Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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FEITOS & DESFEITAS > HUMOR IMPRESSO

Ideologia e dominação nas tirinhas

Por Wemerson Augusto em 04/03/2008 na edição 475

As famosas tirinhas de quadrinhos nas paginas de jornais e revistas impressas podem ser consideradas pelo grande público como algo cômico, despreocupado ou simplesmente direcionadas a diversão do público jovem.

Ao contrário deste pensamento foram as respostas de quase 50 profissionais da área de comunicação submetidos a um questionário de pesquisa que tinha a preocupação de questionar os valores prescritos nas tiras de quadrinhos dos meios de comunicação impressos.

A pesquisa foi realizada no município de Foz do Iguaçu (PR) durante o período de agosto de 2006 a fevereiro de 2008. O estudo, intitulado ‘Quadrinhos e sociedade: uma leitura crítica e reflexiva do contexto sociocultural no ambiente escolar’, foi divido em três braços.

Num primeiro momento buscou-se apresentar duas significativas produções ideológicas da linguagem – Walt Disney e Mafalda. A análise das duas publicações revelou a variedade ideológica prescrita na linguagem aparentemente descuidada. O segundo e terceiro capítulo foram centralizados na questão sociocultural no ambiente escolar.

Manutenção do status quo

As constatações do estudo deram conta de que a linguagem das tiras, charges e quadrinhos podem transmitir um leque variado de discursos aos leitores. Mensagens estas que são disponibilizadas com facilidade e em grande quantidade nos meios impressos – e cada dia é mais comum a presença deste tipo de comunicação nos meios eletrônicos.

Entre as tirinhas mais mencionadas pelos entrevistados estão as dos jornais Folha de S.Paulo e Zero Hora. As respostas em sua maioria chamaram atenção para a visão ideológica das tiras, que geralmente estão afinadas com o discurso do meio de comunicação.

Nesta linguagem, similar a expressão nos meios audiovisuais, três aspectos estão enraizados como forma de manter o status quo da ideologia burguesa, conforme um número significativo de entrevistados. São eles a ‘liberdade, a igualdade e a naturalidade das relações sociais’. (Fiorin, 2003, p. 59).

Para o autor, sem pretender que o discurso possa transformar o mundo, pode-se dizer a linguagem é instrumento de libertação ou opressão, de mudanças ou de conservação. Por isso, vale a pena pensar e refletir antes de julgar algo descompromissado ou banal. Talvez os mecanismos de entretenimento sejam as principais escoras de manutenção e sustentação do capitalismo.

Esta estrutura simbólica prescrita na linguagem possibilita a cristalização de alguns valores ideológicos. ‘A consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais’ (Bakhtin, 2002, p. 35).

Entre os exemplos de formação de consciência tem-se a fala de um dos entrevistado na pesquisa, que apontou para o conservadorismo do jornal Zero Hora. Segundo ele, o jornal nunca publicaria as tiras que a Folha de S.Paulo publica. O desenhista acredita que o jornal Zero Hora tem o cuidado com a formalidade e com a moral social. Já o jornal paulista ‘provoca e deixa a coisa degringolar no que diz respeito à sexualidade’.

A naturalidade desses temas, entre outros discursos voltados à ‘liberdade, a igualdade e a naturalidade das relações sociais’ (Fiorin) são os principais mecanismos de sustentação e dominação dos indivíduos na sociedade capitalista.

Referências

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 9º Ed. São Paulo: Hucitec-Annablume, 2002

FIORIN, José Luiz. Linguagem e ideologia. São Paulo: Ática, 2003

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Jornalista especialista em linguagem, cultura e ensino; Foz do Iguaçu, PR

Todos os comentários

  1. Comentou em 07/03/2008 Filipe Fonseca

    Nada mais natural que um jornal não publique tiras que não condizem com sua visão de mundo. O autor escorrega no marxismo raso, faz par com a revista Veja, com sinal trocado. A idéia de que as tiras, e quaisquer outros produtos culturais, tenham por objetivo ‘manter o status quo da ideologia burguesa’ subestima tanto autores quanto leitores. A ‘ideologia burguesa’, evidentemente não conceituada pelo autor, nada mais é do que o conjunto de idéias e visões de mundo mais amplamente disseminados em nossa sociedade. As tiras são muito mais um reflexo do que pensam um jornal e seus leitores do que um ‘instrumento de dominação’. O marxismo raso dos manuais fracassou e fracassa de forma retumbante quando utilizado para se observar o mundo. Chega a ser irônico que se tenham construído, justamente sobre o genial pensamento de Marx, dogmas e palavras-de-ordem simplistas e reducionistas. Marx buscava justamente o contrário: o entendimento da realidade a partir das relações materiais de que ela se constitui. O marxismo raso faz troça do materialismo histórico, e gera interpretações lamentáveis, como a do autor acerca da citação de Bakhtin. Por fim, acho bastante improvável que ‘um número significativo de entrevistados’ tenha citado o tal José Luiz Fiorin. Faria (muito) melhor o autor se procurasse definir e discutir aquilo a que chama ‘dominação’.

  2. Comentou em 29/10/2007 ALMIR PAULO LIMA

    Sou coordenador editorial do Jornal Abaixo-Assinado de Jacarepaguá, e estamos organizando um seminário para o dia 1º de Dezembro deste ano com o objetivo de debater a democratização dos meios de comunicação. Gostariamos de ter um representante do Observatório da Imprensa como expositor/debater no nosso seminário.
    Nosso jornal é feito por militantes dos movimentos sociais da Baixada de Jacarepaguá. Tem tiragem de 10.000 exemplares ao mês.
    Contato: (21) 9285-3390 ou 2435-2539.
    saudação comunitária, Almir Paulo.

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