Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > ENTREVISTA / ARMANDO NOGUEIRA

Ícone da crônica esportiva faz 80 anos

Por José Reinaldo Marques em 19/02/2007 na edição 421

Reverenciado entre seus pares como um dos maiores nomes da crônica esportiva brasileira de todos os tempos, o jornalista Armando Nogueira chega aos 80 anos e diz que pretende continuar redigindo seus textos, porque escrever é sua sina e sobrevivência: ‘Preciso escrever por necessidade profissional e existencial’.

Nesta entrevista, ele explica por que é apaixonado por aviões desde os 5 anos de idade e fala de gente e temas que vão de Nelson Rodrigues à sua paixão pelo futebol e pelo Botafogo, dos tempos em que era repórter do extinto Diário Carioca, ao lado de Otto Lara Resende, Pompeu de Souza e Fernando Sabino, aos motivos que o levaram a deixar a direção de Jornalismo da TV Globo.

***

Em que ano você chegou ao Rio de Janeiro?

Armando Nogueira – Cheguei aqui em setembro de 1944, com 17 anos de idade, vindo diretamente de Rio Branco, num vôo da Cruzeiro do Sul que levava dois dias do Acre ao Rio.

Qual foi a primeira impressão que teve da cidade?

A.N. – Mais que um deslumbramento, foi um choque emocional, porque nunca tinha visto o mar, asfalto, bonde e automóvel – até aquela altura, só tinha conhecido um carro na minha vida. A sensação física era de que eu estava respirando um ar que pertencia a outros e não a mim. Que eu estava usurpando um meio físico de um carioca. Isso me dava um desconforto e uma insegurança muito grande. 

Por quê?

A.N. – Eu me sentia muito intimidado e afrontado com a maravilha que era a vida urbana, com todos os ingredientes que naquela época eram sedutores. Rio de Janeiro era uma cidade sem violência e muito cordial que soprava a brisa do poder, por ser a capital da República.

O que mais o impressionava era a estrutura urbana da cidade grande ou a postura do povo carioca?

A.N. – Todos esses elementos juntos. Sofri forte impacto com a beleza da cidade e também com as manifestações das pessoas, que, de certa maneira, me deixavam inibido pelo olhar, o sorriso e o ar sisudo com que me assustavam no bonde.

Demorou muito para se adaptar à nova realidade?

A.N. – Demais. Era impressionante como eu, um jovem interiorano, me sentia muito órfão. Nessa época o Brasil era um arquipélago urbano, as cidades pouco se intercomunicavam. Consegui superar essa fase graças à rotina do Instituto Lafayete, onde me matriculei para complementar os estudos.

Como se deu esse processo?

A.N. – A convivência com os colegas de turma foi decisiva para eu conquistar um lugar na cidade. Mas um dado muito curioso contribuiu para a minha adaptação: a simpatia que as pessoas demonstravam por alguém com uma procedência tão exótica de acreano como eu; quando ninguém sabia que o Acre existia. Isso despertava muito interesse, era como se eles dissessem ‘descobrimos um kaxinauá, um apurinã’, para citar as duas tribos indígenas mais conhecidas do estado.

E por que você resolveu sair de Xapuri, sua cidade natal?

A.N. – Achava que estava sem horizonte no Acre. Minha intenção era continuar a carreira de pilotagem, iniciada no aeroclube de Rio Branco.

Então seu gosto por aeronaves é antigo?

A.N. – É um devaneio desde que eu tinha 5 anos de idade, quando tinha freqüentes sonhos de que estava voando nas asas de um regador de jardim. Voar de ultraleve, como faço atualmente, não é um acaso na minha vida. Eu diria que faz parte de uma predestinação.

Por que você decidiu estudar Direito?

A.N. – Esse era o desejo do meu pai. Acabei me formando, mas nunca fui buscar o diploma.

A vontade de ser jornalista já era mais forte?

A.N. – Quando eu estava no segundo ano de Direito, abriu-se uma oportunidade para eu exercer o jornalismo. Experiência – muito incipiente – que eu já tinha tido quando estava no colegial e redigia notícias para o jornal O Acre. Meu sonho oscilava entre ser aviador ou jornalista, nunca bacharel, porque já estava no pleno exercício da atividade de imprensa.

Onde foi o seu primeiro emprego como jornalista?

A.N. – Num jornal que já desapareceu do mapa, chamado Diário Carioca, mas não sumiu da História, porque foi um veículo muito importante no Rio de Janeiro.

Como profissional, você já começou atuando na editoria de Esportes?

