Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Greenwich, apenas uma linha imaginária

Por Rodrigo Dias em 20/07/2004 na edição 286

Em breve completaremos três anos do ataque de 11 de setembro contra as torres gêmeas do World Trade Center. Sei que muito já foi dito sobre o assunto, mas queria ainda fazer notar o uso corrente pela imprensa das palavras ‘atentado terrorista’ ou ‘terrorismo’ para descrever o fato. Por que ‘terrorismo’? Por que foi um ‘atentado’, e não um ataque? Por acaso toda a violência e as mortes inúteis causadas pela invasão dos EUA ao Iraque não foram também ‘atentados’? A bomba de Hiroxima não foi um atentado terrorista? Creio que querem me fazer acreditar que o mundo é um imenso jogo de xadrez, disputado por cavalheiros educados e distintos, e regido por regras morais claras e unânimes.

Pois durante uma guerra vale tudo, ou quase; fora dela qualquer ataque é um ‘atentado’. Faz parte do jogo que apenas as nações estabelecidas (EUA, países europeus…) podem decidir quando a ‘guerra’ começa; se um país periférico (Iraque, Afeganistão…) tentar decidir que a guerra começou, então não vale, não conta, seu ataque é traduzido como ‘terrorista’. E não se engane, esta é mesmo a palavra que veio para ficar, substituindo agora o que foi outrora o ‘herege’, o ‘comunista’. Pessoas idôneas podem até não estar do lado de Bush, mas ninguém pode se declarar seriamente a favor dos ‘terroristas’ sem causar no mínimo um certo desconforto. Em nossa decência esclarecida de cidadãos modernos – e principalmente livres – temos horror a tudo o que é violento.

Noção decente

‘Violência não leva a lugar nenhum’, diz a grande mídia e reza a classe média satisfeita e acomodada com o status que já conseguiu (mesmo não abrindo mão de pagar seguranças violentos e despreparados para vigiar seus condomínios). Ora, concordo que a violência – ao menos em teoria – não é a melhor maneira de se chegar a determinados fins. Sou pacifista desde onde alcanço com a memória. Mas não aceito essa história de dar a outra face. Para mim isso não passa da velha moral do cordeiro, enquanto a raposa vai se banqueteando aqui e ali, seguindo uma outra moral, bem própria sua. Moral de gentleman jogador de xadrez. Há casos em que a violência é gratuita, em outros ela é uma forma de desabafo, ou melhor, é uma maneira de se defender, de dizer que não estamos mortos, e que temos direitos. Se ao menos chamássemos de terrorismo apenas à primeira, mas não é o caso. Até porque é muito difícil dizer quando um ato violento foi gratuito, já que seu executor está sempre convicto da própria razão.

O que é terrorismo, então? Francamente, não sei o que é. Mas sei o que querem, os EUA e a mídia, nos fazer acreditar que seja. Querem que chamemos de terrorismo (enquanto nos adestram a torcer o nariz) tudo aquilo que vem de baixo para cima, tudo que é retaliação contra o abuso, contra o imperialismo cruel e deslavado, tudo que for um ataque vindo de minorias, de pessoas ou países mais pobres, à margem do american way of life, ainda que geniais (o ataque de 11 de setembro de 2001 vai ficar para sempre na memória, não só pela sua magnitude, mas também pela originalidade e pela engenhosidade do plano). Os EUA nos são bastante familiares. Alguns de nós até têm conhecidos que viviam ou visitavam Nova York no dia fatídico. Mas quantos de nós conhecem alguém que esteve no Oriente Médio uma única vez na vida? Quem conhece de perto o caos causado por controle-remoto, imposto por nações mais fortes, sempre especulando, mais preocupadas com o lucro do que com as pessoas? (Para citar Chomsky.)

Enquanto não tivermos uma noção decente do que é o mundo, ou de quem está com a razão, o melhor seria evitar usar termos como ‘terrorismo’ para descrever apenas as ações de quem está do outro lado da linha imaginária de Greenwich. Como o nome já diz, é uma linha apenas imaginária.

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Biólogo, São Gabriel da Cachoeira, AM

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