Quarta-feira, 21 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Furando a bola

Por Antonio Carlos Teixeira em 05/10/2004 na edição 297

Representada por profissionais que respiram futebol 24 horas por dia e, evidentemente, torcedores iguais a milhões de brasileiros (mente o jornalista que diz não ter paixão por nenhum clube), a mídia esportiva tem sido muito questionada nos últimos tempos. O jornalista que esconde seu time está, de certa forma, sendo desonesto com o seu público. Pior faz o profissional que anuncia o clube do coração de maneira escrachada e desrespeitosa, irritando as torcidas adversárias.

Nesse time atuam moderadamente Milton Neves (TV Record e Jovem Pan), Juca Kfouri (TV Cultura e CBN), Benjamim Back (Jornal Lance!), Osmar de Oliveira e Paulo Roberto Martins, ambos da TV Record. O campeão das provocações contra as torcidas adversárias chama-se Chico Lang, da TV Gazeta e do sítio de notícias Gazeta Esportiva.

Infeliz declaração

De norte a sul do país, há outras dezenas de jornalistas que expõem suas paixões de maneira inconveniente. A citação de todos consumiria tempo e espaço desnecessários. Haveria ainda o risco de deixar fora da lista muitos jornalistas-torcedores. Agora, fosse esse o único senão da imprensa esportiva, o problema estaria resolvido.

O comportamento dos chamados ‘analistas esportivos’ neste Brasileiro merece reflexões. Há vários exemplos de mau jornalismo, mas vou me restringir a apenas dois deles por serem atuais e latejantes. O primeiro – e talvez o mais sério – se passou no programa de meio-dia da TV Bandeirantes, agora ancorado por José Luiz Datena, acompanhado dos comentários do sempre polêmico – e às vezes exagerado – Neto, ex-jogador do Corinthians.

Na terça-feira (28), o comentarista da Band enfiou os pés pelas mãos ao defender, sem cerimônia, a violência zagueirões contra atacantes habilidosos, como Denílson, Ronaldinho Gaúcho, Robinho, entre outros. O convidado para o debate era nada mais, nada menos que o zagueiro Júnior Baiano, conhecido por sua velha deslealdade dentro de campo.

Nos últimos jogos, justiça seja feita, o veterano zagueiro do Flamengo tem tido bom comportamento, mas caiu em tentação ao criticar os dribles de Robinho, contra quem fez duas partidas pela Copa Sul-Americana. O debate esquentou quando Neto defendeu o uso da violência para conter os dribles tidos como improdutivos. Datena não concordou com a opinião do ex-jogador e decidiu dar por encerrada a discussão, o que não apagou a infeliz declaração do comentarista.

Esdrúxulo argumento

Neto fez, infelizmente, o jogo dos beques canela-dura, justo na semana em que o técnico do São Caetano, Péricles Chamusca, orientou os torcedores a irem a um show da cantora Ivete Sangalo caso quisessem ver espetáculo. Em outras palavras, disse que o futebol-arte está perdendo espaço para o chamado ‘futebol de resultados’, que privilegia esquemas defensivos. Se o aficionado do futebol juntar as duas declarações (do técnico e do comentarista), chegará à conclusão de que o negócio mesmo é buscar outras formas de diversão.

Outro fato negativo ocorreu no programa Bem, Amigos!, do canal fechado Sportv, apresentado às segundas-feiras por Galvão Bueno. A discussão era sobre o lance que originou o primeiro gol do Atlético-PR na vitória sobre o Flamengo por 2 a 1, na Arena da Baixada. As imagens da TV mostraram, exaustivamente, que o atacante paranaense cometeu falta para livrar-se de seu marcador e empatar a partida aos 43 minutos do segundo tempo.

Pois bem, mesmo diante das imagens da televisão, o ex-jogador Falcão considerou o lance legal, com o esdrúxulo argumento de que esse tipo de falta acontece na maioria das jogadas. Falcão rasgou o livro de regras do futebol. Boa parte dos convidados acompanhou o ‘voto’ do comentarista da TV Globo. Espantado, o colunista de O Globo, Renato Maurício Prado, rebelou-se contra as opiniões, afirmando que os participantes estavam, na verdade, tentando mudar as regras do futebol.

Fim de ano diferente

O jornalista estranhou as opiniões, já que a regra prevê falta quando um jogador segura a camisa do adversário. Por que num ambiente freqüentado por ‘especialistas’ a opinião era diferente? Entre os convidados estavam o técnico do Atlético-PR, Levir Culpi, e o ex-jogador e comentarista de uma TV do Paraná, Sicupira. O ótimo colunista de O Globo só se esqueceu de um detalhe importantíssimo: a TV Globo, da qual ele também é funcionário, está empenhada em fazer do Atlético-PR o campeão brasileiro de 2004.

Com a equipe paranaense campeã, a emissora vai poder explorar até a última gota o problema enfrentado pelo atacante Washington, que conseguiu superar uma cirurgia do coração e voltar aos campos de futebol. A Globo conseguiria transformar um evento comum (que ano após ano resume-se às imagens dos jogadores e da torcida festejando a conquista) num fato extraordinário.

Haveria pautas para todos os programas da emissora – desde o de Ana Maria Braga, passando pelos telejornais e programas dominicais (Faustão e Fantástico) até a produção de um Globo Repórter Especial. Os programas diários do Sportv teriam a chance de levar ao assinante debates acalorados em torno da conquista paranaense, com médicos, psicólogos e outros ‘entendidos’ comentando o assunto. A TV Globo teria, enfim, a oportunidade de dar aos aficionados do futebol um fim de ano diferente.

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Jornalista em Brasília

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