Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Golaço de Romário, pisada na bola de “Veja”

Por Alberto Dines em 11/08/2015 na edição 863

O “baixinho marrento”, senador de primeira viagem, conseguiu o que políticos poderosos e experientes raramente alcançam: um humilde “mea culpa”   (“Veja”, 12/8, pg. 70) da campeã nacional de onipotência e a coluna inteira da Ombudsman/Ouvidora da “Folha” (Folha, 09/08, A-6), Vera Guimarães Martins a seu favor.

Armas do craque: convicção de inocência e a coragem moral para enfrentar a calúnia.

Com o semanário ainda nas bancas mostrando suposto facsímile de uma conta secreta num banco suíço (BSI), Romário comprou um bilhete para Genebra e lá obteve do banco a garantia de que aquela conta e aquele saldo (equivalente a quase oito milhões de reais) não eram dele.

E no lugar de entrar com uma ação judicial de reparação preferiu começar com algo mais simples, imediato, arrasador: usou a tribuna do Senado Federal para gozar a “barriga” da ex-toda-poderosa derrubadora de presidentes: “Acabo de ser informado que não sou um milionário, ao contrário do que afirmou a revista”. Em seguida entrou com uma ação indenizatória no valor de 75 milhões de reais.

Inacreditável a explicação do Diretor da Redação da revista, Eurípedes Alcântara, à ombudsman da “Folha”: o jornalismo funciona como uma montadora de veículos. “Elas dependem de fornecedores. Nós dependemos das fontes. Quando um fornecedor entrega um lote de peças defeituosas, a montadora faz imediatamente um recall. Não adianta limitar-se a culpar o fornecedor. O reconhecimento rápido, público e sem rodeios do erro equivale ao recall das montadoras. O leitor confia em nós, não em nossas fontes.”

A metáfora do recall é cavilosa, mais do que isso – é aterradora. Pressupõe uma inocência e uma ingenuidade que um serviço com fé pública como o jornalismo não pode alegar sob hipótese alguma. Não estamos falando de peças defeituosas, facilmente substituíveis. Estamos falando de honra e integridade, bens preciosos, insubstituíveis.

Tentar transferir às fontes a responsabilidade por um crime é um artifício diabólico. Lavar as mãos num caso destes e com tamanha leviandade, é amoral. A responsabilidade foi de quem não quis ou não tem grandeza para averiguar a veracidade da informação. E, sobretudo, de quem não está a altura de ocupar uma função historicamente associada à decência, respeito humano e integridade.

“Veja” está em escombros, essa é a dolorosa verdade. Voltou às antigas instalações na Marginal Tietê na vã esperança de lá reencontrar a dignidade perdida. Não adiantou. A peça defeituosa já não está disponível no mercado – fora de linha. O recall neste caso exigiria a troca do responsável pela linha de montagem. Caso contrário é blefe.

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