A.N. – Sim, fazendo a cobertura das equipes que vieram ao Brasil disputar a Copa do Mundo de 1950.

Nessa época o Diário Carioca contava com uma equipe de jornalistas de primeira linha, que incluía Prudente de Moraes, neto e Carlos Castello Branco. Como foi conviver com eles?

A.N. – Eu era um garoto extremamente comunicativo, isso facilitou demais o meu acesso a essa geração de monstros sagrados do jornalismo, entre os quais faço questão de citar o legendário jornalista Jota Efegê, que foi crítico musical. Conheci também Pompeu de Souza e Sábato Magaldi, que eram críticos de teatro; Otto Lara Resende, repórter político; Fernando Sabino, colunista e cronista. Essa elite me adotou, inclusive me chamava carinhosamente de Armando Doidinho.

Por que este apelido?

A.N. – Porque eu era muito safo e elétrico e eles achavam que eu tinha uma espontaneidade que atribuíam à magnanimidade da floresta acreana. Tanto que ao me apresentar a seus amigos da boemia, quando saíamos à noite do jornal, o Rubem Braga dizia: ‘Esse aqui é o Armando Nogueira, recém-chegado do Acre, onde vivia da caça, da pesca e da coleta de frutos naturais, como um bom nativo.’

O Diário Carioca foi, então, a sua escola de jornalismo?

A.N. – Foi a minha escola definitiva, onde me preparei do ponto de vista técnico e, sobretudo, ético para exercer a profissão.

Você ainda trabalhava no Diário quando testemunhou o atentado ao jornalista Carlos Lacerda?

A.N. – Sim, e fiz a matéria principal. Eu estava entrando em casa quando presenciei o atentado (na noite de 5 de agosto de 1954). A primeira coisa que fiz foi correr para uma esquina, entrar num bar em busca de um telefone e ligar para o jornal. Pedi ao secretário de Redação, que era o Pompeu de Souza, para não fechar a edição, porque eu tinha acabado de assistir a um atentado contra o Carlos Lacerda, ia apurar os últimos dados e voltaria correndo para lá.

O que aconteceu em seguida?

A.N. – Ele pôs todo mundo de plantão e me deu a instrução para redigir a reportagem na primeira pessoa do singular, ato que acabaria se tornando um fato quase histórico na técnica de escrever notícias de jornal.

O texto é considerado um marco no jornalismo brasileiro.

A.N. – Foi uma grande jogada do Pompeu me transformou de repórter em testemunha.

Diz-se que todo repórter é testemunha dos fatos.

A.N. – Isso é uma metáfora, mas no meu caso, não. O Pompeu, deliberadamente, me lançou na condição de testemunha. No inquérito que corria no 2º Distrito Policial, me incluíram como peça do processo. Com isso, passei a ter acesso aos personagens principais do episódio, como o Climério (investigador Climério Eurides de Almeida, apontado como integrante da guarda pessoal de Getúlio Vargas) e o Alcino (João Alcino do Nascimento, que confessou ter matado o Major Rubens Vaz), que eu entrevistei tirando partido da minha condição de testemunha processual.

Então o repórter esportivo acabou se transformando num privilegiado repórter policial?

A.N. – Na verdade, um repórter político-policial.

Em algum momento pensou em trocar de editoria?

A.N. – Fiquei tentado. No Diário Carioca, segui uma carreira que passava, paralelamente, pela Política e os Esportes. Só que fazer matérias em duas frentes era quase impossível. Então eu me mantive como repórter político e o jornal criou para mim uma coluna chamada ‘Bola pra frente’, que eu assinava com o pseudônimo de Arno. 

Quanto tempo durou essa coluna?

A.N. – Três anos. Depois apareceu um liquidificador da marca Arno, que inviabilizou o meu pseudônimo, e eu passei a assinar a coluna com o meu verdadeiro nome, Armando Nogueira. 

Quando o esporte dominou de vez sua trajetória no jornalismo? 

A.N. – Nunca deixei a editoria. Continuei sendo cronista esportivo do Diário Carioca, ao mesmo tempo em que era redator-copidesque do jornal e redator principal da revista Manchete, de 1954 a 55, sob a direção de Otto Lara Resende. Fiz o mesmo quando virei repórter de Geral em O Cruzeiro e quando fui trabalhar no Jornal do Brasil em 59, logo após a reforma.

Fale de sua passagem pelo JB.

