Quinta-feira, 23 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº937

FEITOS & DESFEITAS > Poesia

Herança cultural africana

Por Vitor Cei em 20/06/2016 na edição 908
Africanta, de Hudson Ribeiro, edição independente, Vitória, ES, 2015

A história da literatura ocidental, alicerçada em rígida hierarquização e homogeneização, canonizou um rol de autores predominantemente formado por homens brancos europeus. Tal configuração somente será abalada pelos movimentos multiculturais que tiveram início na década de 1960, abrindo espaço para os grupos marginalizados e minoritários, até então excluídos do diálogo cultural.

Aproveitando o espaço aberto pelos estudos culturais e pós-coloniais, desde o final do século 20 a literatura afro-brasileira vem ganhando novos autores e leitores, graças aos esforços de escritores, pesquisadores e leitores, que buscam forças contra-hegemônicas de resistência e luta.

Com Africanta: ser negro, o poeta capixaba Hudson Ribeiro idealiza uma “Mãe África” como forma de se contrapor ao mito da democracia racial difundido pelo pensamento hegemônico brasileiro. Insere-se, assim, numa tradição literária afro-brasileira ainda em formação, composta por autores preocupados com marcar, em suas obras, a afirmação cultural da condição negra na realidade brasileira. Desse modo, busca o seu lugar no rol de poetas que se dedicam à recuperação da linguagens afro e do seu universo simbólico. Como um gesto de legítima defesa, ele faz questão de se declarar negro e afirmar em seu texto os valores inerentes à essa condição. Exemplar é o poema “Linhagem sagrada”:

Negros forjados em ébano

Somos nós entrelaçados

Com a nossa linhagem sagrada

Os nossos nomes usurpados

Não nos tirou as raízes

Em nós habitam soberanos

Reis e rainhas guerreiros

Das mais destemidas tribos

Somos nobres de berço vetusto

Das terras fartas de leões e leopardos

Onde os baobás bailam serenados

Emoldurando a paisagem

Como a declamar

A beleza da nossa raça

Estampada em nossa pele

Vozes de inúmeros povos

Clamam em nossas veias

E nos preservam solícitas

Valorizando nossa estirpe

Somos nós e além de nós

Pés religados às origens

Cabeças atentas às frestas

Do tempo

Para sacramentar as nossas matrizes

Um amálgama de teoria, poesia e ficção

A nostalgia da ancestralidade africana e a tentativa de exaltação mitificadora da África atende a uma demanda por mais esforços pelo reconhecimento de sua possível especificidade literária e pela reivindicação de mais espaços para a divulgação e legitimação de autores e textos que muitas vezes são preteridos por causa da hegemonia de uma perspectiva eurocêntrica e racista. Sonhar com a África seria sua utopia, pois no Brasil que defende o padrão “cânone ocidental” não haveria espaço para o “filho da África” sonhar:

Quem é filho da mãe África

Sabe na cor negra da pele

A enorme dor da trapaça

De trabalhar duro de graça

De sol a sol e de lua a lua

E mesmo com a mudança dos tempos

Para nós a luta contra a escravidão continua

Agora ainda mais necessária e renhida

Em suma, através do reconhecimento e revalorização da herança cultural africana, Africanta contrapõe-se ao discurso canônico, que se pretende universal através do apagamento das diferenças. Nesse sentido, recomenda-se sua inclusão na bibliografia dos cursos de cultura afro-brasileira, atendendo à Lei 11.645/08, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas do país, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio.

Aos leitores que negam a existência de uma literatura afro-brasileira e apegam-se à defesa do “universal”, vale lembrar que a trajetória do polígrafo Hudson Ribeiro não permite que ele seja rotulado por força do assunto que elegeu para Africanta. Recusando toda rigidez programática, o escritor, que também é professor de Filosofia, tem oferecido ao público um amálgama de teoria, poesia e ficção.

A herança africana na literatura brasileira

O primeiro livro do autor, Ideias com pernas (Flor&Cultura, 2004), escrito em coautoria com Vitor Cei, reúne ensaios filosóficos sobre pensamento grego, telenovelas, futebol e sexualidade, dentre outros temas. Após um hiato de quase uma década, veio Lucidez Renitente (Multifoco, 2013), coletânea de estórias e memórias marcadas por licenciosidade poética, coloquialismo, espontaneidade, brevidade, urbanidade, força crítica do humor, poetização do relato cotidiano, anotação do momento político, libertação das repressões políticas e morais. Desditando, o escritor persegue um estilo próprio – estilo cunhado em seu primeiro e mais importante livro, Além da margem: desditando, que lamentavelmente permanece inédito.

Antecedendo Africanta, temos Cem palavras (Amazon, 2015), reunião de microcontos sobre Oberdan, Dorotheia, Leocádia, Tonico, Nonô, Micaela, Zeca, Jacira, Zenildo, Marimar, Eugenio, Zulmira, Jonildo, Agostinho, Augusto, Edina, Betinho, Walquíria, Roberto, Eleonora, Tina, Antoniel, Olinda e W., personagens que encenam a vida, transmutando-a em obra literária.

Africanta, assim como as obras anteriores, questiona os costumes e crenças dominantes, transgredindo os valores mais prezados pelas forças conservadoras. Por conseguinte, suscita a necessidade de elaborar o passado e criticar o presente prejudicado, mantendo a fidelidade às utopias ainda não realizadas pelos negros brasileiros. Há, pois, na poesia do autor capixaba uma perspectiva crítica que não pode ser ignorada e, em sua esteira, um potencial reflexivo propício à construção de operadores teóricos com eficácia suficiente para ampliar a reflexão crítica sobre a herança africana na literatura brasileira.

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Vitor Cei é professor e doutor em Estudos Literários

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