de uma perna, mas andava rápido. Foi visto, pela última vez, ao adentrar o restaurante chique do hotel Majestic, onde está hospedado. Foi assim que não entrevistei o mais poderoso empresário de mídia do mundo, dono da megacorporação News Corporation, proprietária do estúdio cinematográfico Twentieth Century Fox, da rede de televisão Fox, do Wall Street Journal e de outros jornais na Austrália, Reino Unido e Estados Unidos. Ele se chama Rupert Murdoch.

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Jornalista

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