Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Governança midiática

Por Jota Alcides em 05/05/2015 na edição 849

Como ratificação ao argumento revolucionário de Gramsci, que apresentei em artigo anterior neste Observatório da Imprensa, relacionando o gigantismo da internet e atual crise dos jornais no mundo ao movimento político-ideológico rumo ao socialismo global e à governança midiática, ganham força agora as ideias de um dos marxistas mais influentes da atualidade, reconhecido internacionalmente por seus trabalhos O enigma do capital e os Limites do capital.

Professor de pós-graduação em antropologia da Universidade da cidade de Nova York, David Harvey é um defensor do crescimento zero para a economia global: “Três por cento de crescimento composto (geralmente considerada a taxa de crescimento mínima satisfatória para uma economia capitalista saudável) está se tornando cada vez menos viável de se sustentar. Há boas razões para acreditar que não há alternativa senão uma nova ordem mundial de governança que, afinal, deverá gerir a transição para uma economia de crescimento zero.”

Por que crescimento zero? Porque, segundo David Harvey, não existe alternativa para a nova ordem mundial de governança, que, eventualmente, terá que administrar a transição para uma economia com crescimento zero. “Se isto precisa ser feito de maneira equitativa, então não há alternativa que não o socialismo ou o comunismo. Desde o fim dos anos 1990, o Fórum Social Mundial tornou-se o centro de articulação do tema ‘um outro mundo é possível’. E agora deve assumir a tarefa de definir como um outro socialismo ou comunismo são possíveis e como a transição para esta alternativa deve ser realizada. A atual crise oferece uma oportunidade de reflexão a respeito do que pode estar envolvido.”

Para David Harvey, essa transição anticapitalista não é responsabilidade apenas dos comunistas, mas de todos que desejam um mundo diferente: “Comunistas, Marx e Engels asseveraram, em sua concepção original apresentada no Manifesto Comunista, não pertencerem a partidos políticos. Eles simplesmente constituem-se em todos os momentos e em todos os lugares como aqueles que entendem os limites, deficiências e tendências destrutivas da ordem capitalista, bem como as inúmeras máscaras ideológicas e falsas legitimações que os capitalistas e seus apologistas (sobretudo nos meios de comunicação) produzem para perpetuar o seu poder de classe.”

Vejam que David Harvey chega onde chegou Gramsci condenando as falsas legitimações dos meios de comunicação para perpetuar a hegemonia do capitalismo. Quando um marxista fala em meios de comunicação refere-se sobretudo aos jornais porque estes têm  maior credibilidade, maior liberdade e são formadores de opinião, doutrinando e influenciando os povos na direção que desejam. Daí Harvey ter chegado onde chegou Gramsci: “Um outro mundo é possível”, mas sem o que considera a presença maléfica dos jornais que se servem e servem ao capitalismo como força e símbolo do capitalismo. Como entendem Gramsci e Harvey, “o poder hegemônico combina e articula a coerção e o consenso”.

Daí a maior torcida dos comunistas para que os Estados Unidos, principal potência capitalista do mundo, tenha crescimento zero. Pouco importa se isso pode causar recessão na economia mundial. Pouco importa se isso coloca no abismo da miséria e da fome centenas de países que dependem dos Estados Unidos; Pouco importa se isso vai gerar grande desemprego, pondo milhões de trabalhadores no olho da rua. Quanto pior, melhor, é o que vale para os comunistas, porque assim estará aberto o caminho para a transição anti-capitalista, que inclui a governança midiática.

O imperialismo socialista

Harvey não se abateu com o fim da União Soviética, nem com a queda do Muro de Berlim e nem com o fracasso de Cuba comunista: “Ainda que o comunismo institucionalizado tradicional esteja morto e enterrado, há sob esta definição milhões de comunistas ativos de fato entre nós, dispostos a agir de acordo com seus entendimentos, prontos para exercerem criativamente imperativos anticapitalistas. Se, como o movimento de globalização alternativa dos anos 1990 declarou ‘Um outro mundo é possível’, então por que não dizer também ‘um outro comunismo é possível’? As atuais circunstâncias de crise do capitalismo requerem algo deste tipo, se realmente desejamos alcançar a mudança fundamental”.

Para o professor da Universidade da cidade de Nova York, chegou o momento: no mundo inteiro as economias capitalistas estão fragilizadas, como dificuldades enormes para crescimento acima de zero, enquanto a China comunista mostra a robustez e o vigor de sua economia com PIB atual de 7% (já foi de 12%) e é o maior credor dos Estados Unidos. Como se sabe, na China não há liberdade de expressão, é ditadura comunista. Entre os cinco principais jornais chineses, mantidos pelo Estado e todos controlados pelos comunistas, destaca-se o Diário do Povo (três milhões de exemplares), que é o órgão oficial do Partido Comunista da China.

Para eles, a China é o exemplo a ser seguido pelo mundo: economia aberta e regime político fechado. Assim, os jornais serão, como na China, aparelhos ideológicos do Estado que produzem e reproduzem a hegemonia comunista. Por isso, dessa transição anticapitalista faz parte a estratégia de extinção dos jornais capitalistas atualmente sob grave crise, a maior de sua história, acelerada e aprofundada pelo gigantismo da internet. Para os dois gurus marxistas e seus seguidores, somente sem os jornais do imperialismo capitalista “um outro mundo é possível”. Esse outro mundo é o mundo do socialismo global, de governança midiática sob o imperialismo socialista.

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Jota Alcides é jornalista e escritor

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