Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

ENTRE ASPAS > POLÍCIA 24 HORAS

Histórias em torno do álcool

Por Tiago Costa Pereira em 01/03/2011 na edição 631

‘Sem maquiagem, atores ou ficção: neste programa, os protagonistas são a comunidade e a Polícia de São Paulo e as histórias nem sempre acabam bem.’ Essa é a definição do programa Polícia 24h, que vai ao ar às quintas-feiras às 22h15 pela TV Bandeirantes, retirada do site da emissora. A intenção aqui não é questionar o gosto por estes programas estilo reality show que invadiram a programação das telas brasileiras ou debater sobre a ação, muitas vezes truculenta, das instituições policiais de nosso país. Tampouco se perguntar que razão conseguiu unir este desejo por reality shows, de uma realidade exacerbada e espetacularizada, e o trabalho diário de policiais militares. O foco procurado aqui está no fim da oração que a Band usa para definir o próprio programa: ‘E as histórias nem sempre acabam bem’.

O que seria este ‘nem sempre acaba bem’ no desfecho das histórias mostradas pelo programa? Pessoas sendo presas e levadas a instituições que não cumprirão o seu papel de ressocialização? Quem sabe, famílias sendo destruídas pelo consumo e tráfico de drogas e que, invariavelmente, acabam em cadeia ou morte. Maridos agredindo mulheres, que acabam sempre voltando para casa por medo, amor ou falta de opção melhor? Talvez, algum assalto onde o ‘vagabundo’ é preso em flagrante ou acaba baleado em troca de tiros com os agentes da lei?

Pode ser que a emissora esteja se referindo à briga de vizinhos que, por incapacidade de resolver suas diferenças através de diálogo, acabam se agredindo e indo parar em distritos policiais depois de um dia inteiro de trabalho. Será algum destes desfechos? Ou, quem sabe, todos estes desfechos que a emissora tentava se referir ao optar pela expressão (nada clara, diga-se de passagem) ‘histórias que nem sempre acabam bem’.

Os guerreiros exaltados

A intenção desta reflexão não é a de esclarecer e elencar todas as histórias que ‘não acaba bem’, até porque a própria emissora não conseguiu ou não quis. Mas existe um elemento que tem estado em muitas das ‘histórias que não acabam bem’ nas noites de quinta-feira: a bebida alcoólica. Pelo menos, nas duas últimas edições do reality quem não acabava muito bem havia, na imensa maioria das vezes, consumido álcool em excesso.

Na quinta-feira (24/2), e em apenas dois blocos do programa, foram ao ar as seguintes histórias: de uma briga entre vizinhas, uma delas grávida, que estavam em uma festa particular; uma esposa que chamou a PM porque seu marido estava descontrolado e insistia em entrar com o carro garagem adentro, sendo que a garagem estava com as portas fechadas; frentistas de um posto de combustíveis que chamaram a polícia porque um rapaz parou um carro em frente a uma bomba de abastecimento e acelerou sobre ela; uma briga de bar onde dois idosos se agrediram com tacos de sinuca.

Precisa perguntar como estavam as vizinhas, o marido enfurecido, o motorista do carro e os dois senhores com mais de 60 anos? Total, e visivelmente, embriagados. Quando questionados se ingeriram bebidas, invariavelmente respondiam: ‘Tomei uma ou duas cervejas, só.’ Aparentemente, e apesar de afirmarem o contrário, estas pessoas não seguiram a orientação dos comerciais de cerveja que alertam para que a bebida seja apreciada com moderação. Será que os protagonistas das ‘histórias que nem sempre acabam bem’ são os brahmeiros/guerreiros exaltados por Dunga nos comerciais durante a Copa do Mundo? Ou, são os craques escalados pelo novo técnico da seleção, Mano Menezes, e sua Kaiser? Poderiam ser os foliões e fãs de Ivete Sangalo e de seu cervejão?

Álcool e hábitos saudáveis

A intenção não é a de pregar a proibição, que visivelmente não vem funcionando com outras drogas, ou restrição na venda de cerveja. Certamente, uma lei seca traria consequências desastrosas, como já mostrou a experiência americana nas décadas de vinte e trinta. Mas políticas que desestimulem o consumo de bebidas alcoólicas e que restrinjam suas publicidades seriam muito bem-vindas. Seriam – o verbo está usado de maneira proposital –, se o país não fosse o Brasil, e o ministro da Saúde não fosse Alexandre Padilha.

Absurdamente, no final do mês de janeiro, Padilha declara que está buscando a ajuda da indústria de bebidas alcoólicas para promover hábitos saudáveis. Já é difícil entender que técnicos/jogadores de futebol e astros da música aceitem, seja por qual valor, vincular suas imagens ao consumo de cerveja em comerciais recheados de pessoas magras e, aparentemente, saudáveis. Então, como concordar que o ministro da Saúde de um país – onde o número de mortes no trânsito e de violência doméstica causada pelo consumo de álcool é tão grande – como o Brasil tenha uma atitude de aproximação com as cervejarias como Padilha fez?

Em uma matéria, veiculada no jornal O Estado de S. Paulo do dia 29/01/11, o ministro afirmou que sua ‘principal iniciativa é ganhar a indústria. Não quero ficar contra nem a favor de ninguém’. Qualquer pessoa tem conhecimento que cerveja, cachaça, conhaque ou uísque não têm nada a ver com hábitos saudáveis. Médicos e especialistas estão cansados de alertar para os riscos causados pelo consumo de álcool.

Histórias que sempre acabam mal

Já está passando da hora de as autoridades deixarem de tomar atitudes como as de Padilha, de não querer ficar contra ninguém ou nenhuma grande empresa, e refletir sobre os brahmeiros que, infelizmente, são os protagonistas de histórias que, diferentemente do que prevê a Band, sempre acabam mal. Histórias que acabam nos hospitais, nas delegacias e nos cemitérios. Seja com a melhor das intenções que tenha sido criada a obrigação de veicular a mensagem sobre a necessidade de se apreciar com moderação as Brahmas, Kaiseres, Skols e Schins no fim de seus comerciais, já deu para perceber que esta advertência tem muito pouco, ou nenhum, efeito. ‘Não quero ficar nem contra nem a favor de ninguém’.

Seria interessante ver – poderia ser até em estilo reality show – o ministro Padilha repetir esta frase à filha, de apenas nove anos, do casal Rosélio Alves, 40, e Celine Teixeira, 27. Rosélio e Celine estavam voltando para casa, no meio da madrugada, depois de terem levado sua filha a uma consulta médica. O carro onde o casal e a menina estavam foi atingido em cheio pelo veículo conduzido por Anselmo Cruz Silva, 24. Resultado: a menina vai crescer sem os pais, que morreram no acidente. Detalhe: Anselmo admitiu que havia ingerido bebida alcoólica porque tinha ido jogar futebol com seus amigos. A exemplo dos personagens das ‘histórias que nem sempre acabam bem’ do 24h, Anselmo garantiu que tinha apreciado com moderação uma ou duas cervejas.

Escalado para uma pelada com os amigos ou pelo técnico da seleção canarinho, o ministro deveria saber que existem muitos brahmeiros 24 horas por aí; que não vão beber somente com moderação quando o time do Mano e do Dunga estiverem em campo; ou só durante as folias da Ivete. Mas Padilha prefere não ficar contra ninguém e vai continuar ajudando a escalar os atores para mais histórias que sempre acabam mal e para times que sempre perdem.

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Jornalista e mestrando em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC

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