Sábado, 23 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1025
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Homenagem-clichê a Antônio Maria

Por Urariano Mota em 22/01/2008 na edição 469

Em texto publicado no Diário de Pernambuco de domingo (20/1), o deputado federal Inocêncio Oliveira (PR-PE) escreve sobre o cronista, compositor, humorista, produtor de rádio, de televisão, jornalista, escritor Antônio Maria. Confesso que foi um texto razoável, suportável até um pouco antes do fim, que, para os políticos profissionais e discursadores de ‘improviso’, sempre se reserva para uma chave de ouro. Porque assim terminou o seu artigo o nobre deputado: ‘O Recife e todos nós pernambucanos também temos muita saudade de Maria. Foi, sem sombra de dúvidas, um dos grandes cronistas de seu tempo’. Esta chave de ouro, ‘um dos grandes cronistas de seu tempo’, para quem conhece o valor das crônicas de Antônio Maria, foi que nos deixou um travo, para não dizer mesmo uma raiva.

O cronista Antônio Maria, falecido em 15/10/1964, foi, é, um homem que todos deveriam ter como um companheiro de jornada e de leitura permanente. Não fosse ele o compositor de canções eternas como Frevo número 1, como Ninguém me ama, Manhã de carnaval, Menino grande, Suas mãos, não fosse o autor de um grito, ‘nunca mais vou fazer o que o meu coração pedir, nunca mais ouvir o que o meu coração mandar’, não fosse ele o autor de letras que são ternura em quintessência, ainda assim ele seria lido todos os dias, como uma lição e dever para educar sensibilidades. Como neste recorte de um perfil que escreveu sobre Aracy de Almeida:

‘Não é bonita, sabe disso e não luta contra isso. Não usa, no rosto, baton, rouge ou qualquer coisa, que não seja água e sabão. Ultimamente corta o cabelo de um jeito que a torna muito parecida com Castro Alves… Faz de cada música um caso pessoal e entrega-se às canções do seu repertório como quem se dá um destino. Não sabe chorar e não se lembra de quando chorou pela última vez. Mas a quota de amargura que traz no coração, extravasa nos versos tristes de Noel: `Quem é que já sofreu mais do que eu?/ Quem é que já me viu chorar?/ Sofrer foi o prazer que Deus me deu´… e vai por aí, sem saber para onde, ao frio da noite, na espera de cada sol, quando o sono chega, dá-lhe a mão e a leva para casa’.

Com todo respeito

Ou então aqui, neste aperitivo delicado:

** Ah, que intensos ciúmes, no passado e no futuro, sobre a nudez da amada que dorme! Só você a viu, só você a verá assim tão bela!

** Nas mulheres que dormem vestidas há sempre, por menor que seja, um sentimento de desconfiança.

** A amada tem sob os cílios a sombra suave das nuvens.

** Seu sossego é o de quem vai ser flor, após o último vício e a última esperança.

** Um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta.

** Mas, já que é isso impossível, que ao menos chova, a noite inteira, sobre os telhados dos amantes’.

Saber que esse Antônio Maria foi cronista de todos os tempos, dos maiores do Brasil, um compositor-cronista divulgado para o mundo na voz de Nat King Cole, e ler que ele foi um ‘um dos grandes cronistas de seu tempo’… Vossa Excelência, com todo o respeito, dá um tempo. Mude de cronista, de chave de ouro ou de autor.

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Jornalista e escritor

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