Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Glória e glamour, as moedas do jornalista

Por Augusto Machado Paim em 12/10/2009 na edição 559

Certa vez, ouvi num congresso a célebre expressão ‘síndrome da sobreloja” para explicar algo que acontece com frequência entre jornalistas: ‘Começou a subir, começa a dar uma vertigem…’ Sim, o sucesso facilmente sobe à cabeça.

Por outro lado, tenho acompanhado um processo perverso alimentado pela mesma dinâmica, mas por parte das empresas. É comum (não só comigo) receber propostas dejobs num valor abaixo do previsto pelo sindicato dos jornalistas profissionais do RS (vide tabela, algo que todo jornalista deveria ver, por respeito a si mesmo e à profissão). Acompanhado do valor pífio (que, às vezes, me dá vontade de ser marceneiro ou pintor ou montador de móveis, que dá muito mais dinheiro), vem a seguinte frase: ‘Mas o trabalho é para a revista/editora/empresa X, o que é muito bom para o currículo…’

Se essa ideia pudesse ser usada em outros campos das nossas relações, seria muito boa. Eu adoraria chegar para a empresa de energia elétrica e dizer: ‘Quem sabe, vocês me liberam de pagar a conta, já que eu sou jornalista da revista/editora/empresa X…?’

Tanto há jornalista que vive de glamour quanto há empresas que querem pagar jornalistas apenas com glamour. Daí que jornalista que tem consciência do valor do seu trabalho, e das contas a pagar, se vê em maus lençóis.

Chegando ao estádio, fui barrado

Uma outra questão interessante da profissão ligada ao mesmo tema: há dois anos, fui entrevistar um conhecido jogador de futebol. Conhecido mesmo. Não cito nomes para evitar constrangimentos.

Bueno, fui quatro vezes na mesma semana, quatro dias seguidos, até o estádio, pegando dois ônibus na ida e dois na volta, na tentativa de chegar até o bendito craque. No primeiro dia, depois de duas horas de pé esperando acabar o treino, consegui o contato com ele praticamente me jogando na frente do carro (não lembro a marca, mas era um carrão). O craque pediu para eu falar com o assessor dele.

No segundo dia, vacinado, combinei tudo com o assessor, antes de ir. Cheguei lá, faceiro e nervoso ao mesmpo tempo. Mas vamos que vamos. Aí, depois dos dois ônibus para a ida, chego lá e o assessor me diz: ‘Bah, hoje não vai dar, o craque vai concentrar agora há pouco… você vem daqui dois dias!’

O assessor tinha meu número de celular e não ligou para avisar. Peguei mais dois ônibus e voltei para casa.

No terceiro dia, tentei conseguir credencial para ir ao estádio como imprensa para fazer imagens do craque jogando uma partida oficial. Peguei dois ônibus. Era noite. À tarde, os responsáveis pelo credenciamento me mandaram ir até o estádio, que lá dariam um jeito. Chegando lá, fui barrado. Nem na arquibancada eu poderia ficar. Só pagando ingresso.

A consciência da humildade

No quarto dia, peguei dois ônibus para ir, cheguei ao estádio, o assessor e o craque estavam me esperando. Fiz a entrevista com o assessor me cochichando no ouvido: ‘Só mais duas perguntas, só mais duas!’ O craque deu um depoimento ruim, que não acrescentou em nada, tão acostumado que estava a dar as mesmas entrevistas o dia inteiro.

Peguei dois ônibus para voltar para casa. A princípio, tinha um material glamouroso: uma entrevista com um craque. Mas o craque saiu com um carrão depois de duas horinhas de treino, provavelmente pararia num restaurante para jantar. Eu cheguei a casa depois de duas horas de ônibus e preparei um miojo na minha quitinete.

Algumas semanas depois, uma chuva me pegou desprevenido na rua, sem guarda-chuva. Me encharquei no caminho para uma entrevista com um ex-morador de rua, que ainda era índio caigangui e homossexual. A entrevista durou uma hora. Como acontece nas melhores entrevistas, havia uma empatia mútua no ar e eu senti que estava fazendo algo muito importante para a vida do meu entrevistado. Não é toda hora que um veículo de imprensa chega até ele e pede para contar, sem cortes, a sua história de vida.

Lembro que nesse dia, saindo da entrevista ensopado, cheguei a casa feliz: tinha descoberto o que eu quero da minha profissão, da minha vida. Não quero viver de glamour. Quero sobreviver, recebendo o que for digno. E contribuir, do jeito que for possível, para algo maior.

O ex-morador de rua faleceu há alguns meses. O jogador que entrevistei está na seleção brasileira.

Eu… Pouca coisa mudou para mim. Apenas a consciência de que o jornalista é um humilde entre os glamourosos e que não deve haver ilusão sobre isso. Quero sempre ser humilde.

E quero ser pago com dinheiro, não com glamour.

******

Jornalista

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