A.N. – Eu me transferi para lá a convite do Carlos Lemos, que estava criando uma nova figura na redação, que tive o privilégio de estrear na imprensa carioca: a de pauteiro. Eu chegava às 4h, lia todos os jornais, fazia um pré-roteiro de matérias, e ia embora às 7h. Como meus companheiros me viam apenas no dia do pagamento, surgiu um movimento dizendo que eu era protegido da direção e só aparecia para pegar o dinheiro.

Como você reagiu?

A.N. – Para neutralizar essa maledicência e mostrar às pessoas que eu começava no batente de madrugada, morto de sono, num horário que nem contínuo pegava, criei uma marca para o meu trabalho. Na primeira lauda, punha o título: ‘Balanço do dia’. Embaixo, escrevia: ‘Não leva a vida na flauta quem vive de fazer pauta.’ E assinava: ‘Armando Nogueira, o filho da pauta’.

Qual foi sua função seguinte no jornal?

A.N. – Copidesque da editoria de Esportes, por sugestão também do Carlos Lemos. Na época, o Nascimento Brito, então dono do JB, havia comprado a Tribuna da Imprensa do Carlos Lacerda. O Alberto Dines, que era editor-chefe do JB, me convidou para escrever na Tribuna uma coluna que batizou de ‘Na grande área’. A estréia foi logo após o Mundial de 62, no Chile, mas, três meses depois, houve um desentendimento entre o Nascimento Brito e o Hélio Fernandes, que retomou o jornal. Então a coluna ‘Na grande área’ passou a ser publicada no Jornal do Brasil, juntamente com a ‘Coluna do Castello’, do Carlos Castello Branco, também criada pelo Dines.

Por quanto tempo a coluna ficou no JB?

A.N. – Até 1973, quando me desliguei do jornal e fui ser exclusivo da recém-inaugurada TV Globo, como Diretor de Jornalismo.

Antes de falarmos da Globo, poderia comentar o furo que você deu na Copa de 1954, na Suíça, e que o projetou definitivamente como repórter esportivo?

A.N. – Fotografei uma briga entre brasileiros e húngaros, cena que entraria para a história dos sururus dos Mundiais de futebol. Enfiei uma câmera pelo basculante do vestiário e fotografei, sem querer, o Zezé Moreira, que era técnico da nossa seleção, arremessando uma chuteira no rosto do então Ministro de Esportes da Hungria. O flagrante me deu grande popularidade no meio profissional e ainda ganhei uns trocadinhos, porque alguns veículos – como a revista El Gráfico, de Buenos Aires – compraram a foto. 

Você se considera um jornalista de sorte?

A.N. – Na verdade, eu estava onde tinha que estar para ser beneficiado com a sorte. Picasso dizia: ‘Eu tenho sorte porque, toda vez que ela me procura, me encontra no meu ateliê, trabalhando.’ Quando a sorte me procurou, no dia do atentado contra o Carlos Lacerda, eu estava no exercício profissional; assim como na Copa, em que fiz uma foto que não esperava.

Você foi apurador, repórter, redator e comentarista de Esportes. O quanto essa experiência significou para o exercício da crônica?

A.N. – Foi fundamental. O melhor caminho para a formação de um profissional de jornalismo, de qualquer editoria, vai do estágio na Reportagem até o ponto de passar a assinar matérias, especialmente para quem deseja ser comentarista ou cronista.

Quem é o melhor cronista esportivo brasileiro?

A.N. – Para mim, Nelson Rodrigues era o maior do mundo. Ele não tinha olhos para ver as partidas, porque enxergava pouco. No entanto, ninguém jamais escreveu crônicas como ele sobre a seleção, os ídolos da bola e o Fluminense do seu coração. O Nelson via o futebol por meio da alma. Era um extraordinário dramaturgo que se transformou em cronista, função que nos permite viajar e recriar, com direito a devaneios.

Suas crônicas ficaram famosas devido ao estilo poético. O futebol lhe inspira poesia?

A.N. – Se fosse escrever sobre aviação, outra das minhas paixões, o faria com o mesmo enfoque. Para mim, a poesia é uma janela que me permite debruçar sobre a vida. Haja o que houver na minha paisagem, eu descreverei sempre com um toque de poesia. Se eu sou poeta, não sei; mas poético, tenho certeza.

A crônica valoriza o jornalismo esportivo ou o contrário?

A.N. – A crônica veio dar um toque literário ao jornalismo esportivo, que é seguramente a vertente mais fecunda para alimentar os ideais de um poeta ou grande trovador.

Por quê?

