Terça-feira, 15 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Goela abaixo

Por Ivan Berger em 12/10/2009 na edição 559


Ao contrário do que muita gente gostaria, a imprensa não tem a menor obrigação de se engajar em causas em que o passionalismo – e outros ismos – visivelmente se sobrepõem à razão, como é o caso da realização das Olimpíadas no Rio de Janeiro em 20l6. Até se entende a empolgação da população e dos interessados pela promoção de um evento dessa envergadura em solo brasileiro, por conta de toda sorte de apelos, mas cabe à imprensa manter os pés no chão e lembrar, entre outras coisas, o contra-senso que representa um país com as carências do Brasil assumir um desembolso que, a julgar pelo precedente do gigantesco e escandaloso roubo, digo, rombo no orçamento dos recentes Jogos Pan-Americanos, calcula-se que possa passar dos 200 bilhões de reais. E adivinhem quem vai bancar a extravagante brincadeira? Os otários que pagam os impostos mais extorsivos do mundo. Extorsivos, sim, na medida que nem de longe acompanhados da devida contrapartida.


Por maior que tenha sido a receptividade, o fato é que a aclamação do Rio de Janeiro na fria Dinamarca está longe de justificar tanta euforia e muito menos ser encarada como uma espécie de bilhete premiado para o Brasil, como querem fazer acreditar os responsáveis pela candidatura brasileira, com o aval decisivo do presidente Lula. Não para as pessoas com um mínimo de bom senso, para não dizer do resto do país, já que comemorações efusivas, além das partes interessadas, só se viu mesmo no show pré-combinado nas areias de Copacabana. Fora deste âmbito, aos poucos vai se vendo, o que prevalece é um sentimento de indignação pela nova tunga que fatalmente se abaterá sobre o erário público.


Apenas um belo cartão postal


Uma indignação silenciosa, que ecoa timidamente pelas esquinas e conversas de pé de ouvido, em vista do caráter de verdadeira blasfêmia que se procura atribuir às manifestações contrárias à consumação do sonho olímpico brasileiro. Ainda mais que o aventado desprendimento e poder de persuasão da imprensa nesse caso acabou deixando muito a desejar, pela forma parcimoniosa com que encarou o desatino do país sediar os dois megaeventos esportivos quase simultaneamente. Se não tanto em relação à Copa do Mundo, que dentro do próprio critério de rodízio de continentes adotado pela Fifa empurrou o abacaxi para o Brasil quase por exclusão, pelo colossal aporte de recursos necessários para atender o complexo organograma do COI.


Não se trata de questionar se podemos, se temos capacidade de dar conta do desafio, o que com as verbas prometidas pelo governo não deverá ser problema. O que incomoda e preocupa é de onde, de que forma e como será feito o controle do dispêndio dessa montanha de recursos, com tudo a fazer e as fontes naturais saturadas. Razão pela qual o açodamento em torno da candidatura do Rio acaba ganhando ares de grande jogada política, um meio engenhoso de gerar e alavancar o desenvolvimento da cidade de mão beijada.


Com tanta coisa em jogo, explica-se a pressa e o empenho em dobrar uma concorrência muito mais qualificada. E ponha qualificada nisso. Para se ter uma idéia, Madrid, a outra cidade finalista, já teria 70% das obras para 2016 concluídas. Ao contrário do Rio, que com seus problemas todos, continua não passando de um belo cartão postal, já que mesmo as benfeitorias do Pan não foram além do esboço.


Conjunto de obras mastodônico


Esboço no qual, como se sabe, foram consumidos quase 4 bilhões de reais, e isso apenas em instalações modestas, que precisarão ser redimensionadas, não só para atender a cartilha do COI, mas, sobretudo, para que o país não destoe em relação à esmerada organização que vem pautando os jogos ao longo do tempo. Um esmero que vem se sofisticando a ponto de se achar, como nos jogos de Pequim, que dificilmente será possível superar a eficiência e beleza emprestada pelos chineses ao evento, além de tudo, coroado por uma retumbante supremacia no quadro de medalhas. Coisa que nem todo intragável ufanismo que vem modulando nosso delírio olímpico ousa prever.


Enfim, discutir se o Brasil deveria ou não promover quase de uma só cajadada as duas maiores festas do esporte mundial, a essa altura já perdeu a razão de ser, com a coisa sacramentada. Agora, como se diz, seja o que Deus quiser. E não adianta sequer lamentar que a questão não tenha sido suficientemente detalhada e amadurecida junto a sociedade, algo que competia a imprensa fazer, mas que em nenhum momento chegou a ser priorizado. Elementar, meu caro Watson, posto que a mídia deverá ser um dos setores mais beneficiados com a realização desses megaeventos em seu quintal, com a perspectiva de faturar os tubos enquanto os outros fazem o trabalho pesado. Melzinho na chupeta, em suma.


A verdade é que, salvo uma ou outra voz isolada, a grande imprensa assistiu de camarote o desenrolar dos acontecimentos, para no fim se dividir entre aderir a empolgação de primeiro momento e o dever de botar água fria na fervura, diante do gigantismo da empreitada e a perspectiva de o país se embrenhar em uma aventura de alto risco. Sim, pois como se sabe, a coisa precisará começar praticamente da estaca zero, e até o momento nem o governo sabe como fará a mágica de arranjar tanto dinheiro sem comprometer o próprio orçamento da União. A princípio, a idéia é fazer do BNDS uma espécie de trem-pagador do saco sem fundo que tende a ser o mastodôntico conjunto de obras previstos para as duas competições, lembrando-se, mais uma vez, do estouro de mil por cento do orçamento do Pan, que resultaram num amontoado de processos que tramitam morosamente no TCU e cujas evidências de superfaturamento envolvem gente ligada ao próprio vitalício presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Nuzman.


Cheque em branco


Acima de tudo, porém, vingou a tese de que o desafio vale a pena, em função do bom momento da economia, dos benefícios materiais para o Rio, para a imagem do país, o incremento do esporte, enfim, todo aquele pacote de vantagens – brilhantemente exposto no documentário de apresentação, diga-se de passagem – que acabou convencendo não só o comitê organizador como o grosso da população, segundo as pesquisas iniciais. Ao que se soma o alentado engajamento do setor privado, que acena com uma série de empreendimentos voltados ao setor turístico, dentro da expectativa de uma demanda que garantiria o retorno de boa parte dos investimentos. Até aí, tudo bem, o Rio de Janeiro penhoradamente agradece. O problema, como já disse, é o preço que o restante do país terá que pagar para bancar a festa, tendo que engolir a conversa mole do presidente de que o Brasil tem uma dívida com os cariocas.


Tudo bem que o ego brasileiro nunca esteve tão inflado, mas como aplaudir e comemorar tamanha aventura sabendo-se que para as nossas sabidas carências e dificuldades nunca há recursos suficientes? Que milhões de brasileiros continuam padecendo com o atendimento precário do INSS, com a deficiência do ensino, transporte, saneamento básico, com a violência que aqui faz mais vítima do que todas as guerras do mundo? Se o governo não consegue prover recursos suficientes para atender esses setores básicos, como aceitar numa boa o cheque em branco a ser sacado para financiar uma penca de obras faraônicas, que depois serão subutilizadas, como vem acontecendo na própria China, não obstante todo seu potencial esportivo?


Só mesmo goela abaixo.

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Jornalista, Santos, SP

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