Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > LOURENÇO DIAFÉRIA (1933-2008)

Herói. Morto. Diaféria.

Por Franklin Valverde em 18/09/2008 na edição 503

Hoje [quarta, 17/9] fiquei sabendo que morreu o jornalista Lourenço Diaféria, vítima de problemas cardíacos. Isso me fez voltar aos meus 18 anos, mais precisamente a uma Bienal do Livro, quando ainda era realizada no Pavilhão do Ibirapuera, e o Diaféria estava lançando a segunda edição da sua novela Berra, coração pela Summus Editorial.


Naquela época, em pleno regime ditatorial, Lourenço Diaféria era o jornalista que havia desafiado os militares – e muitos assim fizeram – com a publicação da crônica ‘Herói. Morto. Nós’ em 1º de setembro de 1977, no jornal Folha de S.Paulo [ver o texto abaixo]. Esse fato resultou na sua prisão, além de seu enquadramento na LSN (Lei de Segurança Nacional), pois o conteúdo foi considerado ofensivo às forças armadas.




[Nota da Redação: Depois da prisão de Diaféria, em protesto a Folha publicou em branco sua coluna no caderno ‘Ilustrada’. Os militares subiram nas tamancas e o general Hugo Abreu, então ministro-chefe da Casa Militar do governo do general Ernesto Geisel, por telefone ameaçou o publisher da Folha, Octávio Frias de Oliveira, de fechar o jornal caso persistissem as críticas ao governo e a coluna continuasse a ser publicada em branco. Frias cedeu. E desse episódio resultou a saída de Cláudio Abramo da direção de Redação do jornal. Ver, neste Observatório, ‘Cláudio Abramo e a FSP – Quando a Folha se tornou a Folha‘ e as matérias correlatas, disponíveis à direita da página, (Luiz Egypto)]


O texto tratava do heroísmo de um sargento que dera sua vida ao pular num poço de ariranhas para salvar um menino que lá havia caído. Em sua defesa ao ato do sargento, em certo momento Diaféria diz:




‘Prefiro esse sargento ao duque de Caxias. O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na praça Princesa Isabel – onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer – oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal’.


É claro que isso desagradou os militares.


Naqueles tempos pensar diferente do que os donos do poder queriam, e mais, publicar aquilo que se pensava, era inadmissível. Para mim, um jovem que queria ser jornalista, não havia melhor exemplo; Diaféria era o homem que pensava e dizia o que queria, era o jornalista cumprindo a sua função social. Quando soube que ele estaria lá na Bienal autografando seus livros, pensei que seria uma boa oportunidade para conhecer o jornalista que para nós, candidatos a focas, era quase um mito. Principalmente nos anos 1970, quando qualquer garoto ao dizer que queria ser jornalista, sempre havia alguém querendo nos demover dessa idéia considerada de jerico. Afinal, exemplos dessa temeridade não faltavam – o caso do Vladimir Herzog ainda estava recente.


A razão


No dia e no horário previstos lá estava eu na fila, livro em punho, esperando a minha vez para receber o autógrafo. Chegou. Estendi o livro, disse o meu nome e recebi a dedicatória: ‘Ao amigo Franklin, ofereço esta parábola contra a violência e a favor da dignidade humana. Com o abraço do Diaféria. Agosto 78’. Ao receber o livro de volta não perdi a oportunidade e perguntei:


– O que o senhor aconselha a um jovem que quer ser jornalista?


Ele olhou sério para o meu rosto, por alguns segundos, e sentenciou:


– Prepare-se bem.


Agradeci e me despedi. Confesso que, naquela hora, fiquei um pouco decepcionado. Talvez esperasse a revelação de um guru ou algo assim, coisa típica de um jovem de 18 anos no fim do século passado. Hoje, trinta anos depois, tendo já percorrido todas as mídias como jornalista, sou obrigado a dizer: Lourenço Diaféria, você tinha razão.


Fica aqui a minha pequena homenagem.


***


Herói. Morto. Nós.


Lourenço Diaféria




Crônica publicada em 1/9/1977, na Folha de S.Paulo



Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.


O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.


Que nome devo dar a esse homem?


Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.


Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói -como o santo- é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.


O herói redime a humanidade à deriva.


Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.


Está morto.


Um belíssimo sargento morto.


E todavia.


Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.


O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel -onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.


O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.


No instante em que o sargento -apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher- salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.


Esse sargento não é do grupo do cambalacho.


Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.


É apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem- não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.


O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.


Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.


É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.


Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.


Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.


E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis -tarde demais.

******

Jornalista e editor da revista virtual Onda Latina; site pessoal aqui

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