A.N. – Porque, numa partida de futebol ou vôlei ou numa corrida de 100m, você vê concentrados todos os sentimentos que regem a existência humana, dos mais subalternos aos mais sublimes. No esporte, convivemos com ódio, paixão, soberba, frustração, lágrima, sorriso, ironia… Todas as emoções e qualidades que enaltecem ou aviltam o ser humano se encontram na grande alegoria do esporte. Então, é um prato cheio para um poeta.

Nos anos 60, você foi um dos coringas do programa ‘Mesa-redonda Facit’, da TV Rio, hoje extinta. Ele foi realmente um dos melhores debates esportivos da televisão brasileira?

A.N. – O programa contava com grandes personalidades, como o Nelson Rodrigues, o João Saldanha, que era uma figura sedutora, e o Luiz Mendes, grande narrador. Foi a melhor porta de entrada para o debate esportivo na TV, revestido, ao mesmo tempo, de inteligência e de paixão. Esse binômio foi irresistível para perenizar a atração, dirigida pelo saudoso companheiro Augusto Melo Pinto, que deu forma a uma idéia de Walter Clark.

O que mais o atrai na televisão? 

A.N. – Gosto muito de fazer TV. Outro dia o Otávio Florisbal, diretor-geral da Globo, me perguntou: ‘Armando, onde é que você se sente melhor, por trás das câmeras ou diante delas?’ Respondi que me sinto muito mais motivado atrás das câmeras. Devo reconhecer que tenho que ir pra frente delas para me valorizar no mercado, mas o meu ideal é atuar nos bastidores. É um desafio quase neurótico comandar uma cobertura, seja de uma partida de futebol ou de um buraco na rua.

Seus colegas e o público dizem que você é um craque do jornalismo esportivo. Por que você mesmo acha que ainda não atingiu a valorização profissional desejada?

A.N. – Se eu sentisse que não precisava dessa valorização, estaria correndo um risco muito grande de morrer antes do tempo, porque perderia essa coisa fundamental na existência humana que é se sentir desafiado pela própria vida. 

Você foi um dos responsáveis pela implementação do Departamento de Jornalismo da Globo. O que foi mais significativo em sua passagem pela emissora?

A.N. – Essa implantação foi, antes de tudo, uma obra coletiva. Agora, se eu pudesse destacar o ponto mais louvável desse trabalho, eu diria que foi a criação de um padrão ético no tratamento da notícia, no respeito à responsabilidade social do veículo e na configuração de todos os elementos do telejornalismo, do produtor ao locutor, criados sob o rótulo de operários e não de artistas. Se eu dei uma contribuição relevante, foi essa. Porque notícia se apura por fontes, que podem ser qualificadas ou não, mas o revestimento moral da informação só é preservado se existir um modelo ético inflexível. De tal maneira que, mesmo quando atravessamos todo o período da ditadura militar, fazendo um noticioso como o Jornal Nacional, ainda assim conseguimos implantar um padrão de credibilidade, porque tínhamos o apoio da direção da Rede Globo de então, da qual faço questão de citar o Walter Clark e o Boni. 

Você chegou a ter alguma dificuldade na direção do Jornalismo da emissora?

A.N. – Naquela época, vivia-se uma briga de cão e gato entre a área comercial e a editorial, com pessoas ligadas às agências de publicidade querendo interferir de maneira tendenciosa para distorcer a verdade dos fatos.

E qual era a posição do Roberto Marinho?

A.N. – Com ele tive menos dificuldade, porque encontrei apoio total. Toda a direção da emissora costumava me dizer que eu estava no caminho certo. ‘Deve ser assim mesmo, tem que ser ético’, incentivavam eles. 

Alguém tentou contrariar esse processo?

A.N. – Havia um sujeito de uma agência de propaganda, ligada ao patrocinador do primeiro telejornal que fizemos, o Ultranotícias. Quando assumi o Jornalismo, ele passou a ser o primeiro a receber o script do jornal e o censurava seguindo instruções da sua empresa. Até que eu lhe disse: ‘Você vai continuar sendo o primeiro a receber o espelho do jornal, mas o último a opinar sobre ele.’ A partir daí, estabeleceu-se uma guerra com a agência e o anunciante. Mas eu banquei, a direção da Globo ficou do meu lado e nós acabamos com a interferência da publicidade na confecção dos jornais da emissora. 

Na campanha presidencial de 1989, como você reagiu ao episódio da edição do debate entre Lula e Collor, favorecendo este último no Jornal Nacional?

A.N. – Fiquei muito decepcionado, mas não com meus superiores e sim com os meus subordinados, que se portaram de maneira muito equivocada na adulteração do debate. Isso contribuiu, definitivamente, para eu sair da emissora.

