Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & MERCADO

Iceberg compra Titanic, mas objetivo é dominar o mar

Por Sérgio Dávila em 13/08/2013 na edição 759

Reproduzido da Folha de S.Paulo, 7/8/2013; intertítulo do OI

“O iceberg comprou o Titanic”, brincou ontem em manchete a revista eletrônica Salon, referindo-se ao fato de Jeff Bezos, dono da Amazon, cujo sucesso ajudou a fechar várias livrarias, ter adquirido o Washington Post, representante da mídia dita tradicional. Pode ser, se a análise da aquisição do jornal for feita apenas do ponto de vista econômico.

Bezos gastará na transação US$ 250 milhões – ou o equivalente a 1% de sua fortuna pessoal, avaliada em US$ 25 bilhões. Embora a empresa que até anteontem editava o jornal estivesse no azul, amparada principalmente pela operação na área de educação, que é superavitária, o mesmo não é verdade quando se isola apenas o Post. A Washington Post Company teve receita de US$ 4 bilhões em 2012, com lucro de US$ 132 milhões no mesmo ano. A Kaplan, divisão de educação que engloba escolas, material didático e testes on e offline, foi responsável por mais da metade da receita total, ou US$ 2,2 bilhões.

Já o jornal viu sua receita cair de US$ 957 milhões em 2005 para US$ 582 milhões no ano passado. No mesmo período, seu resultado foi de lucro de US$ 125 milhões para perda de US$ 54 milhões; a circulação de segunda a sábado diminuiu de 706 mil exemplares diários para 472 mil; aos domingos, de 983 mil exemplares para 687 mil.

“A Amazon precisa de amigos em Washington”

Mas Bezos não adquiriu um jornal impresso em declínio, e sim, uma marca relevante e respeitada. Ainda que o crescimento do site rival Politico preocupe, o Post ainda é o segundo jornal de interesse geral em prestígio nos EUA e o primeiro na capital norte-americana. Para ficar apenas num exemplo, os livros escritos por seu jornalista principal, o repórter Bob Woodward, 70, são considerados o registro não oficial mais relevante dos governos de sucessivos ocupantes da Casa Branca, começando por Richard Nixon (1913-1994), que ele ajudou a derrubar em 1974 ao revelar com Carl Bernstein o escândalo Watergate. Barack Obama pode comprar os livros de Woodward pela Amazon, mas é no Post que ele lerá primeiro os trechos inéditos de suas obras.

Sim, espera-se que Bezos ajude a reinventar o modelo de negócios do jornalismo profissional, como fez na Amazon com o e-commerce, mas não se deve desprezar seu interesse pelo valor institucional do diário. A Amazon é um gigante com receita de US$ 61 bilhões em 2012 e interesses múltiplos. Só no ano passado, a empresa gastou US$ 2,5 milhões com lobistas, de acordo com o Center for Responsive Politics, que faz levantamento sistemático desse tipo de gasto e de doações de empresas e pessoas físicas a políticos. Em 2013, já despendeu mais US$ 1,7 milhão.

Entre os assuntos que valem a atenção da gigante do comércio em Washington estão projetos de lei que lidam com privacidade na rede, imposto de vendas feitas pela internet, reforma postal, segurança digital e venda de vinho online. “A Amazon precisa de mais amigos em Washington”, escreveu o analista de mídia Ken Doctor. Com US$ 2,5 milhões, Jeff Bezos consegue influência localizada; com US$ 250 milhões e o Washington Post, o empresário passa a influenciar o país. Nesse sentido, o iceberg pode de fato ter comprado o Titanic, mas o objetivo é dominar o mar.

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Sérgio Dávila é editor-executivo da Folha de S.Paulo

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