Terça-feira, 25 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > CASO RICHTHOFEN

Hebe Camargo tem razão!

Por Moacir Japiassu em 12/07/2005 na edição 337

O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, o ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior e o jornalista Luiz Weis esperam que a apresentadora Hebe Camargo compreenda o seguinte: se Suzane von Richthofen passou três anos na cadeia e não foi julgada, deve ser, obrigatoriamente, posta em liberdade; afinal, ela não tem culpa se o Judiciário é lerdo e incompetente. O mesmo raciocínio deve ser utilizado para que Hebe e todos nós entendamos por que continua solto o jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves, que assassinou a namorada em 2000. É que também não foi julgado, como a Richthofen, e não é problema dele se tal ainda não aconteceu.

Convencido da justeza de tão sesquipedal absurdo pelos dois referidos luminares, nosso considerado Weis escreveu aqui neste Observatório:

Reale Júnior chamou a atenção, apropriadamente, para o comportamento irresponsável da apresentadora Hebe Camargo, que de direito (como de tantas outras coisas) pouco ou nada entende, mas – para sair bem na foto – desceu a lenha numa decisão legal e legítima.

Quer dizer: a decisão é legal, legítima, e Hebe Camargo não passa de uma cretina como tantos brasileiros já fartos da burrice que impera neste país de merda. Porque, mesmo ‘legal e legítima’, a decisão não chega a ser um primor da inteligência pátria. Ora, nesses dois casos tão controversos, como em tantos outros que a mídia ‘sensacionalista’ transforma em manchetes, registra-se, simplesmente, o clamor da sociedade. Nenhum cidadão de bem admite a liberdade de assassinos covardes, autores de crimes hediondos.

Sob pressão

A imprensa nos conta que uma adolescente juntou-se ao namorado e ao irmão deste para matar os próprios pais a pauladas; e que uma jornalista foi assassinada, com tiros dados pelas costas, por seu chefe e amante. Estas são notícias que excitam e revoltam a sociedade, já cansada da insegurança provocada pela bandidagem. Hebe Camargo representa a maioria absoluta da população, ao exigir castigo para os matadores; sejam profissionais, como Elias Maluco, por exemplo, ou amadores, como os citados.

Ora, se Elias Maluco foi julgado e condenado pouco tempo depois da prisão, por que Pimenta e Richthofen estão em liberdade? É que, solto, o assassino de Tim Lopes poderia cometer outras barbaridades, apregoam, enquanto os outros dois ‘não representam perigo para a sociedade’ e podem aguardar o julgamento deitados na rede armada à beira-mar. De resto, como foi dito, não têm culpa se a Justiça brasileira é tão incompetente quanto a Previdência Social.

(Minha mulher, a jornalista e escritora Marcia Lobo, mais indignada do que Hebe, exclama: ‘Como a Richthofen não representa perigo para a sociedade?!?!?!? Se ela foi capaz de matar os próprios pais, o que não faria para se livrar dos vizinhos?!?!?!’).

Acontece que são criminosos violentos, não estão longe da ferocidade de Elias Maluco. Recordemos que o bandido matou um repórter da Rede Globo, a emissora não permitiu que o assunto morresse, como deveria mesmo ter feito, e todos nós pudemos acompanhar a caçada e seu final feliz, do qual se extrai esta lição: aqui, a Justiça, realmente cega, surda e muda, só funciona sob pressão da mídia mais poderosa. Todavia, se Hebe Camargo, decana representante das donas de casa, abre a boca em seu programa de TV para protestar contra a liberdade da Richthofen, logo aparecem Reale Júnior e Luiz Weis para chamá-la de ignorante e irresponsável.

Esperamos resposta

O que Hebe infelizmente não disse foi que a infeliz órfã deveria continuar presa pelo seguinte e simples motivo: existe alguém neste país capaz de imaginar Suzane absolvida dos crimes que cometeu? Segundo o Código Penal, ela não pegaria menos de 12 anos de cadeia, mesmo se o corpo de jurados fosse composto por quatro Reales e três Mellos ou por sete madres Teresas de Calcutá vindas diretamente do céu. Assim, feitas as contas, a órfã assassina poderia permanecer presa, mesmo sem julgamento, por uns bons 12 anos; então, depois de julgada e condenada (imagina-se que esse seja tempo suficiente para a Justiça se mexer!), ela sairia do banco dos réus diretamente para casa, pois teria cumprido a, digamos, penitência. Porém, se condenada a mais tempo de reclusão, voltaria para completar o restante da pena e pronto.

À luz do bom senso, não existe injustiça alguma no procedimento acima relatado, pois não se deve beneficiar o infrator, como ensinam os críticos de arbitragem das partidas de futebol. Tanto a órfã quanto o desastrado amante Pimenta jamais poderiam desfrutar da liberdade porque a Justiça não os levou ao banco dos réus. Os dois já foram julgados e condenados pela opinião pública, em nome da qual se reúnem os tribunais. ‘Ah!, mas a lei…’, dizem Reale Júnior, Mello e Luiz Weis. Tá bom, tá bom… então, por que não fazem uma consulta popular para saber se assassinos devem ou não continuar presos, mesmo sem julgamento?

Não me digam que o povo não está preparado para decidir sobre matéria tão crucial. Agora em outubro, nossos tão preparados eleitores não vão decidir sobre fabricação e comércio de armas no Brasil? E o povo não foi sábio para eleger Collor e Lula?

Hebe Camargo e seus telespectadores, mais o redator destas humildes linhas, esperamos uma resposta.

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Jornalista e escritor

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