Gostaria que você falasse sobre Copa do Mundo, evento esportivo que acompanha desde 1950.

A.N. – É uma mera circunstância – pelas oportunidades profissionais que os veículos me deram de acompanhar os Mundiais – e um pouco de obstinação – por eu gostar muito de futebol e de viver a adrenalina do esporte. Acabei transformando isso num patrimônio que, além de profissional, é sentimental. 

Na Copa de 1954, Nelson Rodrigues implicou com suas reportagens sobre a seleção húngara, dizendo que os textos eram pura ficção. Você chegou a questioná-lo sobre isso?

A.N. – Cheguei a romper relações com o Nelson, preocupado com a minha reputação profissional. Com a autoridade ele que tinha, ao criar uma ficção para questionar o talento da seleção húngara, de certa forma desvalorizava o meu trabalho, numa fase da minha carreira em que eu precisava me afirmar perante o público. Depois percebi que ele não me havia feito mal algum; tinha até me promovido. Ainda contribuiu para dar respeitabilidade a tudo que eu fazia e, sobretudo, ao jornalismo esportivo brasileiro. Hoje, sou muito grato ao Nelson.

Quais foram as melhores Copas a que você assistiu?

A.N. – Esquecendo as derrotas e pensando nas equipes, elejo a de 1950 – pelo futebol do mais alto nível jogado pelo Brasil, principalmente nas partidas memoráveis contra Espanha, Suécia e Iugoslávia – e a de 1958 – quando as seleções do Brasil e da França me impressionaram muito, sendo que a nossa foi o extremo da excelência em matéria de futebol-arte. 

O que o fez chegar a essa conclusão?

A.N. – Em 58 aconteceu a libertação do futebol brasileiro, que passou uma década inteira atrelado a esquemas europeus de jogar, até aparecerem Garrincha e Pelé, fazendo uma revolução para impor a vitória do drible.

Outras Copas lhe agradaram?

A.N. – A de 1974, na Alemanha, foi admirável, pelo fenômeno do ‘carrossel holandês’. Gostei da de 82, na qual o Brasil foi desclassificado talvez num exemplo de injustiça maior do que em 1950, porque fomos desbancados pela Itália, que não jogava o futebol que o Uruguai jogou aqui, e porque a seleção montada pelo Telê era mais brilhante que a outra.

E os melhores jogadores que você viu jogar em Mundiais?

A.N. – Eu poderia citar uma dinastia, pois vi Puskas, Di Stéfano, Masopust, Nilton Santos, Djalma Santos, Nestor Rossi, Maradona, Didi, Zizinho, Danilo, Rui, Zito, Pelé, Garrincha, uma galeria em que, se estiver faltando algum nome, autorizo qualquer pessoa de bom gosto a acrescentar o jogador ausente.

Hoje o futebol explora mais o conjunto. Neste contexto, Garrincha ainda seria considerado um gênio?

A.N. – Com o poder de drible que tinha, acho que sim, mas ele precisaria de muito mais condições físicas para defender o seu repertório.

Como você virou torcedor do Botafogo?

A.N. – Descobri o time pela estrela solitária que brilhava no peito de Heleno de Freitas, o primeiro jogador que mexeu comigo. Assistindo a uma partida entre o Botafogo e o Flamengo, em General Severiano, vi o Heleno fazer uma exibição épica, me apaixonei por seu futebol e, conseqüentemente, pelo clube.

Você é autor de dez livros sobre futebol. Pretende escrever outros?

A.N. – É minha sina e minha sobrevivência. Preciso escrever por necessidade profissional e existencial, embora eu sofra muito no processo, a ponto de dizer que melhor que escrever é ter escrito. Vou continuar a escrever, para ter a alegria de depois poder dizer: ‘Escrevi, confesso que escrevi!’

Como é chegar aos 80 com qualidade de vida, fazendo o que aprecia e sendo reverenciado como um ícone do jornalismo brasileiro?

A.N. – Basta ser otimista e continuar tendo projetos de vida, que é o que eu faço. Quero aprender a tocar gaita, a pilotar melhor os meus aviõezinhos e aumentar meu círculo de amigos, porque, quanto mais eu os tiver, mais testemunhas terei da minha vida.

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Repórter do ABI Online

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  1. Comentou em 22/02/2007 Marcelo Candido

    Vida longa ao mestre Armando Nogueira. Além de ser uma figura simpática, tece excelentes comentários. Toda quarta-feira de manhã, para quem quiser ter uma aula sobre jornalismo esportivo, sintonize o Redação Sportv.

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