Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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FEITOS & DESFEITAS > Tom condescendente

Idealização de Boechat precisa ser questionada

Por Guilherme Scalzilli em 19/03/2019 na edição 1029

Ricardo Boechat. (Foto: Divulgação/Band)

O volumoso necrológio do jornalista Ricardo Boechat foi digno de sua importância para a história da profissão no país. A trajetória pelos maiores veículos noticiosos e o vasto rol de premiações explicam as homenagens unânimes dos colegas. Verdadeira celebridade, recebeu merecida comoção popular diante da tragédia estúpida que o atingiu.

Mas seria indigno da memória do grande jornalista dedicar-lhe uma condescendência que ele próprio evitava na labuta cotidiana. Boechat decerto adivinhava os efeitos colaterais da postura independente e personalíssima que o definia, e esses desdobramentos fazem parte da complexidade e da riqueza do trabalho que o consagrou. Podemos respeitar o falecido sem transformá-lo num objeto de hagiografia populista.

Não me refiro ao indivíduo, ao pai de família, ao companheiro de tantas pessoas cujo luto exige a mais solene consideração. Trata-se aqui de uma reflexão exclusivamente ética, no sentido clássico da palavra, restrito à figura pública de Boechat e a seu papel nos debates sobre a prática jornalística. Aproveitando o esforço para torná-lo um modelo, uso-o como exemplo da necessária cautela ao abordar personagens de sua envergadura.

Meu primeiro questionamento envolve a tendência de minimizar certas colocações infelizes do jornalista sob as desculpas do humor, do improviso e das (baixas) expectativas do público. Basta lembrar um caso emblemático: a sugestão de que Dilma Rousseff quis visitar Lula na cadeia para um “encontro íntimo”, como se não houvesse outra razão possível, ou, pior, como se a ironia sexista fizesse contraponto razoável ao suposto cinismo do pedido.

O segundo problema, de natureza parecida, é a transformação de comportamentos profissionais reprováveis em deslizes menores de personalidade. Não podemos simplesmente ignorar os indícios de assédio moral no ataque virulento e insultuoso de Boechat a uma colega de trabalho, flagrado pela câmera do estúdio. Ou esse nível de agressão faz parte das normas de conduta da categoria? Seria apenas uma “bronca” na rotina das redações?

A terceira ressalva, de mais amplo escopo, se refere à natureza do jornalismo praticado por Boechat na sua militância apaixonada a favor da operação Lava Jato. Considerá-la um marco revolucionário da história brasileira constitui, evidentemente, prerrogativa básica do opinionismo. Algo bem diverso é privar a audiência de informações cruciais para o entendimento do que estava em jogo no último processo eleitoral.

Boechat participou ativamente na vilanização da classe política e na glamorização do campo judicial que culminaram no avanço reacionário. Contribuiu para a falaciosa assepsia ideológica da agenda punitivista e dos cruzados que a usaram para práticas ilegais. Omitiu ou suavizou as arbitrariedades cometidas contra Lula, ridicularizando seus defensores. Em suma, ajudou a naturalizar o Regime de Exceção que patrocinou a vitória de Jair Bolsonaro.

Sempre houve diversos caminhos possíveis, que não se desviariam necessariamente pelo proselitismo partidário. Enquanto Boechat reivindicava isenção jornalística nos aplausos a meganhas e magistrados nebulosos, eram jornalistas como ele que denunciavam as manobras da Polícia Federal em Curitiba, o papel do Judiciário no golpe, as injustiças contra Lula, os desvios de Sérgio Moro e a atuação política do Ministério Público.

Tudo isso agregando fatos documentados, testemunhos, depoimentos de especialistas, citações jurídicas. Material noticioso, portanto, de relevância inquestionável, que Boechat conhecia e não julgou oportuno explorar. O menosprezo por essas evidências e a adesão à narrativa legalista da excepcionalidade constituem atitudes legítimas, sinceras e coerentes, mas também tecnicamente reprováveis e marcadas por leituras equivocadas de conjuntura.

Esse posicionamento desinformou a audiência porque a induziu a acreditar que os métodos corruptos não desqualificavam os resultados da Lava Jato, que a destruição da candidatura Lula independia do escancarado partidarismo dos condenadores e que a pauta repressiva era preferível à defesa de direitos individuais. Embora repudiasse o fascismo, Boechat reverberou seus discursos e endossou a principal estratégia que levaria à sua vitória.

Apesar da gravidade dos erros, porém, não seria justo ou produtivo fazer do jornalista um bode expiatório do complexo fenômeno eleitoral. Questiono sua idealização póstuma pois a considero parte de esforços para limpar a imagem dos veículos informativos que toleraram ou favoreceram a ascensão fascista. Noutras palavras, um instrumento cínico e oportunista de autoelogio corporativo, tentando edulcorar a vergonha histórica da grande imprensa pela postura irresponsável diante dos escândalos que anunciavam o triunfo do obscurantismo.

Seria interessante usar um pouco do senso crítico e do ceticismo de Boechat contra seus próprios aduladores. Pela proximidade biográfica, iniciaríamos com um balanço do viés tendencioso do grupo Bandeirantes, outrora engajado na propaganda do golpe parlamentar e depois na promoção da candidatura Bolsonaro. Em seguida analisaríamos o padrão ideológico do grotesco noticiário policial, dos rudimentares programas locais de rádio e das demagogias moralistas do comentarismo esportivo.

Mas sabemos que esse debate não prospera: o imaginário messiânico sustenta o espírito cruzado e impede que a aventura punitivista se revele uma simples estratégia de poder. Boechat, que acreditou na fantasia, recebe o prêmio de ser incorporado a ela. E não surpreende que os campos jornalístico e judicial compartilhem agendas e referências éticas, tendo em vista o valor que ambos conferem aos respectivos mitos.

***

Guilherme Scalzilli é historiador, professor e escritor, mestre em Divulgação Científica e Cultural pela Unicamp.

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